segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Antes de Criticar a Crença de Outrem.

1-Não é pecado questionar a crença do outro, mas é imperativo questionar as nossas próprias crenças antes de fazer isso.
2-A crença é alguma coisa que se sustenta muito mais no desejo [de que seja] de quem acredita do que na sua razão, porém nenhum sistema se mantém sem buscar uma espécie de ordem e coerência internas amparadas pela razão [racionalização] daquela pessoa.
3-Nem sempre a pessoa aceita que sua crença seja questionada, mas é quase certo que levantará suas defesas e armas diante daquilo que ela considere um desrespeito.
4-O desrespeito, no campo das crenças, não é só atribuir um caráter improvável, incerto ou falso ao que a pessoa acredita, mas de algum modo sugerir que a crença como é manifesta implica que quem crê é um imbecil.
5-A crença é uma manifestação decorrente de certo sistema aceito ou descoberto que dá algum sentido ou significado ao mundo e, desse modo, inclui aquele que crê numa ordem que não é meramente o produto das forças cegas do acaso, segundo sua própria ótica.
6-É muito fácil pensar na crença como uma experiência ligada às religiões, à espiritualidade ou à superstição de modo geral, porém a crença, como descrita acima, é manifesta em todo sistema de pensamento que exija uma adesão total ou muito alta e não permita ou torne socialmente inaceitável a crítica ou a dúvida.
7-Portanto, se você é partidário de um sistema, seja ele político, filosófico, religioso, de "força social", ou qualquer outro que minimamente se pareça com a definição das cláusulas 2 e 6, mas pensa e age de modo a manifestar o comportamento que aciona as cláusulas 3 e 4, desconsiderando a 5, você simplesmente está sendo incoerente a ponto de não ter o direito de manifestar-se de acordo com a parte A da cláusula 1, a qual exige, como suposto, a reflexão da sua parte B, de onde decorre todo o resto.

domingo, 5 de novembro de 2017

Foi Amor?



Os raios de sol passeavam pelos campos alegrando a beleza das flores e o vento
Agitava os galhos das árvores onde pássaros ensaiavam o seu sempre novo canto.
Era o começo da estação que embala a natureza com dias de renovação
Era primavera e era, como deveria, o tempo em que o coração encontra um caminho que o leva para junto daquilo que no mundo todo é só seu...

Foi assim, nesse dia ensolarado, que um seta invisível, sabe-se lá por quem atirada,
Se a esmo, ou plena de alguma intenção
Ora, foi nesse dia que ela atingiu seu ainda virgem coração!

Foi amor? 
Os passos iam juntos, mas as mãos, essas enchiam os bolsos e os olhos
Fitavam com nenhum interesse o chão.

A estrada caminhava  deixando os postes de iluminação vagarosamente para trás
A poeira bailava pela rua e um buraco e outro deixavam-se descansar sob as rodas trepidantes das carroças e o tamborilar das patas dos cavalos com o ressonar do motor de alguma rara moto ou carro.

Foi quando por pouco levantou seus olhos e no bailar impessoal da poeira
Viu algo dançando com o vento, uma forma vermelha que se movia pelo ar
Como  lençol muito pequeno ou, o que era na verdade, um florido lenço.

Ele estende a mão entre a poeira, mas tudo o que vê lá na frente é o rosto que olha desesperado para trás, em busca do lenço que perdera.

Foi amor?
O vento parou antes da curva, e a poeira deixou-se ficar estática em pleno ar
Os raios do sol se inclinaram e as mãos já não cabiam no bolso, assim como o coração no peito.

Seus passos trombaram neles mesmos, e as pernas tremendo estacaram, cada uma alinhada ao seu respectivo ombro, quando a carroça em que a dona do lenço viajava também parou.

Uma mãozinha delicada como a flor mais tenra tocada de leve pelo farfalhar das asas de um cuidadoso beija-flor apoiou o corpo que se lançava com vagar para fora do veículo, e um pé, depois o outro, por fim tocou o chão poeirento.

E uma forma de anjo, de luz, fitou com olhos de céu o pedaço inerte de pano que em sua mão descansava.

Foi amor? 
Os olhos se encontraram na imensidão que foi aquele primeiro encontro, no céu infinito estrelas brilharam mais forte, e no fundo da terra as águas ferveram inundando o ar com um vapor escondido desde que o mundo era jovem.

As aves pararam para ver, e os insetos dos campos enxamearam por cima da cena. O rio deixou de correr e os corações bateram mais forte.

Uma era engoliu outra naquele primeiro olhar, e esse olhar disse algo antes que os lábios da menina ensaiassem uma frase envolvida num tímido sorriso.

A mão apontou o lenço e os olhos tímidos se desviaram para o tecido que em suas próprias mãos ele sustinha.

Hesitou por um momento, olhou novamente para aqueles olhos, e então, como se água gelada tivesse sido jogada sobre sua cabeça, deu por si como um ser no mundo e entregou o lenço à mão que o recebia.

Mas sob o tecido as mãos se tocaram e ela, repleta da mesma emoção, não teve pressa em cessar aquele toque, nem deixou que o sorriso deixasse de adornar seu inesquecível rosto.

Alguém chamou-a de dentro da carroça, e ela pareceu lembrar que seu pai a esperava. Disse baixinho seu obrigado com uns lábios que mais pareciam beijar a dizer.

Então correu para a carroça, e o mundo retornou seu movimento com as rodas do veículo.
E enquanto se afastava, com ele ainda ali suspirando, ela de quando em quando a cabeça para trás voltava e os olhos diziam o que os lábios não podiam dizer.

A carroça desceu um declive e desapareceu, mas o ar ainda trazia impresso aquele encontro e seu coração caminhava junto com ela.

O meu leitor, ao chegar nesse ponto, talvez se pergunte, como se a mim perguntasse, o fim dessa história, o destino daqueles que apenas descobriam esse sentimento. Eu poderia dizer que nunca mais se viram, ou que numa festa, dentro de poucos dias, finalmente se encontraram. Eu podia até dizer que eles  namoraram, que houve festa e casamento, e que no fim a separação de um coração seco os engoliu na desilusão ou que uma fatalidade levou um dos dois, deixando o outro imerso em tristeza e sem a esperança de um outro encontro numa estrada empoeirada qualquer.

Eu poderia dizer tudo isso, e coisas ainda piores, com toda a força que acompanha os poetas melancólicos. Mas em vez disso tudo eu deixo apenas uma coisa, e o resto você com seu coração, com as emoções que o embalam, deve completar:

Foi amor!





domingo, 29 de outubro de 2017

Vir ao mundo em flores...

