segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Como uma folha no início do Outono



E seu eu pudesse, como as folhas no início do outono, flutuar abrigado nas correntes invisíveis do ar? Ali entre terra e céu a eternidade de uma folha se aninha nas dobras incertas da infinitesimal parte de um "estar".
A noite e o dia espremidos no leve farfalhar da folha, pluma verde, transportada pelo ar. Carências não haveria, pois somente o ar ao redor, folha sensível, ditaria cada querer e cada desejar.
A folha pairando no ar é a vida entre vagir e estertorar, é começo e despedida, tudo junto, como se o mínimo fosse a expressão do infinito e este como um nó numa corda que se lança entre o nada e o não-ser nas sombras do fim, se há.
Seria brisa forte ou ventania, mas o tempo, se havia, correria pelas encostas gramadas, como carneiro selvagem dando saltos sobre saltos e voltando-se para cima enquanto encaminha-se para baixo.
E no fim, que é sempre o começo, a folha, como um véu que se desprende das noivas que vivem entre as estrelas, pousaria em doce calma sobre o solo e a desintegração começaria sua arte inimitável de fazer com que o que foi seja parte desse incerto ciclo que se chama vida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Era novembro de 1989
















Era novembro de 1989 e as coisas estavam quentes por causa da campanha presidencial, a primeira com eleições diretas para presidente desde o fim do período militar. O clima era de esperança, parecia que o Brasil finalmente ia engrenar!
Lula e Collor disputavam as eleições. O pessoal, principalmente os mais pobres, estava deslumbrado pelo Collor.
O VANDERLEI falava comigo. Ele tinha visto um debate entre os candidatos, e ficara muito impressionado pelas respostas do Collor.
A cultura era, como é, pesadamente mediada pela televisão. Principalmente a Globo. Era óbvio que Collor era a opção da emissora. Ele encarnava perfeitamente o galã de telenovela, jovem, bem sucedido, esportista e inteligente. Ou assim fazia crer. Era era mais ou menos o Roque Santeiro (personagem de José Wilker na novela do mesmo nome) da vida real. E quem viveu aquela época sabe que o ator virou uma espécie de herói nacional, numa convergência da ficção com a realidade. Assim Collor foi recebido. E não era só o clima brasileiro, mas o mundo todo parecia efervescer. Naquele mesmo mês de novembro caiu o muro de Berlim.

Collor representava o novo mundo, a esperança. Era o Messias, como antes fora Tancredo Neves, mas atualizado para uma nova época, e com muito mais "charme". Aliás, como é forte esse negócio de messianismo na política! Anos depois até o Lula ia encarnar esse arquétipo, e com sucesso.

Mas eu estava tendo uma conversa com o Vanderlei. Ele fazia um panegírico (discurso elogioso) ao Collor, e eu ouvia deslumbrado. Ironicamente essa conversa se desenrolava num local bem pobre. Não havia água ou luz elétrica. A paisagem era bonita, um campo verde com alguns barracos e um rio ao fundo. Mas a pobreza era palpável. As pessoas que viviam nesses barracos haviam sido desalojadas de outro lugar.
Eu preciso falar do Vanderlei. Era meu amigo, dois anos mais velho. Ele tinha lá seus 16 anos. O pai tinha arrumado uma mulher mais jovem a deixara ao Vande a responsabilidade de cuidar da mãe e de dois irmão mais jovens. Ele trabalhava com construção, e não deixava faltar comida na mesa.
O Vande era um sucesso entre a gente. Na época os filmes de artes marciais faziam muito sucesso, e ele conseguia fazer uma abertura de pernas completa sobre duas cadeiras, igual ao Van Damme.
Mas era um garoto pobre, e com pouca educação formal que via no Collor o salvador do Brasil.
O tempo passou. Collor foi e voltou. A população, embora mais "educada", mudou muito pouco e messias ainda aparecem em toda nova eleição.
E eu não sei como anda o Vanderlei, hoje com seus 44 ou 45 anos. Será que ainda persegue seus messias? Ainda faz a abertura do Van Damme sobre duas cadeiras e acompanha extasiado os debates políticos?
Ou se tornou, como boa parte de nós, um telespectador desiludido que observa os tempos irem e virem, num eterno rodopiar de novidades que não passam de velharias repaginadas?
Vai saber.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Sobre ser Crítico

Ter senso crítico não significa colocar-se sempre contra tudo e todos. O senso crítico é algo que deve ser desenvolvido pelo estudo e observação do mundo ao redor. Uma pessoa com senso crítico desenvolvido não se coloca como portadora da verdade, mas como alguém que analisa aquilo que recebe, ou mesmo aquilo que produz.
Ter senso crítico não significa emitir sempre opiniões críticas. Ele é uma ferramenta de compreensão do homem para si. Mas às vezes a pessoa decide se manifestar.
Quem critica aquilo que não conhece, ou que conhece muito superficialmente, ainda é escravo da sua própria ignorância. Existem coisas que podem ser criticadas no primeiro contato, pois não demandam conhecimento mais aprofundado. Mas é sempre bom respirar antes de emitir a opinião.
Uma crítica imperfeita é aquela que não traz junto uma solução. É fácil demais apontar o dedo, mas fazer melhor não é tão simples assim.
A melhor crítica será sempre a ponderada, aquela que primeiro imergiu no conhecimento que pretende analisar. Aquela que soube ver pelos olhos do seu contrário e sentir pelo seu coração. Logo, uma crítica adequada sempre carrega um tanto de empatia.
A melhor crítica concentra seu esforço na coisa criticada, e, se não for esse o caso, evita criticar quem carrega tal ideia.
Só em casos extremos ela é virulenta, e apenas aí sua força é endereçada à pessoa, pois não se trata de combater ideias, mas indivíduos que usam ideias apenas como subterfúgios.
A crítica não é a coroa do crítico, é apenas a capacidade que ele tem de comparar ativamente o que está diante de si com o que existe dentro de si. um crítico razoável nunca será uma pessoa vazia, e muito menos apressada.
A melhor crítica é aquela que ganha uma consciência, e passa tão despercebida que nem se cogita que houve mesmo uma crítica.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

POR FAVOR NÃO JOGUE PAPEL NO CHÃO

"POR FAVOR NÃO JOGUE PAPEL NO CHÃO"
"Não jogue papel no chão" como aviso num banheiro, escrito assim mesmo, já parece algo redundante, afinal, papel usado não deve ser jogado mesmo no cesto reservado para esse fim? Parece óbvio, não?
Trafegue pela rua e não pela calçada.
Use roupas ao sair de casa.
Não evacue no chão da cozinha.

