Na ponta do deserto setentrional, protegido por palmeiras das nuvens de areia, nasceu Ibn Baithah. As parteiras disseram que um deus desceu durante a noite e se contorceu para dentro de Saifah, sua mãe. Na noite em que nasceu, disseram elas, o deus saiu primeiro e logo ascendeu aos céus. Em seguida, os banins do deserto, semideuses das coisas, tocaram sua música ancestral.
Estão preparadas grandes coisas para este menino, disseram.
O menino crescia como qualquer outro, subindo nas palmeiras e escondendo-se das amas nas dunas.
Seu pai, Abd Main Baithah, morreu quando ele tinha seis anos. Sua mãe, ainda jovem, foi requisitada pelo Salam do Oásis de Shafir. Baithah cresceria ali, como um simples agregado. E sua mãe se consolou porque não se tornara serva.
Por ali passavam muitos viajantes e o menino, sempre curioso, aprendia sobre diversas terras e variadas doutrinas. Sadhis de Arianis, homens santos que rompiam suas carnes em ascetismo. Massimis do sul, que veneravam um deus morto. Jedulins, também do sul, que veneravam um deus do fogo e que, diziam, consideravam os massimis hereges, posto que sua religião derivava da deles. Do leste vinham magos da religião de Zaarat, que cultuavam o fogo e criam em dois deuses sempre em guerra.
Um dia, depois de muito jejuar como um sadhi, o menino caiu por terra, babando e tremendo. Levaram-no para a tenda da mãe. Três dias se passaram e, ao acordar, o menino contou um sonho que tivera:
"Eu vi, minha mãe, o deserto espraiado diante de mim. A voz dos banins me chamava, mas eu não via ninguém. E eu não era menino, mas um homem das caravanas, com barbas longas e olhar severo. Então segui as vozes, deserto adentro, e, depois de dias que não pude calcular, cheguei à montanha dos deuses das montanhas.
Ouvi, então, sua voz me chamar do meio das penhas. Tremi, mas ele disse para não ter medo e subir. E subi. Vieram noites e ventos, frio e calor. E cheguei à porta de uma caverna com a altura de dois homens grandes. No meio da caverna, que estava iluminada por suas paredes, de onde saía um brilho frio, havia uma fonte. Então ouvi novamente a voz dizendo que bebesse. E bebi.
E logo que bebi, vi o teto da caverna se tornar o teto do céu. E de lá desceu um homem com quatro asas, oito olhos e dezesseis braços. E ele me disse que era o enviado do único deus Iluh, o Akbatan.
Temi pela minha sanidade, mas ele se enfureceu e me tomou nos braços. Levou-me à porta da caverna e ameaçou me jogar de lá. Olhei para baixo, e uma caravana passava. Os dromedários eram como formigas. Chorei, e ele me levou novamente à fonte.
Beba.
E bebi.
Agora teus olhos serão abertos, disse.
E foram abertos.
Vi então um homem velho, com um livro na mão, diante de uma multidão. Ele falava e sua voz atravessava o deserto. E a multidão crescia, como uma inundação, e avançava sobre as areias. Vi cidades se curvarem diante dela e muralhas caírem. Vi rios mudarem de curso e suas águas se tornarem vermelhas. Vi homens erguerem estandartes sobre terras que não conheciam.
Perguntei ao ser quem era aquele homem e quem eram seus seguidores.
Ele me disse que eu era aquele homem, que Iluh me faria seu vidente e que eu mostraria seu poder ao mundo.
E disse: 'Recitarás um livro, e os homens morrerão por sua mensagem e matarão por sua mensagem.'
Então vi uma grande árvore crescer no deserto. Suas raízes eram espadas e seus frutos eram cabeças de homens. Sua sombra cobria muitas terras, e os homens que nela se abrigavam chamavam a si mesmos de muslack, os puros. E vi que erguiam suas espadas contra os que não se abrigavam sob seus galhos. Homens, mulheres e crianças caíam sobre a areia, e muitos se ajoelhavam diante da árvore, não por amor aos seus frutos, mas por medo de suas raízes.
