sábado, 29 de março de 2025

O outro Isaías

 As coisas andavam muito difíceis - mais que de costume. Eu estava entrando na primeira adolescência. Um menino me falou da "Horta dos japoneses", era só ir lá e dizer que queria trabalhar. 

Não era o que imediatamente imaginamos ser uma horta. Era uma área aberta, bem grande, com plantações de diversos tipos de hortaliças. Eles também plantavam morango, que exigia muito veneno. 

Era bonito ver a tobata puxando a carretinha com o mecanismo de espirrar o veneno. Aliás, um veneno diferente, parecia caldo de cana. Felizmente não experimentei para ver se o gosto também era. 

O japonês me mandou carpir entre os pés de alface com uma enxadinha miúda. "Não vai me machucar as alfaces" - alertou. 

Fui carpindo pelas fileiras de alface. Alfaçonas gordas, apetitosas. Quando deu meio dia, os outros trabalhadores- meninos de várias idades, alguns bem grandes, quase homens- sumiram pela beirada do campo. De longe vi alguns encostados no tronco de uma árvore, abrindo sacolas, marmitas, sacando sanduíches. Mas eu não tinha comida. Uma japonesa passou e perguntou se eu não ia almoçar. "Já estou indo, não tenho fome". Mas meu estômago roncava. Ela riu aquele riso deles e também sumiu.

Sozinho no campo me pus a arrancar as folhas de baixo das alfaces. Tinham um gosto estranho, talvez amargo, não sei, talvez fosse só o gosto da alface in natura. Que homem foi que primeiro comeu aquilo e depois, metendo algum tempero, convenceu os outros que era bom? 

Acho que um faminto, como eu. 

Naquele tempo eu era muito ignorante, até mais do que sou hoje. Quando você é assim, as pessoas acham que você é burro, um retardado. Eu não sabia nada, eu não conhecia as palavras, especialmente aquele vocabulário especializado dos japoneses. Eles tinham que falar três vezes para eu entender o que queriam que eu fizesse. "Você é muito burro"- diziam os outros garotos, mas não os japoneses, eles eram educados. 

Entre os empregados, havia um outro Isaías, mas esse era grande, forte, quase um homem. E não era burro. 

Um dia a patroa me mandou pegar algo. Eu não entendi o que ela queria, mas como os outros empregados estavam perto, corri para o objeto mais próximo, uma enxada. 

Ela gritou "isso não" e disse o nome do objeto. Corri então para outro objeto, um tipo de garfo forcado e de novo ela me alertou. Os meninos riam. Por fim ela, já rindo também, me disse novamente o nome do tal objeto. Olhei ao redor, devia ser algo bem óbvio. Então vi uma peça grande da tobata, acho que era uma espécie de ferramenta para arar o solo. 

Me abaixei para pegar aquilo. Todos gargalhavam agora, menos o Deutero-Isaías, que pela lógica era o Proto-Isaías, mas que aqui nessa história (que é verdadeira) era o segundo. Mas eu nem movi a peça. A patroa, então, veio calmamente na minha direção, abaixou-se e pegou um esguicho que estava bem do meu lado. Ela ainda olhou para mim com aqueles olhinhos fechados e sorriu. 

Eu a segui, envergonhado. Todos riam, mas o Deutero-Isaías me olhava com ódio. Então ela acoplou aquilo numa mangueira e mandou um menino jogar água em alguma planta. Em seguida, ela virou para mim, ainda sorria, então virou para o Deutero-Isaías e disse "Olha aí, Isaías". Era o jeito dela caçoar dele por causa do nome. 

Foi a dica. Ele voou na minha direção e eu corri, só que ele era mais rápido e pregou a bota com toda a força no meu traseiro, me fazendo voar um meio metro. Eu caí num canteiro e pensei que ia apanhar até morrer, que iam deixar meu corpo ali como adubo para pagar as alfaces que eu tinha comido. 

Mas não veio mais nada, a patroa interviu e não deixou ele me bater mais. 

Eu passei a tarde mancando um pouco, o chute pegou na parte de trás da minha coxa direita. Ficou um baita roxo no lugar, mas nada além do hematoma. 

Isso me fez entender que eu era muito burro e isso podia me custar caro. Dali em diante passei a focar mais no trabalho e menos nos patrões. Na verdade, tentava trabalhar longe deles - e do Isaías, o Grande- para que não me pedissem nada. Isso me isolou bastante.  

No fim do mês o patrão veio nos pagar. A camionete azul desceu a estrada e os empregados se agruparam na porta do carro. Ele perguntava o nome, se a pessoa trabalhou bem, e passava as notas e moedas. Todos eram os melhores trabalhadores, pelo menos no discurso. 

Eu fui um dos últimos. Perguntou meu nome, eu disse. "Opa, tem dois". Se o senhor soubesse, patrão, pensei. Me perguntou se trabalhei bem e eu respondi que não sabia. "Como não sabe?" - olhei para o chão. Mesmo assim ele me pagou o valor normal, disse que o nome ajudou, porque o Deutero-Isaías trabalhava bem. Acho que pagaria de qualquer jeito. Era tão pouco. Dei o dinheiro em casa. 

Eram férias escolares. Não voltei mais. Acho que ninguém notou. Bom, exceto o Isaías.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Por que choras, Raquel?

