terça-feira, 16 de maio de 2017

Olhe Para Mim

Olhe para mim, eu existo
e sou tão comum como o mais
Reles pensamento, e do olhar
Nada há que se revele
Mas olhe fundo, há alguém
Incomum de muitas formas
E raro como um em bilhões
Com tesouros perdidos nos olhos
E sonhos fantásticos sob a pele
Olhe para mim de olhos fechados
Olhe para mim com um olhar certo
Com olhos oníricos e sentimentos etéreos
Olhe para mim com mente e coração
E o mundo horrendo da minha vileza
Evapora nos ares misteriosos
Além da minha aparência
Muito além de toda tristeza.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Piá

Piá tinha uns sete anos nessa época. O mundo ainda era muito recente para ele, e ele recente para o mundo. Quando ainda não sabia ler, ele gostava de ficar olhando aquelas duas colunas da Bíblia. Era um mistério impenetrável, mas tão belo! Como quando o primeiro ocidental pôs os olhos sobre um mural egípcio e considerou os hieróglifos como belos ornamentos sem outro sentido. Mas já não bastava olhar para as linhas indecifráveis. Foi quando Piá começou a separar as páginas. Anos depois, sob aquele teto cinza, ele ainda se perguntava o que se passava por sua cabeça naquele tempo. Seria o papel, as linhas ou era alguma outra fantasia que agora nenhum sentido tinha para ele?
O mundo era recente, e era grande. Tudo parecia descomunal. Não quando anos depois ele passou pelos mesmos lugares e percebeu que as coisas eram normais, o mundo, pelo menos aquele seu mundo, não era tão grande nem tão fantástico.
Naqueles dias as lendas andavam vivas, e quase todo mundo conhecia alguém que conhecia alguém que conheceu alguém que teria visto um lobisomem ou a mula-sem-cabeça. Para os primeiros havia até uma estratégia para lhes conhecer a identidade. Bastava dizer ao licantropo, de abrigo bem seguro, que viesse no dia seguinte à sua casa buscar açucar. Uns diziam que era sal. Piá nunca teve oportunidade de fazer o teste. Na verdade nem coragem teria. Poucos anos depois passou na tv um filme de Lobisomem que se passava em Londres. Ele viu o filme, e passou noites sem dormir. Piá definitivamente não iria convidar uma fera horrenda como aquela para vir buscar sal ou açucar em sua casa!
Uma família nova se mudou para o lado da casa de Piá. Eram três meninas na casa, e uma delas da sua idade. Mirando o teto cinza, e as paredes cheias de mensagens de gerações que por ali passaram, ele pensava na menina. "Se o amor existe"- pensou- "foi ali que o descobri". Ele lembrava de um dia estar brincando com a menina, já não era analfabeto, muito menos andava rasgando as páginas da Bíblia. Ela olhou para ele com seus olhinhos verdes, pôs a mãozinha no seu braço e encostou seus lábios nos seus. Piá ficou petrificado, o coração pulava no peito. A menina riu e disse "agora somos namorados".
Eu disse que ela tinha cabelos curtos? Cortou por causa do tratamento. Tempos depois não havia mais cabelos. Uma vizinha de Piá morrera de câncer. Ele estava na rua brincando. Uma ambulância parou. Então a mulher saiu de casa amparada pelo marido. Estava muito pálida. Os olhos de Piá cruzaram os olhos da mulher. No velório ela estava de olhos fechados, mas ele sabia que ela não tinha olhos verdes.
"Agora somos namorados". E ele não sabia que o que era dos seus olhos verdes agora que as coisas não eram mais tão recentes.
Piá temia lobisomens e mulas-sem-cabeça. E agora Piá sabia que eles tinham um nome, câncer.

No fim do mundo


A gente cruzou o campo com lama cobrindo os calcanhares em poucos minutos. Tropecei num braço. Só o braço. Érica ia na frente, com a arma na posição de tiro e uma simulação de passo swat enlameado. Jorge, Pedro e Lia vinham em seguida. Eu estava no fim da fila, cuidando da retaguarda. 

Tiros. Os miolos do Pedro encheram minha cara, eu atirei nem sei para onde. Lia já comia barro também, misturada com o que sobrava da cabeça de Pedro. "Por que a gente tem que se matar, a porcaria do mundo já não acabou mesmo?" - Até parece que alguém se importava, a gente ia acabar essa porcaria assim, com o último metendo uma bala, se sobrar alguma bala, na cabeça. A Érica gritava alguma coisa, mas eu só conseguia olhar para o que restou da cabeça do Pedro, uma pedaço da mandíbula ou sei lá o que. E talvez fosse um olho. Érica está chacoalhando meu ombro e apontando para baixo. Jorge tem uma mancha de sangue no peito, mas parece vivo. Lia o puxa, ela não se ferrou. Só caiu junto com Pedro. 

E a gente nem tem tempo para chorar. Mas chorar por quê? Sorte ter uma morte rápida assim. A gente puxou o Jorge para trás de um pedaço de muro. "Ele dançou" - disse. Mas Érica disse que não ia perder mais ninguém. Louca. Não percebe que já perdeu tudo, que não tem o que perder mais. O mundo acabou, eu queria gritar, mas o desgraçado continuava atirando na gente. 

E a Érica continuava me xingando. Porcaria, já não tava ruim o suficiente? Senti vontade de atirar na Érica, e acabar com a Lia e o Jorge de uma vez. Cara, eu não aguento mais isso, mas também não quero dar um tiro na cabeça. Mas não dá. Não é esperança, é algum tipo de teimosia, uma vontade de vingar essa porcaria toda na cara de alguém... Como se alguém fosse culpado pelas bombas, quando elas caíram, quando o mundo acabou e essa merda toda de sociedade mostrou as presas afiadas. O homem é o lobo do homem, e eu não sabia. Eu ainda acreditava na bondade humana. 

Que sentimento era aquele? Coisa nova, nem medo, nem ódio. Seria o tal instinto ancestral ou era só adrenalina mesmo? Eu pulei pro meio da lama, chovia bala. Eu tropecei no Pedro e caí. Mas levantei logo, pulei para trás de uma carcaça de carro. Que carro era? Chovia. Então pude ver de onde vinha. Uma lage. Corri por um corredor cheio de gente apodrecida. E subi por trás. Não olhei, atirei. Uma vez, duas, até descarregar a arma. 

Então fiquei lá, ouvindo o clique do cão cada vez que acionava o gatilho da arma vazia. 

Era uma garota. Eu conhecia a garota da lage. Da escola. De mãos dadas. Geografia, história e cantina. 

A chuva continuou caindo. Eu de joelhos, que sentido há no mundo? Nenhum. E tudo continua, até o último, até a última bala....

domingo, 30 de abril de 2017

Segue o Teu Caminho


Segue o teu caminho
Ama quem amas
Foge das chamas
Bebe teu vinho!
Segue o teu caminho
No mal não te detenhas
Mesmo que a duras penas
Pois não estás sozinho
Segue o teu caminho
Vivendo cada passo
Cultivando teu espaço
Cuidando do teu ninho
Segue o teu caminho
Firme na Dificuldade
Com apego à verdade
Sem perder o carinho
Segue o teu caminho
Abraça os teus amigos
Acolhe os esquecidos
Faz da vida teu cadinho*
Segue o teu caminho.

*Lugar onde se fundem metais, fig. onde coisas e pessoas se misturam.


sábado, 15 de abril de 2017

Vamos Malhar o Judas?


