segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O Complexo de Neanderthal dos Americanos


O pessoal da América (a América somos nozes!) pegou o complexo do Neanderthal. Explico...
É coisa lógica que um país controle o acesso ao seu território. Muitos crimes estão relacionados a fronteiras frouxas. Nós sabemos. É importante que um governo limite o número de cidadãos de outros países que lá vão ganhar a vida. Ele não vai querer gente se amontoando em guetos e gerando lá na frente aqueles tantos problemas sociais que a gente conhece. A obrigação de um governo é primeiramente com seu povo.
Porém a história é cheia de exemplos, como este da América made great again, de povos que incapazes de lidar com seus problemas, ou mesmo incapazes de reconhecer esses problemas, ajeitaram lá um "bode expiatório" (expressão bíblica que virou dito popular). Os alemães caíram na ladainha do Führer e acreditaram piamente (ou impiamente) que os judeus eram os responsáveis, junto com outros grupos de "degenerados", pela degradação do orgulhoso povo alemão. E exemplos como esse, embora menos traumáticos, abundam na história.
Resistimos a reconhecer responsabilidades, individuais ou coletivas. E sempre damos um jeitinho de transferir a culpa. Pensa lá, a gente está fazendo isso o tempo inteiro. Embora nem sempre haja "culpa" no negócio, mas condições que não estão sob nosso controle, mas cujos efeitos nos acertam como um cruzado no queixo.
Eu brinquei que essa transferência faz parte de um "complexo de Neanderthal". Dizem os antropólogos que a Europa era habitada por esses homens num passado remoto. Não se sabe exatamente como era sua sociedade, mas sabe-se que "hordas de invasores" oriundos da África invadiram a região e dominaram o território assimilando ou dizimando os habitantes locais. Pensa-se que esses invasores eram mais fracos que os habitantes originais, porém mais hábeis e numerosos e com um poder de adaptação imenso. Ah, eles tinham ideias religiosas mais desenvolvidas também.
Ironicamente, os descendentes desses "primeiros homens" (que eram segundos, na verdade) hoje resistem aos parentes mais próximos de seus ancestrais.
O tal complexo seria então esse medo de que invasores destruam a sociedade e também o conceito de que todos os problemas locais são culpa dessas hordas sem identidade.
É esse sentimento que Trump evoca, o que nem sempre faz sentido, pelo menos com relação aos empregos, porque os tipos de trabalho realizados por imigrantes não são os que os americanos querem fazer. Pensou nos haitianos aí?
A questão, como muitas, não se encerra, e a gente vai percebendo que tudo tem dois lados (ou mais). O desafio é encontrar o equilíbrio e permitir o diferente sem importar problemas. Pelo menos para nós, os que temos pretensões de grandeza.

Depois de ter escrito esse texto, encontrei uma entrevista com Rick Shenkman, autor de um livro que evoca ideias parecidas, a imagem acima é dessa matéria:

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

SEGURANÇA PÚBLICA E A TAXA DE HOMICÍDIOS

No mundo todo, a violência é medida pela taxa* de homicídios. Faz sentido. Um ambiente com muitos homicídios interfere na forma como as pessoas "sentem" a segurança pública. Ambiente seguro, menos homicídios.
Entretanto uma taxa de homicídios baixa não implica necessariamente em um número baixo na percepção de segurança. Explico. Essa taxa não leva em conta o número de furtos e roubos. E estes tipos de crimes são os que mais interferem na sensação de um ambiente seguro ou não. Existem outros indicadores em que esses números são levados em conta pelas autoridades para "medir" se trabalho, porém nem todo crime é denunciado à polícia.
Por outro lado, o homicídio é um crime "aleatório". A maior parte dos homicídios está ligada ao tráfico de drogas, seja por dívidas, seja por conflito entre grupos rivais que lutam pelo controle de determinadas áreas. Nesse sentido, por mais paradoxal que isso pareça, ações mais efetivas da polícia para desbaratar o tráfico de drogas costumam AUMENTAR OS ÍNDICES DE HOMICÍDIOS naquela região. Isso acontece pelos vácuos de poder causados pela prisão de lideranças locais. Quando isso acontece, grupos rivais invadem aquele território, ou elementos mais baixos na hierarquia começam a disputa pela liderança principal.
Autoridades também utilizam esses índices para dar uma impressão de mais efetividade no trabalho, quando não houve. Digamos que a taxa foi de 30 homicídios em determinado mês, mas que no ano seguinte a taxa foi de 27 no mesmo mês. Em números brutos foram três homicídios a menos, mas as autoridades vão falar "numa redução de 10%", embora não tenham feito absolutamente nada diferente de um ano para o outro. Talvez uma pesquisa mais criteriosa vá mostrar que naquele ano a polícia investiu menos na fiscalização, investigação e prisão de traficantes.
No casos dos crimes contra o patrimônio, as autoridades usam a velha tática de correr atrás do rabo. Explico. Estão ocorrendo muitos furtos e roubos numa região? Deslocamos o efetivo para lá. A presença policial logo diminui o numero de furtos e roubos NAQUELE LOCAL. Os criminosos simplesmente vão para outros locais, e a batata quente vai mudando de mãos. Tão logo o policiamento relaxe, os índices aumentam.
As soluções para esse problema vão muito além de colocar uma viatura em tal praça, ou aumentar o policiamento ao redor de universidades. Eles passam, principalmente, por investigação dos crimes, criminosos processados, questões sociais remediadas, e PARTICIPAÇÃO DA POPULAÇÃO na segurança pública por meio de conselhos de segurança, ações que dificultem a ação criminosa, relação de proximidade com os policiais de sua região, denunciando, etc.
Espero que isso te ajude a entender as dificuldades envolvidas e que você consiga cobrar ações mais efetivas das autoridades, além do aumento dos efetivos policiais. Lembre-se, a segurança pública também é seu dever.
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*A taxa de homicídios é o número de mortes violentas por cem mil habitantes no período de um ano.