 Por que choras, Raquel?
-Choro pelos meus filhos.
Mas, Raquel, por que choras por teus filhos se eles mesmos não lamentam?
- O Alto, o Exaltado, troveja desde Raamah com promessas e meus filhos
Jazem na vida em morte todos os dias
Viu-se um sinal no Ocidente, eis seus filhos amontoados em carrinhos sendo levados
À pira ariana, e ao céu elevados em grossas nuvens de cinzas.
Raquel toma seus filhos entre os dedos, o pó que cobre as ruas
Desde Raamah, elevados – um anjo cantou.
Uma daquelas mãos escreveu com a cinza, antes de à cinza tornar:
Se Deus existe, ele terá que implorar pelo meu perdão!
Agora são gado, que faremos do gado? Encheremos vagões, gado não é gente, mas gado queima, gado queimado é bom adubo.
Os filhos de Raquel não choram, não há lágrimas que chorar
Mas sua mãe lamenta, Raquel ouve o barulho do atrito das rodas nos trilhos
E sente o calor dos corpos dos seus filhos, o suor que flui dos espaços nos campos cobertos de neve.
Raquel morreu e foi queimada milhões de vezes, Raquel corre com as gazelas nas montanhas de Israel, Raquel ajoelha-se diante da beleza de Sião
Raquel está feliz no deserto, música e alegria
Mas ao seu redor jazem seus filhos, abatidos como gado, pisados como poeira
Raquel, quem chorará pelos teus filhos, agora que o mundo todo colou neles a máscara dos seus opressores?
Raquel está dura, Raquel canta o canto de guerra, Ishah Milchamah! Allah Akbar!
Os filhos de Raquel estão destruídos nas casas queimadas, suas filhas violadas,
Raquel, seus filhos e suas filhas estão sendo esmagados, seus filhos e filhas morrem de fome,
Seus filhos, esquecidos, sob milhões de toneladas de concreto, seus filhos matam seus filhos
Nas torres de Gaza, e no kibutz Be'eri…
Do ocidente vem um canto de morte, do ocidente supostamente chocado, um canto pelas criancinhas mortas, um canto que pouco se importa pela morte das criancinhas, um canto que as usa como objeto, como os arianos, para fecundar seus campos.
Mas os filhos de Raquel morrem aos montes, e Raquel
Chora com o rosto no solo, pois não há quem possa consolar
Da dor de uma ferida que não pode ser curada
Raquel chora, e não quer ser consolada
Como a mãe que entrega seus filhos, como o pai
Que não os pode salvar, como a gazela triturada pelas mandíbulas de todos os lobos
Os maus e os que se fingem bons.
Raquel chora com a boca no pó
E não há quem a possa consolar.
Ouçam o choro que sobe desde Raamah!
Nossa mãe chora, como Eva pelos seus filhos, o que morre e o que mata e os que sobem com dedos inflamados e palavras de loucura
Aos montes da opinião pública.
Essa mãe tem muitos filhos, muitos filhos ela tem
Muitos morrem, muitos matam, uns vivem mal, outros bem.
Raquel é mãe dos seus filhos, Raquel é mãe de todos nós
E Raquel somos nós.
Chora, Raquel, talvez em algum lugar alguém ouça a tua voz.

No Natal, há muito tempo.

 

Todo ano eu fico deprimido na época do Natal
Por mais que eu busque a alegria e envolva meus amigos em conversas frívolas
Meu coração nega minhas palavras e minha face festiva
Os olhos de hoje veem as coisas que viram os olhos de ontem
Chove, eu corro com outras crianças na lama quente do verão
De mãos dadas com alguma menina de sete ou oito anos
Nossas mãos pequeninas unidas na infância das nossas feridas
Os militares vão sair do poder?
Dizem que sim, agora a democracia vai trazer prosperidade
Onde está a menina, a lama e o Natal?
Estou sentado na sala, um brinquedo quebrado nas mãos
Um boneco, falta a cabeça e um dos braços, não tem coração
O brilho azulado da televisão anuncia o novo tempo
“Éramos crianças, eu só gosto de você como amigo”
Disse, e agora penso, ainda éramos crianças no intervalo
Da aula daquele dia no Ginásio – Ninguém diz mais assim
A gente caminha pelas ruas, tudo enfeitado para o Natal
Um calor dos infernos em dezembro, a decoração do Polo Norte
Mas é que o Papai Noel mora lá
Pensei que era aniversário de Jesus, quantos anos ele faz?
Quase dois mil, que morreu
Na entrada do mercado nos encontramos, chovia sem lama, era frio
Ela sorriu para mim, eu sorri e meu sorriso morreu
De mãos dadas com um rapaz – Oi, se foi
Corri para pegar o ônibus, logo será Natal
Democracia que traz no vento tantas expectativas
Vou trabalhar, estudar, comprar uma moto e visitar o Atacama.
Ah, deserto, como está deserto meu coração!
Oi, sentou ao meu lado, não havia rapaz na ponta das mãos
Tudo mudou, crescemos, o tempo muda o tempo e as sombras do coração
Eu me perdi nos seus beijos, eu mergulhei nos seus olhos, eu adivinhei o seu corpo
Essa noite o Papai Noel não veio, mas teremos churrasco, não está frio
Houve um acidente, uma moça vinha de bicicleta quando um caminhão…
Uma bicicleta azul?
Foi numa tarde chuvosa de dezembro, Natal
Todos tinham fé na democracia, menos eu
É Natal, de outros tantos natais e funerais, os anos se acumulam.
Eu sempre fico triste no Natal, me dá um não sei o quê de melancolia
E deposito as flores vivas diante da lápide fria.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

O Palhaço e a Piada

 

Eu caminhava por uma rua movimentada no centro de uma grande cidade, quando notei um grupo de pessoas organizadas em círculo. A curiosidade venceu, e me aproximei para ver o que estava acontecendo. No centro daquele círculo estava um palhaço, com roupas coloridas e um olhar que oscilava entre o excêntrico e o insano. Como tinha alguns minutos livres, decidi ficar para ver que tipo de palhaçadas ele faria.

O palhaço começou com duas piruetas ágeis que arrancaram risadas da multidão. Depois, apertou a flor falsa presa ao peito e borrifou água no rosto de um velho, que riu tanto que parecia rejuvenescido. Logo em seguida, ele puxou uma caixa de madeira para o centro do círculo.

Uma criança perguntou à mãe:

— Ele vai fazer mágica?

— Acho que malabarismo — respondeu a mãe, enquanto o palhaço subia na caixa.

De pé ali, ele limpou a garganta e, com uma voz inesperadamente limpa e forte de  tenor, começou a contar a seguinte “piada”:

— Dizem que quando o budismo chegou à China, ele encontrou o taoísmo, uma filosofia que celebrava a simplicidade, a natureza e o fluxo da vida, o Tao. Essa interação moldou o budismo Zen, que se afastou da visão tradicional de que a realidade era uma ilusão pura. Sob a influência do taoísmo, o Zen passou a enfatizar que a realidade que percebemos não é exatamente "irreal", mas moldada por conceitos. Nossa mente não vê o mundo diretamente; ela o interpreta por meio de lentes conceituais, como um prisma que distorce e organiza o que percebemos.

Essa ideia encontra raízes em um marco decisivo da história humana: a revolução cognitiva na pré-história. Foi nesse período que os primeiros humanos desenvolveram a capacidade de contar histórias e acreditar nelas. Essa habilidade nos permitiu criar mitos, religiões e ficções compartilhadas que deram sentido à nossa existência e possibilitaram a cooperação em larga escala. Ao contrário de outros animais, que vivem no mundo físico imediato, nós começamos a habitar mundos paralelos, mundos de ideias.

