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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Uma saída para a Humanidade

Quem cultiva o exercício do pensamento, já deve ter se perguntado, até teorizado, se haveria uma saída para a humanidade.

Isso pode ter cores diferentes dependendo de como o problema é abordado e os pressupostos de quem aborda. Por exemplo, um pensamento cristão mais fundamental vai dizer que não há saída por seus próprios meios e que a esperança se fundamenta num ato externo e transcendente.
Outra perspectiva é aquela que entende que o mundo é gerido por relações de poder e não aspirações humanas universais. Basta pensar que hoje a humanidade teria os meios para tornar a vida humana muito melhor e reduzir drasticamente as injustiças do mundo. Mas isso simplesmente não acontece. E pensar em todas as desgraças ocorrendo agora nos levariam a nada mais que o desespero, bem resumido na frase de Kurt em O Coração das Trevas, de Joseph Conrad: O horror! O horror!
As duas nos levam a becos sem saída. E elas se complementam.
Mas como exercício, haveria outra possibilidade?
No fundo, nossos dramas se resumem aos mesmos de nossos ancestrais de milênios atrás: como administrar recursos limitados numa realidade de escassez. Sim, a economia é o ponto central desse problema. É da administração dos recursos que surge o poder, a política, a tecnologia, as ciências... Enfim, isso move o mundo. É por isso que propostas políticas têm como fundamento a administração de recursos.
Hoje esse é um tema absurdamente complexo. A humanidade é o que é porque desenvolveu formas de lidar com a economia que permitiram a complexidade moderna. Um governo é uma instância burocrática que administra recursos e regula a forma limitada como agentes fora do seu estamento burocrático podem explorar parte desses recursos.
Processos de riqueza e pobreza são basicamente o montante de recursos que se tem para administrar. Se pouco, trata-se apenas de sobrevivência, se muito, de investir e ganhar mais.
Como a humanidade caminha do natural para o conceitual, o recurso também evoluiu para algo não material. O dinheiro em todas as suas formas é a expressão desse recurso. Ele pode ser trocado por coisas, mas ele também é uma espécie de fluxo em looping que aumenta seu próprio montante na medida em que gera a ilusão de que mais números implicam em mais riquezas reais. Esse sistema "sólido" é muito frágil.
Para manter o sistema, é importante explorar as aspirações humanas por uma vida melhor, nesse caso, associando a vida melhor com consumo. Porém, apenas consumo de bens de uso extingue logo a fonte do desejo. Se você tem tudo o que acha que precisa, dificilmente vai ser convencido a se esforçar por mais. Então o consumo tem que ser direcionado para algo que você não precisa, que não satisfaz nenhuma necessidade real, mas que permita mais desejo na medida em que você satisfaz a posse imediata. Em outras palavras, esse bem perde valor afetivo logo depois de você se acostumar com ele.
Voltemos ao ponto inicial. O que é uma "saída para a humanidade"? Seria uma realidade em que a administração dos recursos implicasse na maior justiça para todos os seres humanos. O capitalismo propiciou uma vida melhor para boa parte da humanidade, mas criou certas distorções. Recursos limitados não podem ser administrados com referência ilimitada. Para isso funcionar, temos que encontrar fontes ilimitadas de recursos. O sistema apontado acima criou artificialmente essa fonte de recursos. Mas ela é frágil. Uma catástrofe no mundo real pode explodir a riqueza virtual em segundos.
Pense, por exemplo, em alguma ameaça que apague nossos bancos de dados eletrônicos, a queda da internet. Toda essa riqueza sumiria e teríamos que lidar apenas com o mundo material. Seria um regresso a 50 ou 60 anos atrás, mas com o agravante de que inúmeras operações que eram manuais na época seriam seriamente prejudicadas. A humanidade se levantaria, mas não sem a morte por inanição de milhões e uma longa fase de anarquia. O equilíbrio é muito frágil e provavelmente novas ordens se imporiam.
Então o centro do problema está em lidar com recursos de um modo racional, justo e menos dependente de estruturas virtuais. Se temos apenas o mundo material, a própria administração de recursos precisa ser mais razoável e as ferramentas de troca equivalentes ao montante de bens existente.
Veja, o "poder" se assenhoreia cada vez mais dos recursos reais enquanto cria a ilusão de riqueza para a maior parte da humanidade. E está bom enquanto temos comida na mesa, mas e se essa comida faltar, de que valerão os números?
Sistemas políticos totalitários exploram essa ansiedade natural. A população é mantida sob controle orientando o centro da vontade no sentido do consumo e da ideia de riqueza virtual ou inibi-se a vontade. Com a vontade controlada pela repressão, a expressão da vontade é a liberdade, a administração do recurso fica também livre para quem domina. Não sem oferecer algum tipo de satisfação virtual, que se expressa no culto do Estado, do Ditador, na aspiração ideológica, que funciona como a religião. Culto do Estado é sempre uma religião em que o trancendente é imanentizado nos símbolos e práticas estatais.
Dito isso, a gente percebe que toda saída é ainda um salto na ilusão. Ou a ilusão com alguma liberdade, ainda que virtualizada, ou a ilusão como elemento da própria falta de liberdade.
Sobra então o desespero? Provavelmente. Porque uma realidade diferente depende de um ser humano diferente, o que implica num salto da própria consciência humana para algo que não dependa da sublimação de aspirações que resistem na nossa psique para algo que identifique de forma clara nossas reais necessidades modernas. É difícil entender isso, mas somos seres da pre-historia vivendo numa sociedade tecnológica e tentando viver em grupos maiores mesmo tendo limitações de bando.
Uma consciência universal permitiria a administração universal dos recursos e uma expansão por necessidade existencial e não por desejo de domínio. Por isso as ideologias políticas são tão destrutivas para a humanidade, pois no fundo elas "agasalham" a natureza real do problema oferencendo soluções que dependem de algum tipo de "natureza superior" em outros seres tão falíveis quanto nós. Não será um líder quase divinizado ou uma comissão de aristocratas que salvarão a humanidade de si mesma. Não que avanços não sejam possíveis, mas que sempre haverá esse limite humano.
A pergunta real é se podemos ou não fazer algo no sentido desse salto de consciência? Infelizmente tudo mostra que o ser humano está "evoluindo", mas não para uma "consciência melhor". Não estou falando de "consciência" no sentido de estar consciente de algo, de aprender sobre certo e errado. "Consciência" aqui tem relação com o fenômeno que a ciência diz que ocorreu cerca de 50 mil anos atrás. Naquele tempo, o ser humano passou a acreditar em ficções. Isso foi o salto da consciência. E não estou falando de perda de identidade individual.
Aí sim os recursos seriam administrados com um objetivo que não fosse apenas a realização do poder pelo poder. O socialismo em todas as suas formas tentou criar esse novo homem artificialmente. De um certo modo paradoxal crendo que ele já existia, mas que as estruturas sociais o corrompiam. O ocidente liberal acreditou na mesma ilusão, mas considerou que era caso de dar-lhe liberdade e seu potencial surgiria. Este último pareceu colher mais êxito, porque o controle da liberdade exige vigilância permanente, é muito custoso, e a doutrinação só funciona enquanto alguém está olhando, ela cai rapidamente quando caem as estruturas de poder. Nesse sentido a religião política perde para a religião real, pois um poder trancendente não depende das estruturas materiais do Estado.
Eu chego ao fim dessa longa divagação sem uma solução real. Eu não tenho ideia de como fazer essa semente da consciência germinar. Pode ser que ela já exista, mas não em todos os seres humanos. Imagino que conhecimento, liberdade e senso crítico podem ajudar, mas não tenho certeza. O que posso dizer é que houve um salto nos últimos 800 anos, mas não tenho ideia do que ele nos trará no futuro ou se o mundo vai esperar que tenhamos consciência antes de nos apagar da sua superfície como resultado de tudo o que temos feito com ele.
E se essa mesma capacidade que nos "salvou" for nosso limite evolutivo?
😢
Talvez a verdadeira “consciência superior” não seja um novo estágio evolutivo, mas a lucidez trágica: saber que não seremos salvos por sistemas, líderes ou ideias, e ainda assim agir com responsabilidade.

