quarta-feira, 3 de abril de 2019

Nos Perdemos em Nossas Palavras

Nos perdemos em nossas palavras
Eu dizia, e como poderia ser entendido?
O vínculo das mentes é invisível
Ninguém entende, quem entende?
E cada palavra doce ia perder-se
Nos olhos que só viam o mal
E aquilo foi como um soco
Na boca do estômago
Pedrada nos olhos da alma
Eu senti aquela dor reprimida
As palavras voam no ar
E pescamos de lá as que queremos
O que um vê no outro é espelho
A noite traz seus seres brincalhões
É sempre noite na nossa imaginação
Dois passos adiante são dois passos atrás
E continuamos tão íntimos quanto
Dois estranhos cujas estradas
Nunca se cruzam...

sexta-feira, 22 de março de 2019

Religião Cristã e Ideologias Políticas

O cristianismo é uma religião excludente, há um só caminho. Muito diferente de algumas religiões includentes como a tradição hindu. Por causa do movimento ecumênico algumas vezes o catolicismo é chamado de includente, mas acho essa denominação inadequada.
Esse conceito de exclusividade tem como um de seus efeitos a "certeza salvífica", ou seja, a ideia de que, por estar no unica caminho, a pessoa está salva. Mas as vertentes cristãs têm uma característica interessante, cada grupo aplica a ideia de exclusividade a si mesmo ou a uma divisão menor dentro do próprio cristianismo. Por exemplo, alguns grupos de igrejas pentecostais aceitam que pessoas de outros grupos com doutrinas similares possam ser salvas, mas excluem todos os outros. Dificilmente um cristão do "pentecostalismo de periferia" (periferia do movimento evangélico) com um sistema radical de usos e costumes vai aceitar que um católico ou um protestante tradicional possam ser salvos. Em geral grupos de cristãos tratam outros grupos como "seitas".
Essa certeza pessoal leva a pessoa a acreditar que a forma como ela interpreta a fé, ou seja, como seu grupo interpreta, é a "correta", ou como costumamos dizer, a "fé ortodoxa". Nesse sentido a lista de crenças, os dogmas daquele grupo, expressam uma realidade cristã que remonta aos primeiros discípulos e, por extensão, ao próprio cristo. Quem conhece a nossa história sabe que os cristãos passaram a maior parte da sua história brigando por minúcias e "anematizando" (excomungado ou amaldiçoado) uns aos outros.
Atualmente esse movimento tem sido atenuado por uma espécie de "equilíbrio" das crenças cristãs ocasionado em grande parte pelo consumo multilateral de material entre as diversas vertentes. Entenda aí música, pregações e literatura.
Pois bem, o fenômeno não é exclusividade do cristianismo, e tenho visto as mesmas coisas se repetirem dentro dos grupos ideológicos. Durante muito tempo isso foi meio misterioso para mim, mas com o tempo entendi que o FERVOR manifestado por esses grupos, embora pretensamente "secular", é FERVOR RELIGIOSO.
Como é que eu não reconheceria algo tão familiar para mim mesmo? Esses grupos têm líderes messiânicos cujas palavras viram lei assim que são ditas. Têm "listas de crenças aprovadas" que são seguidas com tanta fé quanto um cristão católico crê na Trindade ou na imaculada conceição de Maria. Por isso tão pouca crítica "INTERNA" (dentro do círculo do grupo) e tanta demonização do contrário. Cada pessoa acredita que aquele sistema é a VERDADE, única verdade possível, mesmo que paradoxalmente fale em 'relativismo" (que é ao seu modo uma espécie de absolutismo).
Veja, na crença a pessoa busca por um SENTIDO (teleologia), e uma vez encontrado, ele passa a definir todo o resto. Numa denominação evangélica a pessoa encontra tudo o que socialmente precisa. A Igreja sob muitos aspectos nos ABSORVE totalmente. Ali encontramos uma família, uma série de atividades, uma esperança, uma utopia futura, um senso de justiça e uma lista de comportamentos aprovados, além de um inimigo claro com quem lutar. Aliás, a metáfora da LUTA é a que mais usamos.
As ideologias políticas são a sublimação das aspirações religiosas. E um ótimo consolo para pessoas que pretendem estar livres da superstição, mas continuam humanas, e portanto religiosas por essência.

domingo, 10 de março de 2019

À sombra de uma árvore...


À sombra de uma árvore
Mais velha que as fundações do mundo
Eu sentei, mirando a enseada
E a linha distante dos náufragos da vida
A tarde enrubescia o céu já cansado
Enquanto o vento adejava sobre as águas
Criando nas ondas umas tantas e indecifráveis
Mensagens...

E sonhei ao sussurrar da sua antiga voz sedutora
Que percorria meus cabelos, insinuando-se pela minha pele
Correndo pelo meu corpo
Perdendo-se nos meus anelos

Eu era pequeno como a ambição de um pobre deste mundo
Aninhado nos panos sujos de uma terra pestilenta
Que esquece seus filhos, e deixa-os criarem raízes
Nas sarjetas.

O dia frio de um sol intimidado
Acolhia meus quase surdos gemidos
O céu era cinza, era velho, o céu
Cobria-se de nuvens que anunciavam
Em breve tempestade

Senhor  que aos cães deu minha vida
Que outrora a esperança de uma mãe aninhava
Em seu ventre
Diga-me agora passado o tempo
Se há alento para um aborto em própria vida?
A beleza encontra a ternura, e o amor
Caminha entre os vivos
Fazendo vibrar a certeza dos mortos
Tudo é finito!

A vida, disse a voz paciente
É deriva, é barco perdido no mar
É uma pista de algo impossível
A vida é a chance que temos todos de amar
É percorrer uma estrada imprevista
Beber de águas sujas de onde brotam outras limpas e cristalinas
O mistério ninguém entenderá
O sentido escapa, a certeza é mentirosa
A vida toda buscamos o que no início
Da jornada tínhamos nas mãos e não sabíamos...

E ao som dessas palavras eu me ergui
Sobre as pernas infantes caminhei
Dei dois passos para além da infância
E depois de uma pequena caminhada
A adolescência ficou para trás
Corri para a vida adulta
E amei a vida, as pessoas, o porvir
Quando ainda achava que tinha muito pela frente
Ela surgiu, a que nos tira o que não temos
E estendeu-me sua mão descarnada
Era o fim
Não havia mais nada
Mas seu toque frio era um toque de mãe
Que recebe o filho há muito perdido
E dormi

Amanhecendo diante da enseada
Sentindo o mesmo agitar leve do vento
E a sombra que agora a tudo englobava
Entendi o sonho, e a vida
Somos tudo, somos nada
Somos a cor do dia surgindo devagar
Nas asas da madrugada
E o ocaso do sol à tarde
Naquela mesma linha
No horizonte, avermelhada...


domingo, 27 de janeiro de 2019

Nossa Pátria é a Humanidade

É indiscutível que o ser humano teve uma origem comum e que depois se espalhou pelo mundo, adaptando-se a cada local em que habitava. Nessa longa jornada os seres humanos uniram-se em tribos, dividiram-se em línguas, criaram cultura e formaram nações.
Suas características morfológicas se adaptaram às necessidades ambientais. A pele, em regiões mais frias e com menor incidência de luz, assumiu tonalidades mais claras, em muitas variações. Cabelos também mudaram.
Nessa longa jornada adotamos uma de nossas ilusões mais persistentes, a da desigualdade. Havíamos esquecido nossa origem comum, e mesmo quando admitíamos isso, ainda tentávamos, como tentamos, criar meios de nos diferenciar. Apontamos o indivíduo do outro lado como um "caído" ou como alguém cuja "pureza" não pode ser atestada. Por fim criamos uma aura de "nascimento", uns eram naturalmente melhores que outros.