São como vermes em seu banquete
Você sabe o que digo, não há nada de estranho nisso, ou há?
As palavras, as memórias, como raízes há muito esquecidas
Como a seiva que corre dentro dessas raízes
Foi naquele tempo, quando o coração criou seu mundo
E o resto lanço-se em sua insana aventura
O caminho dos lábios ao peito, o caminho do peito à mente...
Com força para ignorar, nunca realmente esquecido
Os dias seguem pesados pela força desconhecida daquela seiva
Pelo trilho subterrâneo daquelas raízes
Pela força incompreendida daquela loucura
Cada folha é um Déjà vu, e cada novo broto
Revela a luta de um sonho que tenta ser esquecido
Mas ele se insurge, na teimosia daquelas raízes
No fluir indócil daquela seiva, procurando
Vir ao mundo em flores...

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Pedagogia da Autoridade

Cada povo tem os políticos que merece.

Isso é só parcialmente verdadeiro. Nossa espécie é hierarquizada. Quem está em alguma posição de autoridade tem sempre mais poder de influência do que quem não está. Claro que em algum nível quase todo ser humano está nessa posição. Pais influenciam os filhos e professores influenciam seus alunos. Padres e pastores são sempre observados e imitados por suas paróquias e congregações. Um bom policial é admirado, e sua função é por natureza pedagógica.

Do mesmo modo são os políticos em cargos públicos. Ignora-se isso quando se dilui a corrupção por toda a sociedade, como se fosse só uma questão individual, sem, por isso, ignorar que é também individual. Se tivermos pessoas melhores nas posições de autoridade, teremos pessoas melhores abaixo delas, ou pelo menos teremos um ambiente que favorece os melhores comportamentos. Mas isso não acontecerá se continuarmos nos lugares de autoridade com gente que deveria estar na cadeia.

Precisamos de modelos, e eles são os que estão em evidência. É um traço que compartilhamos com outras espécies no planeta, e ignorar isso é ignorar a própria essência da natureza humana. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O Inchaço no Serviço Público Brasileiro

Existe uma ideia corrente, explorada por mídia e políticos, de que o Estado gasta demais com servidores. Mas onde quer que olhemos, notamos a falta de pessoal, há poucos professores, poucos médicos, poucos policiais, e poucas pessoas em todas as atividades-meio. E muito menos é verdade que o grosso desse pessoal ganhe salários astronômicos, embora estejamos falando de cargos com maior grau de qualificação e com salários, por isso, maiores do que o da média da população. Essa percepção aumenta em tempos de crise porque a queda de arrecadação faz com que o percentual gasto com salários seja maior.
Por trás dessa percepção está uma visão errada do que o Estado faz ou deveria fazer. Muitos adeptos do Liberalismo acreditam num Estado mínimo atuando em poucas áreas-chave. Aqui uma visão assim é complicada, e pode ser perigosa. Hoje, as atividades que não são realizadas por servidores "de carreira", acabam terceirizadas. Mas o Estado tem como fim o BEM ESTAR (se cremos nisso) e a iniciativa privada, o LUCRO.
Liberais vão dizer que a busca por lucros vai fazer com que o serviço seja prestado com maior qualidade. Ledo engano! Atividades terceirizadas são focos de desvio de verbas, e depois da licitação dos serviços, que pode ser fraudulenta, não existe mais COMPETIÇÃO, o fator principal que faz com que qualidade e preço variem.
Outra questão ainda ligada à finalidade do Estado tem a ver com o que as pessoas esperam que o Estado faça. Em geral essa percepção melhora ou piora em relação ao número de OBRAS que um governo faz. Chamo isso de "síndrome do Faraó". Um governo pode ter sido excelente socialmente, criado ferramentas administrativas que tornaram a máquina mais eficiente, investido em edução e segurança, mas se ele não produziu as obras de impacto, se não inaugurou prédios, ele foi um governante ruim. Isso é um erro abissal. Porque ignora a faceta mais importante do Estado, a dos serviços não quantificáveis e que produzem um bem maior que pontes ou parques.
Os problemas financeiros do país não estão relacionados com o número de servidores do Estado, menor proporcionalmente que muitos países, mas com uma classe política devoradora de orçamento, com corrupção endêmica e incompetência crônica na aplicação do dinheiro público.
Pensemos...

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Memórias Futuras de Tempos Passados


A coisa explodiu ali por meados de 2013.
Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar. O estopim dessas manifestações foi a forma violenta como a polícia de São Paulo reprimiu manifestantes que protestavam contra o aumento da tarifa do transporte público naquele estado.
Mas não foram os 20 centavos. Foi um desejo reprimido de dizer não aos desmandos do Estado, e exigir uma nação mais ética e menos corrupta. Muita gente estava ali por um sentimento não inteiramente identificado. Como se as condições tivessem lhes dado, pela primeira vez, a oportunidade de exercer sua cidadania.
Em algum momento alguém tentou partidarizar o movimento. Partidarizar e não politizar, porque ele já era essencialmente político. É claro que as massas se insurgiram. Não era questão mesmo de acatar um partido em detrimento de outros.
O batalhão intelectual logo defendeu o direito de partidarizar tudo. Como sempre justificando em lugar de refletir.
Logo inventaram de chamar esse cidadão meio sem certezas de "coxinha" e desqualificar qualquer ação deles. Uma burrice de proporções monumentais. Em seguida, não percebendo que dali poderia crescer um movimento que poderia sim interferir nos rumos da política nacional, não tiveram a sensibilidade de entender as motivações daquelas pessoas e se insurgiram contra seus valores, no que se tornou, logo mais, uma espécie de guerra fria cultural.
Não existe moral neutra, nem valores melhores. Quando você ataca os valores das pessoas, você ainda tem em mente valores, os seus, e pressupõe que eles são melhores que os deles.
E a guerra foi cruel, com cada grupo firmando-se em detalhes muitas vezes de menor importância e assumindo muitas vezes posições contraditórias para não dar o braço a torcer para o "inimigo".
Quem era direita nesse país? Havia cristãos, havia conservadores, havia pessoas alheias à política. E todas elas foram empurradas para o "outro lado". Qualquer pessoa que encare seus próprios preconceitos e olhe a coisa com honestidade vai descobrir que esses espectros políticos na verdade funcionam como uma tabela de gradação, ou uma escada, ou o arco-íris, em suma, ninguém é "escuridão" ou "luz".
Com a massa pronta, embalada para presente pela esquerda sem noção, é claro que surgiriam os aproveitadores que tentariam capitalizar esses sentimentos difusos criando um monstro, o espectro comunista saído direto das páginas do século XIX e pronto para engolir a todos.
E estamos aqui, nesse impasse. Eleições foram, escândalos vieram, e as coisas vão pior do que esperávamos. Porque o grupo ideológico no topo não teve a sensibilidade de reconhecer seus erros e perceber que, independente do espectro político, estamos todos sobre a mesma terra. Não soube, e é bem duvidoso que saberá, fazer a auto-crítica tão importante.