Para mais informações, consulte o Atlas da Violência 2016.

http://infogbucket.s3.amazonaws.com/arquivos/2016/03/22/atlas_da_violencia_2016.pdf

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Militarismo


Acredito que o modelo militar das forças armadas não é o mais adequado para as polícias, mas isso pode criar certa confusão, como se eu demonizasse o militarismo. E não é bem assim, porque eu na verdade devo muito ao militarismo. Fui criado sem meu pai, e foi nas forças armadas que adquiri a disciplina que moldou meu modo de ser e meu caráter, embora eu não tenha percebido isso senão anos depois da minha saída das forças armadas. Eu sou civil, mas meu comportamento é o de um militar. Mas não faço disso uma religião, nem adoto o belicismo como um ideal de vida.
Militarismo não é sinônimo de abuso nem de desrespeito às populações civis. É certo que forças militares, tanto hoje como no passado, foram responsáveis por barbáries e massacres, mas cada caso precisa ser analisado de acordo com o contexto em que ocorreu.
O militarismo, no Brasil de hoje, é sinônimo de disciplina, ética, nacionalismo e ideal guerreiro. Não há nada nas normas militares que incentivem o desrespeito. Os que ocorrem são frutos de uma subcultura que nasce do treinamento psicológico pelo qual todo conscrito (o "noviço" militar) tem que passar. O militar treina seu corpo e seu espírito para enfrentar as agruras de um conflito bélico. Muitas vezes, porém, o treinamento extrapola os limites e acaba sendo utilizado como válvula de escape do sadismo ou da mera vontade de pagar o que se sofreu.
O militarismo não é uma invenção burguesa. Ele existe desde a aurora dos tempos, e sociedades inteiras o adotaram como modelo para os seus cidadãos, como a cidade grega de Esparta. Na sua essência está o ideal guerreiro e o desejo pela glória do combate ou da "boa morte". As ações ligadas ao militarismo são chamadas "marciais", um termo que se liga ao deus Marte (Ares grego), o deus da Guerra. A Ilíada, o grande épico grego da guerra de Troia, expressa essa verdade guerreira grega.
Estilos de luta, principalmente orientais, são chamados "marciais", porque têm em sua essência a disciplina, tanto pessoal quanto em relação ao mestre, ao grupo, ao dojo. E percebemos mesmo nas sociedades que criaram essas técnicas o espírito da disciplina, quem não percebe a marcialidade da cultura japonesa, chinesa ou coreana?
Outro ponto importante do militarismo é a estrutura hierarquizada. Um exército precisa de uma estrutura de comando muito clara e eficiente. Uma polícia também precisa, mas não nos mesmo moldes das forças armadas, pois sua natureza é outra. Porém polícia nenhuma vai funcionar sem esse espírito de disciplina e marcialidade, mesmo não obedecendo aos estamentos jurídicos do militarismo.
Entendo que o militarismo no Brasil é mal visto por algumas camadas da sociedade devido ao Regime Militar e aos conflitos da época. Entretanto é preciso entender que o militarismo não é um sistema de governo, mas um padrão jurídico, hierárquico e ideal que rege a estrutura e o funcionamento de forças armadas com finalidade precípua de proteção nacional.
O sistema de valores do militarismo não leva ninguém ao abuso, muito pelo contrário, leva à disciplina e ao respeito. O problema está em enxertá-lo fora da sua realidade e tentar fazer dele algo para o qual ele não foi criado para ser.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Segurança Pública - Problemas e Soluções



Um breve Olhar

Eu sinceramente perdi a esperança de que nosso modelo de segurança pública seja revisto nos próximos anos. O que eu vejo é o reforço do atual sistema. E não precisa ser gênio para saber que esse modelo não dá conta dos problemas nessa área. Nossas polícias conseguem ser apenas reativas quando o ideal seria que nem houvesse crime, o que chamamos de "policiamento preventivo". Ainda assim nossos presídios estão abarrotados, o que a princípio parece um paradoxo, se a polícia não é eficiente, como é que ela prende tanto? Ora, ela prende tanto porque falha em evitar que o crime seja cometido. Isso é tão verdade que os "grandes" crimes costumam ficar impunes. Um exemplo vergonhoso é o homicídio. Apenas uma parcela mínima dos homicídios são solucionados, e nem sempre por causa de um trabalho investigativo eficiente. Na minha família mesmo há casos de homicídios que nunca foram solucionados. 

Os tipos de crimes mais comuns que terminam em prisão são os crimes contra o patrimônio e o pequeno e médio tráfico de drogas. Sintoma de que há um desnível entre o trabalho de prevenção e o investigativo com as rondas ostensivas, pois são essas que flagram aqueles crimes. E não pode ser diferente, porque nosso modelo policial não o permite.

Para começo de história, nossa polícia sofre da mesma doença da burocratização que atinge nossas outras instituições públicas. É muito papel, muitos "passos", e pouca eficiência. Sem contar que o poder que controla as polícias é o político, e quase sempre as ações "de vulto" são teatrais, feitas para dar "sensação de segurança", sem efetivamente criar mais segurança.

Outra coisa terrível é o abismo que separa nossas polícias estaduais. O trabalho policial forma um CICLO. O CICLO COMPLETO DE POLÍCIA compreende duas facetas, o aspecto judiciário de policia investigativa (Polícia Civil) e o aspecto administrativo de polícia ostensiva (Polícia Militar). Nossas polícias, entretanto, fazem, cada uma, meio trabalho. A polícia que prende na rua não é a mesma que coloca na cela e investiga a realidade daquele crime. Isso cria uma série de falhas que viciam o processo penal posteriormente. Então por que não unificam as polícias? Porque uma é civil e outra militar, são organizações muito diferentes e ninguém sabe como fazer essa mistura de água e óleo funcionar.

Muitos falam em desmilitarização, o que poderia, em tese, facilitar a unificação. Mas o modelo militar já está entranhado em nossa sociedade, e não é fácil mudá-lo, ainda mais agora que forças conservadoras, simpáticas ao militarismo, estão em evidência no país.

E existem também os interesses das cúpulas das polícias militares em manter seu status quo. A FEDERAÇÃO NACIONAL DE ENTIDADES DE OFICIAIS MILITARES ESTADUAIS (FENEME) luta ostensivamente para evitar que outras instituições venham a competir por recursos. Eles usam seu lobby para evitar que guardas municipais atuem na segurança, que organismos de defesa civil locais diminuam o poder dos bombeiros estaduais, que agentes penitenciários sejam reconhecidos como policiais penitenciários, que empresas de segurança evoluam em suas atividades. Na verdade essa cúpula de oficiais militares controla boa parte das atividades que tenham minimamente contato com a segurança pública. É muito comum vê-los ocupando cargos de gestão fora de suas instituições de origem. É justo lutarem por seu interesse, o que não é justo é sequestrar o bem estar da população em nome desses interesses.

