domingo, 17 de junho de 2018

Estilo de Vida Moderno


O que o "estilo de vida" moderno faz com a gente? A coisa em si já é um jargão sem sentido.
A vida da gente é uma quantidade desconhecida de areia descendo de um a outro compartimento na ampulheta da nossa existência. Ampulheta é um cronometro, um medidor temporal, que usa uma certa quantidade de areia que vai descendo por um vão que liga as suas duas partes, marcando, com isso, um certo período de tempo. A falha da analogia é que você pode recomeçar a contagem virando a ampulheta, o que é incerto para a vida humana, exceto se houver reencarnação, e, por consequência, uma alma imortal e incorpórea.
O fim da vida é a única realidade fixa num universo humano de tantas "certezas". A gente vem ao mundo biologicamente determinado a fazer certas coisas numa linha tênue que liga a concepção à morte, o que equivale a dizer "o não-ser ainda ao não-ser mais". Existir é um pequeno hiato, é um acidente aristotélico num mar de pessoas-possibilidade emergindo e submergindo duma massa humana semi-consciente de sua efemeridade diante do imenso "todo". Filosoficamente desesperador, e difícil de compreender mesmo para quem tem as ferramentas intelectuais para isso.
É uma coisa incrível, fantástica e algo melancólica. Mas o que se faz diante dessa constatação? A maioria não faz nada, porque a gente se "alija" (se lança, se joga) para fora dessa percepção fazendo do hiato, da pausa, o TUDO. O materialismo moral é a tentativa inconsciente de negação dessa finitude, e um esforço para escapar "usufruindo", se não da coisa em si, pelo menos do medo. Esse é o verdadeiro ópio das massas.
Mas se a vida é um recurso limitado e de duração desconhecida em nossas mãos, como podemos sabiamente utilizá-lo? É um pergunta complexa que talvez não tenha uma resposta única. O certo seria viver, consciente da mortalidade, de modo simples e cultivando aspirações que resistam à nossa própria "fortuna" (no sentido clássico). Isso pode parecer materialista naquele sentido moral. Mas não é, pois implica consciência, o que por si destrói a ilusão de permanência.
O que é desproposital para o nosso "estilo de vida". Pois a gente aprende desde cedo que se deve "conquistar". A gente é como aquelas cobaias colocadas numa raia para competir. Uma cobaia o faz por instinto, na gente criam um instinto cujo prêmio é a fantástica FELICIDADE. A gente não quer ser feliz, a gente precisa DESESPERADAMENTE ser feliz. E ser feliz implica em ter o melhor cargo, o melhor carro, a melhor sei-lá-o-quê. O preço contamos em vida, parcelas da finita areia que desce indiferente. Não podemos parar para ver o sol, para curtir o vento, para ouvir um pouco a pessoa que nos fala a partir de dentro, do ser que somos de fato.
Alguns alcançam o prêmio. Mas todos pagam o preço em sofrimento, ilusão, desumanização. Nós, os outros seres que habitam esse mundo e o próprio mundo que vai sendo desfigurado pelas nossas mãos. E talvez seja isso mesmo o que nossa natureza humana nos destina. Mas aí nos vem a percepção, a ideia, a aspiração sei lá de onde - talvez do eu oculto- de que há um potencial desconhecido para ser diferente. Porque na verdade tudo é tentativa de escapar do fim inevitável, e esquecer dele aproveitando o prazer da artificialidade, uma sombra ambígua sempre além da curva.
A gente também paga em sanidade. A indústria da psiquê cresce a olhos vistos. São tarjas vermelhas, pretas. Você é um doente. Vamos organizar essa química cerebral ferrando com o resto. É o preço que se paga por ser tão eficiente. E se não for, você é um marginal.
Corra! Encha a atmosfera com toneladas de gases poluentes. Mate rios, animais, aqueça a Terra. Vença a sua destruição iminente destruindo todo o resto.
Nosso "estilo de vida" é só mais uma ilusão que vamos alimentando com a força da nossa fé. Porque progresso só vale a pena se nos custa nossa alma no processo. Mas nossa alma não morre calada.
Ela nos fala na calada da noite, na depressão, na loucura, no medo. Ela nos fala a partir de nossos olhos no espelho:
-Pare!