E os avisos que deveriam ser desnecessários se avolumam.
Por que as pessoas têm que ser lembradas de que não devem fazer aquilo que é lógico não fazer?
Mas a surpresa não está na redundância do aviso. Está na locução adverbial que antecede. Não é um aviso, nem uma ameaça. É um pedido.
Como se alguém do outro lado implorasse "por favor não faça isso ". Imagino que o "por favor" ali é só polidez mesmo (ou ironia), um "por favor" do tipo "caramba meu, você vai fazer isso mesmo?".
Por que um banheiro precisa desse aviso? E daquele outro: "mire no centro do vaso ô cara!". "Por gentileza, não use suas fezes como tinta para deixar mensagens escritas à mão nas paredes".
É uma merda...
E o aviso? Ora, o banheiro é coletivo. E você sabe, o que é de todos acaba não sendo responsabilidade de ninguém. Não! Pelo contrário!!!!
E os avisos desnecessários continuarão absolutamente necessários. Se não para ameaçar, pelo menos para tocar o coraçãozinho do criminosinho anônimo que insiste nos seus pequenos atos revolucionários...

sábado, 12 de novembro de 2016

Quando comprei meus chinelos.



Quase todo mundo tem uma história marcante vivida na infância. Pode ser o dia em que aprendeu a andar de bicicleta, ou ganhou medalha no judô, tirou dez na prova de matemática, ou quem sabe ganhou aquele brinquedo que todos os amigos queriam. Eu também tenho a minha história , e ela aconteceu no dia em que comprei meu primeiro par de chinelos, as populares sandálias de borracha Havaianas.
Eu tinha, então, oito anos e as coisas andavam muito difíceis. Meus irmãos Cristiansara e Alex eram muito pequenos. Faltava tudo.
Naquela manhã o chinelo arrebentou de novo, e não havia mais prego que desse jeito. Minha mãe não tinha dinheiro para coisas mais urgentes, quem dirá meus chinelos.

Eu tinha que arrumar "algum". Na verdade eu já vendia sorvetes nas horas de folga, mas o que eu ganhava era sempre tão pouco...
Era um domingo. Saí de casa descalço e sem camisa, mas decidido. Fui até a sorveteria, apanhei a primeira caixa, e a segunda, e a terceira...
Andei pelas ruas apitando e trocando os pedaços de gelo levemente aromatizados pelas desejadas moedinhas.
No fim da tarde entreguei a caixa vazia. Assim que entreguei eles fecharam a sorveteria. Eu lembro de uma menina mais velha me atendendo e dizendo que eu fora o único sorveteiro daquele dia.
Eu não lembro o valor, nem o que eu senti. Mas não me esqueço da minha mãe me levando ao mercado. Esse mercado ficava onde hoje é o Supermercado Basso, perto da pedreira Paulo Leminski. Não sei se já era esse o nome.
Lembro claramente da minha mãe procurando meu número na prateleira, do pacote de plástico com fecho de barbante e dos chinelos. Chinelos dos mais simples, brancos em cima e azuis claros no solado e nas correias. Mas meus chinelos! Chinelos que me custaram um dia todo de trabalho, umas boas topadas nas pedras, cortes nas solas dos pés e uma experiência que me enche a memória de uma alegria ainda inexprimível trinta e quatro anos depois.
E ainda sobrou dinheiro para comprar alguma comida. 

Animais Sociais

A vida moderna, com sua ênfase no individualismo e no sucesso pessoal, nos privou de algo natural em nossa espécie, a identidade comunitária.
Hoje mal conhecemos nossos vizinhos, e mesmo mantendo uma vida social "adequada", ainda criamos rituais que permitam algum distanciamento. Essa é a razão do sucesso, tanto agora quanto no futuro, das religiões, ideologias, torcidas organizadas, clubes disso e daquilo... enfim, tudo o que promova o sentimento de pertencimento.
Somos animais sociais que só encontram sua plena realização no convívio com outros. A própria individualidade é um efeito da pluralidade comunitária. Pois o "eu" sem o "tu" se perde no oceano dos termos sem referencial.
A recuperação da sociedade, e de uma individualidade sadia, passa, necessariamente, pelo resgate da nossa natureza gregária, do nosso desejo insatisfeito de pertencimento, de comunidade.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Eu sigo

Eu sigo a luz dourada do último raio de sol
Acariciando em sua despedida as faces dos vales
E permitindo às sombras que mergulhem
Nas águas calmas dos lagos e sinuosidades dos rios
Quando as árvores alegres e matreiras dizem
Seus últimos versos ao anoitecer, rodeadas
Pelo canto dissonante das aves e pela
Balada ancestral sussurrada pelo vento
Eu sigo,
E a luz pálida da lua, refletida nos ladrilhos
Da minha casa de paixões e ternuras
Inunda minhas velhas aspirações de um certo desejo
Antigo, e amealhado de zombeteiros pensamentos
Que levam a última chama da minha ilusão
Racional aos vales áridos onde minhas alma
Acampa rodeada de velhos e novos espíritos
Todos eles esquecidos pela nova gente
Que jorra de todas as tocas e das cavernas
Artificiais, onde o mundo toca uma reverberante
Canção que me afugenta, e me faz desejar
A solidão das imensas pradarias dos meu mais
Ilegítimos sonhos...
Eu sigo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Filhos e Árvores


