As coisas andavam muito difíceis - mais que de costume. Eu estava entrando na primeira adolescência. Um menino me falou da "Horta dos japoneses", era só ir lá e dizer que queria trabalhar.
Não era o que imediatamente imaginamos ser uma horta. Era uma área aberta, bem grande, com plantações de diversos tipos de hortaliças. Eles também plantavam morango, que exigia muito veneno.
Era bonito ver a tobata puxando a carretinha com o mecanismo de espirrar o veneno. Aliás, um veneno diferente, parecia caldo de cana. Felizmente não experimentei para ver se o gosto também era.
O japonês me mandou carpir entre os pés de alface com uma enxadinha miúda. "Não vai me machucar as alfaces" - alertou.
Fui carpindo pelas fileiras de alface. Alfaçonas gordas, apetitosas. Quando deu meio dia, os outros trabalhadores- meninos de várias idades, alguns bem grandes, quase homens- sumiram pela beirada do campo. De longe vi alguns encostados no tronco de uma árvore, abrindo sacolas, marmitas, sacando sanduíches. Mas eu não tinha comida. Uma japonesa passou e perguntou se eu não ia almoçar. "Já estou indo, não tenho fome". Mas meu estômago roncava. Ela riu aquele riso deles e também sumiu.
Sozinho no campo me pus a arrancar as folhas de baixo das alfaces. Tinham um gosto estranho, talvez amargo, não sei, talvez fosse só o gosto da alface in natura. Que homem foi que primeiro comeu aquilo e depois, metendo algum tempero, convenceu os outros que era bom?
Acho que um faminto, como eu.
Naquele tempo eu era muito ignorante, até mais do que sou hoje. Quando você é assim, as pessoas acham que você é burro, um retardado. Eu não sabia nada, eu não conhecia as palavras, especialmente aquele vocabulário especializado dos japoneses. Eles tinham que falar três vezes para eu entender o que queriam que eu fizesse. "Você é muito burro"- diziam os outros garotos, mas não os japoneses, eles eram educados.
Entre os empregados, havia um outro Isaías, mas esse era grande, forte, quase um homem. E não era burro.
Um dia a patroa me mandou pegar algo. Eu não entendi o que ela queria, mas como os outros empregados estavam perto, corri para o objeto mais próximo, uma enxada.
Ela gritou "isso não" e disse o nome do objeto. Corri então para outro objeto, um tipo de garfo forcado e de novo ela me alertou. Os meninos riam. Por fim ela, já rindo também, me disse novamente o nome do tal objeto. Olhei ao redor, devia ser algo bem óbvio. Então vi uma peça grande da tobata, acho que era uma espécie de ferramenta para arar o solo.
Me abaixei para pegar aquilo. Todos gargalhavam agora, menos o Deutero-Isaías, que pela lógica era o Proto-Isaías, mas que aqui nessa história (que é verdadeira) era o segundo. Mas eu nem movi a peça. A patroa, então, veio calmamente na minha direção, abaixou-se e pegou um esguicho que estava bem do meu lado. Ela ainda olhou para mim com aqueles olhinhos fechados e sorriu.
Eu a segui, envergonhado. Todos riam, mas o Deutero-Isaías me olhava com ódio. Então ela acoplou aquilo numa mangueira e mandou um menino jogar água em alguma planta. Em seguida, ela virou para mim, ainda sorria, então virou para o Deutero-Isaías e disse "Olha aí, Isaías". Era o jeito dela caçoar dele por causa do nome.
Foi a dica. Ele voou na minha direção e eu corri, só que ele era mais rápido e pregou a bota com toda a força no meu traseiro, me fazendo voar um meio metro. Eu caí num canteiro e pensei que ia apanhar até morrer, que iam deixar meu corpo ali como adubo para pagar as alfaces que eu tinha comido.
Mas não veio mais nada, a patroa interviu e não deixou ele me bater mais.
Eu passei a tarde mancando um pouco, o chute pegou na parte de trás da minha coxa direita. Ficou um baita roxo no lugar, mas nada além do hematoma.
Isso me fez entender que eu era muito burro e isso podia me custar caro. Dali em diante passei a focar mais no trabalho e menos nos patrões. Na verdade, tentava trabalhar longe deles - e do Isaías, o Grande- para que não me pedissem nada. Isso me isolou bastante.
No fim do mês o patrão veio nos pagar. A camionete azul desceu a estrada e os empregados se agruparam na porta do carro. Ele perguntava o nome, se a pessoa trabalhou bem, e passava as notas e moedas. Todos eram os melhores trabalhadores, pelo menos no discurso.
Eu fui um dos últimos. Perguntou meu nome, eu disse. "Opa, tem dois". Se o senhor soubesse, patrão, pensei. Me perguntou se trabalhei bem e eu respondi que não sabia. "Como não sabe?" - olhei para o chão. Mesmo assim ele me pagou o valor normal, disse que o nome ajudou, porque o Deutero-Isaías trabalhava bem. Acho que pagaria de qualquer jeito. Era tão pouco. Dei o dinheiro em casa.
Eram férias escolares. Não voltei mais. Acho que ninguém notou. Bom, exceto o Isaías.