Canto I – A Invocação e o Guerreiro Ferido
Canta, ó Sága, do último guerreiro,
Derradeira chama da gente de Erik;
Quando o aço nórdico feriu a floresta,
E o sangue uniu dois mundos sob o céu.
Canta daquele que permaneceu,
Sozinho entre as cinzas de Leifbúðir.
Jazia Ródrik sobre a terra fria;
No peito a seta lhe rompia a carne.
Firmou na haste a ensanguentada destra,
Cerrou os dentes contra a dura dor.
Vergou o corpo, mas não sua coragem;
Gemeu a carne, o espírito ficou.
A floresta ouviu seu grito rouco;
Silenciaram aves, troncos e ventos.
Somente o corvo do Pai dos Mortos
Cruzava o céu em lentos círculos negros.
Julgou ouvir, nas brumas do poente,
O grave canto das eternas Valquírias.
"Será meu dia?" disse ao próprio peito.
"Abre-se enfim o salão do Valhala?
Ver-me-á Odin entre os heróis caídos,
Chamando-me ao festim dos valorosos?"
Mas o destino, oculto às mãos dos homens,
Ainda exigia o preço de sua espada.
Ferido ergueu-se sobre o solo rubro;
O sangue escuro lhe banhava o peito.
Fitou o céu das frias terras novas,
Onde jamais brilhara o sol da infância.
Tomou o ar como quem bebe a vida
E esperou firme o passo do destino.
Canto II – O Sonho de Ródrik e a Travessia
Então cantou a guardiã das memórias:
Não fora sempre o ferro seu destino,
Nem o escarlate manto das batalhas.
Ródrik cantava os feitos dos antigos,
Nos longos salões aquecidos pelo fogo;
Sua lira erguia o nome dos valentes
À honra dos deuses e dos reis do Norte.
Desde menino ouvira as velhas sagas,
Narradas pelos homens do mar gelado:
Como Erik, o Ruivo, abrira novos mundos;
Como Leif vencera o dorso do oceano
E descobrira a fértil terra ocidental,
Onde as videiras abraçavam os campos.
Ali nasceu um sonho em sua alma:
Não conquistar reinos pela espada,
Mas cultivar a vinha em paz duradoura;
Erguer um lar sob o olhar dos deuses,
Tomar por esposa uma mulher honrada
E ver crescer seus filhos em Vinland.
Ao primogênito daria o nome Thor,
Em honra ao deus do invencível martelo.
Seria seu vinho digno de Heimdall,
Guardião eterno da ponte resplandecente.
Assim sonhava o jovem Ródrik,
Sem conhecer o tear do seu destino.
Sorriu o jovem ao subir no drácar,
Quando o mar lhe abriu os vastos caminhos.
Atrás ficaram os gelados fiordes,
As rochas nuas da severa Greenland;
À frente, Vinland erguia-se em promessa,
Terra fecunda além das ondas frias.
Cantavam fortes os remadores nórdicos,
Enquanto o vento enfunava as velas.
Rugia o mar sob o ventre do navio,
Mas não havia medo entre os varões;
Cada horizonte escondia um destino,
Cada alvorada prometia um mundo.
Via Leif, prudente entre os guerreiros,
Guiando a proa pelas rotas novas;
Como a águia busca os altos precipícios,
Assim buscava a costa ocidental.
Seguia Thorvald, firme em seu silêncio,
Filho de Erik, de ânimo constante.
Então falou Ródrik entre os companheiros:
"Não sonho tronos nem muralhas de ouro;
Basta-me a terra onde floresça a vinha,
Onde o trigo amadureça ao sol do verão.
Ali erguerei meu salão e meu lar,
E meus filhos herdarão estas campinas.
Se os deuses forem benignos ao meu destino,
Hei de envelhecer entre videiras.
Minha espada dormirá sobre a parede,
Coberta apenas pela poeira dos anos.
Outros cantarão os feitos dos heróis;
A mim bastará o riso de meus filhos."
Assim dizia o cantor dos antigos,
Sem perceber o sorriso das Nornas.