Mudamos a face do mundo. E agora, no "topo" da nossa vitória, poderíamos aceitar nossa origem. Mas a coisa tribal, adquirida lá nos primeiros dias da nossa divisão, quando lutávamos por um pedaço de sombra, nos impele à divisão.
É difícil para nós entender que nossas divisões, manifestadas em instituições, são artificiais, ficções. Que nossas pátrias são apenas nomes, que um país pode deixar de existir assim como veio a ser.
E quando nem isso é suficiente, abraçamos nossas posições ideológicas com fervor religioso, e nossas opções religiosas com fervor ideológico, a ponto de achar que elas podem nos fazer mesmo diferentes, mesmo quando pregamos a igualdade.
Isso existe. Certamente nos ajudou no passado. Se um grupo com hábitos fixos se extinguisse, outros seguiriam adiante por causa de suas diferenças.
Mas chegamos num impasse. As ilusões não podem nos levar adiante. Na verdade têm causado muita confusão e sofrimento. As fronteiras caíram, o "mundo não é mais como era antigamente" quando enfrentávamos os imensos campos, florestas e oceanos desconhecidos.
Chegamos ao ponto em que só sobrevivemos amparados na realidade de que nossa única pátria é a humanidade.
O resto é mito.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Uma Pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho
Fria, dura e incomunicável
Que aquecia debaixo do sol, e de noite
Abraçava a madrugada fria, o relento
É o sonho da pedra que sonha sozinha
"Meu Deus, p'ra que tanta solidão?"
Há pau, há pedra, há não sei que
Outros elementos pelo caminho
Mas a pedra seca, indiferente
Destaca-se na paisagem sempre sozinha
"É solitário andar por entre gente"
Que aterradora sina se entre o chão e o céu
Há tantos outros elementos diferentes
Sobre o chão nada faz sentido
Pela dureza é filha da Terra
Pelas emanações é filha do céu
Mas em um e outro, estranha
Sempre ausente na própria presença
Não tinha uma pedra em nenhum caminho
A pedra não existe, e o caminho
É incerto sem alguém que o trilhe
E esse agora sem sentido
Deita no colo de um insano sempre. 

sábado, 5 de janeiro de 2019

Sabedoria

Um homem me chamou de sábio
Fiquei impressionado com aquela imprecisão
Confundir conhecimento, desenvoltura com a linguagem e um pouco de cultura
Com a mais elevada das virtudes?

Não sou sábio, nem sei se serei.
Eu brinco com a linguagem, invoco o eco dos fonemas
Mas daí a saber me conduzir no mundo...
Sabedoria não é dizer muitas palavras bonitas
Nem citar tal ou tal pensador
Sabedoria é o fruto de experiência, e de muito conhecimento
Que enraizou, e lançou longos ramos que dão, em cada ponta,
Uns frutos muito bonitos, que às vezes são amargos, e às vezes
Nos deixam perplexos, admirados e muitas vezes envergonhados com as nossas próprias tolices
A sabedoria raramente tem filhos jovens, mas os tem, confesso
É gente que recebeu educação e nela prosperou
Ou teve lá parente com conduta que calhou imitar
Até que o hábito fez do ato uma nova natureza
Ou a pessoa nasceu assim, com mais facilidade
Para evitar as ciladas e aprender nos erros dos outros...
A maioria de nós nunca chegará ao patamar dos sábios
Mas os que chegarem, o farão por muito tropeçar
A sabedoria não se alcança senão ao custo de muitas tolices
E de queda em queda vamos firmando os passos
Mas mesmo que lá cheguemos, ao cume dos sábios,
Ainda estaremos longe da sabedoria
Ou melhor, de saber que lá chegamos,
Pois a sabedoria tem disso de trazer consigo humildade
E o sábio verdadeiro é o que de se saber sábio não sabe...

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Espera


Eu esperei a porta se abrir e você entrar, mas nada
Lá fora as pessoas faziam festa e eu desejei
Que você estivesse entre elas e que logo viesse me ver
Eu odiava cada um daqueles risos, daqueles fogos, daquele burburinho
Que alongava meu tempo longe de você
Meus olhos iam da porta à parede onde o velho relógio estivera
Por décadas esperando a sua volta, mas eu via
Apenas a queda inclemente dos ponteiros, e sua
Angustiada subida

A noite ia subindo com cada um daqueles ponteiros
Trazendo a madrugada e no jardim tudo era silêncio
Exceto pelo murmurar daquela oração cheia de sons guturais
As sombras se agitavam numa festa invisível
E todos os amigos ressonavam, vencidos pelo torpor da ignorância
“Nem um pouco pudestes vigiar comigo”?
Os joelhos voltaram ao solo, água e sangue temperavam a solidão
Você não veio, e ainda se mostrava na ausência quando eles vieram
Quando a mais longa das noites começou.

Os animais estavam silenciosos, absortos com a dádiva maior
O pequeno dormia alheio ao mundo cruel que o cercava
As mãos já um pouco endurecidas pelo trabalho, mas ainda tão doces
Quanto podem ser as mãos de quem entrega uma vida ao mundo
Acariciavam- lhe as faces, embalando-o num sonho que era
O relato dos dias antigos e uma névoa com imagens do futuro
Quando as mãos seriam rudes, e a dor tão grande que
Não haveria palavra melhor que “abandono” para defini-la
Foi quando os pastores entraram pela porta aberta
Mas você não estava entre eles

Eu ouvia da sala as frases reverentes ditas naquela língua semita
As palavras se enrolavam numa manta latina
Que ia sendo dilacerada pelo uso de tantos corpos, tantas vidas
Barbarizando-se nas noites em que o idioma dos que dormem
Fluía pelas suas tramas, levando seus casos embora
Era um idioma novo, o mesmo que recebi por herança
E eu não o entendia, pela trama intrincada das vozes embriagadas
Pela alegria desse novo dia que escorria pelos vãos das minhas janelas

A porta se abriu sem que ninguém a forçasse
Revelando uma tarde nublada cheia daquelas primeiras vozes
Uns choravam a perda, outros riam daquele que por eles sentia
Um amor que nenhuma pessoa sabia explicar
A cruz feria a terra agoniada, e apontava um céu indiferente
Sangue e água jorravam de uma fonte dolorosa
A porta ainda estava fechada
E eu, naquela hora que consome todas as horas
Indaguei horrorizado, e tal pergunta ainda reverbera na minha garganta:
Pai, por quê? Por que meu pai? Por que me abandonaste?

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Os Princípios do Policiamento Moderno de Robert Peel.