Da divisão social das polícias

Um dos problemas com nossas polícias é que elas reproduzem um modelo de divisão social muito antigo. As polícias, tanto civil quanto militar, não são instituições de carreira única. Na Polícia Militar existe uma divisão entre praças (soldados, cabos, sargentos e sub-tenentes) e oficiais (tenentes, capitães, majores, tenentes-coronéis e coronéis). Os concursos são feitos para cada divisão separadamente. Isso acaba criando uma separação injusta entre os que efetivamente trabalham na atividade-fim da polícia e os que gerenciam esse sistema. E ainda reproduz o tal modelo de divisão social. Antigamente filhos de nobres eram oficiais, e as pessoas do povo eram praças. Do mesmo modo o modelo se reproduz nas polícias civil, com delegados na posição de oficiais e as demais carreiras como praças. Obviamente o cargo de delegado é especializado e tem relação com o judiciário.

O ideal é que as polícias fossem carreiras únicas, que alguém entrasse nas posições mais baixas e fosse galgando os graus mais elevados. O policial teria, desse modo, uma visão melhor do sistema na hora de gerir e incentivaria os graus menos elevados a trabalhar com vistas a esse crescimento. Além disso, a polícia deveria deixar de fazer o trabalho do judiciário, modificando nosso modelo de inquérito e acabando com a divisão na carreira da polícia civil. Isso jé melhoraria um pouco o sistema. A Desmilitarização e unificação ficariam mais fáceis. 

Melhorando o trabalho policial

Algumas medidas poderiam melhorar esse quadro, pelo menos temporariamente.

-Mudar o foco da formação. Candidatos a policiais passam por um período de treinamento em que aprendem técnicas policiais específicas, legislação, direitos humanos, organização institucional, e matérias ligadas à vida militar, no caso das PMs. Mas é muito comum ouvirmos que o policial vai aprender mesmo é na rua, e não raro, o que se aprende na academia é totalmente diferente do que se faz na prática. Portanto a formação precisa ser mais próxima do trabalho de campo e precisa ter mais forma para influenciá-lo. O "trabalho das ruas" é uma cultura policial, nela entram experiência e hábitos, nem sempre legais. É preciso que a "cultura" não destrua o modelo.

-Mudar o foco do exercício. Melhorar as polícias implica em trazê-las para perto da população. O modelo atual simplesmente desconsidera a comunidade, mas é princípio básico das polícias modernas que a polícia é o povo, e o povo é a polícia manifestada em alguns do povo que são pagos para fazer o trabalho que é de todos, conforme o entendimento do  pai do policiamento moderno, o inglês Robert Peel ( falecido em 1850). Essa é a base do que chama de "polícia comunitária". Nossa constituição consagra esse princípio quando diz (artigo 144 da CF) que a segurança pública é direito e dever de todos. Não existe possibilidade de melhorar o cenário atual sem a participação da população.

-Mudar o foco de gestão. A polícia precisa de maior independência do poder político. O trabalho policial é técnico e não pode ser circunscrito aos objetivos políticos do gestor. A gestão das instituições policiais deve ser feita por policiais de carreira.

-Melhorar os controles interno e externo. A atividade policial exige corregedorias, mas também é necessário o controle externo feito não apenas por agentes políticos, mas exercido por conselheiros eleitos pela comunidade.

-Foco na Eficiência. Eficiência em trabalho policial é prevenir o crime, e caso isso não seja possível, levar o criminoso à justiça.

-Desburocratização. Menos papel e menos rituais. Hoje existe um mecanismo para crimes de menor potencial ofensivo, aqueles com pena cominada em até dois anos, é o TERMO CIRCUNSTANCIADO. Esse mecanismo é uma espécie de Boletim de Ocorrência lavrado por autoridade policial. O termo é lavrado e o infrator não fica preso, mas já sai com data de apresentação no Juizado Penal Especial. O interessante é que esse termo fosse lavrado por policiais militares e guardas municipais, diminuindo o trabalho nas delegacias e economizando tempo e recursos.

-Reconhecimento pleno das Guarda Municipais. Hoje as Guardas Têm poder de polícia, mas ainda carecem de reconhecimento pleno. Além do que são vista como ameaça às PMs. O ideal é que cada uma trabalhe nas suas competências específicas e atuem conjuntamente onde elas confluem. É preciso também evitar que modelos próprios das PMs sejam utilizados nas Guardas Municipais, fazendo dessas um modelo local daquelas.

-Priorizar o foco no serviço. Polícia, para além das descrições jurídicas, é muito mais que uma instituição. Polícia é serviço, então não faz muito sentido dar tanta importância às instituições deixando de lado suas missões. Elas não existem fora do trabalho que fazem.

-Combater a cultura de morte. Muitas são as razões para tal cultura, frustração com as leis, com o judiciário, problemas psicológicos, e uma espécie de ideal guerreiro típica da vida militar que acaba transbordando para outras instituições. A missão de um policial é evitar que o crime seja cometido, prender o criminoso se o crime não puder ser evitado e, acima de tudo mais, preservar a vida, o maior patrimônio. A morte de criminosos, embora não seja desejável, é um efeito colateral quase impossível de ser plenamente evitado, mas que pode diminuir. Para tanto é necessário investir na técnica e no uso da tecnologia. Criminosos não temem em trocar tiros sem se importar com as pessoas ao redor, mas policiais não podem pensar assim. Nem sempre o tiro deve ser revidado, pois a prisão ou mesmo a morte de um criminoso não vale a perda de uma vida inocente.

-Investir no estudo continuado do fenômeno criminoso. O crime não é totalmente aleatório, e é possível identificar certos padrões. As ações devem ser pautadas nesses estudos, e consideradas as dimensões psicológicas envolvidas. A mídia, quando noticia exageradamente certo tipo de crime, acaba por incentivar que mais pessoas adotem aquele modelo. A polícia precisa ter isso me mente e aproveitar o ambiente para se antecipar.

-Treinamento continuado. Isso é lugar comum, todo mundo sabe. Mesmo assim há policiais que não entram num estande de tiro há anos. Todo mundo sabe, mas não fazem.

Finalizando....

Esse é apenas um olhar sobre o problema, há muitas outras coisas envolvidas na questão. Mas considero que a maior delas ainda é a participação da sociedade na discussão dos problemas de segurança. Muitos "especialistas" propõem soluções mágicas, mas quem trabalha na área sabe que não é bem assim. Outros fazem uma leitura do problema com base em ideologias particulares, o que também não ajuda, pois não há como ter uma solução adequada sem um olhar atento sobre a realidade.
Eu comecei dizendo que perdi a esperança de que haja uma solução a curto ou médio prazo, mas não desisto de lutar para que ocorra algum dia, não só como trabalhador da área, mas como cidadão, pai, filho, irmão e esposo que vive na pele o caos diário e o medo que nos cerca.