Pois o fio que teceram para sua vida
Não conduzia à paz dos lavradores;
Forjara-o o ferro, bebera-o o sangue,
E sua colheita seria a própria glória.
Canto III – Leifbúðir: a Terra Prometida
Ao fim de muitos dias sobre as águas,
Ergueu-se a costa verde de Vinland.
Primeiro viram os elevados bosques,
Depois os rios claros entre as folhas;
E as aves, nunca vistas pelos nórdicos,
Encheram de espanto os homens do mar.
Saltaram todos à fecunda praia,
Beijando o solo em graças aos Altíssimos.
Leif contemplou a terra silenciosa
E ergueu aos céus a espada vitoriosa.
Disse aos seus: "Eis o dom que os deuses deram;
Guardemo-lo com braços valorosos."
Ali cortaram troncos poderosos,
Ergueram casas de robusta madeira,
Abriram campos entre os velhos bosques
E acenderam o fogo dos salões.
Leifbúðir nasceu entre os pinheiros,
Pequena chama em terra desconhecida.
Ródrik andava entre as verdes vinhas,
Provando os frutos que pendiam maduros.
Sorriu ao ver os cachos abundantes,
Como promessa de fecundos anos.
"Não mentiam", pensou, "os velhos cantos;
A terra sonhada existe sob o sol."
Vieram dias de labor tranquilo.
Cantava o ferro sobre os troncos brutos;
Subia a fumaça reta aos céus serenos,
Enquanto os homens repartiam o pão.
À noite, junto às chamas dos salões,
Ródrik fazia soar a antiga lira.
Cantava Erik, senhor dos mares frios;
Cantava Leif, descobridor de terras;
Cantava Thor, de invencível martelo,
E Odin, sábio entre deuses e guerreiros.
Os homens ouviam em profundo silêncio,
Como se os próprios Æsir os escutassem.
Mas nem o bosque perde eternamente
A paz quando o inverno se aproxima.
Olhos ocultos vigiavam a aldeia,
Passos ligeiros cruzavam a floresta.
E o vento, ao sacudir as altas copas,
Trazia avisos que ninguém compreendia.
Não tardam Nornas a cobrar seu preço .
A paz dos homens breve é sobre a terra;
Nem sempre os bosques guardam só o canto
Das aves livres sob o céu do Norte
Mas o arrulhar de um final sangrento
Vaticinando o fim de um sonho feliz
Canto IV – Os Skrælings e a Queda de Thorvald
Primeiro foram sombras entre os troncos,
Ligeiras como o cervo em fuga rápida.
Depois, pegadas junto às margens úmidas,
Onde jamais pisaria algum dos seus.
Os cães latiam contra a mata escura,
Mas nada viam os atentos olhos.
Thorvald, prudente entre os filhos de Erik,
Mandou dobrar as rondas da aldeia.
Guardavam-se os portões ao cair da tarde,
E as lanças já dormiam sempre à mão.
Nenhum guerreiro retirava o elmo,
Nem a espada do alcance de seus dedos.
Ródrik calou as cordas de sua harpa.
Pouco a pouco esquecia os velhos cantos.
Mais frequentemente empunhava o escudo
Que o instrumento amigo de outros dias.
As mãos que outrora celebravam feitos
Aprendiam agora a realizá-los.
Certa manhã, ao romper da névoa fria,
Viram ao longe estranhos caminhantes.
Silentes vinham pela orla do bosque,
Trajando peles e empunhando arcos.
Pararam todos sobre a relva alta,
Fitando os nórdicos sem medo algum.
Também os homens de Leifbúðir
Permaneceram imóveis, observando.
Nenhum compreendia a voz do outro;
Somente o vento percorria o campo.
Longo foi o silêncio entre os dois povos,
Como se o mundo prendesse a respiração.
Então partiram rumo às matas densas,
Sem lançar flecha, sem brandir a lança.
Mas desde aquele dia compreenderam
Que já não estavam sós em Vinland.
E até o canto alegre dos riachos
Parecia ocultar presságio antigo.