A aposta inevitável

 O mundo que nos cerca é cheio de incertezas. A gente consegue antecipar algumas coisas simples que possuem mecanismos conhecidos. Muitas vezes trata-se de juntar A+B. Mas há uma série muito maior de outras coisas que escapam a qualquer previsão, embora possamos considerá-las como potenciais. Por exemplo, eu saio de casa para o trabalho, minha expectativa é que chego lá em meia hora, porque é isso que ocorre na maioria das vezes.  Mas um dia o ônibus estraga, acontece um acidente na estrada, uma blitz policial ocupa duas faixas da rua tornando o trânsito mais lento…E levo 45 minutos para chegar ao trabalho. É de se prever que alguns desses eventos possam acontecer, mas eu não tenho como saber como nem quando.

A imprevisibilidade relativa é um dado da existência humana. Eu não posso controlar tudo o que ocorre comigo, não tenho como antecipar todas as pequenas e grandes variáveis. Mas posso calcular algumas. Por exemplo, sei que meu carro pode ter uma pane mecânica, me antecipo a isso fazendo manutenção. Mas mesmo assim algum dos componentes pode falhar. A manutenção, certamente, diminui essa chance, mas não anula totalmente. Lidar com a imprevisibilidade é um dos grandes desafios da vida. Viver é uma aposta contra o acaso.

Mas temos essa “gana” de controle. Porque não gostamos de apostar quando as chances são muito pequenas. Mas precisamos apostar, pois vida é movimento. Somos um homo ambulans (homem que anda), parar é morrer. E andar assume um sentido metafórico para nossas “apostas” na vida. Mas temos horror ao desconhecido, ao que não podemos controlar. Então criamos ferramentas psicológicas para lidar com isso, porque precisamos de garantias para nossas apostas. O pensamento positivo é uma delas. Em si ele é bom, porque a pessoa cria um ambiente interno que alinha seu esforço com seu objetivo. Entretanto, a maioria das pessoas imagina que ele tem um efeito fora delas. Também somos um Homo Animans (homem que dá alma, que anima). Esse pensamento animista, resquício de eras passadas, acredita que certas ações aparentemente desconectadas dos nossos propósitos possam alterar o andamento das coisas no mundo. Não é minha atitude na direção de certo objetivo que me leva ao sucesso, consideradas as variáveis, mas minha disposição interior com relação a ele. E há uma armadilha aqui, pensar positivo é bom, mas se deixo de me preparar, o mundo vai conspirar contra mim.

Paulo Coelho exemplifica bem esse ponto em uma famosa frase do seu livro O Alquimista: “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo”.

Claro que, desconsiderando os caprichos do acaso, a verdade é diferente disso: se você deseja algo e não se prepara para ele, as conspirações do universo para que você não vença vão te atingir. Se você vai fazer uma prova é preciso estudar. Se vai fazer uma viagem, tem que se preparar. Até Jesus, em Lucas 14:28-33, fala da previdência exemplificada num homem que vai construir uma torre e um rei que vai travar uma guerra, se você não se preparar, diz ele, não vai conseguir.

Veja, a ideia de preparo, de previdência, pode ser considerada “pessimismo” se a pessoa expressa isso. Todo mundo sabe que tem que se preparar, só uma pessoa muito tola não pensa assim. Mas se você expressa as dificuldades, até como forma de se antecipar, isso, dentro daquele pensamento mágico, é visto como atuar contra seu próprio sucesso. Isso não é ser pessimista, porque um pessimista de verdade não consegue ver sua capacidade de vencer. Ele não vai nem tentar.

Eu diria até que as pessoas que se amparam em muletas tendem mais ao pessimismo, porque elas não conseguem apenas calcular os desafios, suas chances e sua garra para encarar desafios, elas precisam de uma garantia mágica de sucesso. Funciona quando tudo vai bem, não pela macumbinha em si, mas por outros fatores que ela está desconsiderando. Mas ela  atribui isso ao pensamento positivo. E se a pessoa tem um perfil mais analítico, menos dado a fantasminhas nas rochas, ela recebe esse rótulo feio: pessimista. E mais, acaba sendo culpada de não prosperar, de não alcançar e todas estas coisas que as pessoas inventam para se sentir superiores. O pensamento mágico não é esperança, é terceirização da responsabilidade. Se deu certo, foi o universo. Se deu errado, foi falta de fé (ou o “pessimista” do lado).

Sim, pensar positivo faz muita diferença, mas não tanto a ponto de ignorar todos os desafios envolvidos. A atitude mais sábia é a moderação. Pessoas que arriscam eventualmente têm sucesso. E ouvimos das histórias dessa eventuais, como se isos fosse a regra. Bom, existe uma frase por aí de alguém que não sei quem foi e que é um bom antídoto para esse pensamento: "Na subida do Everest existem centenas de corpos de pessoas altamente motivadas".

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

O Palhaço e a Piada

 

Eu caminhava por uma rua movimentada no centro de uma grande cidade, quando notei um grupo de pessoas organizadas em círculo. A curiosidade venceu, e me aproximei para ver o que estava acontecendo. No centro daquele círculo estava um palhaço, com roupas coloridas e um olhar que oscilava entre o excêntrico e o insano. Como tinha alguns minutos livres, decidi ficar para ver que tipo de palhaçadas ele faria.

O palhaço começou com duas piruetas ágeis que arrancaram risadas da multidão. Depois, apertou a flor falsa presa ao peito e borrifou água no rosto de um velho, que riu tanto que parecia rejuvenescido. Logo em seguida, ele puxou uma caixa de madeira para o centro do círculo.

Uma criança perguntou à mãe:

— Ele vai fazer mágica?