Richard Dawkins descreveu essas ideias como memes, que se propagam de mente em mente, moldando culturas inteiras. E, curiosamente, isso ecoa a visão do "mundo das ideias" de Platão, reinterpretada pelos gnósticos: eles acreditavam que nossa percepção do mundo era uma sombra distorcida de uma realidade superior. 

Essa capacidade humana de construir mundos conceituais é sustentada por processos cerebrais fascinantes. Estudos de neurociência mostram que nossa mente consciente é apenas a "ponta do iceberg". Alguns experimentos revelaram que, quando fazemos uma escolha, nosso cérebro já tomou essa decisão milissegundos antes, de maneira inconsciente. Nossa consciência é como uma narradora que atribui lógica a decisões que já foram tomadas no plano neural.

Um mecanismo parecido também explica por que mágica funciona. Ilusionistas exploram o fato de que nosso cérebro completa a realidade, preenchendo lacunas e criando uma versão consistente do mundo. Livros como Truques da Mente detalham como o cérebro, ao buscar padrões e fazer inferências rápidas, pode ser facilmente enganado. Em um nível mais amplo, o que chamamos de "realidade" nada mais é do que uma projeção mental, ajustada para nos ajudar a sobreviver e interagir com o ambiente.

E isso não ocorre apenas em truques de mágica. Em uma conversa casual entre amigos, por exemplo, nossa mente projeta regras implícitas: como interpretar tons de voz, gestos ou a posição social. Esses elementos invisíveis constroem um "mundo" compartilhado que nos guia durante o diálogo. É como se vivêssemos em múltiplos palcos mentais, onde as normas estão embutidas em nossas mentes, criando realidades que acreditamos ser concretas.

O mesmo acontece em nossa vida social mais ampla. Dinheiro é um excelente exemplo. Ele começou como um simples símbolo de troca, mas, ao longo do tempo, transformou-se em algo com "valor próprio". Hoje, a riqueza pode existir sem qualquer conexão com bens tangíveis ou produtividade, como no caso das criptomoedas. Isso demonstra como nossas construções conceituais podem extrapolar suas funções originais e ganhar vida própria.

Essa capacidade de criar mundos é poderosa, mas também perigosa. Quando pessoas acreditam em ideologias, religiões ou sistemas econômicos, elas podem agir de forma extrema. Isso ilustra o que Marx chamou de "superestrutura", mas ele não foi longe o suficiente. A verdadeira revolução não é apenas política ou econômica, é cognitiva. Devemos reconhecer que a base de tudo o que chamamos de "realidade" são os conceitos que construímos e compartilhamos.

No fundo, já vivemos em uma espécie de "Matrix". Não aquela das máquinas e cabos, mas uma Matrix conceitual, composta por narrativas, ideias e crenças que projetamos no mundo. Schopenhauer, ao estudar o budismo, percebeu algo semelhante: "O mundo é minha vontade e representação." Mas o salto de consciência vem ao perceber que, embora estejamos presos nessa Matrix, somos também seus criadores.

Saber disso pode ser libertador. Se entendermos que somos prisioneiros de ideias, podemos começar a reorientar os mundos que construímos. 

O primeiro passo? Olhar para os "óculos cognitivos" que usamos para interpretar o mundo. Enxergar além deles. Afinal, somos criadores de mundos. Resta decidir que tipo de mundo queremos construir.

 

Nesse momento o palhaço parou de falar, mas as pessoas esperavam que houvesse algo mais.  Por um momento, ficaram em silêncio, atordoadas, tentando entender o que haviam acabado de ouvir. Um homem gritou do fundo:

— Isso é pura asneira!

A multidão, como que despertada de um transe, começou a pegar pedras e objetos para atirar no palhaço. Mas ele já tinha sumido.

Nunca mais foi visto. Uns dizem que foi dar aulas numa universidade. Outros juram que se candidatou a um cargo político. Há quem diga que ele se internou em um hospício, enquanto alguns acreditam que ele morreu. Mas, para a maioria, o palhaço nunca existiu.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Prisioneiros

Prisioneiros

Tens diante dos teus olhos
A enciclopédia dos olhares infinitos
São olhos cativantes, ansiosos, deprimidos
Que te chamam a mergulhar
No espaço profundo entre máscaras e aparências
Da verdadeira essência de gente que pulsa
A dissonante harmonia da vida
Pois já esqueceste o que são humanos
Cercado como estás da superficialidade
Pessoas são máquinas, personagens
Simulacros de tantas tendências, ideias, modas
Entoando sua humana ausência
Mas se atentares para além da forma
Verás que mundos se abrem, mesmo que
Seus moradores estejam presos do lado de fora
E verás, através da janela da alma
Que mesmo tu és prisioneiro
Vivendo dois seres em dois instantes
És o que observa sem mesmo entender
E és a imagem de ti mesmo, sem tuas amarras
Que observa ansioso dos olhos de toda essa gente.

Isaías, numa manhã  em que o sol luta para superar uma atmosfera densa de sujeira.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Pensar demais nos deixa tristes

Pensar demais nos deixa tristes
Não é como quando corríamos pela savana
Atrás de comida ou evitando sermos predados
No passado simples, cada segundo tinha valor
E viver era o prêmio do dia, sem excedentes
Sem a busca frenética por um prêmio
Que não vem, não enche, não vale o que se diz
E à noite, na brisa fresca, nos deitávamos no campo
A olhar a imensidão do céu cheio de estrelas
Achando que nelas havia seres como nós
Fazendo fogueiras para aquecer a noite fria
Com os corpos sobre a relva, entrelaçados
No doce fruto do outro, no corpo
Esvaindo por um momento qualquer medo
Ou fugaz pensamento sobre a vida
Quando viver não exigia ser estoico
E ninguém pensava em terminar
O que já era curto e incerto
Pensar demais nos deixa tristes
Andamos à cata do abstrato tornado substância
Na nossa mente, nos nossos sonhos
Somos muitos sobre pouco, e nada para o amanhã
Sem estrelas a nos entreter, ou o encontro
À luz da fogueira, como os irmãos das estrelas
Na busca de todo sentido, perdemos
O único sentido que reina.

domingo, 9 de junho de 2024

A Pedrinha Branca

Eu era um garoto tímido
Empilhando pedrinhas no pátio da escola
Durante os anos que separavam
Sua alvorada do meu ocaso 
Quando você sentou ao meu lado
E colocou uma pedrinha branca na minha pilha de pedrinhas escuras
Eu disse "vai cair" e você "não vai"
E não caiu, você segurou minha mão
E me disse seu nome, mas eu não lembro do nome, nem do seu rosto
Eu só "vejo" sua voz
Impressa naquela mesma pedrinha branca sobre a pilha das minhas pedrinhas escuras
No último dia, antes das férias, sua mão apertou a minha mais forte que de costume
Os dias foram de espera, de pedras negras
Que eu empilhava no pátio da escola durante o recreio
Eu olhei o pátio ansioso e coloquei outra pedrinha escura no topo
Mas não houve pedrinha branca, nunca mais
E eu tentei com outra pedra, mas a pilha tremeu e caiu
E as pedras escuras ficaram espalhadas aos meus pés...para sempre.