Existe algo imprevisível na criação dos filhos que se assemelha, guardadas as devidas proporções, ao cultivo de uma árvore frutífera.
Você pode escolher o lugar em que vai plantar a muda, mas não pode controlar os limites de suas raízes. Você poda seus galhos, e até, por meio de algumas técnicas, controla a direção e tamanho deles. Mas não pode controlar, em essência, todas as possibilidades de configuração desses galhos. Não é possível saber como e quando se desenvolverá cada um de seus pequenos ramos.
Você pode fornecer à sua planta água e os nutrientes necessários para que ela se torne viçosa e frutífera, mas é incerto que ela dará frutos até que chegue a época certa e você veja despontarem as primeiras flores. É incerto que os frutos, mesmo com o melhor de seus cuidados, terão exatamente a cor e sabor que você gostaria, pois você não pode controlar o modo como sua planta foi polinizada e nem mesmo a origem dos grãos de polem trazidos pela abelhinha industriosa ou pelo vento impessoal. , Exceto se tiver um grande número de plantas num local totalmente controlado, mas nesse caso a sua planta será para sempre dependente daquele ambiente, e menos viva que todas as outras que vivem entre a terra e o céu.
Você pode ser o melhor lavrador do mundo, mas depende de outros fatores além de sua vontade. Nossos filhos também sofrem influências que não podemos nem devemos controlar. O bom lavrador faz o melhor de si, mas é no mundo ao redor que sua planta vai buscar aquilo que a torna apta a sobreviver. Os filhos levam muito de nós, mas é no mundo que sua própria essência se cristaliza a partir do que têm e do que receberão.
Um filho é como uma árvore que dará os seus frutos se bem cuidada. Mas o lavrador deve entender e aceitar que ele não produz nada, ele apenas abre os portões por onde entram e saem as emanações da vida.
O resto são consequências.

sábado, 10 de setembro de 2016

Sobre o nome do Blog

Alterei o nome do blog para "Sobre Sentidos e Direções", com todas as significâncias que isso pode trazer, porque não havia mais sentido em defini-lo como "divagações". Faz tempo que esse blog deixou de ser apenas um local onde posto poemas e outras textos literários. Há muitos artigos de opinião tratando de temas diversos como comportamento, política, religião, ciência, etc. Eu gosto das coisas assim, não faria muito sentido criar um blog para cada um dos temas que gosto. Eu já tenho pouco tempo para este, imagina ter que manter outros, considerando que já tenho dois, e o outro é uma espécie de fóssil.

Não mudei o domínio porque isso poderia afetar as buscas.

OBS: Depois descobri que havia outros blogs sentido, sentido e direções, então resolvi colocar um "sobre" na frente. Isso meio que dá um ar clássico, pois os tratados de antigamente sempre tinham um "sobre" na frente. Fica assim mesmo por enquanto.

Policiais e Militares


Militar vem etimologicamente de "miles", o termo em latim para "soldado" (que por sua vez é "aquele que recebe soldo"). Em português "militar" é alguém que faz parte das forças armadas ou pertence a alguma instituição regida por leis, normas e regras marciais, isto é, relacionadas à guerra, à ética do guerreiro.
O militar tem uma ética própria, calcada em valores da pátria. Seu fim é sempre coletivo. O soldado defende a nacionalidade, ele garante que uma nação mantenha sua unidade, com seu sistema de governo e população. O militar incorpora o ideal guerreiro em que matar o inimigo constitui honra, assim como morrer em defesa de sua nação. O militar não mata como fim. O fim é a derrota do inimigo. O inimigo do soldado, ou seja, o soldado de outra nação, ou de facção interna da própria nação, não é alguém "mau", ele não cometeu crime algum exceto estar do lado errado no campo de batalha.
Policial é um termo que deriva, através de "politéia", de "polis", de onde derivam "polites" e "politikós" (πολίτης, πολῑτικός) , que era o cidadão com direito de voto nas antigas cidades-estado gregas. O policial é um profissional que garante a ordem interna de uma sociedade.Ele atua coletivamente, mas sua função exige o trato individual, pois os "casos" em que se envolve são sempre relacionados a um grupo restrito de pessoas.
Os romanos traduziram "polis" como "civitas", nesse caso Roma, a grande cidade "que reina sobre os reis da Terra" (segundo o Apocalipse) ou aquela que é oposta à Civitate Dei (cidade de Deus) de Santo Agostinho. De "civitas" derivou "civil". Os herdeiros diretos dessas cidades são os Estados Nacionais. O policial, portanto, tem sua função ligadas às relações civis. Ele atua contra o erro, o seu adversário é sempre alguém cujos atos são "maus". O policial é um promotor de cidadania, ele é o garantidor da ordem interna do estado.
Quando observamos as ordens internas desses dois tipos de instituição percebemos suas finalidades distintas. E a finalidade de uma instituição é o que organiza sua estruturação e determina os modos de formação de seus membros. Para o militar, o mal é o que anima qualquer um que esteja do outro lado, o inimigo. O policial tem como inimigos os ATOS que se opõe à justa operação das relações internas do estado e de seus cidadãos. O militar fala em "luta" num sentido literal. "Luta" para o policial tem vários sentidos e nem todos implicam num confronto físico com forças opositoras, exceto quando as funções do militar e do policial se fundem em casos de guerra civil, de confrontos com o crime organizado, etc.
O militar atua como polícia local, mas apenas em caráter temporário e quando a estrutura do estado está ameaçada. O militar garante a unidade do estado, o policial garante a capacidade de operação desse estado.
Confundir de modo permanente essas duas importantes funções pode gerar um desiquilíbrio grave no conceito de cidadania. Pois o cidadão infrator deixa de ser alguém com ação imprópria limitada no tempo para se tornar um inimigo a ser eliminado. E a população "não-infratora" acaba sendo vista com desconfiança, no mesmo sentido que soldados vêem populações autóctones em zonas invadidas. O militar vê a pessoa, pois ela "faz parte de". O policial vê o ato. Para o militar, a pessoa só tem os direitos que são determinados pelas convenções da guerra. Para o policial a pessoa só tem as limitações impostas pelas leis.
No Brasil temos as duas funções confundidas. Daí temos uma série de políticas e técnicas em relação ao público que assumem uma perspectiva de guerra urbana. As medidas para melhorar a polícia sempre têm como fim manter certa aparência para os cidadãos, considerando que as estruturas rígidas do militarismo não podem ser mudadas.
Num ambiente assim, a "polícia" deixa de ser um serviço para se tornar uma instituição e o cidadão passa a ser visto como alguém de segunda ordem. Essas são razões básicas para se repensar a estrutura policial brasileira. Apesar do que parece, mesmo as instituições de nome civil obedecem à regra implícita do modelo militarizado.
O grande desafio da segurança pública brasileira é criar um modelo de polícia que seja guiado por noções de cidadania e liberte-se da luta armada contra o inimigo do estado.