— Acho que malabarismo — respondeu a mãe, enquanto o palhaço subia na caixa.

De pé ali, ele limpou a garganta e, com uma voz inesperadamente limpa e forte de  tenor, começou a contar a seguinte “piada”:

— Dizem que quando o budismo chegou à China, ele encontrou o taoísmo, uma filosofia que celebrava a simplicidade, a natureza e o fluxo da vida, o Tao. Essa interação moldou o budismo Zen, que se afastou da visão tradicional de que a realidade era uma ilusão pura. Sob a influência do taoísmo, o Zen passou a enfatizar que a realidade que percebemos não é exatamente "irreal", mas moldada por conceitos. Nossa mente não vê o mundo diretamente; ela o interpreta por meio de lentes conceituais, como um prisma que distorce e organiza o que percebemos.

Essa ideia encontra raízes em um marco decisivo da história humana: a revolução cognitiva na pré-história. Foi nesse período que os primeiros humanos desenvolveram a capacidade de contar histórias e acreditar nelas. Essa habilidade nos permitiu criar mitos, religiões e ficções compartilhadas que deram sentido à nossa existência e possibilitaram a cooperação em larga escala. Ao contrário de outros animais, que vivem no mundo físico imediato, nós começamos a habitar mundos paralelos, mundos de ideias.

Richard Dawkins descreveu essas ideias como memes, que se propagam de mente em mente, moldando culturas inteiras. E, curiosamente, isso ecoa a visão do "mundo das ideias" de Platão, reinterpretada pelos gnósticos: eles acreditavam que nossa percepção do mundo era uma sombra distorcida de uma realidade superior. 

Essa capacidade humana de construir mundos conceituais é sustentada por processos cerebrais fascinantes. Estudos de neurociência mostram que nossa mente consciente é apenas a "ponta do iceberg". Alguns experimentos revelaram que, quando fazemos uma escolha, nosso cérebro já tomou essa decisão milissegundos antes, de maneira inconsciente. Nossa consciência é como uma narradora que atribui lógica a decisões que já foram tomadas no plano neural.

Um mecanismo parecido também explica por que mágica funciona. Ilusionistas exploram o fato de que nosso cérebro completa a realidade, preenchendo lacunas e criando uma versão consistente do mundo. Livros como Truques da Mente detalham como o cérebro, ao buscar padrões e fazer inferências rápidas, pode ser facilmente enganado. Em um nível mais amplo, o que chamamos de "realidade" nada mais é do que uma projeção mental, ajustada para nos ajudar a sobreviver e interagir com o ambiente.

E isso não ocorre apenas em truques de mágica. Em uma conversa casual entre amigos, por exemplo, nossa mente projeta regras implícitas: como interpretar tons de voz, gestos ou a posição social. Esses elementos invisíveis constroem um "mundo" compartilhado que nos guia durante o diálogo. É como se vivêssemos em múltiplos palcos mentais, onde as normas estão embutidas em nossas mentes, criando realidades que acreditamos ser concretas.

O mesmo acontece em nossa vida social mais ampla. Dinheiro é um excelente exemplo. Ele começou como um simples símbolo de troca, mas, ao longo do tempo, transformou-se em algo com "valor próprio". Hoje, a riqueza pode existir sem qualquer conexão com bens tangíveis ou produtividade, como no caso das criptomoedas. Isso demonstra como nossas construções conceituais podem extrapolar suas funções originais e ganhar vida própria.

Essa capacidade de criar mundos é poderosa, mas também perigosa. Quando pessoas acreditam em ideologias, religiões ou sistemas econômicos, elas podem agir de forma extrema. Isso ilustra o que Marx chamou de "superestrutura", mas ele não foi longe o suficiente. A verdadeira revolução não é apenas política ou econômica, é cognitiva. Devemos reconhecer que a base de tudo o que chamamos de "realidade" são os conceitos que construímos e compartilhamos.

No fundo, já vivemos em uma espécie de "Matrix". Não aquela das máquinas e cabos, mas uma Matrix conceitual, composta por narrativas, ideias e crenças que projetamos no mundo. Schopenhauer, ao estudar o budismo, percebeu algo semelhante: "O mundo é minha vontade e representação." Mas o salto de consciência vem ao perceber que, embora estejamos presos nessa Matrix, somos também seus criadores.

Saber disso pode ser libertador. Se entendermos que somos prisioneiros de ideias, podemos começar a reorientar os mundos que construímos. 

O primeiro passo? Olhar para os "óculos cognitivos" que usamos para interpretar o mundo. Enxergar além deles. Afinal, somos criadores de mundos. Resta decidir que tipo de mundo queremos construir.

 

Nesse momento o palhaço parou de falar, mas as pessoas esperavam que houvesse algo mais.  Por um momento, ficaram em silêncio, atordoadas, tentando entender o que haviam acabado de ouvir. Um homem gritou do fundo:

— Isso é pura asneira!

A multidão, como que despertada de um transe, começou a pegar pedras e objetos para atirar no palhaço. Mas ele já tinha sumido.

Nunca mais foi visto. Uns dizem que foi dar aulas numa universidade. Outros juram que se candidatou a um cargo político. Há quem diga que ele se internou em um hospício, enquanto alguns acreditam que ele morreu. Mas, para a maioria, o palhaço nunca existiu.

domingo, 17 de maio de 2020

Ativismo e Politização

Parece que agora ativismo virou sinônimo de politização. Tem que ser ativista o tempo inteiro.
Só que inverteram a coisa toda. A politização deveria preceder o ativismo. Uma pessoa politizada é aquela consciente de seus deveres e direitos e que entende a importância de sua participação ativa numa realidade democrática. Já ativismo é agir, militar, por uma causa.
O fanatismo é fruto do ativismo sem politização. O ativismo num país como o nosso deve se dar dentro do jogo democrático e com respeito a ele. Nesse sentido, a politização é também a compreensão, ainda que rudimentar, desse processo democrático. Assim estar politizado implica aceitar que pessoas com visões diferentes de mundo tenham o direito de se manifestar.
A politização é a educação política, o ativismo político é a prática dessa educação. É claro que é possível negar o próprio processo de politização e defender absurdos no ativismo, mas nesse caso outros fatores entram em cena. Nesse sentido podem ser "indutores" a frustração com a democracia, interesses criminosos que se mascaram como moralismo, confusão entre aspirações espirituais e as aspirações políticas, a subjetividade da pessoa (apego ao próprio ego, etc).
A escola deveria nos fornecer o "aparato mínimo" para uma boa politização. Ou seja, criar em nós a consciência de que devemos ser cidadãos ativos e desenvolver nosso senso crítico para que possamos ou não guiar nossa politização num certo sentido ideológico.
Como ela não consegue fazer isso, especialmente por causa do foco conteudístico, esse espaço é ocupado por diversos atores sociais, especialmente os ligados à fé. É na igreja, seja ela a instituição, seja a família no processo de "catequização", que recebemos nossos valores sociais. Assim vamos atuar no mundo com as ferramentas que temos. Essas ferramentas são nossa base conceitual mínima, aquelas diretrizes que internalizamos e que passam a ditar a forma como interpretamos o mundo e atuamos nele.
Só que a igreja não tem exclusividade nisso. Diversos grupos utilizam o mesmo processo catequético, despido das aspirações espirituais, para formar seguidores e militantes. Embora o discurso seja diferente, o resultado vai ser o mesmo, fanatismo que não permite o diálogo e que se torna, nos seus discursos, uma expressão de completa verdade no mundo. Ou seja, forma pessoas que possuem uma lista de crenças, um ideal de verdade, um discurso e ação fortes, mas ao custo de qualquer sombra de "autocritica", embora tenham a ilusão de serem elevados e terem um senso crítico apurado (quando é para julgar seus adversários).