Isso porque nunca aprendemos a dialogar no campo da racionalidade, e nas nossas ideias somos todos os religiosos fanáticos que vemos nos outros.
Mas não se iludam, o povo aí do meio não foi inteiramente conquistado, porque ninguém que saiba interpretar essa necessidade nacional surgiu. Mas surgirá, e eu não sei se me alegro ou me jogo desesperado no pó, lamentando a infelicidade de ter vivido esses dias.


domingo, 24 de setembro de 2017

Um Abismo Chama Outro Abismo


Uma manhã fria, e um dia à sombra de uma frondosa árvore sob um sol quente
A gente vai sonhando, e sendo longe tão próximos
Um abismo chama outro abismo
E nossos pensamentos atravessam esse espaço
Que nos separa e nos une, sob o signo da tragédia do mundo
Sob o signo da tragédia que não é tragédia, que não merece lágrimas
Só essa aspiração e esse cismar, esse sonhar acordados
Com realidades além do nosso alcance.

Dizem os mais loucos que nós que a realidade existe
Numa infinita sucessão de possibilidades estatísticas
Aqui somos amigos distantes, ali inimigos de sangue
Lá ardorosos amantes, e noutro lugar nem nos conhecemos
Num deles sou seu pai, noutro você me gera em seu ventre
Em muitos vivemos tragédias terríveis e em tantos outros
Alegrias e gozos sem fim.

E tudo isso ao mesmo tempo, no agora, no sempre
E ainda dizem outros, infinitamente mais loucos que aqueles
Que flutuamos em cada uma dessas realidades
Com nossos corações e mentes, com nossas sensações e sonhos
Quando divagamos não são só pensamentos soltos
Não são só erros e delírios, são coisas que estão acontecendo
Coisas irremediáveis e irreversíveis, pois pensando, sonhando
Desnudamos as coisas, afastamos o véu
E deixamos fluir num mundo que é só outro entre tantos possíveis
Um pouco do que somos na imensa comunidades de seres
Que é cada um de nós...

Um abismo chama outro abismo. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Ela me disse...

Ela me disse, meio sem rumo, que o destino
Nos aguardava. Eram dias de calor e eu
Ainda era um broto tentando crescer
Mas amar- que ideia!- tão cedo?
A gente se entregou, e eu não sabia, embora
Ela sempre me dissesse com aquele meio sorriso nos lábios
Que éramos dois rios que convergiram
Mas agora...
Meus olhos vermelhos no espelho
Me fitavam e eu não os reconhecia
Que o tempo me levou a sobra do ânimo
Eu já sabia
E que ela se fora, não como um  rio
Mas água empoçada, que eu diga
Aqueles olhos nunca voltarão
E a luz que deles me iluminava
É tudo tão escuro e o medo
Que medo? Medo de quê?
De ter que viver com essas lembranças!
Me acompanha
Não é que eu tenha amado, se é
Que amei mesmo, é que
Não pude mais ser o que poderia ter sido
Se a ilusão não tivesse me consumido
Na mesma poça ao sol

Daquele último verão...

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Como é que se lida com ideias radicais?

Existem casos em que não sobra nenhuma outra alternativa que não seja a força da lei, porque a continuação pode redundar em um grande prejuízo. Foi isso o que fizeram aqui no Brasil com alguns simpatizantes do Estado Islâmico, foram presos e processados. Isso pode ter evitado o crescimento do movimento. Porém o efeito pode não ser bom a longo prazo, pois criou mártires e nada dá mais fervor ao radicalismo do que a perseguição.
Mas voltando ao assunto, muitas pessoas que seguem movimentos radicais o fazem porque aquele movimento deu sentido às suas vidas, supriu uma necessidade de pertencimento ou finalidade.
A violência, física ou verbal, fortalece esses vínculos. A pessoa perseguida sente que o é por estar certa, como se o a contradição fosse o selo de verdade da sua crença e sua adesão ao grupo dos "certos". Para grupos marginais, a maioria sempre estará errada. O caminho subversivo é o correto, e todo aquele que não pertence ao seu grupo faz parte do domínio do grande Satã, da Serpente, dos iníquos e do mal. Com eles os cuidados do grupo não valem, e a destruição e morte é tudo o que merecem.
E essa é a história de todos os movimentos radicais, dos religiosos, étnicos, sociais às ideias políticas ou nacionalistas.
Todos eles partem do princípio de que existem dois grupos no mundo, o deles e o que engloba todos os restantes. Ambos não podem estar certos e um deles, o outro, deve ser erradicado.
O duro é que muita gente racional, cheia de bons fluídos, e adepta das melhores teorias sociais, acaba por reproduzir esses pensamentos quase sem perceber. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que criticam o maniqueísmo nos outros movimentos e as ideias de ódio, são elas mesmas as promotoras de ódio, pois cegam-se e embriagam-se com a ilusão da verdade daquilo que aceitaram, daquilo que receberam como meta de vida. E tudo bem racionalizado, mas numa racionalização que não se volta sobre o próprio pensamento.
A verdade é que tudo isso é instintivo, da época em que andávamos em pequenos bandos por trilhas nas florestas, repelindo e matando todos os que não eram dos nossos, pois representavam competição por recursos, e ameaça de extinção.
Hoje "sublimamos" essa luta instintiva, projetando no mundo moderno os terrores da tribo. E cristalizamos no grupo, na ideia, na facção, na fé, os imperativos seletivos do bando. Por isso o discurso apocalíptico com relação ao outro, e sua associação com o mal. Porque o diferente significa perigo. E sobreviver é uma questão de superar.
Só vencemos isso em nós quando nos voltamos para nossas ideias, e pesquisamos em nosso íntimo as razões que nos impelem às lutas que travamos no mundo. Se fazemos isso honestamente, descobrimos que os motivos não derivam da nossa razão, mas do nosso medo instintivo.