Os "Bobbies", como eram chamados os integrantes da Met. 
No início do século XIX várias "erupções populares" ocorreram na Europa. O continente passava por grandes mudanças, a revolução industrial, a revolução francesa e o período napoleônico, o urbanismo acelerado, etc. Os governos reprimiam as massas utilizando forças militares (do Exército)  e milícias, grupos de cidadãos armados pelo Estado. Na Inglaterra a situação era muito grave, o país acabara de sair das guerras napoleônicas, havia fome, desemprego e ausência de representação popular no parlamento. Tudo isso foi agravado pela aprovação das Corn Laws, leis de estímulo aos produtores locais (que impedia a entrada de produtos mais baratos no país e prejudicava a livre concorrência). Em 16 de agosto de 1819 foi organizada uma grande manifestação em St. Peter's Fields, Manchester, com a participação de mais de 50 mil pessoas, entre elas muitas mulheres e crianças.
Como não havia polícia organizada, as autoridades solicitaram ao regimento de cavalaria local (Yeomanry, a 15th The King's Hussars) que prendesse um dos líderes, Henry Hunt. Entretanto as Forças militares entraram em conflito com a multidão, e utilizaram força letal, deixando um saldo de 15 mortos e algumas centenas de feridos. Foi o "Massacre de Peterloo", um jogo de palavras com a Batalha de Waterloo, em que Napoleão fora derrotado 4 anos antes.
O Massacre de Peterloo, por Richard Carlile
Alguns anos depois, Robert Peel, ministro do interior britânico, ainda com esses eventos em mente, criou o modelo que revolucionou e continua revolucionando a segurança pública no mundo. Peel precisava restabelecer a fé do público, ao mesmo tempo que reprimia o crime e protegia o inocente. Ele também precisava de uma força que atuasse em distúrbios civis que não fosse militar ou miliciana.
A nova polícia de Peel entrou em ação em 1829. A base dessa polícia é o policiamento por consentimento, em que a pessoa se submete por ter confiança na autoridade. A ideia também era criar uma força que pudesse ser fiscalizada pelo público. Para tanto Peel criou o princípio de que "a polícia é o público e o público é a polícia, sendo que o policial é alguém dentre o povo, pago para fazer em tempo integral o serviço que é de todos".
                                                     Robert Peel
As ideias de Robert Peel, o pai do policiamento moderno, foram resumidas em nove princípios ( conhecidos no Brasil por meio de traduções inexatas e tendenciosas) que foram, provavelmente, postos por escrito pelos dois primeiros Comissários da MET ( que é como os ingleses chamam sua polícia), Charles Rowan e Richard Mayne. 
Sede da MET

Os princípios, numa tradução literal:

[ Os deveres da Polícia são: ]

1 - Prevenir o crime e a desordem, como uma alternativa à sua repressão por força militar [Exército] ou [pela] severidade da punição legal.
2- Reconhecer sempre que o poder da Polícia para cumprir suas funções e deveres depende da aprovação pública de sua existência, [de suas] ações, [de seu] comportamento e de sua capacidade de garantir e manter o respeito público.
3- Reconhecer sempre que assegurar e manter respeito e aprovação significa também garantir a cooperação voluntária do público na tarefa de garantir a observância das leis.
4- Reconhecer sempre que a medida em que a cooperação do público pode ser assegurada [que assegurar a cooperação] diminui proporcionalmente a necessidade do uso de força física e da compulsão para alcançar os objetivos da Polícia.
5- Buscar e preservar o favor público, não por favorecimento [ bajulação] da opinião pública, mas por demonstrar constantemente um serviço absolutamente imparcial à lei, em completa independência da política, e sem consideração da justiça ou injustiça da substância das leis individuais, oferecendo de pronto serviço individual e amigável a todos os membros do público sem considerar sua riqueza ou posição social, pelo imediato exercício da cortesia e um amigável bom humor, e pela imediata oferta de sacrifício individual para proteger e preservar a vida.
6- Usar de força física somente quando o exercício da persuasão, conselho e advertência forem insuficientes para obter a cooperação pública na medida necessária para garantir a observância da lei ou a restauração da ordem, e usar somente o mínimo grau de força que é necessário em cada caso particular para alcançar os objetivos da Polícia.
7- Manter a todo momento um relacionamento com o público que dê realidade à tradição histórica de que a polícia é o público e o público é a polícia, sendo a polícia apenas os membros do público que são pagos para dar atenção em tempo integral aos deveres que são incumbência de cada cidadão no interesse do bem estar e da existência da comunidade.
8- Reconhecer sempre a necessidade de adesão estrita às funções policiais executivas, e abster-se mesmo de parecer que usurpa os poderes do judiciário, de indivíduos vingativos ou do Estado, e de julgar com  [suposta] autoridade a culpa e de punir os culpados.
9- Reconhecer sempre que o teste da eficiência policial é a ausência de crime e desordem, e não a evidência visível da ação policial ao lidar com eles.

FONTE ORIGINAL DOS PRINCÍPIOS: Policing by consent

sábado, 20 de outubro de 2018

Segurança Pública - Algumas Medidas


Não existem respostas mágicas para os problemas de segurança pública, porém as medidas principais para uma sociedade menos violenta são bem conhecidas. Entretanto muitas dessas medidas exigem mudanças estruturais que esbarram em interesses. 

Não vejo boas medidas em nenhum plano de governo, mas obviamente as questões mais técnicas serão tratadas depois, quando o governo, seja qual for, se instaurar. Vou resumir algumas boas medidas para você. 

A segurança pública é uma atividade interdisciplinar e intersetorial. Então não se resolve só com polícia. Mas também não se deve utilizar esse argumento para falam em segurança sem polícia, o que é o grande absurdo de muitos progressistas. Do mesmo modo não deve utilizar a falha em um dos entes do sistema para criticar outro, por exemplo, argumentar que a polícia deve render menos porque o sistema penal não funciona. 

O crime é um fenômeno variado, portanto conjuntos variados de condutas criminosas exigem soluções diferenciadas. A solução para o crime de oportunidade contra o patrimônio é diferente daquela para a violência entre torcidas. Pensar que "endurecer" o policiamento ostensivo vai resolver todos os crimes é ilusório, até porque a polícia não tem como ser onipresente. Deve-se entender que "criminoso" não é uma categorização ontológica, mas uma categorização de conduta. É muito comum que uma pessoa em conduta errada mande os policiais "prenderem bandido". 

Muito se fala em investigação no Brasil. A investigação entretanto tem duas facetas, aquela própria da persecução penal, ligada ao inquérito policial, e que é deflagrada após crime ou em razão de indícios observados durante o policiamento ostensivo. Esse segundo tipo é muito deficiente, principalmente por causa da divisão do ciclo policial. polícia ostensiva não faz investigação. Eu chamo esse segundo tipo de "investigação preventiva", ou, o que é tecnicamente mais exato, inteligência policial. Esse tipo de poder investigatório deveria de modo bem claro ser estendido a todas as polícias, ficando a exclusividade investigativa ligada apenas aos casos de persecução penal ou às grandes investigações que exigem autorização judicial e são mais técnicas.

Nem toda ação policial se refere a crimes, na verdade a sua grande maioria se deve a questões não criminais envolvendo desde o mero auxílio numa situação de socorro à perturbação do sossego ou um desentendimento de trânsito, casos que podem evoluir para uma situação mais grave. Nesse caso o policial assume mais a função de mediador. Esse tipo de situação deve ter solução local, ou seja, nos municípios através de suas guardas municipais, até porque alguns deles podem exigir a ação de outros órgãos municipais. Além do mais, os municípios estão mais aptos a coordenar programas de policiamento comunitário. Dever ter, portanto, protagonismo nas ações de segurança pública que envolvem a ordem social. 