domingo, 1 de março de 2020

A Liberdade que não temos




Você já teve a impressão de que não entende nada ao seu redor, nem mesmo as crenças que possui? Uma coisa que poucos admitem é que não temos ideia de onde vieram algumas das ideias que assumimos como verdades sem questionar.

A gente está acostumado a aderir a sistemas. Assim são nossas ideias políticas, nossas crenças religiosas, nossos costumes.. a lista vai longe. A gente recebe as coisas prontas e depois, se tivermos vontade de elaborar mais nosso discurso, a gente vai em busca dos fundamentos intelectuais daquilo que a gente já tem como crença. Por trás da crença sempre existe uma pressão ou um benefício social. Mesmo que a gente troque um conjunto de ideias por outro, ainda são esses os motivadores.

Veja, essa mente livre, essas busca pela verdade das coisas, não é uma característica de nenhum sistema. Todos eles estabelecem uma lista de ideias corretas e apenas admitem o “diálogo” para fixar mais essas ideias, capacitar você para combater grupos divergentes ou te dar uma impressão de liberdade com assuntos pouco importantes. Se você questionar os ensinos centrais do seu grupo, não importa qual seja, vão tentar te “enquadrar” ou, se isso falha, extirpar você do grupo.

É porque a gente, o grupo, a massa, tem uma só finalidade, fazer o trabalho pesado para quem pensa. Mas a gente numa entende realmente os fundamentos de tudo aquilo. Isso porque a gente só tem liberdade para ver a lista das coisas corretas, mas nunca vemos os interesses reais, os objetivos.

Tomemos como exemplo a maioria dos militantes políticos de qualquer espécie. Suas pautas têm sempre um apelo emocional. A luta é por algum tipo de justiça transcendental, mesmo quando apontam problemas bem reais do mundo.

Se a gente deixasse um pouco todas essas pautas e fosse ao cerne da coisa, veria que tudo se resume a DUAS IDEIAS BÁSICAS.

A PRIMEIRA vê a sociedade e seus mecanismos como fruto da evolução histórica e que, portanto, deve-se alterar o menos possível esse equilíbrio. Porque aquilo tudo foi testado pelo tempo. É uma posição conservadora porque acredita que a "natureza" (aqui muito além do sentido ecológico) filtrou as melhores soluções. Melhorias são possíveis, mas deve-se ter cuidado para não perturbar o equilíbrio e, portanto, a realidade.

A SEGUNDA entende que o homem já transcendeu a NATUREZA, e que agora não é apenas um sujeito histórico, mas o sujeito da história. Essa visão acredita que a realidade deve ser construída pela ação humana, dirigida por ela. É uma visão positivista, ou seja, considera que possui uma visão científica e um modelo que aplicado à realidade altera o mundo. Esse grupo está interessado na realidade apenas até o limite em que é preciso entendê-la para transcendê-la.

Pode-se dizer que o primeiro grupo é “realista”, apenas no sentido em que acredita que as coisas são como são porque funcionam. O segundo acredita que as coisas são como são porque um grupo ou grupos se beneficiam disso e exploram a maioria. O primeiro admite mudanças lentas e graduais, o segundo entende que a ordem deve ser subvertida e que a nova ordem deve ser direcionada.
É claro que a maioria de nós não sabe disso. Ficamos na periferia, nos temas que são efeitos daquelas causas. Se a gente é influenciado pelo primeiro conjunto, vamos defender valores tradicionais e acreditar que existe uma ordem que transcende a vontade humana mantendo esse conjunto de coisas. Essa vontade transcendente pode ser Deus, ou a natureza (agora em sentido ecológico). No segundo caso teremos uma visão crítica sobre o sistema, vamos apontar as distorções desses valores tradicionais e lutar por estabelecer uma realidade mais justa, com um modelo econômico e político. Paradoxalmente, o primeiro sistema vai falar em liberdade, porque deixando as coisas fluírem (até certo ponto) respeita-se o equilíbrio. O segundo entende que a liberdade deve ser regulada porque as pessoas encontram-se escravizadas e suas vontades estão corrompidas, de modo que sujeitando-as é que se lhes concede a verdadeira liberdade.

Para entender isso pense em dois grandes sistemas, o capitalista e o socialista. Embora a gente ouça que existe um capitalismo, deve-se entender que o "ismo" final não é um conjunto de ideias como o socialismo ou o realismo. Porque o capitalismo não foi criado num momento qualquer como o reflexo de um conjunto de ideias, mas efetivamente evoluiu desde que o homem criou o conceito de propriedade privada, ou seja, de que podia ser dono de alguma coisa. É claro que pode-se falar em capitalismo moderno e que esse foi alvo de muita especulação intelectual, de refinamento e técnica. O socialismo também tem seus ancestrais naturais, mas modernamente é fruto de uma doutrina específica, não existe como uma força sem esse conjunto de ideias que lhe dão forma e direção. Um estado pode ser capitalista, no sentido de que o capital é privado, visa o lucro, e pode ser livremente negociado ou negociado segundo regras mínimas. No socialismo o capitalismo é domesticado, nesse caso é um capitalismo de estado, porque é o Estado quem é dono dos meios de produção e orienta plenamente a aplicação do capital.

Veja que um estado pode ser capitalista sem ser uma democracia. E que não pode ser socialista sem ter uma política de estado para o capital, política de plena posse. O que socialistas, mesmo os democratas, querem é submeter o capital ao Estado para derivar dele o bem social, mas um bem orientado, positivo. Os capitalistas, por outro lado, acham que a acumulação é o meio, e que dela deriva a prosperidade para todos, uma vez que os capitais vão sendo reaplicados gerando empregos, melhorando salários, criando um mercado consumidor, etc. Um estado desenvolvimentista, ou seja, que admite um livre mercado, mas também acredita que o Estado deve ser o principal agente nesse processo, também pratica capitalismo de estado e pode-se dizer que é uma entidade mista entre os dois modelos, sendo mais afeita, quanto aos seus objetivos, com o segundo, o capitalismo liberal.