sábado, 3 de setembro de 2016

Lembrança


Ontem eu fui atacado.
Fui atacado por uma daquelas lembranças que nos levam lá para os dias da inocência. A coisa aconteceu em 1988, no dia 18 de novembro, era começo de noite.
Eu tinha treze anos. O coração apertado. No dia seguinte seria meu aniversário e estaríamos de mudança.

Eu era muito inocente. Demais da conta! Muito diferente dos adolescentes de hoje, e até suspeito que dos daquele tempo também.
Eu estava apaixonado. A primeira névoa do amor cobrira meus olhos já desarrazoados.
A menina se chamava Marli, tinha dezesseis anos e era a irmã mais velha de um de meus amigos. Mas as meninas de dezesseis anos daquela época, como as de hoje, imagino, estavam mais interessadas nos rapazes de dezenove ou mais.
Não havia como ela notar aquele moleque que jogava bola na rua com seu irmão.
A Marli trabalhava num supermercado, e toda noite eu esperava ela passar. Ela passava pela rua e meu dia estava ganho. Não sei se algum dia ela notou que eu estava ali, na beirada do terreno, geralmente sentado com o queixo apoiado nas mãos.
E aquela seria nossa última noite juntos!
Meu coração batia forte. Ela passou, eu chamei sei nome. Ela parou.
"Eu só queria me despedir de você, amanhã eu vou me mudar".
Ainda lembro do modo como ela me olhou. Foi uma mistura de pena com, talvez, um pouco mais de afeto do que o razoável...
Ela disse algo, mas eu já tinha me perdido nos seus olhos negros.
Então ela colocou as mãos sobre meus ombros e depositou vagarosamente os lábios sobre os meus.
O mundo parou. Silêncio.
Ela se afastou. E eu me virei. Não podia dizer mais nada. E corri, corri com todas as minhas forças! Eu não olhei para trás, eu apenas me projetei para a frente movido por uma energia que eu nunca sentira antes!
A mudança veio. E os anos se foram.
Quando eu tinha dezenove anos encontrei a Marli no ônibus. Agora éramos dois jovens e a diferença de idade não parecia mais tão grande. Conversamos um pouco. Chegou seu ponto e ela desceu. Não houve mais nada, nem a vontade de que houvesse.
Ela talvez ainda fosse a Marli daquele começo de noite. A Marli carinhosa daquele beijo.
Eu é que não era mais o mesmo.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Sobre a Dominação Ideológica da nova Militância Social

Foto da Militante Elisa Quadros, a "Sininho".

A "nova militância social" entra nas regiões mais pobres e faz proselitismo intelectual. O pobre e sua comunidade não passam de abstrações sociológicas para essa militância. Eles entram com ideias prontas, e criam movimentos que não são originariamente produto da reflexão das pessoas que vivem naquelas comunidades.
E mesmo assim o militante social vê nas pessoas o que os estudiosos em comportamento animal vêem na natureza. As pessoas e suas relações são reduzidas a um aforismo, um apotegma.

Esse militante vem carregado com conceitos intelectuais muito belos, e ele mesmo, cheio das ideias que tem de si , encarna o libertador, a entidade que destrói toda opressão real ou imaginária ou potencialmente imaginária.
E ainda assim o pobre exerce sobre ele uma espécie de fascínio existencial. O pobre é o que mais se parece com o bom selvagem de Rousseau, depois do índio. Por isso o militante admira o pobre, pois ele representar a antítese do seu próprio modo de vida artificial. Na favela, as relações sociais dependem muito mais das pessoas do que de uma imposição do estado ou das regras de convivência explicitadas nos livros e nas filas da Disney.
Ele precisa do pobre, ele precisa sentir a vida como ela é. Ele tem desejos de dançar na lama com os meninos seminus, mas seu superego conflitado se insurge, e ele mesmo, ainda suspirando pela lama romântica tenta a todo custo suprimir a lama das favelas.
De fato esse militante exerce um tipo de violência sobre essas comunidades, pois ele representa um fluxo de dominação ideológica e intelectual que não tem origem naquelas comunidades. Ele pode observá-los, tecer explicações sobre eles, mas não tem como ele entender essencialmente o que eles são.
O melhor para essas comunidades seria produzir seu próprio pensamento, criar um movimento que não seja fruto das crises de consciência de uma elite entediada. O pobre vai para a academia e volta mimetizando as dores do rico e trazendo as mesmas soluções. É preciso libertar-se disso também.
Eu sei. Sempre fui pobre.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

As vozes dolorosas enchem as fronteiras...