O crime das organizações criminosas exige inteligência. Tais organizações são vendidas quando se impede o acesso delas aos meios de financiamento, assim como nas aplicações financeiras,  à aquisição de armas, veículos, imóveis, e ao recrutamento de mão de obra criminosa. Um dos meios de limitar esse último, mas não o único, é melhoras as condições gerais no sistema penal, impedindo que o crime se organize por lá, fazendo a separação do presos, impedindo que eles fiquem dependentes dessas organizações e facilitando a saída da vida criminosa por meio de programas de reinserção social. Mas sem inverter a realidade, o sistema penal serve para punir, recuperar não é sua função, mas é uma coisa desejável, sem dúvida. 

Por fim, não se consegue nada sem a participação da sociedade civil, ela tem que ser parceira ativa na solução dos problemas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O Cristianismo Primitivo e os Estados Organizados

Há muitas visões conflitantes entre os diversos grupos cristãos sobre como a política e o Estado devem ser. Mas numa coisa quase todas concordam: defender que sua visão da fé e suas práticas estão de acordo com os textos bíblicos e são conforme o que se praticava entre meados do primeiro e do segundo séculos, o que geralmente se chama "cristianismo primitivo".
O cristianismo não surge como uma religião, mas como uma das vertentes do judaísmo do primeiro século, que é muito diferente do judaísmo moderno. A nação judaica, Israel, era uma teocracia, embora naquele momento fosse domínio romano. A lei civil, portanto, era a lei de Roma, mas as instituições judaicas, com algumas exceções como a pena de morte, tinham alguma liberdade. É claro que isso é uma aproximação, o período era bem mais complexo, havia uma monarquia "herodiana" (idumeus, não israelitas), um governador romano, um sinédrio judaico (um senado judaico), etc.
O que as pessoas daqueles dias esperavam era um Machiach (Messias, um "ungido", ritual pelo qual eram consagrados reis, profetas e sacerdotes) que congregasse em si as funções religiosas e civis, assumindo o trono de Davi, o rei mítico (não no sentido de não ter existido, mas de ter se tornado lendário), reunificando e expandindo o território até os limites do que fora prometido aos patriarcas antigos, propiciando a "Aliá" (retorno) dos israelitas espalhados pelo mundo, submetendo os poderes terrenos e trazendo uma era de paz e justiça ao mundo.
O "mundo" então era romano, mas seu arcabouço cultural era o helenismo, movimento político-cultural iniciado nos dias de Alexandre Magno. A língua franca era o grego "coine", comum, que era uma variedade padronizada de diversos dialetos gregos. Nessa língua foi escrito o Novo Testamento. Localmente, entretanto, a cultura era semita, a língua do povo era o aramaico e a língua da alta cultura religiosa era o hebraico, semelhantes como o são o português e o francês.
Yeshua (Jesus) iniciou suas pregações nesse contexto histórico. Sua pregação tinha três "vertentes": a rabi leigo judeu com sua sabedoria e interpretação das escrituras hebraicas; a do taumaturgo (quem opera curas ou faz milagres) itinerante e profeta apocalíptico. Já antes de Jesus existia entre os judeus uma seita ou partido com essas características, os essênios. A marca principal dos essênios era sua separação do poder terreno, que eles consideravam corrompido por Satanás. Mesmo assim tinham consciência de que como "Verdadeiro Israel" precisavam viver entre o poder terreno e cumprir suas leis, tanto é que mandavam suas ofertas ao Templo construídos por Herodes, o Grande.
O cristianismo, que ainda não tinha esse nome, seguiu esse caminho. Jesus ensinava que o seu reino não era desse mundo (João 18:36), que havia um campo de César (modelo do poder terreno) e um de Deus ( Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus, Mt 22: 21). Desse modo ele ensinou que convém cumprir as obrigações civis nesse mundo. O cristão, quando a ordem legal não contraria sua fé, deve respeitar os poderes instituídos "(...) porque não há potestade [poder] que não venha de Deus; e as [poderes] potestades que há foram ordenadas por Deus", Romanos 13:01.
Quer dizer que o cristão deveria "sair do mundo" e não atuar de modo algum na sociedade? Não, pelo contrário, ele deveria ser justo em tudo o que fizesse, pois:
"(...) quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus". 1 Coríntios 10:31
Esse "tudo" engloba toda atividade humana, mesmo o governar em sentido amplo:
"Mas não sereis vós assim [como os que governam com autoridade] ; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve". Lucas 22:26
É uma ética muito elevada, que orienta a ação cristã para o bem da sociedade, mas não implica em imposição de valores ou visões. Na realidade cristã, a pessoa não impõe pelas palavras, ela conduz pelo exemplo.
"Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus". Mateus 5:16
Esse é o sentido de ser "sal da Terra e Luz do mundo". Ao mesmo tempo em que se consideram "estrangeiros e peregrinos na terra" (Hebreus 11:13), os cristãos são instados a influenciar o mundo e seus sistemas como seu modelo elevado de justiça.
Muitas pessoas na história se guiaram por esses valores, e puderam, com essa luz, ser bons estadistas, políticos que serviram sua geração, assim como muitos outros, assenhoreando-se dessas ideias apenas no discurso, ou por uma visão corrompida, mancharam sua herança cristã misturando uma ideologia terrena, quando não suas próprias ambições, com as ideias elevadas do evangelho.
Será que tal visão ainda pode ser uma guia eficiente para as pessoas de hoje?

Democracia

Democracia é uma ideia linda. Mas entre a beleza de uma ideia e o mundo real existe um abismo de subjetividade. Uma bela ideia que nem sempre produz belos frutos. Churchill uma vez disse que a democracia é só o segundo pior sistema de governo, atrás de todos os outros. É difícil não concordar com isso, pelo menos em consideração à história recente - e por "recente" quero dizer os últimos duzentos e poucos anos desde a independência americana ou, um pouco depois, a revolução francesa.

No primeiro caso, uma democracia imperfeita, mas com solidez suficiente. Talvez porque afastada dos elementos que resistiam ao "novo". No caso franco, a revolução levou ao terror, e o terror ao velho corso.
Será que o americano era mais "preparado" que o francês? Penso que a diferença estava nos objetivos, muito mais pragmáticos no caso americano, construir uma grande nação (com liberdade), e muito mais diluído nos franceses, a ideia da liberdade.
Uma democracia moderna (sentido temporal) como a nossa é outra história. Verdade é que pensamos ainda num dos dois tipos de "ruptura", e é essa a tônica das discussões atuais. Penso que uma democracia assim precise de duas coisas, um sistema que permita ao povo atuar na política de fato, e, o mais difícil, um povo minimamente preparado para isso. O preparo é menos formal do que parece, trata-se de disposição mental, de senso crítico, de resistência aos apelos emocionais, portanto, uma resistência miníma à demagogia. Aliás, toda democracia convive com demagogia, mas há casos em que a demagogia substitui de modo insuperável a democracia.
Usei "demagogia" em dois sentidos, o ato de ser demagogo, e o governo do demagogo. E um governo assim retroalimenta a máquina da democracia com o combustível da dependência. Um povo dependente nunca jogará bem a democracia, pois apenas corre para suprir uma ausência que existe como fator que o mobiliza para a servidão.
Então está tudo perdido? De modo algum, pois a natureza humana sempre arruma um modo de se insurgir contra a servidão, e a resistência vai arrumando modos de continuar espezinhando a demagogia.
O grande perigo é quando a ideologia, abraçada à resistência, torna-se fim, quando não pode ser mais que meio. O mundo melhor vai sumindo no horizonte, borrado pela bandeira, e esta segue tremulando e crescendo até que não haja mais horizonte.
Então a democracia morre.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Os influenciadores