Em suma, a maioria de nós passa longe da verdade dessas ideias. Somos a massa de manobra, os trabalhadores braçais. Dificilmente entendemos o cerne da questão, e temos muita pouca liberdade depois que somos cooptados por um dos dois sistemas, embora ambos falem em liberdade, nenhum deles está interessado em aceitar que cada pessoa pense e decida por si mesma. Desse modo a liberdade é só um conceito, uma ideia, uma promessa. Sempre no horizonte, nunca realizada.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Numa Estrada

Numa estrada ladeada por uma vegetação triste e poeirenta, eu busquei numa pedra solitária apoio para meu corpo cansado. O pó se apegava ao céu da minha boca. Reparei na estrada vazia, ouvia o zumbido de um bando de moscas, a vida e a morte se tocavam. O calor ia tornando as imagens turvas, as vigas da cerca iam se dobrando sobre a estrada. Reparei melhor naquela estranha vertigem, comparei com a vista da minha mão, mas nada de anormal eu via. Num desses momentos, levantei o rosto e não havia mais estrada. O calor se fora e um frescor acariciava meu rosto. Imagens se formavam. No ar pareci divisar um menino correndo por um capinzal muito verde. Eu era aquele menino. Logo ali me vi de mãos dadas, já não era menino. Um pouco além uma visão mais antiga, estávamos todos à mesa com mamãe, que se fora. Ali um dia feliz, aqui um triste. Mas tudo como fora, como minha memória me dizia. Mas ao lado de cada uma daquelas imagens havia tantas outras das coisas que podiam ter sido. Uma via formava infinitos ramos, e cada um deles outros tantos. Eu me vi passeando por vidas que nunca tive. Uma escolha diferente, mesmo que só um pouco, implicava numa quadro totalmente novo. Conheci filhos de amores desconhecidos, e cada um deles tão vivo como se as coisas estivessem acontecendo naquele mesmo minuto. Aqueles eram futuros possíveis de um passado morto. Mas e o futuro desse agora? Levantei os olhos e vi o que logo seria, mas a imagem era triste. Logo, porém, ela se desvaneceu. Sem entender, busquei uma outra e a percorri até o momento em que algo me desagradara e o mesmo efeito se fez. Assim vez após outra as imagens iam sumindo. Por fim entendi. Cada vez que olhava para uma cena que trazia algo ruim eu decidia não seguir aquela escolha. Se o passado era feito de linhas inequívocas, com caminhos que poderiam apenas ter sido, o futuro era sempre desconhecido. Naquele caso se viam as vias alternativas porque se via a principal, aqui não havia principal e tudo era alternativo. O futuro alternativo era destruído pelo meu olhar. Não havia como ter certeza, como escolher o melhor, qualquer escolha sempre levaria a algum desenlace desagradável e então tudo evaporaria. Então esse é o destino? Uma malha infinita de encontros e desencontros. Então olhei ainda mais longe e vi que tudo convergia para um ponto. Não importam que vias eu tomasse, que lindas escolhas fizesse, aquele ponto estava lá. Um destino para todos os caminhos. Era o fim de todas as jornadas. Havia caminhos longos e curtos. Mas o destino era o mesmo. O dia ia declinando, o calor já não era tão sufocante, juntei as tralhas da vida, aprumei as pernas cansadas e firmei os passos naquela estrada empoeirada.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Realidade Aumentada

Num futuro próximo a tecnologia vai mudar radicalmente o modo como enxergamos o mundo, quando equipamentos quase invisíveis ou implantes tornarem a “realidade aumentada” parte do nosso dia a dia. A gente vai usar isso na educação, no entretenimento, na publicidade e como manifestação artística, sem excluir milhares de outras aplicações.  

A gente já percebe os sinais dessa revolução em jogos como Pokemon Go, em equipamentos como Google Glass, nos programas que utilizam GPS, como o Google Street. Realidade aumentada é a “projeção” de informações virtuais sobre elementos físicos com certo grau de interatividade.  

A questão é que já vivemos em realidades aumentadas, e não estou falando de mudanças físicas ou de objetos que criamos no mundo, desde a revolução cognitiva do paleolítico  ( não confundir com a expressão de mesmo nome utilizada para designar o início das ciências cognitivas) quando aprendemos a enxergar o mundo por meio de uma realidade imaginada. 

Nem tudo o que imaginamos existir existe de fato como realidade material. Nosso mundo é parte físico e parte conceitual. E tratamos esse aspecto conceitual como se ele fosse realmente parte material do mundo.  Na verdade não entendemos o mundo sem os conceitos. Para entender algo que vemos, precisamos de uma definição. Essa definição mais a imagem da coisa passa a ser,  em nossa mente, a realidade daquilo que vemos. 

Muitas coisas que acreditamos serem reais são objetos conceituais. O Estado, a definição política de um país, o valor atribuído ao dinheiro, a passagem de um ano a outro ( não confundir com o ciclo físico, falo do ano “civil”), etc.

A realidade conceitual é parte essencial da nossa existência.  Mas também pode nos cegar para a realidade concreta dos fatos, pois de posse de um aparato conceitual vamos sempre projetar sobre o mundo nossa própria definição do que ele é.  

Muita gente percebeu esse perigo em nossa história.  A filosofia nasceu como uma busca pelo real. Muitas religiões prometem isso,  embora elas contribuam em grande parte da nossa idealização do mundo real. Talvez o budismo na sua versão zen seja a que mais se aproximou desse desnudamento do real. 

De todo modo, não parece ser uma coisa fácil ver o mundo pelo que ele realmente é.  E talvez seja porque é mesmo impossível entendermos o que nos cerca sem definições.  A simples contemplação nunca é totalmente pura, sempre existe algum grau de projeção.  A ciência busca esse mundo real por meio de observação e experimentos, mas mesmo ela tende à conceituação, embora buscando o fato real, concreto. A ciência ainda é nossa melhor ferramenta, porque mesmo sujeita ao idealismo conceitual, ela possui mecanismos de autocorreção. 