Existem tradições que a gente não sabe de onde vieram e outras, como a da malhação de Judas, que a gente pensa que sabe de onde vieram.
Quando eu era criança, coisa que parece que foi ontem, era comum ver os bonecos pendurados e grupos de crianças sendo prepar...brincando.
Mas a tradição popular difere da tradição bíblica. Na Bíblia, Judas se suicida pelo método mais usado pelos suicidas, o (auto) enforcamento.
É um drama forte, digno de um Dostoiévski. E simbólico. Judas, tesoureiro do grupo, vende o Mestre por trinta moedas de prata. O ato de vender se resumiu a informar os sacerdotes judeus do momento em que Jesus não estaria cercado por seus discípulos, facilitando sua captura. Depois ele se arrepende, devolve as moedas e se mata. Fim.
Assim ele se tornou o símbolo dos traidores. E uma espécie de contraparte do próprio Jesus, pois se Este se tornou o símbolo máximo do auto-sacrifício, aquele é o do suicídio como fuga.
A tradição tem um fundo simbólico também. "Judas" era um nome muito comum entre os Judeus. Mesmo entre os seguidores de Jesus havia outros Judas, e um de seus irmãos também tinha esse nome. Era comum porque a principal tribo que originara o pequeno país da Judéia, hoje Israel, foi a de Judá. Judá [Yehudah] era um patriarca antigo, um dos doze filhos de Jacó/Israel. Davi, o Grande Rei, era dessa tribo. E Jesus, descendente de Davi, era "O Leão da Tribo de Judá". Um dos grandes heróis do povo judaico, eternizado nos livros dos Macabeus, se chamava Judas.
Com o tempo, todos os israelitas tomaram a alcunha de "Judeus".
O cristianismo, herdeiro dos judeus e do judaísmo, cresceu sobre uma corruptela da história da paixão, incapaz muitas vezes de entender seu significado. Era necessário culpar alguém, e esse alguém não foi o Judas bíblico. Mas Judas se tornou um símbolo de todo um povo. Malhar o Judas é punir o povo judeu. É antissemitismo. Com o tempo, os cristãos passaram a celebrar o progrom contra os judeus. Fazer algo ruim é "judiar" de alguém.
Mas o Judas...Judas se tornou símbolo dos traidores. E celebramos nele o linchamento social dos "odiosos" judeus e de todos os criminosos.
Mas Judas tem uma outra face. Ele simboliza nós mesmos toda vez que a nossa covardia nos leva à fuga. Todas as vezes em que entregamos um bem maior por um prêmio temporário. Todas as vezes em que trocamos o que é importante pelo efêmero. Judas é o político? Não. Sou eu e Você quando não conseguimos ser fieis aos nossos valores. Mesmo o cristão bíblico sabe que Jesus não morreu por causa da traição de Judas, Ele "morreu por nossos pecados". Esse é o símbolo.
Os políticos não são Judas por roubarem nossa nação. Nós é que o somos por vender nossa aprovação por discursos tão pequenos.
Vamos malhar o Judas? Celebrar nosso racismo? Fazer a catarse do nosso próprio remorso?
Ou simplesmente utilizar uma expressão baseada numa tradição que ninguém mais entende?

domingo, 9 de abril de 2017


O futuro é logo ali depois da esquina
A dois passos daqui
Mas a perna fraqueja e o coração 
Parece que bate menos
Do que deveria
São dois passos, pouco para uma pessoa
Que já firmou os dois pés nas maiores alturas
E muito para pés que se arrastam
É o peso invisível da rua
Mas chegar é estar a dois pés ainda
O futuro é como a sombra
De quem tem luzes pelas costas
O futuro está sempre ali adiante
Como um insulto e um fantasma
Como uma estrela distante
Ou um barco que se afasta no horizonte
Porque aos vivos se impôs
Um sempre agora
E os que morreram dormem
Na memória do passado
Pois o futuro é para os que ainda
Não nasceram
E ainda para eles ele se esconde
Logo ali
Depois da esquina.

quinta-feira, 30 de março de 2017

As Maquinas e Nós



Faz tempo que a gente ouve que um dia as maquinas estariam integradas aos nosso corpos num nível maior que o de um marcapasso, por exemplo.
Usamos próteses, mas elas se ajustam, pelo menos a maioria delas, numa relação mecânica conosco. Nada como a major Motoko Kusanagi de Ghost In the Shell (algo como "O fantasma dentro da concha) que agora virou filme com Scarlett Johansson .
Estava pensando sobre isso, e me parece que sim, já estamos integrados. Nosso cérebro, li por aí, é plástico, ele se adapta. Temos um rol limitado de "ferramentas" em nossos membros e órgãos que nos ajudam a fazer coisas no mundo.Quando adquirimos uma nova habilidade, não há um mudança ou adaptação correspondente em nossos membros. Mas aquela habilidade altera de algum modo a nossa arquitetura cerebral.
Pense em quando você estava aprendendo a dirigir, andar de bicicleta ou mesmo utilizar o mouse. Mudar as marchas, virar a bicicleta enquanto pedalava e clicar sobre o um ícone eram atividades que demandavam uma "ação consciente direta". Você precisava olhar para a alavanca de marchas, pensar se estava na primeira ou na terceira, lembrar de virar o guidão ou inclinar o corpo e olhar para o ratinho em sua mão. Com o tempo essas habilidades se tornaram automáticas, como se os abjetos fossem integrados à estrutura do seu corpo. E dizemos que eles são realmente extensões de nós mesmos.
Eu lembro bem como era complicado utilizar o mouse ao mesmo tempo em que cuidada do ponteiro na tela. Problema que as pessoas que cresceram na era do computador não têm. Repare como as pessoas mais velhas se batem com mouses e telas touchscreem.
Aliás, me parece que as telas touchscreem nos levaram um passo adiante. E nossa integração com a máquina é tão grande que não vivemos mais sem os onipresentes celulares.
Quando utilizo a função copiar no celular acontece uma coisa estranha. É como se a coisa copiada estivesse no meu dedo. A sensação é leve, mas não passa antes de eu colar ou pelo menos tirar aquilo da mente. Não sei explicar isso, mas certamente tem a ver com a plasticidade do meu cérebro e de como ele está percebendo um objeto que nem mesmo é material ( a informação do que copiei) como algo real.
Acredito que a integração "plena" será possível, e até facilitada, por causa dessas mudanças no cérebro. Nós não criamos apenas novos apêndices para nossos corpos, mas criamos hardwares e softwares cerebrais que nos permitem utilizar essas extensões.
Somos todos ciborgues.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Forças e Filtros de Seleção Social