Como se lida com ideias radicais? Identificando e criticando as próprias ideias. 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Agosto germina nas terras secas de um julho angustiado

Agosto germina nas terras secas de um julho angustiado. Éramos deuses e velhos olímpicos curtindo bossa nova, cerveja e rodelas gordurosas de calabresa com cebola. Os dias mal nasciam e a noite com pressa irrompia pelas nossas sacadas, enquanto nós, embriagados, caminhávamos rumo ao freezer em busca de mais uma garrafa. E sentávamos sob a luz estropiada da nossa lua particular, ansiosos por mais histórias, por sentir nas carnes frias um pouco do calor daquela juventude, inventada ou não. E no mar de histórias picantes de secretárias, ninfetas e todo tipo de amantes, íamos mostrando nossa virilidade verbal, nossa sensualidade gutural entre goles ansiosos e mãos cheias de gordura. E ríamos com o coito das nossas lembranças, com o coito impuro das nossas fantasias, das nossas verdades, das nossas impudicas mentiras. O mundo era ainda tão jovem quando nossas aventuras nos levaram aos quartos de hotéis, aos bordéis de beira de estrada, aos locais cobertos pelos mantos da santidade e da loucura. Éramos deuses, numes impetuosos, quando derrubamos os primeiros muros. Quando enchemos quadras e galerias de templos, clubes e universidades, da nossa irresistível ladainha, do nosso desejo de copular com os corpos, com as mentes, com as emoções e com a fé de gente entediada. Inventamos o mundo no fluir doce e inebriado das nossas palavras. E verdade era só a verdade que nos tocava, porque nós tínhamos o mapa do mundo, nós tínhamos a posse do conhecimento sagrado que fazia o globo girar. E nossas orgias eram puras, como eram puras as chuvas de todo setembro. Mas as nossas verdades secaram com o tempo, e o próprio pó das coisas esquecidas desceu sobre nós, fazendo da nossa face encovada um vale seco onde planta alguma jamais ousaria nascer. A noite foi expelida pela cloaca cansada da madrugada, e o sol começava a se insurgir nas beiradas do mundo, quando deixamos a varanda da casa. As brasas eram cinzas, e as cinzas um pó seco deitado sobre a mesa. Os últimos cães latiam roucos para as sombras dos postes nas esquinas, e nós, ainda sentindo na boca os gosto das nossas fantasias, descemos as ruas vazias rumo ao tedioso vagar das nossas indiferentes vidas.

terça-feira, 4 de julho de 2017

A culpa é do Cervantes!

Num lugar do Sul, de cujo nome nem ouso lembrar, vivia, não faz tanto tempo assim, um fidalgo, desses de pompas e circunstâncias, grosserias e elitismo, fontes e móveis suspeitos.
Olha o seu banquete, mais de caviar e trufas francesas que de pão ou bife. Aviltado com os pobres, derramava seu vômito nobre, e, na contramão do seu grande nome, abraçou um deles, antes bem higienizado, e folgou que não precisa-se beijá-lo.
Tal gigante, com as carnes estendidas sobre o resto das coxas, irritado, mas com falso sorriso, dizia amar toda a plebe, mas no íntimo, se pudesse, matava todos sem deixar vestígio.
Alçou sobre um grande moinho sua lança eleitoreira, mas se bem digo, acho que era mesmo um farol, ou era moinho? De vento tenho certeza, transformado em gigante pela sanha do ginete que cavalgava o lombo dos seus aduladores, eles próprios com os olhos fixados nas banhas, não as que circulavam a cintura e além, mas nas gorduras formadas por rendas que o juízo, se tal havia, já lhes convencia de que era grande sua incompetência e que meio era só esse mesmo.
O sonhador, varando os bairros mais pobres, abria o grande sorriso, beijava crianças, beijava velhinhos e por pouco não beijou os próprios cachorrinhos. Se a tal lhe levasse o engenho e a arte.
Empossado com a coroa sonhada, o rei nu, nu se postou, e pisando a cabeça dos servos, lavrou-lhes o couro com pau e fumaça das bombas e a bota suja dos soldados a pressionar-lhes as cabeças, com muito amor, amor, amor...
Ao contrário daquele outro fidalgo, este não era levado por delírios, embora diz-se que de livros gostava, mas pelo mundo construído pelo engano. Que palavras são só palavras e não devia prestar-lhes juramento após seus objetivos serem conquistados.
Se aquele fez da pobre aldeã Dulcinea uma dama da nobreza, este fez bem o contrário com todos que prometeu respeitar. Aquele, diz o autor, recuperou o juízo no fim da história, este, vai mais pelo caminho de Nero e não sossega, tenho comigo, enquanto não vir a cidade em chamas, ou cinzas.
Numa coisa ambos concordam, são personagens.

domingo, 2 de julho de 2017

E dá para melhorar o Brasil?

Ontem um amigo me perguntou o seguinte "você, que lê tanto, o que acha que precisa para mudar o Brasil?"
Eu expliquei que "ler tanto" não me fazia especialista, e que gente sábia de verdade não tinha ideia, quem dirá eu, subalterno de subalternos. Eu estudo para conhecer minha ignorância.
Mas conversando, juntos, a gente imaginou algumas coisas:
-EDUCAÇÃO, nos dois sentidos. As famílias têm que formar melhor seus membros, não dá mais para jogar filhos tábulas-rasas no mundo. Valores vêm de casa. A educação formal também precisa melhorar, mais que mero conteudismo, ela precisa retornar aos ideais filosóficos do ensinar a pensar, e junto com isso, incluir questões morais e éticas universais que contraponham a cultura das massas.
-Os cidadãos precisam entender que não há direito sem dever, e que do ponto de vista da ação, o dever precede o direito quando nos relacionados com outros seres humanos. Vivemos uma epidemia desesperadora de desrespeito. E se a único meio de brecar isso é a força da lei, que seja.
-Temos urgentemente que melhorar os filtros para o acesso aos cargos públicos eletivos ou não. A vida pública atrai muita gente mal-intencionada, os bons vão sendo cada vez mais uma minoria segregada e perseguida.
-É necessário vetar ou pelo menos reduzir o impacto do marketing agressivo das campanhas eleitorais, elas devem ser mais simples, com olho no olho, para que as pessoas tenham uma ideia mais exata do seu candidato. E parte do horário eleitoral deveria ser usado para EDUCAR, explicando a natureza dos cargos e seus limites.
-Devemos aceitar de vez que o ser-humano trafega por uma linha estreita entre o bem e o mal, que na sua vida tudo é potencial. Por isso as regras devem ser mais rígida para quem tem mais responsabilidades e poder .Hoje é exatamente o contrário. E isso só faz sentido dentro de um sistema que tem por fim os interesses pessoais de quem alcança o poder. Mas evidentemente não é assim que sonhamos que a coisa seja. Devemos entender que NENHUM INTERESSE PARTICULAR SE SOBREPÕE AO INTERESSE PÚBLICO. Logo, é melhor afastar alguém suspeito de crime de um cargo importante, mesmo com o risco de ele ser inocente, do que arriscar a segurança de uma nação inteira. O cargo público não é um benefício particular, não é como ser ou não dono de uma bicicleta.
-Também temos que criar mecanismos que dificultem os desvios. Ninguém deve ter tanto poder sem supervisão. Comissões fiscalizadoras independentes devem olhar com lupa os atos dos detentores de cargos públicos. A punição também deve ser pesada, chegando até a bloquear por completo o acesso de certas pessoas a esses cargos, em caso de condenações graves. Existem milhões de potenciais políticos, isso não deveria ser coisa de políticos profissionais.
Tudo isso é sonho, implicaria em mudanças legais e culturais profundas, mas se esperamos ter algum futuro, devemos tomar a vergonhazinha na cara e começar a agir como pessoas melhores, até que a prática nos leve ao hábito. Que sejamos melhores, nem que seja por costume.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O Chacal Voluptuoso