Somos uma espécie muito dependente de hierarquias. Desde a infância buscamos "líderes" naqueles que se destacam de algum modo, positivo ou não. É natural os meninos terem um "menino-alfa", que é aquele que sempre é nomeado. É "ele" e os outros. É mais ou menos assim até nossa entrada na vida adulta. Entretanto a função hierárquica nunca some, ela só vai mudando com o tempo.
A função de liderança é natural, e nem sempre obedece aos ditames formais. Numa equipe o líder pode ser diferente do chefe, um comanda pela "norma", outro pelo carisma. O segundo, entretanto, sempre tem uma influência muito mais abrangente.
Mas temos um problema sério com os influenciadores: eles nem sempre têm plena consciência de sua importância. Em muitos casos assumem essa liderança como um prêmio psicológico. Sentem que isso faz deles pessoas mais importantes, e invariavelmente esquecem que isso lhes traz uma enorme responsabilidade, pois eles imprimem "normas sociais" de comportamento nas pessoas que são por eles influenciadas.
Há funções ligadas a profissões e posições sociais que são mais influenciadoras que outras: os familiares, com posição central dos pais; os líderes religiosos, principalmente de grupos com tradição comunitária; os professores e pessoas ligas à educação em geral; os policiais em maior grau, seguidos por todos os que estão de algum modo ligados à segurança ou usam uniformes que lembrem esse tipo de autoridade; os políticos; artistas de "performance" (cantores, atores, etc); e ultimamente os "digitais".
Essas pessoas "moldam" a sociedade, por isso é devastador quando eles não têm consciência disso. Cito aqui como exemplo uma professora defecando sobre a imagem de um político, o policial que trata as pessoas sem civilidade, o político com um discurso de honestidade que está sempre metido em falcatruas, assim como artistas que não respeitam as leis e que defendem práticas ilegais.
O momento atual é ainda mais grave, porque fatores históricos de controle social como a família, a escola e a religião estão enfraquecidos. Nesse sentido, o influenciador mais próximo será a força dominante. Somos como outros animais, reproduzimos o comportamento do líder porque isso se torna "norma social" e fator de prestígio. Ações e pensamentos são moldados por esse guia, e práticas socialmente destrutivas passam a ocupar a posição central nas relações, em vez de ocupar as "fronteiras", os "perímetros externos". Vícios como o alcoolismo, o tabagismo e o uso de drogas ilegais aumentam na medida em que são hábitos dos influenciadores. E o desvio passa a ser "legal" amparado no discurso. Entretanto lembro que muitas pessoas com um discurso "forte" acabam chocadas com a reprodução deles na vida das pessoas.
Portanto uma sociedade melhor passa pelo "aparecimento" de influenciadores melhores que tenham consciência de sua função e exerçam isso de modo "ostensivo".
Você, pai ou mãe, deve entender que seus hábitos serão as primeiras diretrizes nas relações de seus filhos. Se você se embriaga, se droga ou é desonesto na frente de seus filhos, é muito provável que eles vão reproduzir isso. Mudar a sociedade, portanto, é mudar seus hábitos, e dar ao mundo cidadãos melhores nos seus filhos. Assim devem pensar professores, pois alguns deles internalizaram demais a ideia de que a família é que educa. Eles por sua posição também influenciam e muito. Assim são os policiais e os políticos, funções de pedagogia social por excelência.
E assim é você que exerce esse "poder" sobre os outros. Conscientize-se disso, e "performatize" suas ações de acordo com os valores que você defende. Esse é o primeiro passo para um mundo melhor.

sábado, 15 de setembro de 2018

POLARISMO POLÍTICO E O APOCALIPSE

         
Você não sente essas eleições com um certo "gostinho de apocalipse"?
Mais do que uma ideia, a destruição iminente de todas as coisas, no discurso, tem como alvo principal nossos sentimentos. Medo e esperança.
A coisa tem lá alguma curiosidade. Quando escrevo "apocalipse" alguém pode pensar nas imagens horrendas de monstros surgindo da terra, bestas do mar, rochas fumegantes descendo dos céus, mortos caminhando pelas ruas. Um tanto vem da leitura do livro bíblico, docemente iluminado pelos artistas medievais, outro tanto pelas obras de ficção que exploram os fins da sociedade.

É uma associação curiosa, mas tem certa razão de ser. "Apocalipse" é um termo grego que significa algo como "retirar o véu", ou na minha versão pessoal, "afastar as cortinas". Apocalipse é um gênero literário que surgiu com os judeus no o fim do império persa (uns 400 anos antes de Cristo) e teve seu pleno desenvolvimento de 200 a.C a 100 d.C. São muitíssimas as obras apocalípticas, e algumas delas influenciaram diretamente os escritores bíblicos. Na Bíblia temos dois livros desse gênero, Daniel e Apocalipse, com algumas outras manifestações em outros livros proféticos. Fora da Bíblia são mais conhecidos os Livros de Enoque e O Livro de Jubileus, com alguma manifestações cristãs posteriores.
Embora a gente entenda os apocalipses como obras que falam de julgamento e do fim do mundo, o que não deixa de ser correto, o seu foco principal não é o medo, mas a esperança. Apocalipses são obras de fundo político, além de religiosos (o que era indissociável naquelas épocas) elas falam dos impérios que dominavam o mundo quando foram escritas, e os associavam a um império definitivo das trevas, que invariavelmente entraria em conflito com o império da Luz. Uma seita judaica, os Essênios, levou isso tão a sério que criou uma comunidade no deserto para preparar os "filhos da luz" para o derradeiro conflito contra "os filhos das trevas". Essa dualidade não é por acaso. As ideias apocalípticas foram influenciadas pela religião persa, o Zoroastrismo, que acreditava em dois princípios em conflito, e numa batalha definitiva no fim dos tempos. Você certamente já ouviu falar em "maniqueísmo". Os maniqueus eram uma seita cristã sincrética com elementos do zoroastrismo "recuperados", ou seja, levavam a ideia de dualismo bem mais longe.
Embora leiamos os apocalipses como descrições de horrores inimagináveis, elas falam, na verdade, de coisas bem reais para seus escritores. Todos aqueles atributos são simbólicos, porque as pessoas não podiam se manifestar com liberdade.
Eles tinham uma coisa em mente, e não era só o medo, mas dar uma explicação para os eventos incoerentes do mundo, como "injustos" dominando " justos", dar uma sensação de finalidade (tudo ocorre por uma razão) e no meio de tantas contradições criar esperança de dias melhores ao mesmo tempo em que convocava as pessoas a agirem "com justiça e fé" nesse tempo de provações.
O interessante é que um dos temas mais valiosos dos apocalipses é o messianismo e a figura dum libertador. Não existe apocalipse eficiente sem ele, o messias. O Messias é o general das hostes da luz, é ele quem guiará os justos na batalha final contra os "filhos das trevas" e seu general, o "antimessias", ou Anticristo, em nossa versão cristã.
Você percebe como esses temas, e a afetividade inerente a eles, persegue nossa espécie? O que me parece é que os apocalipses são manifestações de um modo instintivo de ver o mundo, principalmente com relação aos grupos adversários, e de dar sentido a ele. O "outro" é o mal, a luta contra ele é uma luta justa, e nosso guia nos levará a vitória. Isso surgiu antes da religião organizada, orientou-a em tempos sombrios, e penetrou em nossa mentalidade política. Analise nossos movimentos políticos modernos, perceba esses sinais neles. Todo fervor político é também uma crença apocalíptica, não entendida como o "fim do mundo", mas como a salvação de um perigo enorme e a luta contra a opressão do outro. Isso é flagrante nos grandes movimentos políticos, como as formas de socialismo, como exemplo:
-Revolução do Proletariado/ Luta de classes - filhos da luz/ filhos das trevas, guerra apocalíptica.
-Ditadura do Proletariado/ Utopia comunista - variações do milênio.
- Lenin, Stálin, Mao e todo líder socialista - O messias.
Usei o socialismo, porque nele o modelo é mais claro, mas a ideia está presente em tudo, mesmo no nazismo com seu fuhrer, Reich de mil anos, etc. 
Em suma, somos apocalíticos por natureza. Provavelmente sempre seremos. Mais do que movimentos racionais, estamos seguindo diretrizes instintivas produzidas durante milênios de guerras tribais. Não é a "guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas", é apenas a força instintiva nos atraindo para polaridades e adotando homens como símbolos pelo caminho.
Ainda mais nesse tempo, com a difusão das redes sociais. Nossos profetas antigos intuíram bem nossos desejos secretos, só não previram uma coisa como a internet e a democracia, que levariam o uso de imagens e símbolos muitos níveis adiante.