Estamos o tempo todo sendo selecionados. Existem filtros ao seu redor e mecanismos que pressionam você a se adaptar. E também existe a sua própria vontade, porque você sabe que muitas das características que você finge que são fixas, imutáveis, são plásticas, moldáveis como barro.
Nosso modelo político possui filtros de seleção. Só entram os que fazem isso ou aquilo. Mas existe também a busca pessoal por poder, os interesses. As pessoas se adaptam. Mas não pense que tudo é livre arbítrio. A adaptação só ocorre dentro de uma faixa estreita de possibilidades. A característica definidora esconde-se por trás das máscaras sociais, e podemos chamá-la de "caráter", embora haja mais coisas ali. É uma espécie de circulo vicioso, e sim, vamos continuar produzindo os mesmos tipos de políticos, de policiais, de servidores públicos e de cidadãos.
E isso opera em igrejas, no serviço público, nas famílias, nos círculos de amigos, nas associações, grupos de wattsapp...
Como na natureza, se não nos adaptamos, nós perecemos. Mas até onde eu devo me adaptar, se não sou levado a isso pelos meus valores internos? Quais são os limites da minha entrega? Apenas as condições extremas podem esclarecer isso, mas não vivemos o tempo inteiro sob tais condições.
No meu trabalho eu tento identificar que filtros estão em operação. Alguns são necessários, pois deles depende minha sobrevivência, porém muitos outros são frutos do costume ou dos vícios. Como não ser desfigurado, como continuar sendo uma pessoa e não mera peça dentro de um mecanismo de produção e excreção de poder?
Não é fácil dizer, e muito menos fazer. Pois tudo ao meu redor, e ao seu, exige algum tipo de adaptação. E você pode ter a ilusão de que escolhe uma coisa ou outra porque seu caráter domina, mas o tempo inteiro você recebe comandos para se adaptar, e boa parte deles nem são reconhecidos por você.
Sobram perguntas, faltam respostas. Mas pelo menos uma coisa é clara, não se muda a realidade sem se insurgir contra esses sistemas, sem modificar os modos de seleção para algo que beneficie mais a sociedade que os mesquinhos interesses pessoais.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Um visitante

"Abra"! Diz a voz ao bater e o som
Penetra as paredes do meu quarto
Agitando o ar seco, quente e parado
É noite, e minha alma está agitada
A noite vazia ecoa meu silêncio
E o dia espera distante
Quando chega o visitante inesperado
"Abra, não há escape, é nula a saída"!
Diz o carcereiro do mundo exterior
Enquanto ouço garras a rasgar minha porta
É noite, e o dia passeia vacilante para além
De onde minha memória alcança.
-"Não haverá mais dia, e a noite será indistinta,
O medo é meu chicote, e meu insano conselheiro
Quem fugirá de mim? E a quem foi dado
Ser imune ao meu poderio?
As palavras perderam-se em algum lugar
Entre meu coração e boca
Mas que argumentos usaria
Contra quem cavalga a insanidade?
Por fim a porta cede, e o ar ainda mais quente
Vacila pelo quarto escuro
É nada o que traz e nada se estende
Pelo corredor vazio...
Como, pergunto a quem não pode responder
E por fim, como luz que menos ilumina
Entendi...
O que estava lá fora veio daqui mesmo
E tudo o que ameaça é também fruto
Do que anda dentro...
Somos escravos dos medos que nos deixamos ter
E filhos sedentos da alegria
Que nós mesmos afastamos.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O Complexo de Neanderthal dos Americanos


O pessoal da América (a América somos nozes!) pegou o complexo do Neanderthal. Explico...
É coisa lógica que um país controle o acesso ao seu território. Muitos crimes estão relacionados a fronteiras frouxas. Nós sabemos. É importante que um governo limite o número de cidadãos de outros países que lá vão ganhar a vida. Ele não vai querer gente se amontoando em guetos e gerando lá na frente aqueles tantos problemas sociais que a gente conhece. A obrigação de um governo é primeiramente com seu povo.
Porém a história é cheia de exemplos, como este da América made great again, de povos que incapazes de lidar com seus problemas, ou mesmo incapazes de reconhecer esses problemas, ajeitaram lá um "bode expiatório" (expressão bíblica que virou dito popular). Os alemães caíram na ladainha do Führer e acreditaram piamente (ou impiamente) que os judeus eram os responsáveis, junto com outros grupos de "degenerados", pela degradação do orgulhoso povo alemão. E exemplos como esse, embora menos traumáticos, abundam na história.
Resistimos a reconhecer responsabilidades, individuais ou coletivas. E sempre damos um jeitinho de transferir a culpa. Pensa lá, a gente está fazendo isso o tempo inteiro. Embora nem sempre haja "culpa" no negócio, mas condições que não estão sob nosso controle, mas cujos efeitos nos acertam como um cruzado no queixo.
Eu brinquei que essa transferência faz parte de um "complexo de Neanderthal". Dizem os antropólogos que a Europa era habitada por esses homens num passado remoto. Não se sabe exatamente como era sua sociedade, mas sabe-se que "hordas de invasores" oriundos da África invadiram a região e dominaram o território assimilando ou dizimando os habitantes locais. Pensa-se que esses invasores eram mais fracos que os habitantes originais, porém mais hábeis e numerosos e com um poder de adaptação imenso. Ah, eles tinham ideias religiosas mais desenvolvidas também.
Ironicamente, os descendentes desses "primeiros homens" (que eram segundos, na verdade) hoje resistem aos parentes mais próximos de seus ancestrais.
O tal complexo seria então esse medo de que invasores destruam a sociedade e também o conceito de que todos os problemas locais são culpa dessas hordas sem identidade.
É esse sentimento que Trump evoca, o que nem sempre faz sentido, pelo menos com relação aos empregos, porque os tipos de trabalho realizados por imigrantes não são os que os americanos querem fazer. Pensou nos haitianos aí?
A questão, como muitas, não se encerra, e a gente vai percebendo que tudo tem dois lados (ou mais). O desafio é encontrar o equilíbrio e permitir o diferente sem importar problemas. Pelo menos para nós, os que temos pretensões de grandeza.

Depois de ter escrito esse texto, encontrei uma entrevista com Rick Shenkman, autor de um livro que evoca ideias parecidas, a imagem acima é dessa matéria:

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

SEGURANÇA PÚBLICA E A TAXA DE HOMICÍDIOS

No mundo todo, a violência é medida pela taxa* de homicídios. Faz sentido. Um ambiente com muitos homicídios interfere na forma como as pessoas "sentem" a segurança pública. Ambiente seguro, menos homicídios.
Entretanto uma taxa de homicídios baixa não implica necessariamente em um número baixo na percepção de segurança. Explico. Essa taxa não leva em conta o número de furtos e roubos. E estes tipos de crimes são os que mais interferem na sensação de um ambiente seguro ou não. Existem outros indicadores em que esses números são levados em conta pelas autoridades para "medir" se trabalho, porém nem todo crime é denunciado à polícia.
Por outro lado, o homicídio é um crime "aleatório". A maior parte dos homicídios está ligada ao tráfico de drogas, seja por dívidas, seja por conflito entre grupos rivais que lutam pelo controle de determinadas áreas. Nesse sentido, por mais paradoxal que isso pareça, ações mais efetivas da polícia para desbaratar o tráfico de drogas costumam AUMENTAR OS ÍNDICES DE HOMICÍDIOS naquela região. Isso acontece pelos vácuos de poder causados pela prisão de lideranças locais. Quando isso acontece, grupos rivais invadem aquele território, ou elementos mais baixos na hierarquia começam a disputa pela liderança principal.
Autoridades também utilizam esses índices para dar uma impressão de mais efetividade no trabalho, quando não houve. Digamos que a taxa foi de 30 homicídios em determinado mês, mas que no ano seguinte a taxa foi de 27 no mesmo mês. Em números brutos foram três homicídios a menos, mas as autoridades vão falar "numa redução de 10%", embora não tenham feito absolutamente nada diferente de um ano para o outro. Talvez uma pesquisa mais criteriosa vá mostrar que naquele ano a polícia investiu menos na fiscalização, investigação e prisão de traficantes.
No casos dos crimes contra o patrimônio, as autoridades usam a velha tática de correr atrás do rabo. Explico. Estão ocorrendo muitos furtos e roubos numa região? Deslocamos o efetivo para lá. A presença policial logo diminui o numero de furtos e roubos NAQUELE LOCAL. Os criminosos simplesmente vão para outros locais, e a batata quente vai mudando de mãos. Tão logo o policiamento relaxe, os índices aumentam.
As soluções para esse problema vão muito além de colocar uma viatura em tal praça, ou aumentar o policiamento ao redor de universidades. Eles passam, principalmente, por investigação dos crimes, criminosos processados, questões sociais remediadas, e PARTICIPAÇÃO DA POPULAÇÃO na segurança pública por meio de conselhos de segurança, ações que dificultem a ação criminosa, relação de proximidade com os policiais de sua região, denunciando, etc.
Espero que isso te ajude a entender as dificuldades envolvidas e que você consiga cobrar ações mais efetivas das autoridades, além do aumento dos efetivos policiais. Lembre-se, a segurança pública também é seu dever.
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*A taxa de homicídios é o número de mortes violentas por cem mil habitantes no período de um ano.