O chacal voluptuoso corre pelo campo
Sua voz é de hiena, ulula
Ele tergiversa como um sofista
E se ampara na mais belas frases de justiça
Nas mais belas frases moram
Os mais grotescos interesses
E o homem que mais se diz honrado
É o que se vende na segurança
Dos gabinetes
E ainda se encolhe de medo
Ao fitar os que prejudica
Clama por justiça e segurança
Incentiva o braço da sua milícia
E se não mata, consente!
Com o pior tipo de morte
Que é calar a voz de quem sofre
Entortar o que é reto
E ajustar o que corrompe
O chacal dorme seguro
Com o produto de seu mal
Que vai corroendo devagar suas vísceras...

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Deturpação do Poder Legislativo

"Todo homem que tem Poder é levado a abusar dele;vai até onde encontrar os limites". Montesquieu

Por isso existe a divisão dos poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário. Para que nenhum poder se torne despótico. Cada um dos três poderes serve como freio aos outros e evita-se a inação pela força das necessidades gerais do Estado.
O Poder Legislativo, nas três esferas, representa o povo (na esfera Federal o Senado representa os estados e a Câmara o povo).
O Legislativo tem como missão principal criar leis. Ele as cria continuamente porque nenhuma lei é perfeita e porque muitas delas perdem a eficácia por diversas razões.
O Executivo executa as leis e o Judiciário pune a não obediência a essas leis. O Legislativo também tem a missão de fiscalizar as ações do Executivo.
Em nossa Democracia "todo o poder emana do povo", que o exerce através da ação direta de seus representantes legais. Cada parlamentar, portanto, age como por procuração coletiva.
Mas existem algumas condições que podem tirar a efetividade do Legislativo, e propiciar certo despotismo ao Executivo.
A PRIMEIRA das razões é o próprio povo. Pensemos aqui nos vereadores. O que a população espera deles? Que tenham seus nomes associados a obras em suas comunidades, que façam assistencialismo social e que ajudem em demandas coletivas ou particulares. Entretanto sua missão é CRIAR LEIS, e fiscalizar os atos do Executivo, além de outros deveres. Mas apenas criar leis não cria a publicidade necessária para que um Vereador ou Deputado continuem sendo eleitos. Isso cria as condições para que a segunda das razões entre em cena.
A SEGUNDA é a pressão do Executivo, seja pela ameaça, seja por benefícios que pode proporcionar ao vereador. Lembremos que os mandatos parlamentares pertencem aos partidos, segundo nossas leis. Desse modo, se o partido de tal parlamentar for da base do Executivo, ele, o vereador, se vê na obrigação, com risco de ser processado por infidelidade partidária, de votar positivamente nas leis que forem de interesse do Executivo.
A TERCEIRA é de ordem particular. Como é que o Executivo "compra" o favor dos parlamentares? São vários os modos, mas três são os principais:
                a) Comissionando pessoas indicadas pelo parlamentar em um dos diversos órgãos dentro da estrutura de governo. Com isso o parlamentar tem diversas vantagens. Ele aumenta sua influência dentro do poder Executivo, podendo direcionar muitas ações para o benefício de seu mandato, obras, por exemplo. Também não são poucos os casos em que esses comissionados por indicação direcionam parte de seus ganhos para o parlamentar que os indicou, seja por devolução direta, seja por "doação" de campanha.
                b) Obras. O vereador, por causa da visão errada do povo, precisa "mostrar serviço" e mostra utilizando obras como publicidade. Isso define muitos votos e garante reeleição. O executivo, portando, direciona obras para a área indicada pelo parlamentar.
                      c) Aqui entra a corrupção direta. O parlamentar recebe dinheiro pelo seu voto. Foi isso no caso do Mensalão, os deputados receberam dinheiro para votar positivamente nas matérias indicadas pelo executivo. E de onde vem esse dinheiro? Obviamente o Executivo não pode direcionar verbas diretas para o parlamentar, portanto todo o dinheiro, nesse caso, é de origem ilícita. Muitos dos escândalos que você tem visto na mídia tem essa finalidade.
Por causa dessas relações corruptas, o Legislativo não é eficiente no Brasil. Ele representa o poder que paga mais. E esconde-se atrás da capa democrática, que nada mais é que demagogia. O termo "democracia" significa, em grego, "o governo do povo". "Demagogia", também do grego, é "a condução do povo". Como se conduz o povo? Mantendo-o ignorante sobre a realidade por meio do DISCURSO, a grande arma do demagogo, e pelo uso agressivo de técnicas de marketing e apoio da mídia, também comprada.

E com tantas questões envolvidas, é quase impossível que as necessidades da população sejam sequer consideradas, mantendo-se o mínimo necessário para dar uma aparência de legalidade.

Para mudar isso VOCÊ precisa votar em pessoas que não se alinhem inteiramente a Executivos, que tenham como objetivo as leis e a fiscalização. Não acredite em demagogos, não importa quantas obras ele diga que tenha feito na sua comunidade, pois atrás de cada uma delas há um mecanismo corrupto que TIRA MUITO MAIS DO QUE DÁ.
Montesquieu acreditava que um dos princípios da República democrática era o PATRIOTISMO.E patriotismo, para ele, era um sentimento de amor pela democracia. E a democracia precisa de poderes autônomos, limitantes e mesmo auto-limitantes.
Pense nisso!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Um Lugar no Mundo










Um lugar no mundo, quem não o quer?
Ter paz e respeito, amigos e satisfação.
Sonho de todos, criança, homem e mulher
Não ser mais um rosto perdido na multidão.
A gente quer ter família, quer calor
Para os dias frios e quentes também
E família é onde haja laços de amor
Em que não falte afeto a ninguém.
O lugar que a gente precisa no mundo
Não é sob o holofote de luz tão fugaz
Nem na apatia de um sono profundo
Mas no abraço que em amor satisfaz!