As vozes dolorosas enchem as fronteiras
De gente que sofre, que sente, gente que morre
Como formigas...
As luzes de todas as cidades são reflexos
Dessa indiferença
E as paredes escondem nossa vergonha
Das vítimas que se amontoam pelas
Praças de outras cidades
Nas noites frias contemplamos as faces
Quentes de nossos filhos que adormecem
E esquecemos as faces suplicantes
Dos filhos de filhos esquecidos
Dos filhos da nossa gente!
Damos de ombros, e os ombros da mente
À responsabilidade que não pensamos
Que temos
Como se a vida tivesse tornado
Nossa natureza amplamente social
Em individualidade furtiva
Somos nós os geradores
De todo esse mal que não é necessário
Como se algum o fosse...
Talvez um dia tenhamos a coragem de banir
A dor que criamos
Para além de qualquer fronteira
De qualquer possibilidade de lembrança
Talvez uma dia tenhamos
No igual um igual e irmão
E nenhuma diferença haja
Nem posição, cor ou escolha
No dia em que a única pátria
Seja a humanidade.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Político Sazonal


Hoje aqui me apresento caro amigo eleitor
Sou o político sazonal a seu inteiro dispor!
Eu corro as ruas e morros a cada novo pleito
Pois só tenho uma meta que é ser de novo eleito!

Eu beijo criança, beijo velhinho e se calhar cachorrinho
Pois só penso no cargo onde por quatro anos me aninho
Eu sei o discurso da ética e da tal da honestidade
Mas penso que o bem é coisa das casas de caridade

E se você pensar bem, por que não votar em mim?
Eu pelo menos me escondo em mandatos sem fim
Ficando dos seus olhos oculto e nas intrigas banais
Fazendo meus belos atos de hipocrisias teatrais!

E se me acusa de ser sem vergonha, ora amigo!
Somos todos bem culpados, se não, pensa comigo:
Se quem vota é como quem entrega cheque assinado
Que culpa tenho eu se só o tenho, e bem, descontado?

Vou deixando aqui meu santinho com minha foto sorridente
Sem te contar dos fantasmas - um e outro meu parente
Dizem que em política não é adulta a população brasileira 
Não sei, só sei que a omissão é minha alegria financeira!

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Sobre Organizações Terroristas e Fragmentação Nacional


Se as pessoas do mundo fossem indagadas sobre a face mais clara do mal, eu não tenho dúvida que lá nos primeiros lugares estaria o ESTADO ISLÂMICO. Ele e seus congeneres TALIBAN e BOKO HARAM são o que de mais "aplicado" existe em fanatismo e loucura homicida.
Houve época em que a gente ouvia falar em terrorismo como coisa distante, até que em 2001 ele se tornou global. Mas a AL Qaeda representava um terrorismo algo esclarecido, menos sanguinário. A ponto de muita gente questionar se as notícias não eram mera invenção da CIA. O EI não é assim, ele mesmo faz questão de cinematografar suas atrocidades. De qualquer modo, o crescimento dessas organizações mostra, pelo menos para mim, a importância dos Estados modernos organizados, mesmo que não sejam democracias no sentido ocidental.
O TALIBAN, esse sim cria da CIA (e do RAMBO...) cresceu e se firmou num estado dividido entre lutas tribais e a dominação soviética. Bin Laden, treinado pela CIA, mais tarde se voltou contra seus benfeitores e criou a AL QAEDA .
Os americanos, -sempre os americanos!- na sua luta contra a Al Qaeda e na sua ânsia por petróleo, destruiram as frágeis bases da estabilidade no oriente médio. Da fragmentação de nações, e da AL Qaeda, surgiu o Estado Islâmico.
O Boko Haram surgiu na Nigéria, e nem preciso falar da instabilidade de boa parte das repúblicas africanas, herança do período imperialista europeu. Instabilidade por questões de herança tribal e divisão de terras e povos, de religiosidade autóctone, de fragmentação importada pelas religiões impostas por conquistadores, entre tantas outras coisas.E não é de espantar que o BH tenha se aliado ao EI, ambos têm a mesma sede por sangue e o desejo de implementar a sua versão radical da Sharia no MUNDO TODO.
Para nós fica a lição de valorizar nossa nação e nossa democracia ainda imperfeita. Na periferia da nação existem candidatos ao poder. São os poderes paralelos do crime, do fanatismo religioso e das ideologias marginais.

sábado, 30 de julho de 2016

Cinco Contos Minimalistas

Suspense
Francisco estacou frente à escada ensanguentada. Som de goteira. O coração batendo forte nas têmporas. Na penumbra, a faca avermelhada espreita o limiar de suas costas. Som abafado, uma palavra presa nos lábios. Silêncio.


Romance
Fecha o armário. Livros enchem suas mãos. A escada estreita, primeiro degrau. Para. Olhos nos olhos. O sorriso doce encanta ajudado pela sedução das primeiras palavras. E os corações não bateram mais sozinhos.

Terror
As sombras escondem-se das chamas na caverna. Som de uma respiração grotesca acima nos vãos das rochas mal iluminadas. O vento leva o fogo e a luz. As sombras agitam-se. Garras cortam bruscamente a carne lançando nas paredes sangue e vísceras.

Comédia
No refeitório. A mulher de vestido curto e saltos altos caminha pelo corredor-passarela. Levanta a cabeça, a gravata encontra o café. A mulher ri. A mão mergulha no mingau do vizinho, quente. Levanta, joelhos na mesa, coisas ao chão. Desequilíbrio. Cai para trás com a cadeira e a mão ainda agarrada na calça do chefe ruborizado por causa do calção cheio de corações. Gargalhadas.