Para mais informações, consulte o Atlas da Violência 2016.

http://infogbucket.s3.amazonaws.com/arquivos/2016/03/22/atlas_da_violencia_2016.pdf

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Militarismo


Acredito que o modelo militar das forças armadas não é o mais adequado para as polícias, mas isso pode criar certa confusão, como se eu demonizasse o militarismo. E não é bem assim, porque eu na verdade devo muito ao militarismo. Fui criado sem meu pai, e foi nas forças armadas que adquiri a disciplina que moldou meu modo de ser e meu caráter, embora eu não tenha percebido isso senão anos depois da minha saída das forças armadas. Eu sou civil, mas meu comportamento é o de um militar. Mas não faço disso uma religião, nem adoto o belicismo como um ideal de vida.
Militarismo não é sinônimo de abuso nem de desrespeito às populações civis. É certo que forças militares, tanto hoje como no passado, foram responsáveis por barbáries e massacres, mas cada caso precisa ser analisado de acordo com o contexto em que ocorreu.
O militarismo, no Brasil de hoje, é sinônimo de disciplina, ética, nacionalismo e ideal guerreiro. Não há nada nas normas militares que incentivem o desrespeito. Os que ocorrem são frutos de uma subcultura que nasce do treinamento psicológico pelo qual todo conscrito (o "noviço" militar) tem que passar. O militar treina seu corpo e seu espírito para enfrentar as agruras de um conflito bélico. Muitas vezes, porém, o treinamento extrapola os limites e acaba sendo utilizado como válvula de escape do sadismo ou da mera vontade de pagar o que se sofreu.
O militarismo não é uma invenção burguesa. Ele existe desde a aurora dos tempos, e sociedades inteiras o adotaram como modelo para os seus cidadãos, como a cidade grega de Esparta. Na sua essência está o ideal guerreiro e o desejo pela glória do combate ou da "boa morte". As ações ligadas ao militarismo são chamadas "marciais", um termo que se liga ao deus Marte (Ares grego), o deus da Guerra. A Ilíada, o grande épico grego da guerra de Troia, expressa essa verdade guerreira grega.
Estilos de luta, principalmente orientais, são chamados "marciais", porque têm em sua essência a disciplina, tanto pessoal quanto em relação ao mestre, ao grupo, ao dojo. E percebemos mesmo nas sociedades que criaram essas técnicas o espírito da disciplina, quem não percebe a marcialidade da cultura japonesa, chinesa ou coreana?
Outro ponto importante do militarismo é a estrutura hierarquizada. Um exército precisa de uma estrutura de comando muito clara e eficiente. Uma polícia também precisa, mas não nos mesmo moldes das forças armadas, pois sua natureza é outra. Porém polícia nenhuma vai funcionar sem esse espírito de disciplina e marcialidade, mesmo não obedecendo aos estamentos jurídicos do militarismo.
Entendo que o militarismo no Brasil é mal visto por algumas camadas da sociedade devido ao Regime Militar e aos conflitos da época. Entretanto é preciso entender que o militarismo não é um sistema de governo, mas um padrão jurídico, hierárquico e ideal que rege a estrutura e o funcionamento de forças armadas com finalidade precípua de proteção nacional.
O sistema de valores do militarismo não leva ninguém ao abuso, muito pelo contrário, leva à disciplina e ao respeito. O problema está em enxertá-lo fora da sua realidade e tentar fazer dele algo para o qual ele não foi criado para ser.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Segurança Pública - Problemas e Soluções



Um breve Olhar

Eu sinceramente perdi a esperança de que nosso modelo de segurança pública seja revisto nos próximos anos. O que eu vejo é o reforço do atual sistema. E não precisa ser gênio para saber que esse modelo não dá conta dos problemas nessa área. Nossas polícias conseguem ser apenas reativas quando o ideal seria que nem houvesse crime, o que chamamos de "policiamento preventivo". Ainda assim nossos presídios estão abarrotados, o que a princípio parece um paradoxo, se a polícia não é eficiente, como é que ela prende tanto? Ora, ela prende tanto porque falha em evitar que o crime seja cometido. Isso é tão verdade que os "grandes" crimes costumam ficar impunes. Um exemplo vergonhoso é o homicídio. Apenas uma parcela mínima dos homicídios são solucionados, e nem sempre por causa de um trabalho investigativo eficiente. Na minha família mesmo há casos de homicídios que nunca foram solucionados. 

Os tipos de crimes mais comuns que terminam em prisão são os crimes contra o patrimônio e o pequeno e médio tráfico de drogas. Sintoma de que há um desnível entre o trabalho de prevenção e o investigativo com as rondas ostensivas, pois são essas que flagram aqueles crimes. E não pode ser diferente, porque nosso modelo policial não o permite.

Para começo de história, nossa polícia sofre da mesma doença da burocratização que atinge nossas outras instituições públicas. É muito papel, muitos "passos", e pouca eficiência. Sem contar que o poder que controla as polícias é o político, e quase sempre as ações "de vulto" são teatrais, feitas para dar "sensação de segurança", sem efetivamente criar mais segurança.

Outra coisa terrível é o abismo que separa nossas polícias estaduais. O trabalho policial forma um CICLO. O CICLO COMPLETO DE POLÍCIA compreende duas facetas, o aspecto judiciário de policia investigativa (Polícia Civil) e o aspecto administrativo de polícia ostensiva (Polícia Militar). Nossas polícias, entretanto, fazem, cada uma, meio trabalho. A polícia que prende na rua não é a mesma que coloca na cela e investiga a realidade daquele crime. Isso cria uma série de falhas que viciam o processo penal posteriormente. Então por que não unificam as polícias? Porque uma é civil e outra militar, são organizações muito diferentes e ninguém sabe como fazer essa mistura de água e óleo funcionar.

Muitos falam em desmilitarização, o que poderia, em tese, facilitar a unificação. Mas o modelo militar já está entranhado em nossa sociedade, e não é fácil mudá-lo, ainda mais agora que forças conservadoras, simpáticas ao militarismo, estão em evidência no país.