Vi também um jardim distante, onde um povo ingênuo cultivava flores e vivia sem conhecer a guerra. E vieram homens que traziam as palavras do livro. Primeiro falaram de paz, depois pediram abrigo, e por fim exigiram o jardim. Vi as flores serem pisoteadas, as fontes secarem e o povo ser degolado diante de suas próprias casas. E os homens do livro ergueram seus estandartes sobre as cinzas.
Então perguntei ao ser por que Iluh não se mostrava aos homens. Por que a espada tinha que ser o meio?
'Iluh é puro, não suporta a sujeira dos homens', respondeu.
Mas, então, por que quer ele ser adorado por homens sujos?
'Porque é digno dessa adoração.'
Iluh precisa dessa adoração?
'Não', gritou, 'mas Iluh deve ser conhecido e deve ser adorado.'
Então Iluh não precisa dos homens, mas os homens precisam adorá-lo? É um deus que não necessita de nada, mas exige tudo. É um deus que não tem sede, mas ordena que os homens lhe ofereçam água. É um deus que não tem fome, mas exige que lhe tragam o pão. É um deus necessitado, pois exige dos homens aquilo de que diz não precisar.
O ser me olhou horrorizado.
'Como ousas?'
Ouso, disse eu, porque se Iluh me escolheu e se ouso questioná-lo, então Iluh não tem controle sobre mim.
'Iluh é Senhor', ele disse.
Mas um senhor que depende de seus escravos, respondi.
'Iluh é o único deus, e todos devem se curvar diante dele.'
Então não é a grandeza de Iluh que procuras demonstrar, mas seu poder sobre os homens. Iluh é um deus vaidoso, imprevidente e carente. Não é um deus, mas um demônio fraco, que precisa de sangue para provar sua grandeza.
Quando disse isso, o ser agitou no ar suas dezesseis espadas.
Pensei comigo: estou morto, mas não serei a mão suja de sangue de nenhum falso deus.
E ele me atravessou com as dezesseis espadas. Depois me jogou da montanha e eu caí aqui, mamãe, nos seus braços.
Agora sei que minha vida será curta, mas me prometa, mamãe, que dirá a cada homem e a cada mulher que passar por aqui sobre meu sonho. E que não ouçam profeta algum que venha do deserto pregando um deus das espadas."
A mãe, achando que o menino delirava, concordou. E ele dormiu. Ardeu em seu sono por três dias e depois suspirou e foi se encontrar com seu pai e os pais de seu pai.
E Saifah guardou seu luto. Consolou-se nos outros filhos que teve, mas nunca esqueceu seu menino.
Então, um dia, seu filho mais novo, Akzar, foi visto por ela prostrado na areia, passando-a pelo corpo como se estivesse se lavando com água. E achou que era uma nova brincadeira. Mas logo depois perguntou ao menino o que era aquilo, e ele disse que aprendera com os homens da caravana a adorar o único Deus, conforme as palavras do profeta do deserto.
Ela lembrou, incrédula, das palavras de Ibn Baithah.
Até que um dia chegaram homens do deserto e apontaram as espadas para seu marido e disseram:
"Submete-te."
Mas ele disse:
"Ao quê?"
"Ao Deus único."
"Não há Deus único. Os deuses caminham nas dunas."
E seu filho, Akzar, tirando do próprio lado o gládio, decepou-lhe a cabeça do corpo, que rolou aos pés de Saifah, enquanto os homens gritavam:
"Iluh Akbatan!"
E o grito dela ficou preso na garganta quando sua própria cabeça rolou junto à do marido.
Dizem que, naquela noite, um ser de luz com a forma de um menino foi visto lamentando sobre as dunas.
Conforme escreveu Abū Zayd al-Mutamarrid, no livro Kitāb al-Ḥikam wa-l-Rajul alladhī Abā an Yakūna Nabiyyan.
كتاب الحكم والرجل الذي أبى أن يكون نبيًا