E um dia vou escrever um livro sobre isso.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Quando a Gente se Perdeu.

É poema, mas podia ser balada. Vamos cantar a morte das nossas aspirações de juventude...
Camarada...que tempos foram aqueles em que a gente se perdeu?
Eram dias de neblina, ou seriam cortinas de fumaça?
Vivemos os tempos sombrios, lutamos com demônios invisíveis, sonhando com amores ausentes..
A gente era bobo e inteligente, curtia música ruim, tomando cachaça de canudo num abacaxi.
A gente nem gente era, não escovávamos os dentes, não tomávamos banho
A gente não fazia a barba ranhenta, piolhenta, e limpava as mãos sujas nos velhos jeans rasgados
A gente pregava a revolução contra o velho capitalismo decadente, contra a classe política corrupta, contra a massa ignorante trabalhadora serviçal que batia ponto na firma
Que batizava o filho da vizinha, e a cama da vizinha... que dizia que o padre dizia que não se devia perder uma missa
A gente tinha uma nova doutrina, rabiscada em velhos cadernos, com garranchos que hoje não entendemos..



Me ensina, amigo, a velha dialética rasgada em versos anarquistas
Eu quero o amor, o fervor, o fuzil e a lança
Eu quero o canto das minas
Curvilíneas, de cabelo azul
Safadas retumbantes voando nos ares
As esteiras de todos os tanques
Sem manchas nas mangas da minha jaqueta vermelha..

Minha velha mãe achava que eu estava sozinho, minha mãe me deu um cachorrinho
Quem quer saber do seu Poodle quando eu tenho o meu Proudhon?
E se a gente soubesse, camarada, que trocaríamos o abacaxi por cerveja e linguiça, o velho jeans surrado por roupa de defunto? A gente é pai de família, com título de eleitor, semana que vem tem matrícula, o colégio, a academia, o enterro da minha tia e belas flores no tampo brilhante da formatura , vem dançar, é noite, a valsa das filha desses sonhadores..
Trocar o carro, mandar fazer a cozinha, o chuveiro queimou, não esqueça a taxa de lixo, é eleição, temos que votar contra os corruptores. Quanto sai um cento de coxinha? Morreu o Zé, o Chico, ouço música sertaneja, samba e popular brasileira.
E vemos nas tardes de domingo, nos círculos dos amigos, na teve umas belas gurias, que roupas, que curvas, que pernas, companheiro!
Que será de nós, camarada, quando nas brumas da morte encontrarmos a neblina em que moram os meninos pirados que éramos? Que lhes diremos quando nos perguntarem o que fizemos de seus sonhos? Teremos coragem de dizer que nos tornamos tudo aquilo contra o que eles lutavam?
Que tempos são esses, camarada, em que a gente se perdeu?

domingo, 17 de junho de 2018

Estilo de Vida Moderno


O que o "estilo de vida" moderno faz com a gente? A coisa em si já é um jargão sem sentido.
A vida da gente é uma quantidade desconhecida de areia descendo de um a outro compartimento na ampulheta da nossa existência. Ampulheta é um cronometro, um medidor temporal, que usa uma certa quantidade de areia que vai descendo por um vão que liga as suas duas partes, marcando, com isso, um certo período de tempo. A falha da analogia é que você pode recomeçar a contagem virando a ampulheta, o que é incerto para a vida humana, exceto se houver reencarnação, e, por consequência, uma alma imortal e incorpórea.
O fim da vida é a única realidade fixa num universo humano de tantas "certezas". A gente vem ao mundo biologicamente determinado a fazer certas coisas numa linha tênue que liga a concepção à morte, o que equivale a dizer "o não-ser ainda ao não-ser mais". Existir é um pequeno hiato, é um acidente aristotélico num mar de pessoas-possibilidade emergindo e submergindo duma massa humana semi-consciente de sua efemeridade diante do imenso "todo". Filosoficamente desesperador, e difícil de compreender mesmo para quem tem as ferramentas intelectuais para isso.
É uma coisa incrível, fantástica e algo melancólica. Mas o que se faz diante dessa constatação? A maioria não faz nada, porque a gente se "alija" (se lança, se joga) para fora dessa percepção fazendo do hiato, da pausa, o TUDO. O materialismo moral é a tentativa inconsciente de negação dessa finitude, e um esforço para escapar "usufruindo", se não da coisa em si, pelo menos do medo. Esse é o verdadeiro ópio das massas.
Mas se a vida é um recurso limitado e de duração desconhecida em nossas mãos, como podemos sabiamente utilizá-lo? É um pergunta complexa que talvez não tenha uma resposta única. O certo seria viver, consciente da mortalidade, de modo simples e cultivando aspirações que resistam à nossa própria "fortuna" (no sentido clássico). Isso pode parecer materialista naquele sentido moral. Mas não é, pois implica consciência, o que por si destrói a ilusão de permanência.
O que é desproposital para o nosso "estilo de vida". Pois a gente aprende desde cedo que se deve "conquistar". A gente é como aquelas cobaias colocadas numa raia para competir. Uma cobaia o faz por instinto, na gente criam um instinto cujo prêmio é a fantástica FELICIDADE. A gente não quer ser feliz, a gente precisa DESESPERADAMENTE ser feliz. E ser feliz implica em ter o melhor cargo, o melhor carro, a melhor sei-lá-o-quê. O preço contamos em vida, parcelas da finita areia que desce indiferente. Não podemos parar para ver o sol, para curtir o vento, para ouvir um pouco a pessoa que nos fala a partir de dentro, do ser que somos de fato.
Alguns alcançam o prêmio. Mas todos pagam o preço em sofrimento, ilusão, desumanização. Nós, os outros seres que habitam esse mundo e o próprio mundo que vai sendo desfigurado pelas nossas mãos. E talvez seja isso mesmo o que nossa natureza humana nos destina. Mas aí nos vem a percepção, a ideia, a aspiração sei lá de onde - talvez do eu oculto- de que há um potencial desconhecido para ser diferente. Porque na verdade tudo é tentativa de escapar do fim inevitável, e esquecer dele aproveitando o prazer da artificialidade, uma sombra ambígua sempre além da curva.
A gente também paga em sanidade. A indústria da psiquê cresce a olhos vistos. São tarjas vermelhas, pretas. Você é um doente. Vamos organizar essa química cerebral ferrando com o resto. É o preço que se paga por ser tão eficiente. E se não for, você é um marginal.
Corra! Encha a atmosfera com toneladas de gases poluentes. Mate rios, animais, aqueça a Terra. Vença a sua destruição iminente destruindo todo o resto.
Nosso "estilo de vida" é só mais uma ilusão que vamos alimentando com a força da nossa fé. Porque progresso só vale a pena se nos custa nossa alma no processo. Mas nossa alma não morre calada.
Ela nos fala na calada da noite, na depressão, na loucura, no medo. Ela nos fala a partir de nossos olhos no espelho:
-Pare!