Ficção Científica
Cem anos. A imagem azul enche a tela e a felicidade de uma geração que não conheceu sua Terra inunda os corredores e salas da imensa nave-colônia. O tempo flui e o mundo enche-se de verde e novas espécies correm por seus campos jovens. Nas cidades cientistas miram as estrelas e colhem os dados que darão suporte às novas levas de colonizadores. No bojo da nave olhos contemplam o último céu que verão. Oitenta anos. No fundo negro do espaço uma joia verde-azulada se destaca. Lar.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Funcionalismo Público e Conformismo

Tem uma coisa assustadora no funcionalismo público de hoje, é o seu conformismo.
É uma desesperança, uma busca incessante pela "normalidade". É como se a tal estabilidade exigisse algum tipo de imobilidade. E isso acontece em todas as escalas, em todos os graus hierárquicos. Mudanças e novidades não são desejáveis.
Entenda, não estou dizendo que todo funcionário público é um conformista. É mais como um "clima". É comum você ouvir que "as coisas são assim mesmo", que "nunca vai mudar". E é fácil a gente se render a essa ideia.
Há inúmeras razões para isso, uma delas é que no serviço público quase nunca há espaço para o mérito pessoal. As coisas correm mais no jeitinho político e pessoas inovadoras ou com perfil mais arrojado são, nem sempre sutilmente, desencorajadas.
Uma outra é o excesso de carreiras "estanques", as pessoas simplesmente não têm para onde ir e isso inibe bastante a ascensão de "uma geração melhor".
O terceiro ponto que destaco tem a ver com o anterior. Pessoas com potencial levam muito tempo para ascender na carreira, e o tempo vai demolindo sua vontade.
O que define o sucesso de um servidor é sua adesão ao programa político do momento. Então não é difícil imaginar o tipo de seleção que vai sendo feita...
Obviamente isso começa com o poder político, pois tal estado de coisas é encorajado por cada novo gestor. Lembremos que os grupos políticos têm PROJETOS DE PODER e só por consequência um projeto de governo. Desse modo os cargos dentro do governo são distribuídos de acordo com alianças políticas, o que nem sempre garante a qualificação adequada para a ocupação de determinado cargo.
Nesse estado de coisas os servidores de carreira são preteridos, o que leva a uma disputa cruel por cargos e funções menores.
Isso afeta diretamente o serviço prestado. Primeiro porque os atos de gestão vão na direção do espetaculismo teatral, e menos no caminho árduo da efetividade. Segundo porque os ocupantes dos cargos com poder de decisão nem sempre são os melhores e em terceiro porque os servidores se vêem numa teia apertada onde o "mínimo é sempre o melhor".
E todos nós perdemos com isso.

sábado, 9 de julho de 2016

Essa noite eu fui um soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro

Essa noite eu fui um soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro...
Subíamos uma viela estreita, eu e meu parceiro, com as laterais da viatura quase tocando as paredes. O rádio zumbia captando sei lá que onda de estática. Era ronda, ronda rotineira. Que é isso parça? Três anos fazendo isso, de boa. É só mais um plantão.
O parceiro parecia perdido com as mãos ao volante, talvez pensando nas doze horas que teria no BICO após terminar o plantão. Instintivamente eu acariciava a coronha da .40 que jazia apoiada sobre a minha perna direita.
Um garoto, uns 11 anos, está na frente do veículo. Paramos. Ele nos olha com o ódio do mundo, com o inverno nos olhos que anunciam a morte do mundo! E faz um gesto como se tivesse uma arma nas mãos. Vai morrer PM!
Mal o menino se enfiara por um beco, um projétil estilhaçou o para-brisas dianteiro lançando um milhão de pequenas estrelas de gelo na nossa cara.
O rádio gritava! O morro brilhava com o tracejado das balas correndo como Berserkers enfurecidos que buscam a glória de Odin.
Saímos com dificuldade da viatura, eu tenho sangue na farda, sangue na cara, sangue na arma...
De cima das lajes olhos infernais nos contemplavam. Mas eu nasci na periferia, eu sou filho de morro, meus irmãos, meus amigos...
O mundo era fumaça, brilho incerto e barulho de tiros. Os gritos de guerra enchiam a rua de formas negras, de perspectivas escuras.
E a bala lançada por sorte atinge a fronte do meu camarada, 38 anos, 15 de PM, três filhos e um segundo casamento, com um bom tanto de sonhos, de sonhos? De SONHOS!!!
O tempo a n d a  d e v a g a r, cada imagem é um frame eterno nos meus olhos sujos da vida. A bala ardente gira no espaço. Baila quando atinge o cranio tão mole.Eu vejo a onda de choque que avança pela carne, pela cabeça, assomando pela nuca. A carne se parte, a cabeça se abre, e os miolos cobrem a noite escura desse dia tão denso.
A carne estilhaçada, vermelha, pulsante, enche a farda, e se espalha sobre o carro, a calçada, a minha cara.
E aqueles 38 anos de vidas, de sonhos, se vão como a fumaça da manhã num dia quente de verão.
Eu atiro. Mas para onde? Em quem? Eu vou morrer, mas quem teme a morte vivendo todo dia no limiar do seu templo? e a morte é minha medida, a incerta linha que me separa do agora para o agora que se avizinha.
Eu atiro, e um corpo cai. Eu atiro e as sirenes gritam. Eu atiro, e o sangue fervilha e eu canto a canção negra de ódio dos eternos guerreiros que matam e morrem sem saber por quê.
E as ruas se inundam de sangue. A violência abraça o morro, mas o morro não se abala, pois não conhece outra realidade.
Quando os tiros cessam, e o barulho se afasta, eu olho ao redor. E só vejo o menino com a barriga para cima e os olhos vidrados no céu.
O menino ainda empunhando sua arma invisível com o fuzil visível do lado.
Um IPM, cadeia. Os jornais falam da criança morta por policiais. Até organismos internacionais falam do meu crime. Eu não queria matar uma criança. Mas nessa guerra que nos lançaram somos todos crianças, morrendo e morrendo na viela escura.
E eu acordei.