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Que eu...


Que eu seja o que devo ser e evite o mal que posso me tornar.
Que eu possa olhar no espelho sem ter com que me envergonhar, mas que não perca o poder de fazê-lo, se em algum erro eu incorrer.
Que eu resista à força que nos faz subservientes aos poderosos, mas que ainda assim eu saiba sempre respeitar aqueles que penso estarem acima de mim com a mesma honestidade que respeito aqueles que parecem estar abaixo da minha posição. 
Que eu não inveje os de cima, nem deixe de ter compaixão com os que estão abaixo.
Que eu sempre reflita que ninguém é superior a mim, exceto nos papéis que a sociedade nos lega, e que eu também não sou maior que o menor de meus irmãos.
Que eu resista à tentação de bajular em troca de aprovação, do mesmo modo que não guarde o elogio que alimente uma alma incapaz de ver o bem em si mesma.
Que eu faça da minha vida algo mais que a busca frenética por bens que se vão, e ainda assim não perca de vista as responsabilidades materiais que estão diante de mim, colhendo o fruto do meu trabalho com honestidade, e provendo a quem depende de mim aquilo que necessita.
Que a minha justiça não seja pesada demais, e nem a minha tendência a desculpar o mal.
Que eu nunca julgue sem antes ter me julgado, e que eu nunca atire sem ter sido por mim mesmo atingido.
Que eu não afunde nas opiniões dos outros, e nem na minha própria opinião, mas que um ceticismo saudável me anime.
Que grandes e pequenos eu olhe nos olhos, e nunca deixe de respeitar mesmo o mais desprovido dos seres. 
Que eu não me iluda com minha santidade, nem ignore o potencial de maldade que há em mim.
Que eu não hesite na luta justa, nem me aferre às causas obscuras.
Que eu me reconcilie com meu medo, e não esconda meu amor.
Que eu não tome jamais o manto do sábio, nem me aferre às desculpas do tolo.Que eu ame saber, sem disso ser escravo. E que eu ame ensinar, sem com isso perder a capacidade de aprender com os outros.
Que o dia me traga a luz da razão e a noite não esconda o que sou. Que minha fraqueza não seja minha desculpa, nem minha força um fardo de opressão aos outros. 
Que eu saiba que sou pequeno, e sou grande. Que sou um ponto na existência, e parte de uma linha que liga as partes mais ancestrais da vida aos mistérios que aguardam o ser humano e sua semente nos dias que virão, os dias que se guardam misteriosos nas luzes que se levantam no horizonte.

sábado, 27 de maio de 2017

As Pessoas Passam, Como os Dias

As pessoas passam, como os dias
São noites sem sorrisos
Relacionamentos sem saudade
Frutas sem sabor
Flores isentas de cor
A cada meio dia, e meia noite
O ranger das portas e o bater das janelas
Os imensos corredores nus, brancos
Sem personalidade ou ternura
Como se fantasmas muito antigos
Tivessem até mesmo desistido
De arrastar suas correntes
O céu se funde com a terra
E a violência com as águas do esgoto
Sangue parado nas vielas
Passageiros indiferentes sem rosto.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Olhe Para Mim

Olhe para mim, eu existo
e sou tão comum como o mais
Reles pensamento, e do olhar
Nada há que se revele
Mas olhe fundo, há alguém
Incomum de muitas formas
E raro como um em bilhões
Com tesouros perdidos nos olhos
E sonhos fantásticos sob a pele
Olhe para mim de olhos fechados
Olhe para mim com um olhar certo
Com olhos oníricos e sentimentos etéreos
Olhe para mim com mente e coração
E o mundo horrendo da minha vileza
Evapora nos ares misteriosos
Além da minha aparência
Muito além de toda tristeza.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Piá

Piá tinha uns sete anos nessa época. O mundo ainda era muito recente para ele, e ele recente para o mundo. Quando ainda não sabia ler, ele gostava de ficar olhando aquelas duas colunas da Bíblia. Era um mistério impenetrável, mas tão belo! Como quando o primeiro ocidental pôs os olhos sobre um mural egípcio e considerou os hieróglifos como belos ornamentos sem outro sentido. Mas já não bastava olhar para as linhas indecifráveis. Foi quando Piá começou a separar as páginas. Anos depois, sob aquele teto cinza, ele ainda se perguntava o que se passava por sua cabeça naquele tempo. Seria o papel, as linhas ou era alguma outra fantasia que agora nenhum sentido tinha para ele?
O mundo era recente, e era grande. Tudo parecia descomunal. Não quando anos depois ele passou pelos mesmos lugares e percebeu que as coisas eram normais, o mundo, pelo menos aquele seu mundo, não era tão grande nem tão fantástico.
Naqueles dias as lendas andavam vivas, e quase todo mundo conhecia alguém que conhecia alguém que conheceu alguém que teria visto um lobisomem ou a mula-sem-cabeça. Para os primeiros havia até uma estratégia para lhes conhecer a identidade. Bastava dizer ao licantropo, de abrigo bem seguro, que viesse no dia seguinte à sua casa buscar açucar. Uns diziam que era sal. Piá nunca teve oportunidade de fazer o teste. Na verdade nem coragem teria. Poucos anos depois passou na tv um filme de Lobisomem que se passava em Londres. Ele viu o filme, e passou noites sem dormir. Piá definitivamente não iria convidar uma fera horrenda como aquela para vir buscar sal ou açucar em sua casa!
Uma família nova se mudou para o lado da casa de Piá. Eram três meninas na casa, e uma delas da sua idade. Mirando o teto cinza, e as paredes cheias de mensagens de gerações que por ali passaram, ele pensava na menina. "Se o amor existe"- pensou- "foi ali que o descobri". Ele lembrava de um dia estar brincando com a menina, já não era analfabeto, muito menos andava rasgando as páginas da Bíblia. Ela olhou para ele com seus olhinhos verdes, pôs a mãozinha no seu braço e encostou seus lábios nos seus. Piá ficou petrificado, o coração pulava no peito. A menina riu e disse "agora somos namorados".
Eu disse que ela tinha cabelos curtos? Cortou por causa do tratamento. Tempos depois não havia mais cabelos. Uma vizinha de Piá morrera de câncer. Ele estava na rua brincando. Uma ambulância parou. Então a mulher saiu de casa amparada pelo marido. Estava muito pálida. Os olhos de Piá cruzaram os olhos da mulher. No velório ela estava de olhos fechados, mas ele sabia que ela não tinha olhos verdes.
"Agora somos namorados". E ele não sabia que o que era dos seus olhos verdes agora que as coisas não eram mais tão recentes.
Piá temia lobisomens e mulas-sem-cabeça. E agora Piá sabia que eles tinham um nome, câncer.