Vieram depois os dias da incerteza.
Calou-se o riso junto aos grandes fogos;
As mães chamavam cedo seus pequenos,
E os velhos fitavam o escuro dos bosques.
Toda alvorada parecia breve,
Toda noite chegava antes do tempo.
Partiram homens sob o mando de Leif,
Buscando auxílio além das frias águas.
Thorvald ficou na guarda de Leifbúðir,
Com poucos braços para muitas lanças.
Contavam menos do que o próprio medo,
Mas não cederam ao poder da sorte.
Então, à sombra da primeira lua,
Ergueu-se um brado vindo da floresta.
Não era voz de lobo ou ave noturna,
Nem o rugido das tormentas do mar.
Era o clamor de homens invisíveis,
Ecoando entre os troncos como espíritos.
Voaram flechas rasgando a escuridão,
Mais numerosas que a chuva do inverno.
Caíram homens antes de erguer o escudo;
Outros tombaram junto às próprias portas.
As chamas consumiram os telhados,
E a noite fez-se rubra como o ferro.
Thorvald bradou aos filhos do Norte:
"Firmai os pés! Não entregueis a aldeia!
Melhor cair de espada entre as mãos
Que ver profanado o salão de nossos pais!"
Assim falou o filho do Ruivo,
E avançou primeiro contra o inimigo.
Ródrik tomou o escudo e a longa espada.
Já não buscava versos nem canções.
A mão que dedilhava a antiga lira
Agora conhecia o peso do aço.
Onde cantava os feitos dos valentes,
Passava enfim a escrevê-los com sangue.
Não foi somente uma a noite do ferro;
Vieram outras sobre a triste aldeia.
Como as marés que nunca cessam o ímpeto,
Assim voltavam sempre os inimigos.
Quando um caía, outro tomava o arco;
Quando um fugia, muitos regressavam.
Três luas viram o combate aceso.
Poucos restavam dentre os filhos do Norte.
As muralhas já mostravam largas fendas,
Os tetos negros cediam ao fogo;
E a esperança, outrora tão fecunda,
Minguava como a brasa sob a cinza.
Muitas vezes combateu Ródrik
Ao lado do prudente Thorvald.
Onde surgia o filho do Ruivo,
Reanimava-se o ânimo dos homens.
Seu braço abria caminho entre os arcos,
Como o machado rompe o velho carvalho.
Mas nem aos fortes o destino poupa.
Quando a aurora mal rompia as sombras,
Silvou nos ares a seta traiçoeira.
Buscou o peito do valente chefe
E ali bebeu seu último alento.
Thorvald tombou sem lançar um gemido,
Como o pinheiro vencido pelo vento.
Correu Ródrik para suster o amigo;
Tomou-lhe a cabeça entre os braços fortes.
Já se apagava o brilho de seus olhos,
Como a fogueira vencida pelas cinzas.
Então falou o filho de Erik,
Com voz mais fraca que a brisa da tarde:
"Não chores por mim, cantor do Norte.
Melhor cair com a espada na mão
Do que viver sem honra entre os homens.
Defende Vinland enquanto puderes.
Se os deuses quiserem outro destino,
Que seja digno dos filhos de Erik."
Assim falou. E o sopro abandonou-o.
Silente ficou o campo ensanguentado.
Ródrik fechou os olhos do guerreiro,
Ergueu-lhe a espada diante do céu.
E jurou perante Sága e os Æsir:
Enquanto vivesse, não fugiria.
Canto V – O Último Combate
Vieram ainda novas luas de sangue,
E cada aurora revelou mais mortos.
Calaram-se as vozes dos salões antigos;
Somente o vento respondia ao vento.
Leifbúðir, outrora cheia de esperança,
Era um montão de cinzas entre os pinhos.
Um após outro os bravos sucumbiram.
Caíram junto às portas da aldeia,
Caíram sobre os campos e os riachos,
Onde sonharam colher uvas maduras.
A terra nova, prometida em paz,
Bebia agora o sangue dos seus hóspedes.
Ao romper de uma manhã silenciosa,
Ródrik caminhou entre os caídos.