A realidade aumentada cibernética pode acentuar esse nosso grau de desvio cognitivo.  Embora não possamos viver sem definições , podemos treinar os olhos da mente para entender que a realidade conceitual que se sobrepõe ao mundo existe e não é definitiva. Não enxergar isso pode estar na raiz dos nossos problemas para entender o mundo. Talvez nunca possamos realmente deixar a caverna, mas parece que nossas correntes são maiores do que imaginamos e, se a gente quiser, nos permitem dar uma voltinha “lá fora”.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Religião Cristã e Ideologias Políticas

O cristianismo é uma religião excludente, há um só caminho. Muito diferente de algumas religiões includentes como a tradição hindu. Por causa do movimento ecumênico algumas vezes o catolicismo é chamado de includente, mas acho essa denominação inadequada.
Esse conceito de exclusividade tem como um de seus efeitos a "certeza salvífica", ou seja, a ideia de que, por estar no unica caminho, a pessoa está salva. Mas as vertentes cristãs têm uma característica interessante, cada grupo aplica a ideia de exclusividade a si mesmo ou a uma divisão menor dentro do próprio cristianismo. Por exemplo, alguns grupos de igrejas pentecostais aceitam que pessoas de outros grupos com doutrinas similares possam ser salvas, mas excluem todos os outros. Dificilmente um cristão do "pentecostalismo de periferia" (periferia do movimento evangélico) com um sistema radical de usos e costumes vai aceitar que um católico ou um protestante tradicional possam ser salvos. Em geral grupos de cristãos tratam outros grupos como "seitas".
Essa certeza pessoal leva a pessoa a acreditar que a forma como ela interpreta a fé, ou seja, como seu grupo interpreta, é a "correta", ou como costumamos dizer, a "fé ortodoxa". Nesse sentido a lista de crenças, os dogmas daquele grupo, expressam uma realidade cristã que remonta aos primeiros discípulos e, por extensão, ao próprio cristo. Quem conhece a nossa história sabe que os cristãos passaram a maior parte da sua história brigando por minúcias e "anematizando" (excomungado ou amaldiçoado) uns aos outros.
Atualmente esse movimento tem sido atenuado por uma espécie de "equilíbrio" das crenças cristãs ocasionado em grande parte pelo consumo multilateral de material entre as diversas vertentes. Entenda aí música, pregações e literatura.
Pois bem, o fenômeno não é exclusividade do cristianismo, e tenho visto as mesmas coisas se repetirem dentro dos grupos ideológicos. Durante muito tempo isso foi meio misterioso para mim, mas com o tempo entendi que o FERVOR manifestado por esses grupos, embora pretensamente "secular", é FERVOR RELIGIOSO.
Como é que eu não reconheceria algo tão familiar para mim mesmo? Esses grupos têm líderes messiânicos cujas palavras viram lei assim que são ditas. Têm "listas de crenças aprovadas" que são seguidas com tanta fé quanto um cristão católico crê na Trindade ou na imaculada conceição de Maria. Por isso tão pouca crítica "INTERNA" (dentro do círculo do grupo) e tanta demonização do contrário. Cada pessoa acredita que aquele sistema é a VERDADE, única verdade possível, mesmo que paradoxalmente fale em 'relativismo" (que é ao seu modo uma espécie de absolutismo).
Veja, na crença a pessoa busca por um SENTIDO (teleologia), e uma vez encontrado, ele passa a definir todo o resto. Numa denominação evangélica a pessoa encontra tudo o que socialmente precisa. A Igreja sob muitos aspectos nos ABSORVE totalmente. Ali encontramos uma família, uma série de atividades, uma esperança, uma utopia futura, um senso de justiça e uma lista de comportamentos aprovados, além de um inimigo claro com quem lutar. Aliás, a metáfora da LUTA é a que mais usamos.
As ideologias políticas são a sublimação das aspirações religiosas. E um ótimo consolo para pessoas que pretendem estar livres da superstição, mas continuam humanas, e portanto religiosas por essência.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Nossa Pátria é a Humanidade

É indiscutível que o ser humano teve uma origem comum e que depois se espalhou pelo mundo, adaptando-se a cada local em que habitava. Nessa longa jornada os seres humanos uniram-se em tribos, dividiram-se em línguas, criaram cultura e formaram nações.
Suas características morfológicas se adaptaram às necessidades ambientais. A pele, em regiões mais frias e com menor incidência de luz, assumiu tonalidades mais claras, em muitas variações. Cabelos também mudaram.
Nessa longa jornada adotamos uma de nossas ilusões mais persistentes, a da desigualdade. Havíamos esquecido nossa origem comum, e mesmo quando admitíamos isso, ainda tentávamos, como tentamos, criar meios de nos diferenciar. Apontamos o indivíduo do outro lado como um "caído" ou como alguém cuja "pureza" não pode ser atestada. Por fim criamos uma aura de "nascimento", uns eram naturalmente melhores que outros.

Mudamos a face do mundo. E agora, no "topo" da nossa vitória, poderíamos aceitar nossa origem. Mas a coisa tribal, adquirida lá nos primeiros dias da nossa divisão, quando lutávamos por um pedaço de sombra, nos impele à divisão.
É difícil para nós entender que nossas divisões, manifestadas em instituições, são artificiais, ficções. Que nossas pátrias são apenas nomes, que um país pode deixar de existir assim como veio a ser.
E quando nem isso é suficiente, abraçamos nossas posições ideológicas com fervor religioso, e nossas opções religiosas com fervor ideológico, a ponto de achar que elas podem nos fazer mesmo diferentes, mesmo quando pregamos a igualdade.
Isso existe. Certamente nos ajudou no passado. Se um grupo com hábitos fixos se extinguisse, outros seguiriam adiante por causa de suas diferenças.
Mas chegamos num impasse. As ilusões não podem nos levar adiante. Na verdade têm causado muita confusão e sofrimento. As fronteiras caíram, o "mundo não é mais como era antigamente" quando enfrentávamos os imensos campos, florestas e oceanos desconhecidos.
Chegamos ao ponto em que só sobrevivemos amparados na realidade de que nossa única pátria é a humanidade.
O resto é mito.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Os Princípios do Policiamento Moderno de Robert Peel.

Os "Bobbies", como eram chamados os integrantes da Met. 
No início do século XIX várias "erupções populares" ocorreram na Europa. O continente passava por grandes mudanças, a revolução industrial, a revolução francesa e o período napoleônico, o urbanismo acelerado, etc. Os governos reprimiam as massas utilizando forças militares (do Exército)  e milícias, grupos de cidadãos armados pelo Estado. Na Inglaterra a situação era muito grave, o país acabara de sair das guerras napoleônicas, havia fome, desemprego e ausência de representação popular no parlamento. Tudo isso foi agravado pela aprovação das Corn Laws, leis de estímulo aos produtores locais (que impedia a entrada de produtos mais baratos no país e prejudicava a livre concorrência). Em 16 de agosto de 1819 foi organizada uma grande manifestação em St. Peter's Fields, Manchester, com a participação de mais de 50 mil pessoas, entre elas muitas mulheres e crianças.
Como não havia polícia organizada, as autoridades solicitaram ao regimento de cavalaria local (Yeomanry, a 15th The King's Hussars) que prendesse um dos líderes, Henry Hunt. Entretanto as Forças militares entraram em conflito com a multidão, e utilizaram força letal, deixando um saldo de 15 mortos e algumas centenas de feridos. Foi o "Massacre de Peterloo", um jogo de palavras com a Batalha de Waterloo, em que Napoleão fora derrotado 4 anos antes.
O Massacre de Peterloo, por Richard Carlile
Alguns anos depois, Robert Peel, ministro do interior britânico, ainda com esses eventos em mente, criou o modelo que revolucionou e continua revolucionando a segurança pública no mundo. Peel precisava restabelecer a fé do público, ao mesmo tempo que reprimia o crime e protegia o inocente. Ele também precisava de uma força que atuasse em distúrbios civis que não fosse militar ou miliciana.
A nova polícia de Peel entrou em ação em 1829. A base dessa polícia é o policiamento por consentimento, em que a pessoa se submete por ter confiança na autoridade. A ideia também era criar uma força que pudesse ser fiscalizada pelo público. Para tanto Peel criou o princípio de que "a polícia é o público e o público é a polícia, sendo que o policial é alguém dentre o povo, pago para fazer em tempo integral o serviço que é de todos".
                                                     Robert Peel
As ideias de Robert Peel, o pai do policiamento moderno, foram resumidas em nove princípios ( conhecidos no Brasil por meio de traduções inexatas e tendenciosas) que foram, provavelmente, postos por escrito pelos dois primeiros Comissários da MET ( que é como os ingleses chamam sua polícia), Charles Rowan e Richard Mayne. 
Sede da MET