No fim do mundo


A gente cruzou o campo com lama cobrindo os calcanhares em poucos minutos. Tropecei num braço. Só o braço. Érica ia na frente, com a arma na posição de tiro e uma simulação de passo swat enlameado. Jorge, Pedro e Lia vinham em seguida. Eu estava no fim da fila, cuidando da retaguarda. 

Tiros. Os miolos do Pedro encheram minha cara, eu atirei nem sei para onde. Lia já comia barro também, misturada com o que sobrava da cabeça de Pedro. "Por que a gente tem que se matar, a porcaria do mundo já não acabou mesmo?" - Até parece que alguém se importava, a gente ia acabar essa porcaria assim, com o último metendo uma bala, se sobrar alguma bala, na cabeça. A Érica gritava alguma coisa, mas eu só conseguia olhar para o que restou da cabeça do Pedro, uma pedaço da mandíbula ou sei lá o que. E talvez fosse um olho. Érica está chacoalhando meu ombro e apontando para baixo. Jorge tem uma mancha de sangue no peito, mas parece vivo. Lia o puxa, ela não se ferrou. Só caiu junto com Pedro. 

E a gente nem tem tempo para chorar. Mas chorar por quê? Sorte ter uma morte rápida assim. A gente puxou o Jorge para trás de um pedaço de muro. "Ele dançou" - disse. Mas Érica disse que não ia perder mais ninguém. Louca. Não percebe que já perdeu tudo, que não tem o que perder mais. O mundo acabou, eu queria gritar, mas o desgraçado continuava atirando na gente. 

E a Érica continuava me xingando. Porcaria, já não tava ruim o suficiente? Senti vontade de atirar na Érica, e acabar com a Lia e o Jorge de uma vez. Cara, eu não aguento mais isso, mas também não quero dar um tiro na cabeça. Mas não dá. Não é esperança, é algum tipo de teimosia, uma vontade de vingar essa porcaria toda na cara de alguém... Como se alguém fosse culpado pelas bombas, quando elas caíram, quando o mundo acabou e essa merda toda de sociedade mostrou as presas afiadas. O homem é o lobo do homem, e eu não sabia. Eu ainda acreditava na bondade humana. 

Que sentimento era aquele? Coisa nova, nem medo, nem ódio. Seria o tal instinto ancestral ou era só adrenalina mesmo? Eu pulei pro meio da lama, chovia bala. Eu tropecei no Pedro e caí. Mas levantei logo, pulei para trás de uma carcaça de carro. Que carro era? Chovia. Então pude ver de onde vinha. Uma lage. Corri por um corredor cheio de gente apodrecida. E subi por trás. Não olhei, atirei. Uma vez, duas, até descarregar a arma. 

Então fiquei lá, ouvindo o clique do cão cada vez que acionava o gatilho da arma vazia. 

Era uma garota. Eu conhecia a garota da lage. Da escola. De mãos dadas. Geografia, história e cantina. 

A chuva continuou caindo. Eu de joelhos, que sentido há no mundo? Nenhum. E tudo continua, até o último, até a última bala....

domingo, 30 de abril de 2017

Segue o Teu Caminho


Segue o teu caminho
Ama quem amas
Foge das chamas
Bebe teu vinho!
Segue o teu caminho
No mal não te detenhas
Mesmo que a duras penas
Pois não estás sozinho
Segue o teu caminho
Vivendo cada passo
Cultivando teu espaço
Cuidando do teu ninho
Segue o teu caminho
Firme na Dificuldade
Com apego à verdade
Sem perder o carinho
Segue o teu caminho
Abraça os teus amigos
Acolhe os esquecidos
Faz da vida teu cadinho*
Segue o teu caminho.

*Lugar onde se fundem metais, fig. onde coisas e pessoas se misturam.


sábado, 15 de abril de 2017

Vamos Malhar o Judas?


Existem tradições que a gente não sabe de onde vieram e outras, como a da malhação de Judas, que a gente pensa que sabe de onde vieram.
Quando eu era criança, coisa que parece que foi ontem, era comum ver os bonecos pendurados e grupos de crianças sendo prepar...brincando.
Mas a tradição popular difere da tradição bíblica. Na Bíblia, Judas se suicida pelo método mais usado pelos suicidas, o (auto) enforcamento.
É um drama forte, digno de um Dostoiévski. E simbólico. Judas, tesoureiro do grupo, vende o Mestre por trinta moedas de prata. O ato de vender se resumiu a informar os sacerdotes judeus do momento em que Jesus não estaria cercado por seus discípulos, facilitando sua captura. Depois ele se arrepende, devolve as moedas e se mata. Fim.
Assim ele se tornou o símbolo dos traidores. E uma espécie de contraparte do próprio Jesus, pois se Este se tornou o símbolo máximo do auto-sacrifício, aquele é o do suicídio como fuga.
A tradição tem um fundo simbólico também. "Judas" era um nome muito comum entre os Judeus. Mesmo entre os seguidores de Jesus havia outros Judas, e um de seus irmãos também tinha esse nome. Era comum porque a principal tribo que originara o pequeno país da Judéia, hoje Israel, foi a de Judá. Judá [Yehudah] era um patriarca antigo, um dos doze filhos de Jacó/Israel. Davi, o Grande Rei, era dessa tribo. E Jesus, descendente de Davi, era "O Leão da Tribo de Judá". Um dos grandes heróis do povo judaico, eternizado nos livros dos Macabeus, se chamava Judas.
Com o tempo, todos os israelitas tomaram a alcunha de "Judeus".
O cristianismo, herdeiro dos judeus e do judaísmo, cresceu sobre uma corruptela da história da paixão, incapaz muitas vezes de entender seu significado. Era necessário culpar alguém, e esse alguém não foi o Judas bíblico. Mas Judas se tornou um símbolo de todo um povo. Malhar o Judas é punir o povo judeu. É antissemitismo. Com o tempo, os cristãos passaram a celebrar o progrom contra os judeus. Fazer algo ruim é "judiar" de alguém.
Mas o Judas...Judas se tornou símbolo dos traidores. E celebramos nele o linchamento social dos "odiosos" judeus e de todos os criminosos.
Mas Judas tem uma outra face. Ele simboliza nós mesmos toda vez que a nossa covardia nos leva à fuga. Todas as vezes em que entregamos um bem maior por um prêmio temporário. Todas as vezes em que trocamos o que é importante pelo efêmero. Judas é o político? Não. Sou eu e Você quando não conseguimos ser fieis aos nossos valores. Mesmo o cristão bíblico sabe que Jesus não morreu por causa da traição de Judas, Ele "morreu por nossos pecados". Esse é o símbolo.
Os políticos não são Judas por roubarem nossa nação. Nós é que o somos por vender nossa aprovação por discursos tão pequenos.
Vamos malhar o Judas? Celebrar nosso racismo? Fazer a catarse do nosso próprio remorso?
Ou simplesmente utilizar uma expressão baseada numa tradição que ninguém mais entende?