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Metamorfose Ambulante


Um ano antes do meu nascimento, em 1973, o bruxo-mestre--crente-tudo-em-um-e-nada Raul Seixas lançou o álbum Krig-ha, Bandolo!, e numa das faixas ele cantava:
"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/ Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo".
Pobre Raul! Tão celebrado por uma tribo de tiozinhos nostálgicos, se acreditava mesmo nesses versos, seria hoje, por esses mesmos tiozinhos, execrado. Raul é o cara que celebrou os que não têm "convicções", aqueles que são "fracos na crença, os tais que ficam em cima do muro. Sendo sincero, não é mesmo legal nunca ter convicções, mas é pior ter convicções como armadura quando as sabemos erradas.
Mas é música, e música é poesia e poesia, dizia outro mestre, é produto de um fingidor. Talvez o velho baiano estivesse falando na voz de um personagem que ele desacreditava. Talvez não. Talvez o velho estivesse apenas nos dizendo que a gente tem que ser honesto com a gente mesmo. Que a gente precisa fazer aquele exercício de se colocar na posição do nosso adversário.
Até a Bíblia critica a mentalidade do velho maluco beleza: "porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte(...)é alguém que tem mente dividida e é instável em tudo o que faz". Tiago 1:6,8.
Você tem noção de como isso é forte? E não é só em questões de fé, não senhor! É em tudo. Se você tem convicções políticas, uma força social gigantesca vai te pressionar para ter TODAS as convicções. É tudo ou nada, dizem não dizendo.
Deve ser nossa natureza primata ou nossa natureza de caçadores-coletores da pré-história. É que a gente sente, instintivamente, que tem que pertencer a um grupo. E uma vez no grupo, a gente levanta todas as bandeiras do grupo, a ponto de acreditar que acredita em tudo o que diz acreditar.
Porque as ideias "corretas", as posições corretas, é que fazem de você um Sapiens e não um Neandertal. Um chimpanzé de cá do rio e não de lá.
Por sorte, ou não, também somos criaturas profundamente curiosas. E a curiosidade "profunda" não é coisa que combine com convicções fortes. É nosso paradoxo enquanto espécie. Não fosse assim, uma coisa como a ciência moderna não seria possível. E a filosofia nem teria dado seu passo para dentro desse turbilhão de mais de 2500 anos de pessoas negando o que um outro disse e sendo desacreditadas por outros que não concordam com o que elas mesmas disseram. É como disse Thales, o de Mileto, dito o primeiro dessa estirpe: "A ignorância é incômoda".
Mas a ignorância é a realidade de quem finalmente desperta, de quem finalmente se olha no espelho da honestidade, não como Pedro, negando a si mesmo diante do espelho, outra do baiano.
E a consciência da ignorância nos leva a descartar convicções, acatar outras, experimentar, testar, voltar ao princípio, sentar no pó cansado, exausto, perplexo diante da vastidão do que não sabemos.
Dois princípios brigam em nós, um de preservação que nos leva a sempre considerar nosso conhecimento como coisa fixa e certa, melhor não arriscar; e outro, tão forte quanto, que nos leva a caminhar para fora da África, vagar por Ásia, Europa, navegar para a Oceania, atravessar pontes geladas, povoar a América. A se lançar numa louca viagem marítima, guiados pelas estrelas, mesmo que nossos mapas apenas nos digam que lá na frente há monstros terríveis ou que o mar termina bruscamente numa imensa cachoeira que deságua para dentro do nada.
Mas isso também é ter convicção. Convicção da nossa capacidade de ir além.
Um dia um de nós estará com os pés no solo de um outro planeta. Ele/ Ela vai olhar um céu diferente, talvez tentando localizar a pátria ancestral, e talvez sua única certeza seja de que valeu a pena testar as próprias convicções. Talvez não.
Quem sabe? Um pouco a gente sabe, um tanto a gente adivinha e o resto a gente arrisca.
Prefiro ser... 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A Balada do Assassino e da Morte


Silêncio.
Meus passos soam no cascalho de uma rua morta
É madrugada, e as sombras escondem-se sob o abraço das névoas..
O murmurar sonolento das criaturas da noite dança ao meu redor
Enquanto o sangue desce pelo meu braço
Numa varanda carcomida uma velha cadeira eu encontro
Postada atrás de uma mesa antiga onde repousa uma garrafa
De alguma esquecida bebida
Sento e me sirvo, ali perto uma porta range acariciada pelo vento
Como uma amante há muito solitária que recebe os afagos
De alguém que julgava nunca retornar
Eu me sirvo, e a bebida queima minha garganta e vai perder-se
No vazio esgotado das minha entranhas
A madrugada me cerca e as sombras parecem se acercar para ouvir
Os passos que me seguem sobre os mesmos pedregulhos
Muito maior que eu ele se aproxima, o chapéu negro cobre a face e as pontas do sobretudo enchem as vielas
Enquanto um turbilhão de moscas voa ao redor da figura escura
E ele para diante de mim, em silêncio
Eu lhe ofereço uma cadeira, de onde ela veio não sei, e um copo
Que agora transborda de cheio, ele bebe
Ouço o liquido espremer-se pela sua goela, hesitante
E a mão descarnada desce, o copo vazio, novamente o sirvo
E ele com o copo cheio toma também a garrafa e despeja
Seus olhos vazios me convidam a que beba, e eu bebo
O liquido desce, mas não leva meus pecados
É o fim, é dança final de um baile pavoroso
Mas meu parceiro não tem pressa, e a garrafa sempre cheia
Meu copo é novamente inundado com aquela infernal bebida
As tábuas gemem cada vez que ele se move
Ele tira do bolso um cigarro e um isqueiro, acende
Depois de sorver a fumaça, sem soltar, ele me estende aquele curioso artefato
E eu sorvo, a fumaça negra desce para meus pulmões
E não estou ali, o dia claro se estende
Enquanto a garota assustada implora
Eu não sinto, não há perdão que dar, não há misericórdia que buscar, e a pressa pressiona meu dedo
É noite e o homem implora com horror, mas eu não sinto, fala dos filhos, mas eu não me interesso
O tiro atinge a testa, e a parede recebe uma decoração vermelha
Muitos dias e noites passam diante de mim, e corpos que caem
O sangue inunda minha visão enquanto libero o conteúdo infernal numa fumaça negra em que rostos disformes parecem se agitar
No chão meu sangue já forma uma pequena lagoa, e mais corpos dançam o baile da perdição
Eu busco seus olhos, quem sabe haverá compaixão, mas as orbitas vazias não me oferecem consolo
Apenas fogo, mas um tipo diferente, escuro, indescritível
ele enche meu copo, e eu bebo, a noite está a ponto de se desfazer
Eu nada sinto, nem medo, nem horror, nem desalento
A bebida é o fogo, é o vento, é o ar parado
É o ranger luxurioso da porta, é o pecado, a morte
O julgamento e a último momento de um condenado
A noite se desfaz, meu parceiro não está mais ali
O sol se insinua na velha cidade morta
É tarde, eu fecho meus olhos
A mesma arma está descansando apoiada na minha têmpora
E meu dedo vai pressionando de leve o gatilho...

domingo, 22 de abril de 2018

A vida de um cara que era a piada da escola

Então chega um dia em que você descobre que ser um idiota até que é divertido...fala sério, como é que você ia aparecer se o valentão da turma não te humilhasse publicamente?