A Estrela

Uma noite, na minha adolescência, eu subi à lage da minha casa
E deitei buscando as estrelas 
Havia uma, mais forte, ou mais forte era meu olhar, meu desejo
De encontrar certa luz que iluminasse 
Aquela incerteza escura do espaço 
Profundo que perturbava a atmosfera da minha alma
Que noite era aquela que me inundava? 
E fazia de mim um náufrago em busca da luz que de milhões de milhões de quilômetros eu vislumbrava? 
"Talvez já esteja morta", eu pensava
"Vai que nem mais existe". 
Um dia alguém me disse que nada realmente morre se é lembrado...
Mas que lembrança eu tinha? 
Só a esperança de uma lembrança
E o desejo perdido de um sonho
De algo que soava baixinho
No meu coração
Como uma pedrinha branca 
Ou as flores da primavera 
Depois do inverno
Mas era noite, e eu devo ter cochilado
Pois perdi a estrela, todas as estrelas 
Naquele céu noturno nublado...

A Canção

Por que eu deveria cantar
Se todas as notas se foram
Como as folhas no fim do outono? 
É noite, estou cansado, meus dedos
Esqueceram como dedilhar e minha voz
Minha voz anda perdida na minha garganta 
Fazendo dupla com as batidas do meu coração
Eu te disse, mas éramos jovens, e todo ritmo era uma canção
Uma só palavra, tão ingênua, tão bela, 
Tão doce que ainda a sinto nos meus lábios
Eu ainda a sinto nos meus lábios
O fel daquela mesma manhã terrível 
Mas os terrores não pertencem à noite? 
Não quando a noite, como o inverno, cobre de sombras toda uma estação
Você nem disse que podíamos sonhar 
E sonhamos, mas o sonho se perdeu num monte de memórias sujas 
Quando nossa melodia esqueceu seu ritmo
E se tornou o uivo de um vento ferido
Nos galhos despidos
Da nossa última canção...

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Os olhos que me veem além do espelho

Os olhos que me veem além do espelho
Já não são os olhos que via em mim mesmo
Quando eu pensava que tinha vinte anos
E isso foi ontem, imagino, ou anteontem
Já não lembro, o tempo é como o espelho
Diante de outro espelho, infinito
Mas plano e frio como a imagem
Dele mesmo filtrada pela ilusão
Dos meus olhos.
Eu sou aquele jovem vislumbrando um futuro
Que não poderia ter imaginado,
Mas que conceito de futuro eu tinha?
O de quem pensa apenas em alguns minutos
No máximo amanhã, se algo interessa
O jovem vive no presente, o adulto no futuro
E o velho nas trilhas carcomidas do passado
Mas do espelho filtro uma indagação:
Quem sou, o que olha para o espelho,
Quem olha do espelho ou o fantasma entre os dois?

sexta-feira, 1 de março de 2024

O Homem da Montanha


Havia um homem,
Magro, pálido e envelhecido
Vivia naquela montanha
Sozinho, fartava-se da vista
De ver outras pessoas
Como formigas em fila
Caminhando para o nada
Como ele uma vez estivera
Desistiu, agora observava
Mas logo perdeu-se daquilo
Na vastidão do horizonte
E na imensidão das estrelas
Viu, como as pessoas, seu
Ser apequenar-se e quase
Se não fosse pelo olhar
Fundir-se ao todo e ao nada
A montanha era um fragmento
De poeira perdida ao vento
E ele, onde estaria?
Quando estava no limiar
Do não mais voltar
Deteve-se e mirou uma vez
Mais a pequenez das pessoas
Em marcha para grandes realizações
Como segurar o vento ou
Contar as gotas d'água
E nesse momento perde-se
Ainda mais na sua confusão
De partilhar as duas substâncias
O homem não pode ser deus
A humanidade é ainda criança
Há um homem naquela montanha
As crianças o veem sentado num rochedo
Em meio às brumas de uma manhã fria
Os adultos dizem que é
Rocha de rochas, ilusão
E o dia caminha isento de sentido
Mas ele apenas observa

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Tuta

 

        Portinari. Meninos Brincando. 


Era 1986, eu tinha 11 anos e o meu mundo era muito pequeno e simples. Naquele tempo eu morava num município da região metropolitana de Curitiba. Simples, mas não tão simples quanto aquele outro lugar em que "muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo". Mas era tão mágico quanto Macondo. 

Anos 1980, não havia internet ou smartphone. Os carros eram carburados e os telefones públicos funcionavam com uma ficha de metal. Em casa, poucos tinham o aparelho, pois uma linha custava tanto quanto um carro usado e se você alugasse uma, o valor seria o do aluguel de uma pequena casa, medido, conforme o costume de um tempo em que a inflação batia nos 147%, em salários mínimos para evitar o transtorno dos juros compostos. O governo que calcule! 

Apesar das dificuldades, éramos muito pobres, foram alguns dos melhores tempos da minha vida! Eu estava entrando na adolescência, mas ainda trazia muito do moleque. A região parecia interior, tinha muito mato, muito bicho para caçar, frutas silvestres, pinhão e chácaras com pés de pera e parreirais desprotegidos. Ainda havia as cavas e rios, onde a gente nadava, pescava uns carazinhos, lambaris e traíras. Fome eu não passava. Nem as sanguessugas que grudavam na pele quando a gente cansava dos anzóis e resolvia "passar a rede", na verdade um pedaço de tela de náilon, uma saca de cebolas ou qualquer tecido que cumprisse a função. 

No campo da diversão, a gente lia os gibizinhos uns dos outros. Um dos pilantrinhas que andava vagabundeando com a gente era o Pablo. Ele morava com seu avô, que era dono de uma banca de jornais. Essa era nossa principal fonte de quadrinhos, que o Pablo usava como pagamento dos mais estranhos trabalhos. 