sábado, 25 de junho de 2016

Dois vermes num Coco

Dois vermes num coco nasceram da mesma polpa sem conhecer a varejeira que os pusera. Os dias eram sempre escuros, e houve muito tempo antes que eles soubessem um do outro. Viviam de roer dia após dia a polpa branca, e pouco se arriscavam na água doce e viscosa.
Mas um dia, satisfeitos, decidiram nadar além dos poucos milímetros em que viviam. No centro do fruto se encontraram. Cada um sentiu no outro a coisa nova, -"uma polpa flutuante?"- e se mexe!
O verme esquerdo acreditava. Para ele a realidade se inseria na coconvidade, e a vida se espremia nas camadas tenras da polpa, circundada pelo fluido vital, o élan cocal. Ele esperava que num dia qualquer a superfície cocal se rompesse e o interior se tornasse como o exterior. Então ele flutuaria na substância cocal, livre por toda a eternidade.
O verme direito era materialista. Existia por uma interação fluídica entre a polpa e o líquido. Além da polpa havia a casca e além dela um mundo que não era casca nem polpa, muito menos líquido.
E cada um, à sua maneira, tentou comer o outro. Porém se movia, isso movia! E se se movia, era vivo. Ao perceberem isso, conversaram e conversando perceberam a diversidade e o medo. Do medo veio o ódio e do ódio a guerra!
Os vermes cresceram, a polpa acabou e o fluido secou. E só havia os vermes. Um só sentia o outro. O resto era casca de coco.
Enfim, sem nada, se aceitaram. Até que as paredes se abriram! Tudo era cor e cheiro. O céu azul, a grama verde e as nuvens brancas. O mundo do coco era só um coco no mundo! Muito mais que polpa e água, e ainda água e polpa.
O mundo não era coco, tampouco os vermes eram vermes!
E eles alçaram voo...
___________________________________________________________

Os vermes são dois padrões de pensamento, duas estruturas na psiquê, dois "eus"...duas fontes de conflito.

domingo, 22 de maio de 2016

A morte e a Vida.



Tudo o que a gente faz, sonha, milita, arrisca...está amparado numa base muito frágil, nossa própria vida. E a vida é o mistério de quem se move descalço num túnel completamente escuro!
Quanto mais a gente vive, mais a gente se acostuma com a realidade da morte. Você vai vendo mais e mais pessoas "passando além"...e sabe que em algum momento você mesmo "passará".
A realidade da morte é universal. E cumpre sua função em abrir caminho para que a vida continue, embora ela seja exceção. O mal é sempre uma questão particular, no drama maior que se desenrola ele é irrelevante.
Por isso os sábios sempre aconselharam a ter a morte em perspectiva, sem "travar" por causa dela, e viver a plenitude da vida a cada momento. Pois a visão da vida, ainda que transitória, nos leva sempre à maravilhosa consciência da grande oportunidade que é estar vivo.
Os sábios também nos aconselham a amar a vida em sua essência, e não nas formas artificiais que criamos. Eles nos dizem que nossos tesouros estão nas nossas experiências, no conhecimento que vamos adquirindo, nos valores que vamos praticando e nas relações com outras pessoas.
Eles nos incitam a não nos apegar demais aos nossos bens, a entender que nada trouxemos e nada levaremos daqui. Que o mundo gira não em torno da propriedade, uma abstração, mas numa imensa rede, a palavra do mundo é conexão.
A morte é sem remédio, mas é possível entender que ela é apenas uma parte da coisa quando temos nosso foco na vida.
A vida pode ser a coisa mais frágil do mundo, do nosso ponto de vista, mas é, disse Carl Sagan, a forma como o universo conhece a si mesmo.
E cada um de nós é universo, por isso a sabedoria ensina "Conhece-te a ti mesmo".
γνωθι σεαυτόν!

sábado, 21 de maio de 2016

Sobre Sistemas Fechados de Pensamento



Sobre sistemas de pensamento "fechados" e de como muito da militância, dita, intelectual não passa de massa amestrada.

Quando você pensa os acontecimentos (os e não nos) há duas coisas aqui. Os fatos em si e as hipóteses que você cria para explicar esses fatos. Todo sistema que aborda questões sociais é assim.
Existem muitos "sistemas intelectuais" ao nosso redor, influindo na nossa vida, mesmo que nós não tenhamos consciência deles. Esses sistemas são explicações particulares dos fatos do mundo.
O que você faz diante de um conjunto de explicações? Você rejeita, acata ou "limita criticamente", que é uma aplicação razoável das primeiras duas opções.
O problema é que certos sistemas funcionam como parede ideológica. Ou seja, embora sejam abordagens coerentes com aspectos da realidade e tenham potencial para "dar conta" de explicar alguns de seus mecanismos, eles se colocam como explicações completas e inalteráveis dessa realidade.
Explicando em miúdos, não permitem que você se volte criticamente para eles. Essa "liberdade" fica sempre restrita aos "outros", aos opositores do sistema. E sendo "opositores" eles não podem estar certos nunca.
Esses sistemas fechados são armadilhas intelectuais e formadores de "forças ideológicas" que não são fundamentadas em "valores humanos".
E por quê? Porque NENHUM sistema de pensamento que pretende analisar a realidade social humana é COMPLETO e DEFINITIVO. A realidade social humana não é definitiva, quem dirá um sistema de explicações sobre ela.
Essa é minha maior crítica aos "ISMOS" da nova militância social. Não é uma negação dos FATOS que eles se propõe explicar, mas de sua incapacidade de criticar seus próprios pensamentos.
Então pense em si mesmo, você consegue analisar criticamente as ideias que recebeu ou acatou INTEGRALMENTE esse sistema sem possibilidade de mudança?
O sistema em si permite essa avaliação crítica ou considera que isso é coisa da "oposição" (do sistema)?
Pois é, quase 100% das pessoas que vejo defendendo alguns desses "ismos" age assim, pois receberam um tipo de fé e não um sistema complexo de explicações transitórias. Esses grupos se aproximam muito mais de facções religiosas fundamentalistas que de intelectualidade coerente.
Quando você questiona as explicações, eles entendem que você está questionando os fatos sociais que deram origem a essas explicações, pois foram "amestrados" a ponto de não conseguir ver o mundo sem a lente de seus doutrinadores. A explicação passa a ser a realidade.
Eles não debatem, racionalizam.