Você estava lá (naquela época ainda tentava passar despercebido) andando colado junto à parede tentando mimetizar uma sombra... Ali perto vinha a Desfrutável da escola e ao redor aquela nuvem de moscas varejeiras- sabe?- as candidatas a rainha da futilidade. O que você não daria para por as mãos em pelo menos uma só daquelas pequenas do exército das varejeiras! De fato na época você não era muito exigente, mas quem seria a louca para querer algo com você e ser eleita a Miss Dumber do ano? 

Nisso o Valentão pôs os olhos em você- droga!- você pensou, mas era tarde. Ele deu aquele sorrisinho sarcástico e soprou a mecha a la Superman dos olhos. E você só pensando nos gibis que trazia na bolsa, uma edição novíssima da família Halley, número 1 dos "novos heróis do espaço". Puxa, com essa sem querer entreguei que estamos em 1985...

Você quase sentiu o vácuo que se formou quando a Desfrutável deu aquele suspiro extasiado de lady romana nas arquibancadas do Coliseu adivinhando um novo sacrifício à sua real divindade. 

Enquanto ele caminha na sua direção, todos começaram a sair de perto, você bem que tentou se esconder atrás de uma sardentinha que passava por ali, mas ela te deu um cotovelada que te deixou sem ar.

Você olhou ao redor, desesperado, mas só encontrou medo e expectativa. Medo de apanhar também e expectativa de ver uma boa surra- naquele tempo ainda era interessante quando você apanhava. Tempos depois você precisava implorar por uma surrinha, um chutão, um pisão no pé e quando muito dois ou três assistiam.

Apesar de tudo, seu coração estava a mil e você suava em bicas, você não conseguiu desviar os olhos da Desfrutável, aqueles olhinhos azuis que pareciam duas perolazinhas flutuando num mar de perfume. Olhinhos ansiosos.

Ele te pegou pelo colarinho e te fez ficar na ponta dos pés, sua bolsa caiu e espalhou seu material pelo chão. Ela não tinha fecho. Caíram cadernos, a revista da família Halley, dois Tex, e uma revistinha dos tempos "pré-pornografia a um toque" desenhada pelo Carlos Zéfiro. Revistinha que evaporou num segundo indo alimentar as fantasias de outro onanista solitário...

Nossa rainha da futilidade pegou seu garanhão pelo braço e sorrindo pediu: "Não bate nesse idiota não fulano". O valentão continuou a te apertar o colarinho, você estava quase sem ar, mas não conseguia desviar os olhos das pérolas azuis. Nosso valentão atalhou: "Mas fulana, esse zé aí não desgruda os olhos de você e olha o tipo de coisa que ele carrega na bolsa"- ( procurou com os olhos o Carlos Zéfiro, evaporara)-" sumiu, mas era revista de sacanagem, vai saber o que esse safado fica fazendo sozinho, sei lá, vai que ele fica pensando em você".

A princesa resgatada olhou para você indignada, "Seu Porco!", gritou e mandou-lhe uma cusparada na fuça. Você ficou tonto sentindo a saliva dela, deliciosa, no seu rosto, foi o mais próximo que você chegou do céu...

Todo mundo estava rindo e você começou a sentir vergonha, solidão...Mas o valentão não parecia estar rindo, ele continuava te segurando pela gola, suas pernas tremiam de ficar naquela posição e você começou a sentir que seu estômago estava querendo sair pela boca. Então você sentiu uma coisa quentinha descendo pelas pernas, ah delícia, pensou. Mas alguém gritou "olha, o cara tá se mijando inteiro!".

Nosso Valentão te olhou com uma cara de nojo daquelas, você tentou sorrir, mas nesse momento o mundo explodiu, ou melhor, seu estômago explodiu e mandou na cara do sujeito os dois cachorros quentes com duas vinas cada que você tinha comido fazia uns quinze minutos, e a coca, e a paçoquinha, e uma coisa verde, amarga e azeda ao mesmo tempo...

Pior é que ele abriu a boca na hora do susto...Ele te jogou no chão e saiu doido em direção ao banheiro. Outras três pessoas vomitaram vendo a cena, uma delas foi nossa desfrutavelzinha de olhos celestes.

Logo chegou o Inspetor de Alunos. Ele te levou ao banheiro e depois à sala da diretora. Você não sentia nada, aliás, estava até muito bem, mas achou melhor simular que estava mal, nisso você era muito bom. Te levaram ao médico, ele disse que você tinha uma intoxicação alimentar e te mandou ficar em casa por dois dias. 

Por uma semana você foi o rei da escola, nosso valentão fazia uma cara de nojo ao olhar para você e não chegava perto, mas logo ele "melhorou" e te acertou a cara te deixando com um olho roxo. 

O tempo passou, você continuou sendo o idiota da escola, o esquisito, o cara que não era bom em nada, mas que tinha notas incrivelmente boas e um raciocínio que espanta alguns professores mais atentos.

Continuava apanhando de vez em quando, colecionava hematomas e dentes quebrados. Conseguiu um ou dois amigos, tão "bons e especiais" quanto você.

O tempo passou e você foi p'ra faculdade, engenharia eletrônica.

Nosso valentão não passou do médio, mas casou com a inDesfrutável, tiveram três filhos. Ele arrumou um emprego de ajudante de motorista na empresa em que você trabalhava. As vezes não vinha trabalhar, quando vinha rescendia a álcool. 

Um dia você soube que ele fora morto numa briga de bar, e ficou pensando em como a Desfrutável estava. Conseguiu o endereço deles, um lugar barra pesada da cidade, e foi até lá. 

Em frente à casa, você notou as janelas quebradas, uma menina de uns sete anos brincava junto com dois outros meninos. Devia ser filha da Fulana, os mesmos olhos da cor dos sonhos...

Uma mulher veio até porta, trazia um lenço na cabeça, parecia ter dez anos a mais do que realmente tinha, mas você logo reconheceu aqueles olhos sonhadores. Você emudeceu por um segundo pensando em tudo o que não foi, o que poderia ter sido.

Você olhou ao redor, eram muito pobres e teriam tempos difíceis pela frente.

Ela perguntou se podia ajudar, você disse que era amigo do esposo, que ouvira o que aconteceu, ela baixou os olhos e soluçou baixinho. Você tirou um pacote do bolso, eram as suas economias de dois anos, algo que você guardava sem saber ao certo por quê. Deu o pacote para ela e virou-se saindo em seguida. Você ouviu ela dizendo algo, mas não se virou. 

É, você era um idiota, e estava agradecido por isso, por não ter vindo ao mundo cheio de facilidades....