"Eu te empresto o Almanaque Disney, mas quero que você me traga uma pera".  Todo mundo corria para pegar uma pera. Você tem ideia do que significava um Almanaque Disney inteirinho naquele tempo em que só havia tv aberta, com sinal muito ruim e nossos aparelhos eram preto e branco? 

"Toma aqui sua pera". Ele examinava a fruta com uma das sobrancelhas levantadas e tascava: "Não era essa que eu queria, era aquela". E apontava a fruta no lugar mais alto e difícil de pegar. Com o tempo aquilo virou uma espécie de desafio divertido e a gente já esperava pela nova revistinha, não tanto por ela, mas pelo desafio. Menos o Nenê, meu melhor amigo e companheiro de rapinagens e pescaria. Ele era fascinado por um personagem de desenho animado que fazia muito sucesso naqueles tempos, o He-man. Mas quem não era? E o desenho nem era tão novo, mas novidade, naqueles tempos ( e lugar), durava uns bons cinco anos! 

Com o tempo, o Nenê ganhou o He-man como um apelido sobressalente. Na maior parte do tempo, era o Nenê, mas se a gente queria algo dele ou apenas zoar, dizia: " Ô, rímeim, você que é forte, pega essa fruta ali pra mim". "Rímeim, leva essa cartinha praquela menina que eu gosto". Quando o Nenê ouvia isso, ele levantava os braços magricelas e forçava os músculos. Ele achava que era parecido com o personagem e a gente concordava, quando era conveniente. Mas quem abusava mesmo dele era o Pablo, pois em janeiro daquele ano, 1986, a editora Abril lançou uma revista em quadrinhos do He-man com um estilo igual ao do desenho animado. A gente sabia da revista porque a editora Abril já a vinha prometendo nas páginas publicitárias dos seus gibis. O Nenê estava louco por aquela revista. E quando ela chegou, o Pablo logo inventou "os doze trabalhos do rímeim". Um dia conto melhor essas traquinagens, mas adianto que aquela revista custou caro ao Nenê. No fim, vencido pela persistência do amigo, o Pablo deu a revista para o Nenê. A gente fazia isso pelos empréstimos, mas ele deve ter se sentido mal por abusar tanto do amigo. Um dia conto melhor sobre "os doze trabalhos do rímeim", mas meu interesse aqui é dar uma cor aos tempos e introduzir essas pessoas fantásticas da minha infância. 

Para falar a verdade, eu não lembro o nome real do Nenê. Aliás, nem sei se soube algum dia. Todos o chamavam pelo apelido, inclusive sua família. Pois foram eles que o apelidaram, porque ele era o mais jovem dos seus irmãos. O Nenê, apesar do modo como se via, era indígena. Na época não pensava nisso, mas hoje isso é claro. No pai via-se algum indício de mestiçagem. Era um verdadeiro "caboclo". Um homem gentil, de fala suave. Lembro dele sentado numa cadeira em frente à sua casa, sempre fumando um cigarro "palheiro" e tomando chimarrão. Ele tinha alguma doença, eu não lembro qual era. A mãe era uma perfeita indígena de cabelos negros bem lisos, olhos puxados e pele bastante bronzeada. Eram indígenas , mas indígenas que perderam sua cultura ou assim me parecia. Eles tinham, se não me engano, três filhos. O Nenê, uma menina mais velha que ele e o nosso verdadeiro herói daqueles dias, o Tuta. 

O Tuta tinha 16 anos e parecia muito com a mãe. Para nós era um homem formado. Ele sim tinha era forte, vivia fazendo flexões e outros exercícios no quintal da sua casa. Treinava uma coisa que ele aprendia numas revistas que prometiam ensinar artes marciais e que podia ser caratê, chute boxe ou kung fu. E a gente treinava com ele seus chutes, socos e rasteiras. Mas o Tuta era cuidadoso e gentil como o pai. Só uma vez eu cheguei perto de me machucar, ele me deu uma rasteira e eu bati tão forte no chão que perdi o ar por alguns segundos. Ele tava tapinhas nas minhas costas, preocupado, e soprava minha nuca. Mas logo que me recuperei, começamos a rir. 

Um dia eu vi na TV alguém dizendo que antes dos exercícios a gente tinha que se alongar. Mas exatamente o que era "alongar"? Na nossa próxima seção de artes marciais genéricas, eu disse ao Tuta, com ar de entendido, que "um bom lutador tem que se alongar antes". Ele, que era tão inocente quanto a gente, perguntou como seria isso.

Eu nunca vou esquecer aquelas cenas cômicas. O Tuta deitava de costas e segurava num toco de árvore, então eu pegava uma perna, o Nenê a outra, e a gente puxava. Criamos umas tantas variações desses "alongamentos". Bom, o Tuta não se tornou o próximo Van Damme, então acho que havia algo de errado com a minha teoria...

Mas não era só isso. A gente sentava naquele gramadinho e ficava ouvindo as histórias de amor do Tuta, sempre ao som de alguma música romântica internacional. E vou te dizer, como eram boas as músicas e as histórias! 

Um dia, numa festa junina, vi o Tuta beijando uma menina de cabelos curtos. Vou te dizer, acho que pelas histórias que ouvi, aquela era a garota mais linda que eu já tinha visto na vida! Mas tanto eu como o Nenê, o Pablo e nossos outros amigos, estávamos mais interessados em aventuras, histórias em quadrinhos e frutas roubadas. 

O Tuta trabalhava, então nunca participava das nossas aventuras. Nossos encontros se davam nos fins de tarde e finais de semana. O que mais me encantava no Tuta é que ele nos respeitava e aos meus olhos ele era um adulto, embora fosse só um adolescente um pouco mais velho. 

Mas o Tuta era um sonhador, um romântico. Acho que aprendi um pouco disso com ele. 

Aquele foi um tempo mágico que não durou nem dois anos, mas para mim foi uma vida inteira. Passado um tempo, nos mudamos dali e eu nunca mais vi nenhum dos meus amigos, exceto o Tuta. Depois de adulto, eu até fui ao local, mas estava tudo tão diferente, cheio de casas, de ruas e de gente desconhecida.

Anos mais tarde eu encontrei o Tuta na rua. Ele estava varrendo o chão, mas eu o reconheci de imediato. Cheguei mais perto e o cumprimentei, ansioso por rememorar alguns daqueles episódios da infância, perguntar sobre o Nenê e ele mesmo. Agora a idade mais ou menos nos equilibrara. 