Os princípios, numa tradução literal:

[ Os deveres da Polícia são: ]

1 - Prevenir o crime e a desordem, como uma alternativa à sua repressão por força militar [Exército] ou [pela] severidade da punição legal.
2- Reconhecer sempre que o poder da Polícia para cumprir suas funções e deveres depende da aprovação pública de sua existência, [de suas] ações, [de seu] comportamento e de sua capacidade de garantir e manter o respeito público.
3- Reconhecer sempre que assegurar e manter respeito e aprovação significa também garantir a cooperação voluntária do público na tarefa de garantir a observância das leis.
4- Reconhecer sempre que a medida em que a cooperação do público pode ser assegurada [que assegurar a cooperação] diminui proporcionalmente a necessidade do uso de força física e da compulsão para alcançar os objetivos da Polícia.
5- Buscar e preservar o favor público, não por favorecimento [ bajulação] da opinião pública, mas por demonstrar constantemente um serviço absolutamente imparcial à lei, em completa independência da política, e sem consideração da justiça ou injustiça da substância das leis individuais, oferecendo de pronto serviço individual e amigável a todos os membros do público sem considerar sua riqueza ou posição social, pelo imediato exercício da cortesia e um amigável bom humor, e pela imediata oferta de sacrifício individual para proteger e preservar a vida.
6- Usar de força física somente quando o exercício da persuasão, conselho e advertência forem insuficientes para obter a cooperação pública na medida necessária para garantir a observância da lei ou a restauração da ordem, e usar somente o mínimo grau de força que é necessário em cada caso particular para alcançar os objetivos da Polícia.
7- Manter a todo momento um relacionamento com o público que dê realidade à tradição histórica de que a polícia é o público e o público é a polícia, sendo a polícia apenas os membros do público que são pagos para dar atenção em tempo integral aos deveres que são incumbência de cada cidadão no interesse do bem estar e da existência da comunidade.
8- Reconhecer sempre a necessidade de adesão estrita às funções policiais executivas, e abster-se mesmo de parecer que usurpa os poderes do judiciário, de indivíduos vingativos ou do Estado, e de julgar com  [suposta] autoridade a culpa e de punir os culpados.
9- Reconhecer sempre que o teste da eficiência policial é a ausência de crime e desordem, e não a evidência visível da ação policial ao lidar com eles.

FONTE ORIGINAL DOS PRINCÍPIOS: Policing by consent

sábado, 20 de outubro de 2018

Segurança Pública - Algumas Medidas


Não existem respostas mágicas para os problemas de segurança pública, porém as medidas principais para uma sociedade menos violenta são bem conhecidas. Entretanto muitas dessas medidas exigem mudanças estruturais que esbarram em interesses. 

Não vejo boas medidas em nenhum plano de governo, mas obviamente as questões mais técnicas serão tratadas depois, quando o governo, seja qual for, se instaurar. Vou resumir algumas boas medidas para você. 

A segurança pública é uma atividade interdisciplinar e intersetorial. Então não se resolve só com polícia. Mas também não se deve utilizar esse argumento para falam em segurança sem polícia, o que é o grande absurdo de muitos progressistas. Do mesmo modo não deve utilizar a falha em um dos entes do sistema para criticar outro, por exemplo, argumentar que a polícia deve render menos porque o sistema penal não funciona. 

O crime é um fenômeno variado, portanto conjuntos variados de condutas criminosas exigem soluções diferenciadas. A solução para o crime de oportunidade contra o patrimônio é diferente daquela para a violência entre torcidas. Pensar que "endurecer" o policiamento ostensivo vai resolver todos os crimes é ilusório, até porque a polícia não tem como ser onipresente. Deve-se entender que "criminoso" não é uma categorização ontológica, mas uma categorização de conduta. É muito comum que uma pessoa em conduta errada mande os policiais "prenderem bandido". 

Muito se fala em investigação no Brasil. A investigação entretanto tem duas facetas, aquela própria da persecução penal, ligada ao inquérito policial, e que é deflagrada após crime ou em razão de indícios observados durante o policiamento ostensivo. Esse segundo tipo é muito deficiente, principalmente por causa da divisão do ciclo policial. polícia ostensiva não faz investigação. Eu chamo esse segundo tipo de "investigação preventiva", ou, o que é tecnicamente mais exato, inteligência policial. Esse tipo de poder investigatório deveria de modo bem claro ser estendido a todas as polícias, ficando a exclusividade investigativa ligada apenas aos casos de persecução penal ou às grandes investigações que exigem autorização judicial e são mais técnicas.

Nem toda ação policial se refere a crimes, na verdade a sua grande maioria se deve a questões não criminais envolvendo desde o mero auxílio numa situação de socorro à perturbação do sossego ou um desentendimento de trânsito, casos que podem evoluir para uma situação mais grave. Nesse caso o policial assume mais a função de mediador. Esse tipo de situação deve ter solução local, ou seja, nos municípios através de suas guardas municipais, até porque alguns deles podem exigir a ação de outros órgãos municipais. Além do mais, os municípios estão mais aptos a coordenar programas de policiamento comunitário. Dever ter, portanto, protagonismo nas ações de segurança pública que envolvem a ordem social. 

O crime das organizações criminosas exige inteligência. Tais organizações são vendidas quando se impede o acesso delas aos meios de financiamento, assim como nas aplicações financeiras,  à aquisição de armas, veículos, imóveis, e ao recrutamento de mão de obra criminosa. Um dos meios de limitar esse último, mas não o único, é melhoras as condições gerais no sistema penal, impedindo que o crime se organize por lá, fazendo a separação do presos, impedindo que eles fiquem dependentes dessas organizações e facilitando a saída da vida criminosa por meio de programas de reinserção social. Mas sem inverter a realidade, o sistema penal serve para punir, recuperar não é sua função, mas é uma coisa desejável, sem dúvida. 