E existem também os interesses das cúpulas das polícias militares em manter seu status quo. A FEDERAÇÃO NACIONAL DE ENTIDADES DE OFICIAIS MILITARES ESTADUAIS (FENEME) luta ostensivamente para evitar que outras instituições venham a competir por recursos. Eles usam seu lobby para evitar que guardas municipais atuem na segurança, que organismos de defesa civil locais diminuam o poder dos bombeiros estaduais, que agentes penitenciários sejam reconhecidos como policiais penitenciários, que empresas de segurança evoluam em suas atividades. Na verdade essa cúpula de oficiais militares controla boa parte das atividades que tenham minimamente contato com a segurança pública. É muito comum vê-los ocupando cargos de gestão fora de suas instituições de origem. É justo lutarem por seu interesse, o que não é justo é sequestrar o bem estar da população em nome desses interesses.

Da divisão social das polícias

Um dos problemas com nossas polícias é que elas reproduzem um modelo de divisão social muito antigo. As polícias, tanto civil quanto militar, não são instituições de carreira única. Na Polícia Militar existe uma divisão entre praças (soldados, cabos, sargentos e sub-tenentes) e oficiais (tenentes, capitães, majores, tenentes-coronéis e coronéis). Os concursos são feitos para cada divisão separadamente. Isso acaba criando uma separação injusta entre os que efetivamente trabalham na atividade-fim da polícia e os que gerenciam esse sistema. E ainda reproduz o tal modelo de divisão social. Antigamente filhos de nobres eram oficiais, e as pessoas do povo eram praças. Do mesmo modo o modelo se reproduz nas polícias civil, com delegados na posição de oficiais e as demais carreiras como praças. Obviamente o cargo de delegado é especializado e tem relação com o judiciário.

O ideal é que as polícias fossem carreiras únicas, que alguém entrasse nas posições mais baixas e fosse galgando os graus mais elevados. O policial teria, desse modo, uma visão melhor do sistema na hora de gerir e incentivaria os graus menos elevados a trabalhar com vistas a esse crescimento. Além disso, a polícia deveria deixar de fazer o trabalho do judiciário, modificando nosso modelo de inquérito e acabando com a divisão na carreira da polícia civil. Isso jé melhoraria um pouco o sistema. A Desmilitarização e unificação ficariam mais fáceis. 

Melhorando o trabalho policial

Algumas medidas poderiam melhorar esse quadro, pelo menos temporariamente.

-Mudar o foco da formação. Candidatos a policiais passam por um período de treinamento em que aprendem técnicas policiais específicas, legislação, direitos humanos, organização institucional, e matérias ligadas à vida militar, no caso das PMs. Mas é muito comum ouvirmos que o policial vai aprender mesmo é na rua, e não raro, o que se aprende na academia é totalmente diferente do que se faz na prática. Portanto a formação precisa ser mais próxima do trabalho de campo e precisa ter mais forma para influenciá-lo. O "trabalho das ruas" é uma cultura policial, nela entram experiência e hábitos, nem sempre legais. É preciso que a "cultura" não destrua o modelo.

-Mudar o foco do exercício. Melhorar as polícias implica em trazê-las para perto da população. O modelo atual simplesmente desconsidera a comunidade, mas é princípio básico das polícias modernas que a polícia é o povo, e o povo é a polícia manifestada em alguns do povo que são pagos para fazer o trabalho que é de todos, conforme o entendimento do  pai do policiamento moderno, o inglês Robert Peel ( falecido em 1850). Essa é a base do que chama de "polícia comunitária". Nossa constituição consagra esse princípio quando diz (artigo 144 da CF) que a segurança pública é direito e dever de todos. Não existe possibilidade de melhorar o cenário atual sem a participação da população.

-Mudar o foco de gestão. A polícia precisa de maior independência do poder político. O trabalho policial é técnico e não pode ser circunscrito aos objetivos políticos do gestor. A gestão das instituições policiais deve ser feita por policiais de carreira.

-Melhorar os controles interno e externo. A atividade policial exige corregedorias, mas também é necessário o controle externo feito não apenas por agentes políticos, mas exercido por conselheiros eleitos pela comunidade.

-Foco na Eficiência. Eficiência em trabalho policial é prevenir o crime, e caso isso não seja possível, levar o criminoso à justiça.

-Desburocratização. Menos papel e menos rituais. Hoje existe um mecanismo para crimes de menor potencial ofensivo, aqueles com pena cominada em até dois anos, é o TERMO CIRCUNSTANCIADO. Esse mecanismo é uma espécie de Boletim de Ocorrência lavrado por autoridade policial. O termo é lavrado e o infrator não fica preso, mas já sai com data de apresentação no Juizado Penal Especial. O interessante é que esse termo fosse lavrado por policiais militares e guardas municipais, diminuindo o trabalho nas delegacias e economizando tempo e recursos.

-Reconhecimento pleno das Guarda Municipais. Hoje as Guardas Têm poder de polícia, mas ainda carecem de reconhecimento pleno. Além do que são vista como ameaça às PMs. O ideal é que cada uma trabalhe nas suas competências específicas e atuem conjuntamente onde elas confluem. É preciso também evitar que modelos próprios das PMs sejam utilizados nas Guardas Municipais, fazendo dessas um modelo local daquelas.

-Priorizar o foco no serviço. Polícia, para além das descrições jurídicas, é muito mais que uma instituição. Polícia é serviço, então não faz muito sentido dar tanta importância às instituições deixando de lado suas missões. Elas não existem fora do trabalho que fazem.

-Combater a cultura de morte. Muitas são as razões para tal cultura, frustração com as leis, com o judiciário, problemas psicológicos, e uma espécie de ideal guerreiro típica da vida militar que acaba transbordando para outras instituições. A missão de um policial é evitar que o crime seja cometido, prender o criminoso se o crime não puder ser evitado e, acima de tudo mais, preservar a vida, o maior patrimônio. A morte de criminosos, embora não seja desejável, é um efeito colateral quase impossível de ser plenamente evitado, mas que pode diminuir. Para tanto é necessário investir na técnica e no uso da tecnologia. Criminosos não temem em trocar tiros sem se importar com as pessoas ao redor, mas policiais não podem pensar assim. Nem sempre o tiro deve ser revidado, pois a prisão ou mesmo a morte de um criminoso não vale a perda de uma vida inocente.

-Investir no estudo continuado do fenômeno criminoso. O crime não é totalmente aleatório, e é possível identificar certos padrões. As ações devem ser pautadas nesses estudos, e consideradas as dimensões psicológicas envolvidas. A mídia, quando noticia exageradamente certo tipo de crime, acaba por incentivar que mais pessoas adotem aquele modelo. A polícia precisa ter isso me mente e aproveitar o ambiente para se antecipar.

-Treinamento continuado. Isso é lugar comum, todo mundo sabe. Mesmo assim há policiais que não entram num estande de tiro há anos. Todo mundo sabe, mas não fazem.

Finalizando....

Esse é apenas um olhar sobre o problema, há muitas outras coisas envolvidas na questão. Mas considero que a maior delas ainda é a participação da sociedade na discussão dos problemas de segurança. Muitos "especialistas" propõem soluções mágicas, mas quem trabalha na área sabe que não é bem assim. Outros fazem uma leitura do problema com base em ideologias particulares, o que também não ajuda, pois não há como ter uma solução adequada sem um olhar atento sobre a realidade.
Eu comecei dizendo que perdi a esperança de que haja uma solução a curto ou médio prazo, mas não desisto de lutar para que ocorra algum dia, não só como trabalhador da área, mas como cidadão, pai, filho, irmão e esposo que vive na pele o caos diário e o medo que nos cerca.