domingo, 9 de abril de 2017


O futuro é logo ali depois da esquina
A dois passos daqui
Mas a perna fraqueja e o coração 
Parece que bate menos
Do que deveria
São dois passos, pouco para uma pessoa
Que já firmou os dois pés nas maiores alturas
E muito para pés que se arrastam
É o peso invisível da rua
Mas chegar é estar a dois pés ainda
O futuro é como a sombra
De quem tem luzes pelas costas
O futuro está sempre ali adiante
Como um insulto e um fantasma
Como uma estrela distante
Ou um barco que se afasta no horizonte
Porque aos vivos se impôs
Um sempre agora
E os que morreram dormem
Na memória do passado
Pois o futuro é para os que ainda
Não nasceram
E ainda para eles ele se esconde
Logo ali
Depois da esquina.

quinta-feira, 30 de março de 2017

As Maquinas e Nós



Faz tempo que a gente ouve que um dia as maquinas estariam integradas aos nosso corpos num nível maior que o de um marcapasso, por exemplo.
Usamos próteses, mas elas se ajustam, pelo menos a maioria delas, numa relação mecânica conosco. Nada como a major Motoko Kusanagi de Ghost In the Shell (algo como "O fantasma dentro da concha) que agora virou filme com Scarlett Johansson .
Estava pensando sobre isso, e me parece que sim, já estamos integrados. Nosso cérebro, li por aí, é plástico, ele se adapta. Temos um rol limitado de "ferramentas" em nossos membros e órgãos que nos ajudam a fazer coisas no mundo.Quando adquirimos uma nova habilidade, não há um mudança ou adaptação correspondente em nossos membros. Mas aquela habilidade altera de algum modo a nossa arquitetura cerebral.
Pense em quando você estava aprendendo a dirigir, andar de bicicleta ou mesmo utilizar o mouse. Mudar as marchas, virar a bicicleta enquanto pedalava e clicar sobre o um ícone eram atividades que demandavam uma "ação consciente direta". Você precisava olhar para a alavanca de marchas, pensar se estava na primeira ou na terceira, lembrar de virar o guidão ou inclinar o corpo e olhar para o ratinho em sua mão. Com o tempo essas habilidades se tornaram automáticas, como se os abjetos fossem integrados à estrutura do seu corpo. E dizemos que eles são realmente extensões de nós mesmos.
Eu lembro bem como era complicado utilizar o mouse ao mesmo tempo em que cuidada do ponteiro na tela. Problema que as pessoas que cresceram na era do computador não têm. Repare como as pessoas mais velhas se batem com mouses e telas touchscreem.
Aliás, me parece que as telas touchscreem nos levaram um passo adiante. E nossa integração com a máquina é tão grande que não vivemos mais sem os onipresentes celulares.
Quando utilizo a função copiar no celular acontece uma coisa estranha. É como se a coisa copiada estivesse no meu dedo. A sensação é leve, mas não passa antes de eu colar ou pelo menos tirar aquilo da mente. Não sei explicar isso, mas certamente tem a ver com a plasticidade do meu cérebro e de como ele está percebendo um objeto que nem mesmo é material ( a informação do que copiei) como algo real.
Acredito que a integração "plena" será possível, e até facilitada, por causa dessas mudanças no cérebro. Nós não criamos apenas novos apêndices para nossos corpos, mas criamos hardwares e softwares cerebrais que nos permitem utilizar essas extensões.
Somos todos ciborgues.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Forças e Filtros de Seleção Social


Estamos o tempo todo sendo selecionados. Existem filtros ao seu redor e mecanismos que pressionam você a se adaptar. E também existe a sua própria vontade, porque você sabe que muitas das características que você finge que são fixas, imutáveis, são plásticas, moldáveis como barro.
Nosso modelo político possui filtros de seleção. Só entram os que fazem isso ou aquilo. Mas existe também a busca pessoal por poder, os interesses. As pessoas se adaptam. Mas não pense que tudo é livre arbítrio. A adaptação só ocorre dentro de uma faixa estreita de possibilidades. A característica definidora esconde-se por trás das máscaras sociais, e podemos chamá-la de "caráter", embora haja mais coisas ali. É uma espécie de circulo vicioso, e sim, vamos continuar produzindo os mesmos tipos de políticos, de policiais, de servidores públicos e de cidadãos.
E isso opera em igrejas, no serviço público, nas famílias, nos círculos de amigos, nas associações, grupos de wattsapp...
Como na natureza, se não nos adaptamos, nós perecemos. Mas até onde eu devo me adaptar, se não sou levado a isso pelos meus valores internos? Quais são os limites da minha entrega? Apenas as condições extremas podem esclarecer isso, mas não vivemos o tempo inteiro sob tais condições.
No meu trabalho eu tento identificar que filtros estão em operação. Alguns são necessários, pois deles depende minha sobrevivência, porém muitos outros são frutos do costume ou dos vícios. Como não ser desfigurado, como continuar sendo uma pessoa e não mera peça dentro de um mecanismo de produção e excreção de poder?
Não é fácil dizer, e muito menos fazer. Pois tudo ao meu redor, e ao seu, exige algum tipo de adaptação. E você pode ter a ilusão de que escolhe uma coisa ou outra porque seu caráter domina, mas o tempo inteiro você recebe comandos para se adaptar, e boa parte deles nem são reconhecidos por você.
Sobram perguntas, faltam respostas. Mas pelo menos uma coisa é clara, não se muda a realidade sem se insurgir contra esses sistemas, sem modificar os modos de seleção para algo que beneficie mais a sociedade que os mesquinhos interesses pessoais.