Pro Lege Semper Vigilans!
Pela lei sempre vigilantes!
Lema da Guarda Municipal de Curitiba.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Um poema Amargo

Eu era tão ingênuo
Ou bobo, talvez ainda seja...
Quando, Senhor, levaram minha inocência.
Ou a inocência que eu pensava que tinha
E deixarem no lugar esse ser amargo e cínico
Que não acredita mais num sorriso
Que não lembra mais como eram
As músicas que a gente cantava nas esquinas
Sentados no meio fio, dois ou três, e um violão
Naqueles dias barulhentos
Eu já não lembro, Senhor, como era
Quando eu não sabia da maldade
E quando eu ainda não era
Um de seus escravos
Senhor, eu já não sei por que não choro
Quando devia chorar e rio
Quando todos estão chorando
E alguém confunde isso com felicidade
Mas é só fraqueza e loucura, e um cinismo de
Mim mesmo, eu rio da figura que me tornei
Eu rio as risadas amargas da loucura
Sonhando sem sonhar
Com o tempo em que meu coração ainda
Não havia secado e a vida ainda era
Todo um mundo a ser alcançado
Antes de roubarem minha inocência
Antes de tornarem minha alegria em
Solidão e minha vida, Senhor
Um passo dentro da escuridão.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Discurso do Homem da Assembléia

O Homem da Assembléia diz: "Como são transitórias todas as coisas! Tão transitórias! Tudo é transitório! Ganha realmente algo sob este sol aquele que trabalha com todo o seu esforço? Infindáveis gerações vêm, e outras tantas se vão, mas o mundo permanece do mesmo modo. Ocasos e alvoradas se sobrepõem apressadamente. Os ares de deslocam em todas as direções, voltando sempre ao seu ponto de partida. Todos os rios vão desaguar no mar, e ele não transborda; o ciclo sempre se refaz, e o que desaguou torna para novamente desaguar.
Tudo o que se faz resulta em muito cansaço, sem que alguém explique tudo com exatidão. Os olhos não se cansam de ver, nem os ouvidos de ouvir. Tudo o que passou está vivo naquilo que ainda virá, e se farão de novo todas as coisas que já foram feitas. Não há nada novo debaixo desse céu. Haveria algo de que se poderia dizer "veja, isso aí nunca houve", Não! Tudo o que há já existiu de algum modo em tempos passados. Assim como esquecemos os tempos passados, não haverá lembrança das geração futuras pelas que virão depois.
Eu, o homem da assembléia, fui o monarca na Habitação Harmônica. Dediquei com sensatez minha mente ao exame e investigação das coisas que são feitas debaixo do sol. Que dura tarefa o Elevado atribuiu aos homens! Observei todas essas coisas que se fazem sob o céu, é tudo por demais transitório, é como correr atrás do vento. O torto não se endireita. Ignora-se o que não está patente aos olhos.
Meu pensamento foi de que me tornei um homem próspero, com uma sabedoria superior à dos que governaram a Habitação Harmônica antes de mim. Acumulei sabedoria e conhecimento. Por isso dediquei minha mente a entendê-los, mas descobri que até isso é como perseguir o vento, porque ser sábio conduz à frustração, e quanto maior o conhecimento, maior é a tristeza.

Discurso do Homem da Assembléia (Eclesiastes) 1: 2-18. Minha versão fluída.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

As Luzes que Temos

Na vida seguimos as luzes que temos
Se as buscamos ou nos reserve a sorte
A pessoa não vê mais do que pode
Se o pode significa o que tenta alcançar
Há metas que existem para nos testar
E outras são coisas que lançam pelo caminho
Há fogo que queima com grande crepitar
E há chama que consome palha e se extingue
O esforço nos lança sempre contra as ondas
E talvez o orgulho nos encha em alto mar
Cuidamos vencer o gigante e não vemos
Que nos afasta para bem longe do continente
Amontoamos pedras e fazemos um nome
Como se o nome fosse algo a ficar
Ou as pedras fossem mais do que são
Pelo orgulho com que as empilhamos
E apenas vivemos pelas luzes que temos
Não as que apontam nosso turvo caminho
Mas as que surgem brilhando intensamente
Dos nossos olhos como faróis na escuridão.

domingo, 15 de janeiro de 2017

A Notação Linguística Universal

"As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo" 
                                                                                         Wittgenstein


Um pequeno auditório.

"Existem muitos sistemas informacionais. A língua é um deles. A língua falada é composta de sons que unidos de certo modo arbitrário constituem um veículo por onde informação passa de uma pessoa a outra. A língua escrita representa aqueles sons com sinais visuais com a mesma finalidade".
O palestrante lança um olhar amplo sobre sua audiência, não parece que eles estejam interessados. O discurso, na verdade, é uma simplificação bastante superficial de questões amplamente estudadas.
"As línguas escritas comportam diversas particularidades que são intrínsecas ao modo como seus sistemas , suas gramáticas, seus modos de impressão foram constituídos. Alguns sistemas de escrita são silábicos, outros são ideográficos, outros tantos são fonéticos. Há maior ou menor aproveitamento de espaço, maior ou menor capacidade condensativa. Em geral as escritas utilizam bastante espaço porque não possuem todos os meios da linguagem, como os gestos, entonação, expressões faciais, etc. Mas de certo modo todas elas conseguem expressar bem o que poderia ser expresso apenas por meio dos sons da fala. Mas os sons da fala são, eles mesmos, um código. A realidade que expressão está na mente do falante. O leitor, portanto, recebe uma realidade que é mediada de uma outra mente por meio da escrita, que poderia, de outro modo, ter sido fornecida pela fala".
Pausa.
"Imaginemos, entretanto, um modelo de notação linguística que fosse o veículo direto do pensamento, da informação, sem a mediação da linguagem particular. Imaginemos ainda que esse sistema fosse bastante econômico com espaço, conduzindo a quantidade de informação expressa numa frase longa no espaço de um caractere. Imagine também que as nuances da frase possam ser calculadas e cada uma delas expressa por meio de pequenas variações no modelo caractere-frase. É certo que a linguagem ideográfica faz algo parecido. Mas imagine que alguém possa dominar esse modelo sem decorar milhares de símbolos diferentes. Imagine que as variações escritas sejam pequenas, como nosso símbolos numéricos, e que a sobreposição de traços distintos, cujo cálculo obedeça uma lógica implícita, implique em todos os significados possíveis. A música e a matemática já fazem isso. Uma pessoa não precisa conhecer a língua de quem escreveu uma equação ou uma peça musical, basta-lhe conhecer as regras dessas linguagens. Uma notação linguística seria semelhante. Ela talvez não fosse eficiente para poesia ou as nuances estilísticas de certo escritor. Seria uma ferramenta de informação e uma espécie de tradutor direto, pois quem escreve o faz pensando no seu idioma e quem lê o faz também de acordo com sua linguagem particular".
Uma matéria:
O sistema do Notação Linguística Universal do doutor **** já a ferramenta principal de universalização do conhecimento, ultrapassando em importância a popularização da internet.
Outra:
O matemático **** apresentou hoje um revolucionário método de cálculo utilizando os modelos formais da notação linguística universal. Segundo ele, o a utilização do modelo permite cálculos hoje impossíveis pelo sistema numérico. "É como fazer cálculos em dimensões infinitas simultaneamente"- explicou o matemático. A expectativa é de que o sistema seja aplicado em outros campos do conhecimento, especialmente a informática e a genética.
O doutor **** afirmou hoje que não criou o modelo NLU, mas que na verdade o descreveu. Essa descrição levou à descoberta de propriedades que têm íntima relação com a estrutura de tudo o que existe. Já é certo que a essência do universo é de natureza informacional. Espera-se a solução de alguns problemas da física moderna. O problema da descrição, dizem os especialistas, não estava no método, mas nas ferramentas matemáticas.
Futuro:
A NLU revolucionou as ciências. Hoje entendemos melhor alguns fenômenos universais, e a tecnologia resultante lançou a humanidade numa era dourada. Manipulamos as energias universais com segurança, e nossos engenhos cruzam diariamente o Sistema solar. A vida, manipulada em seu nível mais básico, foi estendida de modo quase inimaginável poucas décadas antes. A NLU não nos permitiu apenas conversar uns com os outros, ela nos deu meios de dialogar com a realidade abstrata do universo. Ela nos deu o Logos universal.
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Isso é um conto, uma ideia louca. E, guardadas as devidas proporções, é o que fez a revolução da escrita para a humanidade. Será que uma ferramente "analógica" dessas poderia ter um efeito como aquele? Quem sabe.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Os Mamutes


