Quem cultiva o exercício do pensamento, já deve ter se perguntado, até teorizado, se haveria uma saída para a humanidade.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Uma saída para a Humanidade
A aposta inevitável
O mundo que nos cerca é cheio de incertezas. A gente consegue antecipar algumas coisas simples que possuem mecanismos conhecidos. Muitas vezes trata-se de juntar A+B. Mas há uma série muito maior de outras coisas que escapam a qualquer previsão, embora possamos considerá-las como potenciais. Por exemplo, eu saio de casa para o trabalho, minha expectativa é que chego lá em meia hora, porque é isso que ocorre na maioria das vezes. Mas um dia o ônibus estraga, acontece um acidente na estrada, uma blitz policial ocupa duas faixas da rua tornando o trânsito mais lento…E levo 45 minutos para chegar ao trabalho. É de se prever que alguns desses eventos possam acontecer, mas eu não tenho como saber como nem quando.
A imprevisibilidade relativa é um
dado da existência humana. Eu não posso controlar tudo o que ocorre comigo, não
tenho como antecipar todas as pequenas e grandes variáveis. Mas posso calcular
algumas. Por exemplo, sei que meu carro pode ter uma pane mecânica, me antecipo
a isso fazendo manutenção. Mas mesmo assim algum dos componentes pode falhar. A
manutenção, certamente, diminui essa chance, mas não anula totalmente. Lidar
com a imprevisibilidade é um dos grandes desafios da vida. Viver é uma aposta
contra o acaso.
Mas temos essa “gana” de
controle. Porque não gostamos de apostar quando as chances são muito pequenas.
Mas precisamos apostar, pois vida é movimento. Somos um homo ambulans (homem
que anda), parar é morrer. E andar assume um sentido metafórico para nossas
“apostas” na vida. Mas temos horror ao desconhecido, ao que não podemos
controlar. Então criamos ferramentas psicológicas para lidar com isso, porque
precisamos de garantias para nossas apostas. O pensamento positivo é uma delas.
Em si ele é bom, porque a pessoa cria um ambiente interno que alinha seu
esforço com seu objetivo. Entretanto, a maioria das pessoas imagina que ele tem
um efeito fora delas. Também somos um Homo Animans (homem que dá alma,
que anima). Esse pensamento animista, resquício de eras passadas, acredita que
certas ações aparentemente desconectadas dos nossos propósitos possam alterar o
andamento das coisas no mundo. Não é minha atitude na direção de certo objetivo
que me leva ao sucesso, consideradas as variáveis, mas minha disposição interior
com relação a ele. E há uma armadilha aqui, pensar positivo é bom, mas se deixo
de me preparar, o mundo vai conspirar contra mim.
Paulo Coelho exemplifica bem esse
ponto em uma famosa frase do seu livro O Alquimista: “Quando você quer alguma
coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo”.
Claro que, desconsiderando os
caprichos do acaso, a verdade é diferente disso: se você deseja algo e não se
prepara para ele, as conspirações do universo para que você não vença vão te
atingir. Se você vai fazer uma prova é preciso estudar. Se vai fazer uma
viagem, tem que se preparar. Até Jesus, em Lucas 14:28-33, fala da previdência
exemplificada num homem que vai construir uma torre e um rei que vai travar uma
guerra, se você não se preparar, diz ele, não vai conseguir.
Veja, a ideia de preparo, de
previdência, pode ser considerada “pessimismo” se a pessoa expressa isso. Todo
mundo sabe que tem que se preparar, só uma pessoa muito tola não pensa assim.
Mas se você expressa as dificuldades, até como forma de se antecipar, isso,
dentro daquele pensamento mágico, é visto como atuar contra seu próprio
sucesso. Isso não é ser pessimista, porque um pessimista de verdade não
consegue ver sua capacidade de vencer. Ele não vai nem tentar.
Eu diria até que as pessoas que
se amparam em muletas tendem mais ao pessimismo, porque elas não conseguem
apenas calcular os desafios, suas chances e sua garra para encarar desafios,
elas precisam de uma garantia mágica de sucesso. Funciona quando tudo vai bem,
não pela macumbinha em si, mas por outros fatores que ela está desconsiderando.