Pro Lege Semper Vigilans!
Pela lei sempre vigilantes!
Lema da Guarda Municipal de Curitiba.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Um poema Amargo

Eu era tão ingênuo
Ou bobo, talvez ainda seja...
Quando, Senhor, levaram minha inocência.
Ou a inocência que eu pensava que tinha
E deixarem no lugar esse ser amargo e cínico
Que não acredita mais num sorriso
Que não lembra mais como eram
As músicas que a gente cantava nas esquinas
Sentados no meio fio, dois ou três, e um violão
Naqueles dias barulhentos
Eu já não lembro, Senhor, como era
Quando eu não sabia da maldade
E quando eu ainda não era
Um de seus escravos
Senhor, eu já não sei por que não choro
Quando devia chorar e rio
Quando todos estão chorando
E alguém confunde isso com felicidade
Mas é só fraqueza e loucura, e um cinismo de
Mim mesmo, eu rio da figura que me tornei
Eu rio as risadas amargas da loucura
Sonhando sem sonhar
Com o tempo em que meu coração ainda
Não havia secado e a vida ainda era
Todo um mundo a ser alcançado
Antes de roubarem minha inocência
Antes de tornarem minha alegria em
Solidão e minha vida, Senhor
Um passo dentro da escuridão.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Discurso do Homem da Assembléia

O Homem da Assembléia diz: "Como são transitórias todas as coisas! Tão transitórias! Tudo é transitório! Ganha realmente algo sob este sol aquele que trabalha com todo o seu esforço? Infindáveis gerações vêm, e outras tantas se vão, mas o mundo permanece do mesmo modo. Ocasos e alvoradas se sobrepõem apressadamente. Os ares de deslocam em todas as direções, voltando sempre ao seu ponto de partida. Todos os rios vão desaguar no mar, e ele não transborda; o ciclo sempre se refaz, e o que desaguou torna para novamente desaguar.
Tudo o que se faz resulta em muito cansaço, sem que alguém explique tudo com exatidão. Os olhos não se cansam de ver, nem os ouvidos de ouvir. Tudo o que passou está vivo naquilo que ainda virá, e se farão de novo todas as coisas que já foram feitas. Não há nada novo debaixo desse céu. Haveria algo de que se poderia dizer "veja, isso aí nunca houve", Não! Tudo o que há já existiu de algum modo em tempos passados. Assim como esquecemos os tempos passados, não haverá lembrança das geração futuras pelas que virão depois.
Eu, o homem da assembléia, fui o monarca na Habitação Harmônica. Dediquei com sensatez minha mente ao exame e investigação das coisas que são feitas debaixo do sol. Que dura tarefa o Elevado atribuiu aos homens! Observei todas essas coisas que se fazem sob o céu, é tudo por demais transitório, é como correr atrás do vento. O torto não se endireita. Ignora-se o que não está patente aos olhos.
Meu pensamento foi de que me tornei um homem próspero, com uma sabedoria superior à dos que governaram a Habitação Harmônica antes de mim. Acumulei sabedoria e conhecimento. Por isso dediquei minha mente a entendê-los, mas descobri que até isso é como perseguir o vento, porque ser sábio conduz à frustração, e quanto maior o conhecimento, maior é a tristeza.

Discurso do Homem da Assembléia (Eclesiastes) 1: 2-18. Minha versão fluída.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

As Luzes que Temos

Na vida seguimos as luzes que temos
Se as buscamos ou nos reserve a sorte
A pessoa não vê mais do que pode
Se o pode significa o que tenta alcançar
Há metas que existem para nos testar
E outras são coisas que lançam pelo caminho
Há fogo que queima com grande crepitar
E há chama que consome palha e se extingue
O esforço nos lança sempre contra as ondas
E talvez o orgulho nos encha em alto mar
Cuidamos vencer o gigante e não vemos
Que nos afasta para bem longe do continente
Amontoamos pedras e fazemos um nome
Como se o nome fosse algo a ficar
Ou as pedras fossem mais do que são
Pelo orgulho com que as empilhamos
E apenas vivemos pelas luzes que temos
Não as que apontam nosso turvo caminho
Mas as que surgem brilhando intensamente
Dos nossos olhos como faróis na escuridão.

domingo, 15 de janeiro de 2017

A Notação Linguística Universal

"As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo" 
                                                                                         Wittgenstein


Um pequeno auditório.

"Existem muitos sistemas informacionais. A língua é um deles. A língua falada é composta de sons que unidos de certo modo arbitrário constituem um veículo por onde informação passa de uma pessoa a outra. A língua escrita representa aqueles sons com sinais visuais com a mesma finalidade".
O palestrante lança um olhar amplo sobre sua audiência, não parece que eles estejam interessados. O discurso, na verdade, é uma simplificação bastante superficial de questões amplamente estudadas.
"As línguas escritas comportam diversas particularidades que são intrínsecas ao modo como seus sistemas , suas gramáticas, seus modos de impressão foram constituídos. Alguns sistemas de escrita são silábicos, outros são ideográficos, outros tantos são fonéticos. Há maior ou menor aproveitamento de espaço, maior ou menor capacidade condensativa. Em geral as escritas utilizam bastante espaço porque não possuem todos os meios da linguagem, como os gestos, entonação, expressões faciais, etc. Mas de certo modo todas elas conseguem expressar bem o que poderia ser expresso apenas por meio dos sons da fala. Mas os sons da fala são, eles mesmos, um código. A realidade que expressão está na mente do falante. O leitor, portanto, recebe uma realidade que é mediada de uma outra mente por meio da escrita, que poderia, de outro modo, ter sido fornecida pela fala".
Pausa.
"Imaginemos, entretanto, um modelo de notação linguística que fosse o veículo direto do pensamento, da informação, sem a mediação da linguagem particular. Imaginemos ainda que esse sistema fosse bastante econômico com espaço, conduzindo a quantidade de informação expressa numa frase longa no espaço de um caractere. Imagine também que as nuances da frase possam ser calculadas e cada uma delas expressa por meio de pequenas variações no modelo caractere-frase. É certo que a linguagem ideográfica faz algo parecido. Mas imagine que alguém possa dominar esse modelo sem decorar milhares de símbolos diferentes. Imagine que as variações escritas sejam pequenas, como nosso símbolos numéricos, e que a sobreposição de traços distintos, cujo cálculo obedeça uma lógica implícita, implique em todos os significados possíveis. A música e a matemática já fazem isso. Uma pessoa não precisa conhecer a língua de quem escreveu uma equação ou uma peça musical, basta-lhe conhecer as regras dessas linguagens. Uma notação linguística seria semelhante. Ela talvez não fosse eficiente para poesia ou as nuances estilísticas de certo escritor. Seria uma ferramenta de informação e uma espécie de tradutor direto, pois quem escreve o faz pensando no seu idioma e quem lê o faz também de acordo com sua linguagem particular".
Uma matéria:
O sistema do Notação Linguística Universal do doutor **** já a ferramenta principal de universalização do conhecimento, ultrapassando em importância a popularização da internet.
Outra:
O matemático **** apresentou hoje um revolucionário método de cálculo utilizando os modelos formais da notação linguística universal. Segundo ele, o a utilização do modelo permite cálculos hoje impossíveis pelo sistema numérico. "É como fazer cálculos em dimensões infinitas simultaneamente"- explicou o matemático. A expectativa é de que o sistema seja aplicado em outros campos do conhecimento, especialmente a informática e a genética.
O doutor **** afirmou hoje que não criou o modelo NLU, mas que na verdade o descreveu. Essa descrição levou à descoberta de propriedades que têm íntima relação com a estrutura de tudo o que existe. Já é certo que a essência do universo é de natureza informacional. Espera-se a solução de alguns problemas da física moderna. O problema da descrição, dizem os especialistas, não estava no método, mas nas ferramentas matemáticas.
Futuro:
A NLU revolucionou as ciências. Hoje entendemos melhor alguns fenômenos universais, e a tecnologia resultante lançou a humanidade numa era dourada. Manipulamos as energias universais com segurança, e nossos engenhos cruzam diariamente o Sistema solar. A vida, manipulada em seu nível mais básico, foi estendida de modo quase inimaginável poucas décadas antes. A NLU não nos permitiu apenas conversar uns com os outros, ela nos deu meios de dialogar com a realidade abstrata do universo. Ela nos deu o Logos universal.
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Isso é um conto, uma ideia louca. E, guardadas as devidas proporções, é o que fez a revolução da escrita para a humanidade. Será que uma ferramente "analógica" dessas poderia ter um efeito como aquele? Quem sabe.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Os Mamutes