As nevascas vieram com força esse ano. A prefeitura suspendeu o voo de wingflies durante os períodos mais intensos. Eu precisava sair de casa. Decidi utilizar os trilhos públicos. Havia uma estação perto de casa. Com sorte não haveria mamutes pelo caminho. A manadas costumavam perambular por Colombo e por grandes trechos do Atuba essa época do ano, mas devido às intensas nevascas, elas se deslocaram mais para dentro de Curitiba. Ouvi pelos prompts que um grupo grande se instalara na praça Tiradentes, bem perto da saída norte dos vapores quentes. Pena. Pensava em chamar um pessoal para um banho no lago termal da praça, mas os mamutes ficam inquietos com humanos nas proximidades. Não há registro de ataques, mas os censores alertaram para uma mudança nos padrões de agressividade da espécie, antes apenas vistos nos períodos de acasalamento. O subtrain estava vazio, as pessoas preferem trabalhar remotamente quando o tempo não ajuda. Na verdade preferem trabalhar remotamente em qualquer tempo. Poucas profissões exigem tanta interação física direta como a minha. Eu faço inspeções nas highways informacionais. Verdade que em vinte anos nenhum problema foi constatado, mesmo porque os sistemas de proteção automáticos cuidavam de todos os detalhes. Mas devido a um acidente quando os serviços de segurança informacional ainda eram menos eficientes, incidente de que ninguém se lembrava mais, a lei exigia inspeção humana direta por pelo menos três vezes na semana.
Havia uma moça sentada umas duas poltronas longe de mim. Sua respiração estava pesada. Algum tipo de alergia. Como é que alguém se sujeita a ter alergia hoje em dia? E ainda mais por motivos ideológicos obscuros, como devia ser o caso dessa moça. O nariz estava bem vermelho, mas ela era bonita, apesar de ser muito clara e usar aquele corte curto e a tinta prata metalizada nos cabelos. Não sabia se ela tinha reparado em mim, suas lentes estavam penumbradas. Tentei uma hiperconeção com ela, mas seu hard pessoal estava bloqueado. Tudo o que eu via era o aviso de "usuário em conexão privada". Ok! Um dia como esses a pessoa encontra um outro ser humano e prefere não socializar. É uma tipica curitibana de três décadas atrás. Mania de ficar julgando as pessoas essa minha. Nem conheçia a garota. Vai ver ela estava numa narrativa de ludodrive- pensei.
Desci na Estação Central, a garota continuava na sua desinclusão social. Atravessei os dois quarteirões que me separavam da Praça Tiradentes em poucos minutos. A neve parara de cair. Eu mal sentia o vento por trás da proteção térmica. Havia mesmo alguns mamutes na praça. Eles estavam agrupados, como se estivessem tentando se aquecer. Obviamente não era isso, pois esses animais conseguiam resistir às temperaturas do satélite Europa com quase nenhum controle ambiental. Produzir vegetais em grande quantidade em Europa já é mais difícil, por isso os mamutes não vingaram por lá. Mas não foi o frio, certamente não foi.
Fiz as inspeções, no retorno ainda observei os mamutes pela praça. O lago estava borbulhando convidativo. Dei uma boa olhada nos mamutes, não parecia que eles se importavam comigo. Fui até o deck térmico, despi completamente a proteção e me atirei nas águas quentes. Que delícia! Fiquei boiando de barriga para cima, inteiramente nu. Talvez alguém estivesse me observando, uma das câmeras. Mas quem se importava com um cara nadando pelado num lago termal cercado de mamutes num dia como esses? Com tanta coisa passando nos hiperdrives e as possibilidades infinitas dos jogos de realidade virtual plena isso era quase impossível, e para os sistemas inteligentes não havia diferença entre um humano com roupas de um sem. Fiquei boiando com a barriga para cima,os braços e pernas abertos, vitruviano. O céu cinza, familiar.
Uma onda passou sobre mim. Alguém pulou na água. Tudo bem, a densidade me impediu de afundar e engolir água. Um pouco entrou pelas narinas.
"Desculpe" - uma voz feminina.
Fiquei na vertical. Era a garota do trem. Sorria. Reparei nos olhos castanhos e na conexão imediata dos drives pessoais. Sônia. Não era ideologia. A avó decidira pela passagem. E ela estava com as lentes penumbradas revendo imagens familiares. Não era como um curitibano de trinta anos antes. Nos perdemos naquela tarde cercados de mamutes lanosos. A praça iluminada artificialmente lançava as sombras dos mamutes sobre nós.
Um ano depois fundimos nossos receptores sob a sombra daquela mesma manada de mamutes, no mesmo lago e sob o mesmo signo dos tempos.
Depois disso fizemos duas viagens a Marte e conhecemos as estações de férias de Europa. Planejávamos uma longa viagem pelo cinturão externo quando os gêmeos vieram. Semanas depois observávamos os fetos na estação de incubação. Registramos a intenção de nomes e saímos para a viagem, agora um pouco mais curta por causa do ritual de nascimento dos gêmeos.
Os anos se foram. Ainda inspeciono as highways, mas não com tanta frequência e sempre quase sempre remotamente. Selena e Márcio decidiram emigrar. Ela atua na produção biológica de vida animal do instituto de terraformação de Alfa Centauri. Ele acompanha uma expedição científica perto da grande barreira de asteroides do limite delta da Galáxia.
Todo ano eu e Sônia comemoramos nossa união no lago da Tiradentes. Mas gostamos às vezes de patinar nas águas geladas do Parque Barigui. Agora os mamutes quase nunca saem dos limites de Colombo. A manada reduziu-se muito, ninguém entende direito por quê. É como se uma chateação da vida tivesse entrado neles. Sônia me diz que os mamutes têm também seu modo de passagem, como fizera sua avó anos antes, mas que era um meio natural. Eu começo a entender Sônia. Depois do secundo século de vida, a gente vai perdendo o gosto pelas coisas, pelas novidades. Mamutes vivem muito, tanto quanto a gente. E eles se cansam. Na verdade andamos cansados.
Estamos pensando em fazer a passagem. Já olhamos alguns mundos oníricos pelo catálogo, e até fizemos algumas imersões. Mas fica difícil escolher quando você ainda tem as limitações físicas, o verdadeiro encontro só pode se dar no fluxo dos dados.
Decidimos fazer isso nos meus 250 anos. Esperamos reunir a família para o ritual no mesmo laguinho quente.
Quem sabe os mamutes não aparecem?