Ele levantou a cabeça, respondeu meu cumprimento e me chamou de senhor. Mas o corpo permanecia curvado. O seu rosto era o mesmo, mas com muitas rugas e nos olhos um desconsolo, um cansaço, uma desilusão que me atingiram na alma como a ferroada de abelha no pescoço. Onde estavam aqueles olhos brilhantes e sonhadores? Aquela confiança? O que fizeram com você, Tuta? Como domesticaram sua alma sonhadora?  Não era o mesmo rapaz que eu conhecera. Eu não tive coragem de perguntar nada, apenas desejei um bom dia de trabalho, que ele agradeceu, e fui andando para que ele não visse a lágrima que descia pelo meu rosto. 

Eu chorava pelo Tuta, pelo Nenê e por mim mesmo. Foi desolador ver nele a mesma imagem que eu via todo dia no espelho.




sábado, 2 de dezembro de 2023

Eu não lembro seu nome

 Eu não lembro seu nome

E eu pensei que era parte daquele mundo
A rua da minha casa era ladeada por moitas de hortências
O que me dava sempre a impressão de estar morto
Porque era assim o cemitério onde deixamos meu tio
Naquele dia eu também morri, era meu tio e éramos amigos
Mas na rua da minha casa, numa lápide de que já não lembro o número
Havia uma garota de quem não lembro o nome
Ela morava numa estranha casa com uma aparência de farol
De vez em quando a gente pegava o ônibus juntos
Ela sempre me cumprimentava com um sorriso
Várias vezes ensaiei sentar ao seu lado
Mas não sabia o que dizer, o que ela pensaria disso
Hoje sei, ela sorria, e eu nem mesmo lembro seu nome
Será que ela gostava do meu uniforme do exército e do meu corte de cabelo? 
Minha rua parecia a entrada de um cemitério
E lá havia uma lápide que não lembro o número nem que palavras de saudade ali deixaram
Aqueles que sabiam seu nome.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Bela, que me ensinas a certeza das coisas

Bela, que me ensinas a certeza das coisas
Torna ao jardim que primeiro me introduzistes
Para renovarmos as memórias distantes
Dos tempos em que as crianças corriam pela
Estrada, cobertas de lama e aos risos
De toda preocupação ausentes
Bela canção do abismo, que abismos sem fim
Invocastes, chama com tal voz minha alma perdida
E ensina-me ainda as lições sob aquelas sombras
Tão frescas, retira de mim esse imoderado
Ato de perplexidade, ando com homens, com vaidade
Com ausência em presença, mas sou deles eu mesmo
Um vaso que espera pelo perfume delicado
Que só tu me podes derramar, ausência te chamo
Conforme os sábios, sabedoria é teu nome, a Bela
Mas como eles, apesar de já ter aos teus pés
Descansado, não construí contigo tal intimidade
Ensina-me, para que no meu silêncio eu ouça tua voz
E nos hiatos da tua canção, eu aprenda a modular
O que sou com aquilo que és e o que faço
Com aquilo que prescreves, se tal o digo, é momento
Refirmo, tu és das musas a mais bela e das vozes
Que ecoam, a mais sonora, posto que no silêncio
e do silêncio, emerges. 


Soneto da estranheza

 

Já penei demais nessa vida
Tentando aos outros me conformar
Quem com a vontade alheia lida
Jamais o eu próprio vai encontrar
 
Já chorei demais por ser esquisito
E falhar na luta para ser aceito
Desse emprego maldito me demito
Para aceitar aquilo de que sou feito
 
Na minha penumbra não cabe tal pureza
Pertenço à parte esquerda da criação
Aquela que causa horror a muita gente
 
Deixo de na vida procurar uma razão
Que entendo está de todo ausente
Aceito de braço aberto minha estranheza

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Ah, se fendesses os céus e descesses!


Ah, se fendesses o céu e descesses!
Verias como a rocha do meu ser jaz alquebrada
Sob a pressão da vida que tu me criaste
Que é menos pressão que a rocha é fraca
Clamo desde os meus abismos íntimos
Mas um abismo chama outro abismo
E o pouco, como grão, da ave enche o papo
Ao meu redor, tantas rochas como eu,
Me lançam, frias, o indicador
E eu me afasto, busco a solidão
A solidão me fere, a solidão não alcanço
Na dupla significação que me deixa perplexo
Em tudo somos abatidos, mas não destruídos?
Comi o pó no meu abatimento
Que se tornou pedra na minha contrição
Mas tua é a sabedoria, eu de ti nada posso
Questionar, se eu mesmo na minha campa
Criei carnes ilusórias nesses ossos
Ah, se fendesses o céu e descesses!
Verias chorar diante de ti em genuflexão
Tal miserável que mais miserável se faz
Ao ver tantos com menos ou mais
Andando com ar seguro e sem tribulação
Então, talvez, na tua infinita misericórdia
Me acolhesses em teus braços quais asas
“Estava morto e reviveu”
E eu na morte viveria uma rocha
Sem mãos cortada, de esquina, elevada.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Venha sentar-se...

 

Venha sentar-se comigo na relva e ver
Aqueles dois pássaros que voam despreocupados
Contra um céu azul forrado com nuvens
Que parecem algodão

Invejo sua liberdade
De apenas experimentar a vida sem
Considerações sobre o que seria viver
Eles voam alto, não se lhes bate à porta do coração
Se vão continuar, se um vento ou predador vai lhes arrebatar
Logo em seguida

A vida é somente viver
E isso já é tudo o que se pode dizer
Não vive quem gasta o tempo escasso
Na hipótese de achar nela significado
A vida por si já é o prêmio almejado

E tudo o mais que se pode almejar
Se for boa, então não há o que reclamar
Se ruim, ainda assim foi vida, experiência, ser
Que é muito mais que o pó da calçada pode querer

Mas quem aceita apenas viver sem preocupações?
Isso nos faz diferentes dos pássaros
Vivemos a vida como experiência mental
Mais do que física ou mera existência
Pensamos, sofremos, e dilatamos
A vida com uma miríade de conceitos
Numa vida vivemos várias vidas
E somos muitos em um só peito

E se por um pouco nos lançamos
À hipótese de apenas alçar voo
Logo olhamos para baixo
E nos vemos como formigas
Duvidamos, nos faltam as asas
E caímos.