Mas ela atribui isso ao pensamento
positivo. E se a pessoa tem um perfil mais analítico, menos dado a fantasminhas
nas rochas, ela recebe esse rótulo feio: pessimista. E mais, acaba sendo
culpada de não prosperar, de não alcançar e todas estas coisas que as pessoas
inventam para se sentir superiores. O pensamento mágico não é esperança, é terceirização
da responsabilidade. Se deu certo, foi o universo. Se deu errado, foi falta
de fé (ou o “pessimista” do lado).
Sim, pensar positivo faz muita
diferença, mas não tanto a ponto de ignorar todos os desafios envolvidos. A
atitude mais sábia é a moderação. Pessoas que arriscam eventualmente têm
sucesso. E ouvimos das histórias dessa eventuais, como se isos fosse a regra.
Bom, existe uma frase por aí de alguém que não sei quem foi e que é um bom
antídoto para esse pensamento: "Na subida do Everest existem centenas
de corpos de pessoas altamente motivadas".
sexta-feira, 6 de dezembro de 2024
O Palhaço e a Piada
Eu caminhava por uma rua movimentada no centro de uma grande cidade, quando notei um grupo de pessoas organizadas em círculo. A curiosidade venceu, e me aproximei para ver o que estava acontecendo. No centro daquele círculo estava um palhaço, com roupas coloridas e um olhar que oscilava entre o excêntrico e o insano. Como tinha alguns minutos livres, decidi ficar para ver que tipo de palhaçadas ele faria.
O palhaço começou com
duas piruetas ágeis que arrancaram risadas da multidão. Depois, apertou a flor
falsa presa ao peito e borrifou água no rosto de um velho, que riu tanto que
parecia rejuvenescido. Logo em seguida, ele puxou uma caixa de madeira para o
centro do círculo.
Uma criança perguntou à
mãe:
— Ele vai fazer mágica?
— Acho que malabarismo —
respondeu a mãe, enquanto o palhaço subia na caixa.
De pé ali, ele limpou a
garganta e, com uma voz inesperadamente limpa e forte de tenor, começou a
contar a seguinte “piada”:
— Dizem que quando o
budismo chegou à China, ele encontrou o taoísmo, uma filosofia que celebrava a
simplicidade, a natureza e o fluxo da vida, o Tao. Essa interação
moldou o budismo Zen, que se afastou da visão tradicional de que a realidade
era uma ilusão pura. Sob a influência do taoísmo, o Zen passou a enfatizar que
a realidade que percebemos não é exatamente "irreal", mas moldada por
conceitos. Nossa mente não vê o mundo diretamente; ela o interpreta por meio de
lentes conceituais, como um prisma que distorce e organiza o que percebemos.
Essa ideia encontra
raízes em um marco decisivo da história humana: a revolução cognitiva na
pré-história. Foi nesse período que os primeiros humanos desenvolveram a
capacidade de contar histórias e acreditar nelas. Essa habilidade nos permitiu
criar mitos, religiões e ficções compartilhadas que deram sentido à nossa
existência e possibilitaram a cooperação em larga escala. Ao contrário de
outros animais, que vivem no mundo físico imediato, nós começamos a habitar
mundos paralelos, mundos de ideias.
Richard Dawkins descreveu
essas ideias como memes, que se propagam de mente em mente,
moldando culturas inteiras. E, curiosamente, isso ecoa a visão do "mundo
das ideias" de Platão, reinterpretada pelos gnósticos: eles acreditavam
que nossa percepção do mundo era uma sombra distorcida de uma realidade
superior.
Essa capacidade humana de
construir mundos conceituais é sustentada por processos cerebrais fascinantes.
Estudos de neurociência mostram que nossa mente consciente é apenas a
"ponta do iceberg". Alguns experimentos revelaram que, quando fazemos
uma escolha, nosso cérebro já tomou essa decisão milissegundos antes, de
maneira inconsciente. Nossa consciência é como uma narradora que atribui lógica
a decisões que já foram tomadas no plano neural.