sábado, 14 de maio de 2016

Sentido para a Vida


                     Perguntaram ao Frei Beto* qual o sentido da vida. Ele respondeu que o sentido da vida era dar um sentido à vida. Pensando nessa afirmação dele eu correlacionei as ideias que seguem para MIM MESMO.
                            
                             "Dar um sentido" pode sugerir significado ou direção.

-SIGNIFICADO implica em interpretar de modo positivo, avaliar simbolicamente os padrões mentais e de correlação social que nos envolvem e criar, a partir disso, uma "ambiência psicológica" de segurança e conforto.


-DIREÇÃO é apontar uma meta. Estabelecer o alvo para onde nossos esforços devem nos levar. A famosa frase do Gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas define bem esse quase dilema da vida, "se você não sabe aonde quer ir, qualquer caminho serve".

                             "Dar um sentido à vida" tem um caráter quase paradoxal, pois envolve, em nossa realidade íntima, duas relações aparentemente opostas. O significado que é algo "estático", no sentido em que nos ajuda a ter UM LUGAR NO MUNDO. A direção, por outro lado, é "cinética", pois tudo ao nosso redor, e nós mesmos, está em constante mudança pelo movimento característico da existência, da vida. Você imprime um movimento à sua vida ou é levado por qualquer força que se apresente.
É preciso dar sentido à vida.

* Programa Mamilos 67, "Profissão de fé": http://goo.gl/VjxKGf

terça-feira, 10 de maio de 2016

Quando Estávamos Juntos

E os dias...
tão calmos e sedentos como a lua
Quando desce para o mar...
E as noites...
Claudicantes e certas como o sol
Quando enfrenta os montes...
Ah! Meu amigos que os dias me trazem
E as noites levam como a sombra na Neblina
Já se foram encolhidos
Quando estávamos juntos e o frio nos impelia
Para mais perto uns dos outros...
Como se o frio companheiros
Fosse a força que faltava à nossa amizade
Mas era necessidade, apenas o frio...
Os dias eram gastos à beira d'água
Entre banhos e pescarias
Quando o frio não era tão intenso
E a vida...
A vida ainda corria por nossos membros
E as noites... deixávamos a mesma vida
Nas mesas das velhas tabernas de pedra
Onde aquecíamos o coração com
Cerveja quente e os doces sorrisos
Das nossas meninas...
E os dias, e as noites...
Tão sozinhas a deslizar
Nunca mais como fora antes
Como nunca mais será
Quando nos achávamos juntos a cada instante.

sábado, 7 de maio de 2016

Aspirações do Deserto

Hoje estou com as aspirações dos padres do deserto, dos ascetas essênios, dos sadhus e bodisatvas... Sem a grandeza deles, nem sua santidade. Em mim correm as frias luzes de todos esses grandes esquecidos. A luz que iluminou a Imitação de Cristo e o Jardim dos Sete Vales. O Deserto me chama, e a minha impiedade me prende na vida que rejeitou o pobre Francisco. E aqui, na terra das pedras, eu aspiro pelo deserto em meio ao deserto dos que não me veem.

domingo, 1 de maio de 2016

Sobre o filme " Caminho da Liberdade".

A sede, a fome e o frio nos perseguiam
Quando o alto da montanha alcançamos
E quase não acreditamos ao ver
Do outro lado verdes campos e rios
A neve engolia nossos pés
Como engoliu nossos companheiros
A morte a cada passo e as pedras
Dilacerando nossa carne e nossas vidas
O cume encoberto nunca víamos
Guiando-nos a teimosia da vontade
Que não se deixa morrer pelo caminho
E que insiste só hoje, só um pouquinho
Quando o cume da montanha alcançamos
Não havia dor ou fome ou agonia
Que tivesse o poder de nos tirar
A visão ampla que nos dava a vida!

terça-feira, 19 de abril de 2016

Emboscadas

As vozes na selva ecoam ao meu redor, conduzindo-me mais perto de onde as garras assomam e as asas negras cobrem a visão. As árvores são espinhosas, e um enxame de mosquitos briga por um pouco do meu sangue. O verde se esconde no alto, e deixa um raio ou outro vazar pelas copas. Ao redor das árvores dançam os sussurros dos que me perseguem, daqueles que se escondem nas sombras à espera de um vacilo, um local onde a maldade plante sua armadilha e a perfídia encontre a oportunidade da emboscada. Eu quisera usar minhas mãos, socar a face hipócrita dos meus inimigos, mas eles são fracos e covardes. Estou sozinho, sem chance de defesa, pois o que de mim se fala é dito nos corredores, e nas sombras se esconde o discurso daqueles que são piores que eu. A dor que me persegue é a dor da injustiça, e a frustração de quem não pode defender-se e não quer defender-se usando as armas vergonhosas dos que têm a alma maligna.