Como encontrar sabedoria nisto?
Ou se vive preocupado, morrendo antes de viver
Ou irresponsável, arriscando tudo em cada momento
O sábio diria: “vive”
Mas vive com prudência, equilibrando
Liberdade e responsabilidade
Não te entregues demais à primeira
Pois serás pasto de ave de rapina
Nem afundes demais na segunda,
Pois não verás a vida que passa saltitando
Em suma, se há um caminho
Esse é o do meio.

Então voa e aproveita o sol, as nuvens e
A paisagem,
Pois se há algum significado em tudo, é este
Que a vida não é uma coisa, mas um passar, um ir e vir
Um processo, uma viagem, um percurso
E encontros

O pássaro não voa sozinho.

domingo, 4 de junho de 2023

Prisão sem Grades

 No dia em que nasceu

Teria alguém dito ao furtivo

Menino na sua aurora

A cor cinza do seu ocaso? 

O fim que veio com o início

E que o acompanha

Assim são certos signos

Que fazem de uma pessoa

O peso vivo do fim

Que ainda não veio

É assim que se morre 

Todo santo dia

Porque esse menino

Como tantos outros

Não pode fugir ao seu

Destino

Mas o destino não existe

É palavra que inventamos

Para justificar as desventuras

Disse o sábio: 

"Viver é sofrimento"

Como se morrer fosse alguma coisa

Viver é viver e só isso

Um campo em que plantamos

As sementes que temos

E às vezes, mas só às vezes, 

Colhemos

Noutras a tempestade nos leva

Mas as sementes dormem

Seguras sob a terra

Diferente desse menino

Fruto de semente indigna

De onde? Quem sabe? 

Sina dos bastardos e das sementes 

Sem procedência 

Mas há delas que abundam 

Foi assim com ele

Mas ele mesmo percorreu

Seu campo com sua sina

Assinalada bem fundo 

Na sua consciência: 

"Não sou nada" 

E era tanto. 

Quem poderia lhe dizer isso

Que ele acreditasse? 

Muitos disseram realmente 

Mas ele estava preso em prisões 

Sem grades. 

E viveu sempre à luz do seu último dia.

domingo, 14 de maio de 2023

Uma folha no outono

No outono as folhas caem

E dormem na terra  preparando o dia de uma nova geração 

Os olhos como folhas distantes 

Ora em mim,  ora no teto

Ora num objeto invisível ou

Numa realidade além daqui 

"Eu estou morrendo" 

Colhi aquilo em silêncio 

Como um fruto cuja cor não me agradava

Lavado com águas que fluíam

Da fonte da minha alma

Quando as folhas amarelam, você sabe que elas logo caem

Elas já não pertencem à árvore 

Mas ainda não se entregaram ao solo

"Massageia as minhas costas, sinto dor"

Como pode árvore com casca tão lisa? 

É a superfície da folha

Numa noite ela gemeu

E seu talo rompeu-se 

Dando à folha um minuto eterno 

Ela desce, flutuando ao vendo

Como uma ave, em círculos

Suave, sem nenhum lamento

Da árvore separada da seiva da vida

No ar como um ser que cavalga o vento

E um suspiro, o último

Depois de uma noite agitada

Reguei aquela manhã com lágrimas 

Quando a terra recebeu por fim

Aquela folha da qual o vigor da primavera e o calor do verão se afastaram

Fez-se inverno

E o solo a acolheu, não como folha

Mas como algo que era seu

O pó volte à terra, como era

E o Espírito a Deus 

E assim você se foi, mamãe, 

Para de folha finalmente se tornar

Flor e estrela no céu 

A sua dor terminou

O seu fruto prospera.

domingo, 23 de abril de 2023

No limiar eu caminho

 No limiar eu caminho
Como um viajante sem destino
Porque não procuro
E ainda assim busco
Não algo de que possa me apossar
Mas um estado que já tenho
E que perco se me perder
Eu olho para fora
E vejo maravilhas e beleza
Assim como a noite fria da alma
E disso me liberto para que
Conquistado não seja conquistável
Ouça, não é o vento que sopra
É a mensagem cavalgando uma voz 
Cujos cascos ferem sem furor
Cada espaço vazio da pele
Eu olho para dentro
Ignoro tudo que perco ao reter
E deixo ir como um pássaro liberto
O ser que fui
Para que livre deixe
O que serei encontrar no agora
O meu vir a ser.  
Olho o infinito escondido
Na concha de um caracol
Migrando vagarosamente pela
Pétala de uma flor
O mar sopra, o vento bate
A rocha flui e o fogo
Deixa-se estar estático
No meio lá está
Deus, o nada e o choro
De uma criança 
O ar é frio, e dói
E a luz fere como uma faca
Lágrimas e vida
E mais Lágrimas diante da lápide 
Ouça, vou contar um segredo 
Que só Deus o retivera até
Que Ele deixou que voasse
O dia declina e o sol já se pôs
Todos os insetos 
Já sabem, assim como as pedras
Que cantam dia e noite essa canção
O que será, já foi
E o que foi aguarda
No mesmo rastro molhado
Na mesma Pétala da flor
O mundo já acabou e morremos todos
Na escuridão total jazemos
Até que haja luz
Eu caminho no limiar
E todos os meus sonhos
Caminham comigo
Não tenho destino
Porque sou meu destino
Deus é meu companheiro 
E só temos um ao outro
Nessa jornada
E ainda assim caminho sozinho 
Estarei em casa antes mesmo de
Lá chegar
Mas a noite é fria e silenciosa
E eu caminho.

terça-feira, 18 de abril de 2023

Um poema

Quando era jovem
Eu vivia da revolta da minha própria ilusão 
O mundo era pequeno e eu grande
A ponto de consumir o bom senso 
No altar da ignorância 

E ignorante da minha insignificância
Eu prossegui insignificante 
E agressivo tentando pôr no mundo
Uma visão que lá não cabia
Nem cá tinha alguma substância 

Então fui atingido pelo chicote
Que vergasta as costas de quem vive
Na miséria 
E humilhado caí aos pés de um ídolo 
Que eu julgava grande
Mas era ainda,  como eu, insignificante 

E o erro ainda era algo mais
Que o que eu tinha antes
E munido de algum método
Acreditei que um objetivo melhor
Agora guiava meu destino

Mas o chicote que o destino me legara
Nas minhas carnes vergastava inclemente 
Dando-me ainda daquele antigo furor 
Um pouco de audácia defensiva
E um tanto de imprudência 
Inconsequente 

Dando passos que minha classe e nascimento, 
Eu bastardo e miserável esquecido,
Não permitiam a quem um selo não fora
Colado
Fui duas vezes ainda mais castigado
E estive novamente de cara
Com uma miséria mais abjeta

Agora por nova doença da minha alma
Se antes ignorante da minha ignorância 
Agora sujeito consciente, mas ainda
Ingênuo sobre as coisas do mundo
E o interesse das pessoas

Antes miserável no ser e na aparência
Agora por não estar mais
Onde os olhos diziam que eu deveria estar
Não entre sábios respeitados
Mas na sarjeta 
Colhendo larvas de insetos
E comendo do que cai
Da mesa dos mestres.  

