Quando mudei lá pra Santa Luzia, eu não sabia ainda o que me esperava. Engraçado, eu esperava algo. Esperar, tantos sentidos. Mas também sabia que minha vida se escoaria para aquele ralo sem sentido. Eu sempre tive muita convicção do meu destino. O vento dizia e eu sabia que no espelho um idiota me observava. Mas eu tinha esperanças, que eram desejos. Toda pessoa, por desprezível que seja, por mais que saiba da sua miséria, da sua impossibilidade, deseja uma réstia que seja de felicidade.
Eu a vi num domingo à tarde enquanto bebia sozinho aquela cerveja. Faz tanto tempo. Ainda ouço seu sorriso alegre nos corredores. Como alguém pode ouvir um sorriso? Ouve-se uma gargalhada, mas um sorriso é uma expressão no rosto, uma coisa que se faz com a boca e os olhos. Mas eu ouço, eu vejo seu brilho, eu sinto seu gosto. Mesmo sem nunca ter te beijado. Sem sentir o toque suave da sua pele, o cheiro do seu perfume nas suas roupas. Eu nem mesmo sabia seu nome.
Já era proibido vender bebidas a menores. E já não havia consequências para quem vendesse. Mas não havia bebida no dia em que a vi sozinha no ponto do ônibus que eu também tomaria. Muito simpática, pagou com o mesmo sorriso anônimo o meu tímido bom dia. Sentou-se num banco duplo, no canto, e sorriu quando hesitei ao passar. Deveria sentar? Um sorriso é um convite ou a expressão do medo nervoso diante de alguém que pode ser ninguém ou um perigo?
Sentar e ser repelido. Sentar e encontrar no sorriso alguém para dividir duas palavras, dois sorrisos. Uma vida. Mas hesitei, e na minha hesitação, que pode ter durado dois segundos ou dez minutos, a encontrei distraída olhando os postes, as pessoas e as casas correrem com pressa para a traseira do ônibus. E fui sentar lá onde as coisas deixavam de aparecer nas janelas.
Muitas vezes recebi aquele sorriso em troca dos meus bons dias. E muitas vezes ocupei o banco distante. Eu nunca respondi ao que ela deixou de dizer. A minha convicção andava ao meu lado e puxava-me pelo braço quando eu achava que havia algo diferente.
Um dia meu bom dia ecoou no vazio do ponto. E nos outros dias ele submergiu para dentro do meu silêncio. E não sentei mais. As coisas passando lá fora contrastavam com as coisas paradas aqui dentro. Mas eu sabia. Tinha a convicção de que meu destino era ser o ninguém de qualquer alguém.
Os dias trouxeram semanas encaixadas em meses e anos. Os anos deram as mãos a décadas.
Um dia me trouxeram para andar nesses corredores. Acho que para me acostumar ao silêncio. E fui adivinhando as vidas nas imagens. Datas caminhavam lentamente para o fim do corredor. Então vi. Mas ignorei antes de voltar atrás e olhar mais uma vez. Sob a imagem havia uma frase de saudade seguida do nome dos filhos. Era lindo, mas tudo o que me importava era a imagem e nela o sorriso.
Bom dia...
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