Reconheceu amigos de longos invernos,
Companheiros das mesas e dos remos.
Cobriu-lhes o rosto com peles de lobo,
Pois nenhum filho lhes cerraria os olhos.
Deteve os passos junto ao grande salão.
Restavam apenas vigas enegrecidas.
Ali pendia outrora a antiga lira,
Que celebrava os feitos dos antepassados.
Agora, entre carvões e cinzas frias,
Dormiam mudas suas cordas partidas.
Tomou então um jarro meio quebrado,
Onde ainda restava escuro vinho.
Ergueu-o alto na direção de Asgard
E derramou primeiro algumas gotas.
"Recebei", disse, "este último tributo,
Vós que julgais o valor dos guerreiros."
Depois bebeu o que restava no vaso.
Não era o vinho da festa sonhada,
Nem o que imaginara entre videiras,
Quando cruzara o mar com tanta esperança.
Era o sabor amargo da despedida,
Misturado ao ferro que trazia nos lábios.
Então vestiu a pele sobre os ombros,
Apertou firme o cinto da espada,
Tomou o escudo marcado pelos golpes
E caminhou para diante da aldeia.
Não buscava mais salvar Leifbúðir;
Buscava apenas honrar seus mortos.
E como o lobo que, cercado pelos caçadores,
Não procura a fuga, mas o combate,
Assim ficou Ródrik entre as ruínas,
Esperando que o destino o encontrasse.
Então caiu o silêncio sobre a terra.
Nem ave alguma percorreu os céus,
Nem o pinheiro gemeu ao vento.
Até os rios pareceram lentos,
Como se o mundo esperasse o instante
Em que se cumpriria o último destino.
Ródrik fitou a vasta mata escura.
Não havia temor em seu semblante.
Os deuses deram aos homens um só fim;
Cabe aos valentes escolher o modo.
Assim pensou o derradeiro filho
Que ainda guardava as ruínas de Vinland.
Subitamente um clarão rompeu as sombras.
Uma flecha em fogo abriu os ares
E veio arder aos pés do guerreiro.
Logo outras muitas cruzaram os ventos,
Como estrelas caindo do firmamento,
Buscando a morte entre os salões queimados.
Então saíram da floresta os homens,
Cobertos de peles, armados de arcos.
Eram numerosos como as folhas
Que o outono espalha pelos campos.
Seu clamor encheu os bosques antigos,
Fazendo estremecer as altas copas.
Ródrik não recuou sequer um passo.
Apertou contra o peito o largo escudo,
Sentiu na destra o velho peso da espada,
Respirou fundo o ar das terras novas
E voltou os olhos para o céu distante.
Então sorriu.
Não era o sorriso da esperança,
Nem o do homem que espera viver.
Era o sorriso sereno do guerreiro
Que finalmente encontra seu destino.
Lançou-se, então, sozinho contra muitos.
Como o lobo cercado pelos caçadores,
Vendia caro o sangue derradeiro.
Sua espada traçava largos arcos,
E onde passava o terrível ferro nórdico
Tombavam homens sobre a relva escura.
Flechas romperam-lhe a carne dos ombros;
Outra lhe abriu o flanco com violência.
Mas não cedeu um passo ao inimigo;
Mais firme erguia a lâmina sangrenta,
Como se Thor lhe sustentasse o braço
No último combate de sua vida.
Cercaram-no por todos os caminhos.
Vieram lanças, machados e setas.
Sozinho contra a fúria de centenas,
Lutava ainda o derradeiro nórdico.
Então ergueu a espada para os céus
E fez tremer as matas de Vinland:
"EU SOU RÓDRIK!
RÓDRIK THORISSON!"
O brado do último guerreiro de Leifbúðir
Ecoou pela noite de Vinland.
Então veio o silêncio.
E o vento levou seu nome pelos bosques,
Como leva as folhas no outono tardio.
As águas guardaram sua memória,
E as pedras ouviram seu último grito.
Assim vivem os feitos dos valentes,
Na voz eterna das sagas do Norte.
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