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Antigamente...


Antigamente, quando eu não tinha tantas coisas para me preocupar, eu gostava de me perder pelos campos. Eu abria os braços e sentia o vento me levar, assim como o sol a acariciar meu rosto. O capim, havia muito capim naquela época, dançava ao meu redor, e o barulho era alguma coisa ancestral, difícil demais de reproduzir, mas numa linguagem que falava mesmo com o coração da gente.
Então eu me jogava sobre as touceiras de capim, e uma ave saía voando. Nessa época, você andava pelo campo e não via nada, então de repente uma codorna voava com uma barulho engraçado. De vez em quando você topava com uma cobra, mas as cobras, apesar de venenosas, eram mais honestas que as de hoje. Uma daquelas cobras antigas era perigosa como o diabo, e sorrateira, mas você sabia o que esperar dela, o bicho não tinha segredos. As de hoje não são assim, aliás, elas parecem qualquer coisa de bom, menos uma cobra. Às vezes você acha que elas são belas gaivotas, ou coelhinhos felpudos. E elas até agem como gaivotas ou coelhinhos. Mas então, se você baixar a guarda...
E tinha também os preás. Um preá é tipo um rato sem rabo. Melhor, é uma capivara anã. Mas que estou dizendo? O preá, se quer mesmo saber, é como um porquinho da índia. Só que um porquinho desses bem discretos, sem todas aquelas cores chamativas. Não pense que os preás eram feios, nada disso. Eles eram até que simpáticos, só que não eram muito ligados nesse negócio de socializar, como os porquinhos de hoje. Eles ficavam na deles, e, como as codornas, davam no pé ao menor sinal da gente.
Mas não foi suficiente. A gente quase que acabou com eles. Antes eles só se preocupavam com as cobras, mas o bicho gente é bem pior que qualquer cobra de verdade. Ainda vejo alguns deles de vez em quando num parque aqui da cidade. Os de hoje são bem menos ariscos. Algo que eu nunca entendi. deve ser porque há menos cobras, e a gente é mais dissimulado que elas.
Depois do campo eu gostava de cair no rio. Não me importava se houvesse os tais "peixes japoneses". Eu ainda não entendia esse negócio todo de ameaças microscópicas. Era só desviar do "tróço", ou "trôço", e tudo ia bem. Se bem que eles eram raros naquele tempo. As pessoas tinham lá suas privadas que devolviam ao solo o que do solo era. Hoje a gente não tem mais privadas. A gente tem esses belos banheiros higienizados. Nada daquele prazer ancestral de ir até a casinha no fundo do quintal, sentir as moscas zumbindo debaixo do traseiro e escutar o mergulho das fezes. Tempo bom! Hoje não tem privada, e nem vida privada. A privada de antigamente ocultava as nossas cagadas. Hoje não há vida privada que resista às nossas cagadas!
Quem sentiu o ventre cheio de madrugada, e conhecia as histórias de lobisomem, sabe bem como é ter a privada fora de casa. Era uma aventura, quando a necessidade era maior que o medo, atravessar o quintal na quaresma ou em noites de lua cheia! Se não nos pegasse o lobisomem, era bem que capaz que o fizesse uma visagem.
É claro que a gente não tinha essas frescuras todas, e a privada era quase um luxo. Se a coisa apertasse, a gente se aliviava onde desse, e se limpava, se, com o que tivesse. Às vezes era urtiga...


Nossa! Comecei esse texto tão poético e quase o termino afundado em merda. Mas é que quando a gente vive atolado nelas, até as merdas de antigamente parecem mais puras.
Mas isso foi quando eu não me preocupava com tantas coisas. Foi naquele tempo em que uma coisa boa era sentida até se esgotar, e não com esse prazer rápido das coisas que não passam de imagens descartáveis que tanto nos ocupam hoje.
Foi naquele tempo. Foi num tempo. Foi num lugar no tempo que só pode ser visitado com a saudade embalada no pensamento. Uma visita que termina rápida, e sem muito sentido, como esse texto.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Empatia