As nevascas vieram com força esse ano. A prefeitura suspendeu o voo de wingflies durante os períodos mais intensos. Eu precisava sair de casa. Decidi utilizar os trilhos públicos. Havia uma estação perto de casa. Com sorte não haveria mamutes pelo caminho. A manadas costumavam perambular por Colombo e por grandes trechos do Atuba essa época do ano, mas devido às intensas nevascas, elas se deslocaram mais para dentro de Curitiba. Ouvi pelos prompts que um grupo grande se instalara na praça Tiradentes, bem perto da saída norte dos vapores quentes. Pena. Pensava em chamar um pessoal para um banho no lago termal da praça, mas os mamutes ficam inquietos com humanos nas proximidades. Não há registro de ataques, mas os censores alertaram para uma mudança nos padrões de agressividade da espécie, antes apenas vistos nos períodos de acasalamento. O subtrain estava vazio, as pessoas preferem trabalhar remotamente quando o tempo não ajuda. Na verdade preferem trabalhar remotamente em qualquer tempo. Poucas profissões exigem tanta interação física direta como a minha. Eu faço inspeções nas highways informacionais. Verdade que em vinte anos nenhum problema foi constatado, mesmo porque os sistemas de proteção automáticos cuidavam de todos os detalhes. Mas devido a um acidente quando os serviços de segurança informacional ainda eram menos eficientes, incidente de que ninguém se lembrava mais, a lei exigia inspeção humana direta por pelo menos três vezes na semana.
Havia uma moça sentada umas duas poltronas longe de mim. Sua respiração estava pesada. Algum tipo de alergia. Como é que alguém se sujeita a ter alergia hoje em dia? E ainda mais por motivos ideológicos obscuros, como devia ser o caso dessa moça. O nariz estava bem vermelho, mas ela era bonita, apesar de ser muito clara e usar aquele corte curto e a tinta prata metalizada nos cabelos. Não sabia se ela tinha reparado em mim, suas lentes estavam penumbradas. Tentei uma hiperconeção com ela, mas seu hard pessoal estava bloqueado. Tudo o que eu via era o aviso de "usuário em conexão privada". Ok! Um dia como esses a pessoa encontra um outro ser humano e prefere não socializar. É uma tipica curitibana de três décadas atrás. Mania de ficar julgando as pessoas essa minha. Nem conheçia a garota. Vai ver ela estava numa narrativa de ludodrive- pensei.
Desci na Estação Central, a garota continuava na sua desinclusão social. Atravessei os dois quarteirões que me separavam da Praça Tiradentes em poucos minutos. A neve parara de cair. Eu mal sentia o vento por trás da proteção térmica. Havia mesmo alguns mamutes na praça. Eles estavam agrupados, como se estivessem tentando se aquecer. Obviamente não era isso, pois esses animais conseguiam resistir às temperaturas do satélite Europa com quase nenhum controle ambiental. Produzir vegetais em grande quantidade em Europa já é mais difícil, por isso os mamutes não vingaram por lá. Mas não foi o frio, certamente não foi.
Fiz as inspeções, no retorno ainda observei os mamutes pela praça. O lago estava borbulhando convidativo. Dei uma boa olhada nos mamutes, não parecia que eles se importavam comigo. Fui até o deck térmico, despi completamente a proteção e me atirei nas águas quentes. Que delícia! Fiquei boiando de barriga para cima, inteiramente nu. Talvez alguém estivesse me observando, uma das câmeras. Mas quem se importava com um cara nadando pelado num lago termal cercado de mamutes num dia como esses? Com tanta coisa passando nos hiperdrives e as possibilidades infinitas dos jogos de realidade virtual plena isso era quase impossível, e para os sistemas inteligentes não havia diferença entre um humano com roupas de um sem. Fiquei boiando com a barriga para cima,os braços e pernas abertos, vitruviano. O céu cinza, familiar.
Uma onda passou sobre mim. Alguém pulou na água. Tudo bem, a densidade me impediu de afundar e engolir água. Um pouco entrou pelas narinas.
"Desculpe" - uma voz feminina.
Fiquei na vertical. Era a garota do trem. Sorria. Reparei nos olhos castanhos e na conexão imediata dos drives pessoais. Sônia. Não era ideologia. A avó decidira pela passagem. E ela estava com as lentes penumbradas revendo imagens familiares. Não era como um curitibano de trinta anos antes. Nos perdemos naquela tarde cercados de mamutes lanosos. A praça iluminada artificialmente lançava as sombras dos mamutes sobre nós.
Um ano depois fundimos nossos receptores sob a sombra daquela mesma manada de mamutes, no mesmo lago e sob o mesmo signo dos tempos.
Depois disso fizemos duas viagens a Marte e conhecemos as estações de férias de Europa. Planejávamos uma longa viagem pelo cinturão externo quando os gêmeos vieram. Semanas depois observávamos os fetos na estação de incubação. Registramos a intenção de nomes e saímos para a viagem, agora um pouco mais curta por causa do ritual de nascimento dos gêmeos.
Os anos se foram. Ainda inspeciono as highways, mas não com tanta frequência e quase sempre remotamente. Selena e Márcio decidiram emigrar. Ela atua na produção biológica de vida animal do instituto de terraformação de Alfa Centauri. Ele acompanha uma expedição científica perto da grande barreira de asteroides do limite delta da Galáxia.
Todo ano eu e Sônia comemoramos nossa união no lago da Tiradentes. Mas gostamos às vezes de patinar nas águas geladas do Parque Barigui. Agora os mamutes quase nunca saem dos limites de Colombo. A manada reduziu-se muito, ninguém entende direito por quê. É como se uma chateação da vida tivesse entrado neles. Sônia me diz que os mamutes têm também seu modo de passagem, como fizera sua avó anos antes, mas que era um meio natural. Eu começo a entender Sônia. Depois do secundo século de vida, a gente vai perdendo o gosto pelas coisas, pelas novidades. Mamutes vivem muito, tanto quanto a gente. E eles se cansam. Na verdade andamos cansados.
Estamos pensando em fazer a passagem. Já olhamos alguns mundos oníricos pelo catálogo, e até fizemos algumas imersões. Mas fica difícil escolher quando você ainda tem as limitações físicas, o verdadeiro encontro só pode se dar no fluxo dos dados.
Decidimos fazer isso nos meus 250 anos. Esperamos reunir a família para o ritual no mesmo laguinho quente.
Quem sabe os mamutes não aparecem?