Um mecanismo parecido
também explica por que mágica funciona. Ilusionistas exploram o fato de que
nosso cérebro completa a realidade, preenchendo lacunas e criando uma versão
consistente do mundo. Livros como Truques da Mente detalham
como o cérebro, ao buscar padrões e fazer inferências rápidas, pode ser
facilmente enganado. Em um nível mais amplo, o que chamamos de
"realidade" nada mais é do que uma projeção mental, ajustada para nos
ajudar a sobreviver e interagir com o ambiente.
E isso não ocorre apenas
em truques de mágica. Em uma conversa casual entre amigos, por exemplo, nossa
mente projeta regras implícitas: como interpretar tons de voz, gestos ou a
posição social. Esses elementos invisíveis constroem um "mundo" compartilhado
que nos guia durante o diálogo. É como se vivêssemos em múltiplos palcos
mentais, onde as normas estão embutidas em nossas mentes, criando realidades
que acreditamos ser concretas.
O mesmo acontece em nossa
vida social mais ampla. Dinheiro é um excelente exemplo. Ele começou como um
simples símbolo de troca, mas, ao longo do tempo, transformou-se em algo com
"valor próprio". Hoje, a riqueza pode existir sem qualquer
conexão com bens tangíveis ou produtividade, como no caso das criptomoedas.
Isso demonstra como nossas construções conceituais podem extrapolar suas
funções originais e ganhar vida própria.
Essa capacidade de criar
mundos é poderosa, mas também perigosa. Quando pessoas acreditam em ideologias,
religiões ou sistemas econômicos, elas podem agir de forma extrema. Isso
ilustra o que Marx chamou de "superestrutura", mas ele não foi longe
o suficiente. A verdadeira revolução não é apenas política ou econômica, é
cognitiva. Devemos reconhecer que a base de tudo o que chamamos de
"realidade" são os conceitos que construímos e compartilhamos.
No fundo, já vivemos em
uma espécie de "Matrix". Não aquela das máquinas e cabos, mas uma
Matrix conceitual, composta por narrativas, ideias e crenças que projetamos no
mundo. Schopenhauer, ao estudar o budismo, percebeu algo semelhante: "O
mundo é minha vontade e representação." Mas o salto de consciência vem ao
perceber que, embora estejamos presos nessa Matrix, somos também seus
criadores.
Saber disso pode ser
libertador. Se entendermos que somos prisioneiros de ideias, podemos começar a
reorientar os mundos que construímos.
O primeiro passo? Olhar
para os "óculos cognitivos" que usamos para interpretar o mundo.
Enxergar além deles. Afinal, somos criadores de mundos. Resta decidir que tipo
de mundo queremos construir.
Nesse momento o palhaço
parou de falar, mas as pessoas esperavam que houvesse algo mais. Por um
momento, ficaram em silêncio, atordoadas, tentando entender o que haviam
acabado de ouvir. Um homem gritou do fundo:
— Isso é pura asneira!
A multidão, como que
despertada de um transe, começou a pegar pedras e objetos para atirar no
palhaço. Mas ele já tinha sumido.
Nunca mais foi visto. Uns
dizem que foi dar aulas numa universidade. Outros juram que se candidatou a um
cargo político. Há quem diga que ele se internou em um hospício, enquanto
alguns acreditam que ele morreu. Mas, para a maioria, o palhaço nunca existiu.
domingo, 17 de maio de 2020
Ativismo e Politização
domingo, 1 de março de 2020
A Liberdade que não temos
domingo, 9 de fevereiro de 2020
Numa Estrada
terça-feira, 26 de novembro de 2019
Realidade Aumentada
sexta-feira, 22 de março de 2019
Religião Cristã e Ideologias Políticas
domingo, 27 de janeiro de 2019
Nossa Pátria é a Humanidade
sexta-feira, 2 de novembro de 2018
Os Princípios do Policiamento Moderno de Robert Peel.
[ Os deveres da Polícia são: ]