Ando como os cães que já não
Querem o afago de qualquer transeunte
Arredios, cheios de feridas
No corpo e na mente
Volto ao antigo instinto
E amargo vou 
Deixando pelo caminho
O pouco de sonho que ainda tinha 
Na juventude.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Dragão na Garagem


Dragão na Garagem Arruda pulou da cama assustado ao ouvir o barulho. Eram duas da manhã. Vinha da garagem. Foi um sonho, pensou. Ao encostar a cabeça no travesseiro, ouviu novamente. Tentou controlar o medo, o coração batia forte. Lá embaixo um objeto caiu. Prestando mais atenção, ouviu algo que identificou como bater de asas e alguma coisa áspera roçando nas paredes. Pensou em chamar a Maria, mas ela ressonava alto, melhor um perigo por vez. Pegou um porrete que sempre deixava embaixo da cama e desceu o lance de escadas. No andar de baixo, diante da porta que dava para a garagem, parou e tentou ouvir novamente. Estava lá!- Mas que diacho era aquilo?- pensou. Um som estranho, como se alguém estivesse limpando as escamas de um peixe com uma faca, e asas batendo, e um som rouco de respiração. Havia também algo que o lembrou um fole de ferreiro que vira num filme. Qual a chance? Você deve estar dormindo, velho Arruda. Foi a pinga, só pode. Beliscou a barriga para ver se acordava. Ai! "Que você tá fazendo aí, velho maluco? Tá com diarreia de novo" - Gritou a mulher do quarto e virando para o lado já ressonava de novo. Não era um sonho. Tomou coragem, ajeitou o porrete no ombro e girou lentamente a maçaneta. Mal abriu um palmo, foi colhido por uma luz forte e chamas que atingiram a porta com o som de água sendo esguichada numa parede. Fechou com força. Meu Deus, tem um maluco com lança-chamas lá dentro! Correu para o banheiro, as sobrancelhas e o cabelo estavam chamuscados. "O senhor acha que tem alguém com um lança-chamas na sua garagem?" Foi isso que eu disse três vezes, manda a polícia e os bombeiros. "Mas o senhor está vendo fogo, fumaça ou ouvindo barulho de chamas agora?" Não estava. Na verdade, a madrugada só não estava mais silenciosa por causa do cachorro latindo longe e um galo adiantado. "O senhor faz uso de alguma medicamento ou consumiu bebida alcoólica?" Mas o que tem isso com chouriço? Arruda fazia uso de alguns medicamentos, informou, e tomou um copinho a mais de pinga depois do jantar. Mas queimara o cabelo, ainda sentia o cheiro e tinha as sobrancelhas. "Já falei que você tem que parar com essa pinga, seu velho louco". Disse Maria do sofá e o atendente concordou do outro lado da linha. "Entendi, vocês acham que estou alucinando". "É", disse Maria. O atendente colocara o fone no mudo e gargalhava contando o caso para um colega. Maria tomou o aparelho, pediu desculpas e disse que ia cuidar do marido. Arruda contrariado olhava a porta fixamente. Eu vou lá! Pegou o porrete, ajeitou no ombro e dando dois passos abriu a porta de uma vez, deixando Maria exposta ao que quer que lá estivesse. Eles não viram nada, exceto uma leve fumaça azulada que parecia sair das paredes. Maria já ia apontando o dedo para Arruda quando ambos ouviram o barulho da escamação de peixe, uma respiração abafada e rouca e o bater de asas. E novamente as chamas surgiram do ar logo à frente, atingindo Maria em cheio. Arruda fixou bem o olhar para ver de onde veio o fogo assim que o clarão sumisse, mas não havia ninguém lá. Só então lembrou da mulher, mas onde ela estivera só havia uma pilha de fuligem, com o seu contorno certinho marcado na parede logo atrás. Arruda se jogou sobre as cinzas, desesperado, bem a tempo de evitar uma nova rajada. Ali encontrou o pé esquerdo de Maria ainda dentro do sapato. Arruda, cheio de ódio, pegou o porrete e arremeteu contra o ar. Girou o porrete no ar várias vezes, e ouviu o mesmo ronco, com as asas e uma chama aqui, outra lá. Mas o que eu estou fazendo? Maria já se foi, vou eu também? Arruda saiu da garagem fechando a porta com um estrondo que acordou a vizinhança. Enquanto tentava ligar novamente para o serviço de emergência, ouviu alguém bater à porta. "É a polícia". Bem depois Arruda estava sentado numa cadeira, algemado explicava que havia um dragão na sua garagem. "Mas eu não estou vendo nada". Ele é invisível. "E como o senhor explica que andamos pela garagem toda sem tocar em nada?" É que ele também é, como se diz? Ah, intangível. "As portas estavam fechadas, nós mesmos verificamos, só havia o senhor e os restos da sua mulher. "Me diga, seu Arruda, como o senhor queimou o corpo desse modo?" Mas eu já disse, oficial, foi o dragão, olha aqui meu cabelo queimado. "É maluco!", disse o policial para seu colega e ao perito que tentava, inutilmente, descobrir a fonte do fogo ou algum resíduo de substância combustível. "Não tem jeito, vou levá-lo para a delegacia, lá o delegado que decida se joga numa jaula ou num hospício". Quando o policial conduzia Arruda para fora, pareceu ouvir um barulho na garagem. Era como alguém raspando escamas de peixe. "Bah, esse velho maluco me contaminou, um dragão, ora sim senhor, vinte anos de polícia e um dragão..." Foi o seu último pensamento antes de ser consumido até as botas, e não só ele como também o resto da equipe que ali estava. Só o Arruda, que saíra da casa com as mão algemadas para trás, escapara. Ficou ali, cercado por vizinhos e curiosos, olhando a fumaça se confundir com a névoa da manhã. Alguém perguntou o que ocorreu lá. Arruda virou o olhar vidrado para ele, baba escorria pelos cantos da boca, e disse: "Tem um dragão na minha garagem".