Por fim, não se consegue nada sem a participação da sociedade civil, ela tem que ser parceira ativa na solução dos problemas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O Cristianismo Primitivo e os Estados Organizados

Há muitas visões conflitantes entre os diversos grupos cristãos sobre como a política e o Estado devem ser. Mas numa coisa quase todas concordam: defender que sua visão da fé e suas práticas estão de acordo com os textos bíblicos e são conforme o que se praticava entre meados do primeiro e do segundo séculos, o que geralmente se chama "cristianismo primitivo".
O cristianismo não surge como uma religião, mas como uma das vertentes do judaísmo do primeiro século, que é muito diferente do judaísmo moderno. A nação judaica, Israel, era uma teocracia, embora naquele momento fosse domínio romano. A lei civil, portanto, era a lei de Roma, mas as instituições judaicas, com algumas exceções como a pena de morte, tinham alguma liberdade. É claro que isso é uma aproximação, o período era bem mais complexo, havia uma monarquia "herodiana" (idumeus, não israelitas), um governador romano, um sinédrio judaico (um senado judaico), etc.
O que as pessoas daqueles dias esperavam era um Machiach (Messias, um "ungido", ritual pelo qual eram consagrados reis, profetas e sacerdotes) que congregasse em si as funções religiosas e civis, assumindo o trono de Davi, o rei mítico (não no sentido de não ter existido, mas de ter se tornado lendário), reunificando e expandindo o território até os limites do que fora prometido aos patriarcas antigos, propiciando a "Aliá" (retorno) dos israelitas espalhados pelo mundo, submetendo os poderes terrenos e trazendo uma era de paz e justiça ao mundo.
O "mundo" então era romano, mas seu arcabouço cultural era o helenismo, movimento político-cultural iniciado nos dias de Alexandre Magno. A língua franca era o grego "coine", comum, que era uma variedade padronizada de diversos dialetos gregos. Nessa língua foi escrito o Novo Testamento. Localmente, entretanto, a cultura era semita, a língua do povo era o aramaico e a língua da alta cultura religiosa era o hebraico, semelhantes como o são o português e o francês.
Yeshua (Jesus) iniciou suas pregações nesse contexto histórico. Sua pregação tinha três "vertentes": a rabi leigo judeu com sua sabedoria e interpretação das escrituras hebraicas; a do taumaturgo (quem opera curas ou faz milagres) itinerante e profeta apocalíptico. Já antes de Jesus existia entre os judeus uma seita ou partido com essas características, os essênios. A marca principal dos essênios era sua separação do poder terreno, que eles consideravam corrompido por Satanás. Mesmo assim tinham consciência de que como "Verdadeiro Israel" precisavam viver entre o poder terreno e cumprir suas leis, tanto é que mandavam suas ofertas ao Templo construídos por Herodes, o Grande.
O cristianismo, que ainda não tinha esse nome, seguiu esse caminho. Jesus ensinava que o seu reino não era desse mundo (João 18:36), que havia um campo de César (modelo do poder terreno) e um de Deus ( Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus, Mt 22: 21). Desse modo ele ensinou que convém cumprir as obrigações civis nesse mundo. O cristão, quando a ordem legal não contraria sua fé, deve respeitar os poderes instituídos "(...) porque não há potestade [poder] que não venha de Deus; e as [poderes] potestades que há foram ordenadas por Deus", Romanos 13:01.
Quer dizer que o cristão deveria "sair do mundo" e não atuar de modo algum na sociedade? Não, pelo contrário, ele deveria ser justo em tudo o que fizesse, pois:
"(...) quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus". 1 Coríntios 10:31
Esse "tudo" engloba toda atividade humana, mesmo o governar em sentido amplo:
"Mas não sereis vós assim [como os que governam com autoridade] ; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve". Lucas 22:26
É uma ética muito elevada, que orienta a ação cristã para o bem da sociedade, mas não implica em imposição de valores ou visões. Na realidade cristã, a pessoa não impõe pelas palavras, ela conduz pelo exemplo.
"Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus". Mateus 5:16
Esse é o sentido de ser "sal da Terra e Luz do mundo". Ao mesmo tempo em que se consideram "estrangeiros e peregrinos na terra" (Hebreus 11:13), os cristãos são instados a influenciar o mundo e seus sistemas como seu modelo elevado de justiça.
Muitas pessoas na história se guiaram por esses valores, e puderam, com essa luz, ser bons estadistas, políticos que serviram sua geração, assim como muitos outros, assenhoreando-se dessas ideias apenas no discurso, ou por uma visão corrompida, mancharam sua herança cristã misturando uma ideologia terrena, quando não suas próprias ambições, com as ideias elevadas do evangelho.
Será que tal visão ainda pode ser uma guia eficiente para as pessoas de hoje?

Democracia

Democracia é uma ideia linda. Mas entre a beleza de uma ideia e o mundo real existe um abismo de subjetividade. Uma bela ideia que nem sempre produz belos frutos. Churchill uma vez disse que a democracia é só o segundo pior sistema de governo, atrás de todos os outros. É difícil não concordar com isso, pelo menos em consideração à história recente - e por "recente" quero dizer os últimos duzentos e poucos anos desde a independência americana ou, um pouco depois, a revolução francesa.

No primeiro caso, uma democracia imperfeita, mas com solidez suficiente. Talvez porque afastada dos elementos que resistiam ao "novo". No caso franco, a revolução levou ao terror, e o terror ao velho corso.
Será que o americano era mais "preparado" que o francês? Penso que a diferença estava nos objetivos, muito mais pragmáticos no caso americano, construir uma grande nação (com liberdade), e muito mais diluído nos franceses, a ideia da liberdade.
Uma democracia moderna (sentido temporal) como a nossa é outra história. Verdade é que pensamos ainda num dos dois tipos de "ruptura", e é essa a tônica das discussões atuais. Penso que uma democracia assim precise de duas coisas, um sistema que permita ao povo atuar na política de fato, e, o mais difícil, um povo minimamente preparado para isso. O preparo é menos formal do que parece, trata-se de disposição mental, de senso crítico, de resistência aos apelos emocionais, portanto, uma resistência miníma à demagogia. Aliás, toda democracia convive com demagogia, mas há casos em que a demagogia substitui de modo insuperável a democracia.
Usei "demagogia" em dois sentidos, o ato de ser demagogo, e o governo do demagogo. E um governo assim retroalimenta a máquina da democracia com o combustível da dependência. Um povo dependente nunca jogará bem a democracia, pois apenas corre para suprir uma ausência que existe como fator que o mobiliza para a servidão.
Então está tudo perdido? De modo algum, pois a natureza humana sempre arruma um modo de se insurgir contra a servidão, e a resistência vai arrumando modos de continuar espezinhando a demagogia.
O grande perigo é quando a ideologia, abraçada à resistência, torna-se fim, quando não pode ser mais que meio. O mundo melhor vai sumindo no horizonte, borrado pela bandeira, e esta segue tremulando e crescendo até que não haja mais horizonte.
Então a democracia morre.