Empatia. Se para o indivíduo que a sente, ela pode ser dolorosa, é bastante evidente que nas relações "maiores" ela não é só importante como, tenho a ousadia de dizer, sua ausência é um dos MAIORES PROBLEMAS DO MUNDO, se não for o MAIOR.
Não é mais dúvida que somos todos membros de uma só espécie,a humana, mesmo assim estamos divididos em estratos sem fim. Desde sempre dividimos o mundo entre "nós" e os "outros". O "nós" representa aqueles para quem a empatia é permitida, e os "outros" são os interditos. As razões para isso estão, falando num sentido profundo, intimamente ligadas ao modo como nossa especie se desenvolveu, em suma, era uma questão de sobrevivência num ambiente com recursos limitados.
Obviamente ainda vivemos numa ambiente com recursos limitados, mas o nosso modo de organização social se desenvolveu a tal ponto numa rede tão intrincada de relações econômicas, culturais, etc, que não faz mais sentido, organicamente falando, a divisão em pequenos grupos. A humanidade é hoje uma grande organismo que se espalha sobre a face do mundo. Não é mais possível, nesse tipo de civilização, manter o distanciamento. É por isso que a empatia é tão necessária, pois o "outro" foi extinto. Só há "nós". Não podemos fugir, é irracional conquistar territórios e expurgar suas populações.
O modelo dicotômico pertence ao nosso passado, e talvez faça algum sentido, mas ele não é viável no mundo de hoje, e talvez já não fosse por uns bons séculos antes de nós. Porque nossas civilizações estão unidas por nossa tecnologia, nosso "modo de vida moderno". E a não ser que nosso mundo sofra um cataclismo universal, isso continuará irreversível.
Só que instintivamente ainda somos aqueles desbravadores tribais que saíram da África, conquistaram Ásia, Europa, Oceania e Américas, deixando uma trilha de ilhas povoadas pelo caminho, e sempre esquecendo que éramos irmãos dos que iam ficando para trás.
Nosso sentimento pessoal, instintivo, nos leva a buscar um grupo de pertencimento, já que não conseguimos, sem que uma força coletiva e civilizante nos leve a isso, nos enxergar como parte de uma realidade humana "macro".
Mas somos humanos, e precisamos "moralizar" nossas bandeiras. Vistas com os olhos limpos, todas essas batalhas não fazem o menor sentido, mas estamos sempre organizando nosso mundo ideal através de numerosas racionalizações que geram ideias, livros, movimentos, revoluções, guerras, apartheids e, paradoxalmente, irracionalidade.
Em nosso mundo, o "outro" já não é mais um objeto que impede a nossa sobrevivência, ou uma fonte de novos recursos. Ele é uma abstração, uma forma de "alterização" artificial. O outro é construído a partir de modelos teóricos, fabricado a partir de uma idealização do que somos "nós". O "outro" é uma imagem inversa e fragmentária de uma realidade que só pode ser boa do lado de cá.
E isso é exatamente o contrário da empatia, ou uma forma bizarra de empatia. Em vez de se colocar no lugar do outro, projeta-se no outro os demônios da nossa própria imagem (imaginária) "imperfeitizada".
Não se trata mais de pensar diferente, mas de pensar que se é diferente. Diante disso, todo mal é justificado e toda violência desculpada.
"Ame o próximo como a si mesmo"
Mas quem é meu próximo?

domingo, 18 de dezembro de 2016

Liberdade

A liberdade que você deseja pode ser a prisão do seu próximo. Quando você não a limita, ela é limitada nos outros. Liberdade é poder quando a usamos para não fazer certas coisas mais que fazer outras. Andar desenfreado em nome da liberdade, passando por cima de tudo e de todos, já não é liberdade. É escravidão. Um carro sem direção não é livre, é passivo do acaso, sendo vítima de toda circunstância que está fora dele. E mesmo que fosse aparentemente livre, evitando as forças exteriores, ainda seria um prisioneiro das consequências. A liberdade é um conceito escorregadio. Ela flui por entre nossos dedos quando abusamos dela, e fortalece-se quando a preservamos nos outros. Não há forma melhor nem mais duradoura de liberdade do que tomar a decisão de respeitar a justa liberdade alheia.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Como uma folha no início do Outono



E seu eu pudesse, como as folhas no início do outono, flutuar abrigado nas correntes invisíveis do ar? Ali entre terra e céu a eternidade de uma folha se aninha nas dobras incertas da infinitesimal parte de um "estar".
A noite e o dia espremidos no leve farfalhar da folha, pluma verde, transportada pelo ar. Carências não haveria, pois somente o ar ao redor, folha sensível, ditaria cada querer e cada desejar.
A folha pairando no ar é a vida entre vagir e estertorar, é começo e despedida, tudo junto, como se o mínimo fosse a expressão do infinito e este como um nó numa corda que se lança entre o nada e o não-ser nas sombras do fim, se há.
Seria brisa forte ou ventania, mas o tempo, se havia, correria pelas encostas gramadas, como carneiro selvagem dando saltos sobre saltos e voltando-se para cima enquanto encaminha-se para baixo.
E no fim, que é sempre o começo, a folha, como um véu que se desprende das noivas que vivem entre as estrelas, pousaria em doce calma sobre o solo e a desintegração começaria sua arte inimitável de fazer com que o que foi seja parte desse incerto ciclo que se chama vida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Era novembro de 1989
















Era novembro de 1989 e as coisas estavam quentes por causa da campanha presidencial, a primeira com eleições diretas para presidente desde o fim do período militar. O clima era de esperança, parecia que o Brasil finalmente ia engrenar!
Lula e Collor disputavam as eleições. O pessoal, principalmente os mais pobres, estava deslumbrado pelo Collor.
O VANDERLEI falava comigo. Ele tinha visto um debate entre os candidatos, e ficara muito impressionado pelas respostas do Collor.
A cultura era, como é, pesadamente mediada pela televisão. Principalmente a Globo. Era óbvio que Collor era a opção da emissora. Ele encarnava perfeitamente o galã de telenovela, jovem, bem sucedido, esportista e inteligente. Ou assim fazia crer. Era era mais ou menos o Roque Santeiro (personagem de José Wilker na novela do mesmo nome) da vida real. E quem viveu aquela época sabe que o ator virou uma espécie de herói nacional, numa convergência da ficção com a realidade. Assim Collor foi recebido. E não era só o clima brasileiro, mas o mundo todo parecia efervescer. Naquele mesmo mês de novembro caiu o muro de Berlim.

Collor representava o novo mundo, a esperança. Era o Messias, como antes fora Tancredo Neves, mas atualizado para uma nova época, e com muito mais "charme". Aliás, como é forte esse negócio de messianismo na política! Anos depois até o Lula ia encarnar esse arquétipo, e com sucesso.