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Antigamente...


Antigamente, quando eu não tinha tantas coisas para me preocupar, eu gostava de me perder pelos campos. Eu abria os braços e sentia o vento me levar, assim como o sol a acariciar meu rosto. O capim, havia muito capim naquela época, dançava ao meu redor, e o barulho era alguma coisa ancestral, difícil demais de reproduzir, mas numa linguagem que falava mesmo com o coração da gente.
Então eu me jogava sobre as touceiras de capim, e uma ave saía voando. Nessa época, você andava pelo campo e não via nada, então de repente uma codorna voava com uma barulho engraçado. De vez em quando você topava com uma cobra, mas as cobras, apesar de venenosas, eram mais honestas que as de hoje. Uma daquelas cobras antigas era perigosa como o diabo, e sorrateira, mas você sabia o que esperar dela, o bicho não tinha segredos. As de hoje não são assim, aliás, elas parecem qualquer coisa de bom, menos uma cobra. Às vezes você acha que elas são belas gaivotas, ou coelhinhos felpudos. E elas até agem como gaivotas ou coelhinhos. Mas então, se você baixar a guarda...
E tinha também os preás. Um preá é tipo um rato sem rabo. Melhor, é uma capivara anã. Mas que estou dizendo? O preá, se quer mesmo saber, é como um porquinho da índia. Só que um porquinho desses bem discretos, sem todas aquelas cores chamativas. Não pense que os preás eram feios, nada disso. Eles eram até que simpáticos, só que não eram muito ligados nesse negócio de socializar, como os porquinhos de hoje. Eles ficavam na deles, e, como as codornas, davam no pé ao menor sinal da gente.
Mas não foi suficiente. A gente quase que acabou com eles. Antes eles só se preocupavam com as cobras, mas o bicho gente é bem pior que qualquer cobra de verdade. Ainda vejo alguns deles de vez em quando num parque aqui da cidade. Os de hoje são bem menos ariscos. Algo que eu nunca entendi. deve ser porque há menos cobras, e a gente é mais dissimulado que elas.
Depois do campo eu gostava de cair no rio. Não me importava se houvesse os tais "peixes japoneses". Eu ainda não entendia esse negócio todo de ameaças microscópicas. Era só desviar do "tróço", ou "trôço", e tudo ia bem. Se bem que eles eram raros naquele tempo. As pessoas tinham lá suas privadas que devolviam ao solo o que do solo era. Hoje a gente não tem mais privadas. A gente tem esses belos banheiros higienizados. Nada daquele prazer ancestral de ir até a casinha no fundo do quintal, sentir as moscas zumbindo debaixo do traseiro e escutar o mergulho das fezes. Tempo bom! Hoje não tem privada, e nem vida privada. A privada de antigamente ocultava as nossas cagadas. Hoje não há vida privada que resista às nossas cagadas!
Quem sentiu o ventre cheio de madrugada, e conhecia as histórias de lobisomem, sabe bem como é ter a privada fora de casa. Era uma aventura, quando a necessidade era maior que o medo, atravessar o quintal na quaresma ou em noites de lua cheia! Se não nos pegasse o lobisomem, era bem que capaz que o fizesse uma visagem.
É claro que a gente não tinha essas frescuras todas, e a privada era quase um luxo. Se a coisa apertasse, a gente se aliviava onde desse, e se limpava, se, com o que tivesse. Às vezes era urtiga...


Nossa! Comecei esse texto tão poético e quase o termino afundado em merda. Mas é que quando a gente vive atolado nelas, até as merdas de antigamente parecem mais puras.
Mas isso foi quando eu não me preocupava com tantas coisas. Foi naquele tempo em que uma coisa boa era sentida até se esgotar, e não com esse prazer rápido das coisas que não passam de imagens descartáveis que tanto nos ocupam hoje.
Foi naquele tempo. Foi num tempo. Foi num lugar no tempo que só pode ser visitado com a saudade embalada no pensamento. Uma visita que termina rápida, e sem muito sentido, como esse texto.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Empatia

Empatia. Se para o indivíduo que a sente, ela pode ser dolorosa, é bastante evidente que nas relações "maiores" ela não é só importante como, tenho a ousadia de dizer, sua ausência é um dos MAIORES PROBLEMAS DO MUNDO, se não for o MAIOR.
Não é mais dúvida que somos todos membros de uma só espécie,a humana, mesmo assim estamos divididos em estratos sem fim. Desde sempre dividimos o mundo entre "nós" e os "outros". O "nós" representa aqueles para quem a empatia é permitida, e os "outros" são os interditos. As razões para isso estão, falando num sentido profundo, intimamente ligadas ao modo como nossa especie se desenvolveu, em suma, era uma questão de sobrevivência num ambiente com recursos limitados.
Obviamente ainda vivemos numa ambiente com recursos limitados, mas o nosso modo de organização social se desenvolveu a tal ponto numa rede tão intrincada de relações econômicas, culturais, etc, que não faz mais sentido, organicamente falando, a divisão em pequenos grupos. A humanidade é hoje uma grande organismo que se espalha sobre a face do mundo. Não é mais possível, nesse tipo de civilização, manter o distanciamento. É por isso que a empatia é tão necessária, pois o "outro" foi extinto. Só há "nós". Não podemos fugir, é irracional conquistar territórios e expurgar suas populações.
O modelo dicotômico pertence ao nosso passado, e talvez faça algum sentido, mas ele não é viável no mundo de hoje, e talvez já não fosse por uns bons séculos antes de nós. Porque nossas civilizações estão unidas por nossa tecnologia, nosso "modo de vida moderno". E a não ser que nosso mundo sofra um cataclismo universal, isso continuará irreversível.
Só que instintivamente ainda somos aqueles desbravadores tribais que saíram da África, conquistaram Ásia, Europa, Oceania e Américas, deixando uma trilha de ilhas povoadas pelo caminho, e sempre esquecendo que éramos irmãos dos que iam ficando para trás.
Nosso sentimento pessoal, instintivo, nos leva a buscar um grupo de pertencimento, já que não conseguimos, sem que uma força coletiva e civilizante nos leve a isso, nos enxergar como parte de uma realidade humana "macro".
Mas somos humanos, e precisamos "moralizar" nossas bandeiras. Vistas com os olhos limpos, todas essas batalhas não fazem o menor sentido, mas estamos sempre organizando nosso mundo ideal através de numerosas racionalizações que geram ideias, livros, movimentos, revoluções, guerras, apartheids e, paradoxalmente, irracionalidade.
Em nosso mundo, o "outro" já não é mais um objeto que impede a nossa sobrevivência, ou uma fonte de novos recursos. Ele é uma abstração, uma forma de "alterização" artificial. O outro é construído a partir de modelos teóricos, fabricado a partir de uma idealização do que somos "nós". O "outro" é uma imagem inversa e fragmentária de uma realidade que só pode ser boa do lado de cá.
E isso é exatamente o contrário da empatia, ou uma forma bizarra de empatia. Em vez de se colocar no lugar do outro, projeta-se no outro os demônios da nossa própria imagem (imaginária) "imperfeitizada".
Não se trata mais de pensar diferente, mas de pensar que se é diferente. Diante disso, todo mal é justificado e toda violência desculpada.
"Ame o próximo como a si mesmo"
Mas quem é meu próximo?