Mas eu estava tendo uma conversa com o Vanderlei. Ele fazia um panegírico (discurso elogioso) ao Collor, e eu ouvia deslumbrado. Ironicamente essa conversa se desenrolava num local bem pobre. Não havia água ou luz elétrica. A paisagem era bonita, um campo verde com alguns barracos e um rio ao fundo. Mas a pobreza era palpável. As pessoas que viviam nesses barracos haviam sido desalojadas de outro lugar.
Eu preciso falar do Vanderlei. Era meu amigo, dois anos mais velho. Ele tinha lá seus 16 anos. O pai tinha arrumado uma mulher mais jovem a deixara ao Vande a responsabilidade de cuidar da mãe e de dois irmão mais jovens. Ele trabalhava com construção, e não deixava faltar comida na mesa.
O Vande era um sucesso entre a gente. Na época os filmes de artes marciais faziam muito sucesso, e ele conseguia fazer uma abertura de pernas completa sobre duas cadeiras, igual ao Van Damme.
Mas era um garoto pobre, e com pouca educação formal que via no Collor o salvador do Brasil.
O tempo passou. Collor foi e voltou. A população, embora mais "educada", mudou muito pouco e messias ainda aparecem em toda nova eleição.
E eu não sei como anda o Vanderlei, hoje com seus 44 ou 45 anos. Será que ainda persegue seus messias? Ainda faz a abertura do Van Damme sobre duas cadeiras e acompanha extasiado os debates políticos?
Ou se tornou, como boa parte de nós, um telespectador desiludido que observa os tempos irem e virem, num eterno rodopiar de novidades que não passam de velharias repaginadas?
Vai saber.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Sobre ser Crítico

Ter senso crítico não significa colocar-se sempre contra tudo e todos. O senso crítico é algo que deve ser desenvolvido pelo estudo e observação do mundo ao redor. Uma pessoa com senso crítico desenvolvido não se coloca como portadora da verdade, mas como alguém que analisa aquilo que recebe, ou mesmo aquilo que produz.
Ter senso crítico não significa emitir sempre opiniões críticas. Ele é uma ferramenta de compreensão do homem para si. Mas às vezes a pessoa decide se manifestar.
Quem critica aquilo que não conhece, ou que conhece muito superficialmente, ainda é escravo da sua própria ignorância. Existem coisas que podem ser criticadas no primeiro contato, pois não demandam conhecimento mais aprofundado. Mas é sempre bom respirar antes de emitir a opinião.
Uma crítica imperfeita é aquela que não traz junto uma solução. É fácil demais apontar o dedo, mas fazer melhor não é tão simples assim.
A melhor crítica será sempre a ponderada, aquela que primeiro imergiu no conhecimento que pretende analisar. Aquela que soube ver pelos olhos do seu contrário e sentir pelo seu coração. Logo, uma crítica adequada sempre carrega um tanto de empatia.
A melhor crítica concentra seu esforço na coisa criticada, e, se não for esse o caso, evita criticar quem carrega tal ideia.
Só em casos extremos ela é virulenta, e apenas aí sua força é endereçada à pessoa, pois não se trata de combater ideias, mas indivíduos que usam ideias apenas como subterfúgios.
A crítica não é a coroa do crítico, é apenas a capacidade que ele tem de comparar ativamente o que está diante de si com o que existe dentro de si. um crítico razoável nunca será uma pessoa vazia, e muito menos apressada.
A melhor crítica é aquela que ganha uma consciência, e passa tão despercebida que nem se cogita que houve mesmo uma crítica.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

POR FAVOR NÃO JOGUE PAPEL NO CHÃO

"POR FAVOR NÃO JOGUE PAPEL NO CHÃO"
"Não jogue papel no chão" como aviso num banheiro, escrito assim mesmo, já parece algo redundante, afinal, papel usado não deve ser jogado mesmo no cesto reservado para esse fim? Parece óbvio, não?
Trafegue pela rua e não pela calçada.
Use roupas ao sair de casa.
Não evacue no chão da cozinha.

E os avisos que deveriam ser desnecessários se avolumam.
Por que as pessoas têm que ser lembradas de que não devem fazer aquilo que é lógico não fazer?
Mas a surpresa não está na redundância do aviso. Está na locução adverbial que antecede. Não é um aviso, nem uma ameaça. É um pedido.
Como se alguém do outro lado implorasse "por favor não faça isso ". Imagino que o "por favor" ali é só polidez mesmo (ou ironia), um "por favor" do tipo "caramba meu, você vai fazer isso mesmo?".
Por que um banheiro precisa desse aviso? E daquele outro: "mire no centro do vaso ô cara!". "Por gentileza, não use suas fezes como tinta para deixar mensagens escritas à mão nas paredes".
É uma merda...
E o aviso? Ora, o banheiro é coletivo. E você sabe, o que é de todos acaba não sendo responsabilidade de ninguém. Não! Pelo contrário!!!!
E os avisos desnecessários continuarão absolutamente necessários. Se não para ameaçar, pelo menos para tocar o coraçãozinho do criminosinho anônimo que insiste nos seus pequenos atos revolucionários...

sábado, 12 de novembro de 2016

Quando comprei meus chinelos.



Quase todo mundo tem uma história marcante vivida na infância. Pode ser o dia em que aprendeu a andar de bicicleta, ou ganhou medalha no judô, tirou dez na prova de matemática, ou quem sabe ganhou aquele brinquedo que todos os amigos queriam. Eu também tenho a minha história , e ela aconteceu no dia em que comprei meu primeiro par de chinelos, as populares sandálias de borracha Havaianas.
Eu tinha, então, oito anos e as coisas andavam muito difíceis. Meus irmãos Cristiansara e Alex eram muito pequenos. Faltava tudo.
Naquela manhã o chinelo arrebentou de novo, e não havia mais prego que desse jeito. Minha mãe não tinha dinheiro para coisas mais urgentes, quem dirá meus chinelos.

Eu tinha que arrumar "algum". Na verdade eu já vendia sorvetes nas horas de folga, mas o que eu ganhava era sempre tão pouco...
Era um domingo. Saí de casa descalço e sem camisa, mas decidido. Fui até a sorveteria, apanhei a primeira caixa, e a segunda, e a terceira...
Andei pelas ruas apitando e trocando os pedaços de gelo levemente aromatizados pelas desejadas moedinhas.
No fim da tarde entreguei a caixa vazia. Assim que entreguei eles fecharam a sorveteria. Eu lembro de uma menina mais velha me atendendo e dizendo que eu fora o único sorveteiro daquele dia.
Eu não lembro o valor, nem o que eu senti. Mas não me esqueço da minha mãe me levando ao mercado. Esse mercado ficava onde hoje é o Supermercado Basso, perto da pedreira Paulo Leminski. Não sei se já era esse o nome.
Lembro claramente da minha mãe procurando meu número na prateleira, do pacote de plástico com fecho de barbante e dos chinelos. Chinelos dos mais simples, brancos em cima e azuis claros no solado e nas correias. Mas meus chinelos! Chinelos que me custaram um dia todo de trabalho, umas boas topadas nas pedras, cortes nas solas dos pés e uma experiência que me enche a memória de uma alegria ainda inexprimível trinta e quatro anos depois.
E ainda sobrou dinheiro para comprar alguma comida.