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Metamorfose Ambulante


Um ano antes do meu nascimento, em 1973, o bruxo-mestre--crente-tudo-em-um-e-nada Raul Seixas lançou o álbum Krig-ha, Bandolo!, e numa das faixas ele cantava:
"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/ Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo".
Pobre Raul! Tão celebrado por uma tribo de tiozinhos nostálgicos, se acreditava mesmo nesses versos, seria hoje, por esses mesmos tiozinhos, execrado. Raul é o cara que celebrou os que não têm "convicções", aqueles que são "fracos na crença, os tais que ficam em cima do muro. Sendo sincero, não é mesmo legal nunca ter convicções, mas é pior ter convicções como armadura quando as sabemos erradas.
Mas é música, e música é poesia e poesia, dizia outro mestre, é produto de um fingidor. Talvez o velho baiano estivesse falando na voz de um personagem que ele desacreditava. Talvez não. Talvez o velho estivesse apenas nos dizendo que a gente tem que ser honesto com a gente mesmo. Que a gente precisa fazer aquele exercício de se colocar na posição do nosso adversário.
Até a Bíblia critica a mentalidade do velho maluco beleza: "porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, e lançada de uma para outra parte(...)é alguém que tem mente dividida e é instável em tudo o que faz". Tiago 1:6,8.
Você tem noção de como isso é forte? E não é só em questões de fé, não senhor! É em tudo. Se você tem convicções políticas, uma força social gigantesca vai te pressionar para ter TODAS as convicções. É tudo ou nada, dizem não dizendo.
Deve ser nossa natureza primata ou nossa natureza de caçadores-coletores da pré-história. É que a gente sente, instintivamente, que tem que pertencer a um grupo. E uma vez no grupo, a gente levanta todas as bandeiras do grupo, a ponto de acreditar que acredita em tudo o que diz acreditar.
Porque as ideias "corretas", as posições corretas, é que fazem de você um Sapiens e não um Neandertal. Um chimpanzé de cá do rio e não de lá.
Por sorte, ou não, também somos criaturas profundamente curiosas. E a curiosidade "profunda" não é coisa que combine com convicções fortes. É nosso paradoxo enquanto espécie. Não fosse assim, uma coisa como a ciência moderna não seria possível. E a filosofia nem teria dado seu passo para dentro desse turbilhão de mais de 2500 anos de pessoas negando o que um outro disse e sendo desacreditadas por outros que não concordam com o que elas mesmas disseram. É como disse Thales, o de Mileto, dito o primeiro dessa estirpe: "A ignorância é incômoda".
Mas a ignorância é a realidade de quem finalmente desperta, de quem finalmente se olha no espelho da honestidade, não como Pedro, negando a si mesmo diante do espelho, outra do baiano.
E a consciência da ignorância nos leva a descartar convicções, acatar outras, experimentar, testar, voltar ao princípio, sentar no pó cansado, exausto, perplexo diante da vastidão do que não sabemos.
Dois princípios brigam em nós, um de preservação que nos leva a sempre considerar nosso conhecimento como coisa fixa e certa, melhor não arriscar; e outro, tão forte quanto, que nos leva a caminhar para fora da África, vagar por Ásia, Europa, navegar para a Oceania, atravessar pontes geladas, povoar a América. A se lançar numa louca viagem marítima, guiados pelas estrelas, mesmo que nossos mapas apenas nos digam que lá na frente há monstros terríveis ou que o mar termina bruscamente numa imensa cachoeira que deságua para dentro do nada.
Mas isso também é ter convicção. Convicção da nossa capacidade de ir além.
Um dia um de nós estará com os pés no solo de um outro planeta. Ele/ Ela vai olhar um céu diferente, talvez tentando localizar a pátria ancestral, e talvez sua única certeza seja de que valeu a pena testar as próprias convicções. Talvez não.
Quem sabe? Um pouco a gente sabe, um tanto a gente adivinha e o resto a gente arrisca.
Prefiro ser... 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A Balada do Assassino e da Morte


Silêncio.
Meus passos soam no cascalho de uma rua morta
É madrugada, e as sombras escondem-se sob o abraço das névoas..
O murmurar sonolento das criaturas da noite dança ao meu redor
Enquanto o sangue desce pelo meu braço
Numa varanda carcomida uma velha cadeira eu encontro
Postada atrás de uma mesa antiga onde repousa uma garrafa
De alguma esquecida bebida
Sento e me sirvo, ali perto uma porta range acariciada pelo vento
Como uma amante há muito solitária que recebe os afagos
De alguém que julgava nunca retornar
Eu me sirvo, e a bebida queima minha garganta e vai perder-se
No vazio esgotado das minha entranhas
A madrugada me cerca e as sombras parecem se acercar para ouvir
Os passos que me seguem sobre os mesmos pedregulhos
Muito maior que eu ele se aproxima, o chapéu negro cobre a face e as pontas do sobretudo enchem as vielas
Enquanto um turbilhão de moscas voa ao redor da figura escura
E ele para diante mim, em silêncio
Eu lhe ofereço uma cadeira, de onde ela veio não sei, e um copo
Que agora transborda de cheio, ele bebe
Ouço o liquido espremer-se pela sua goela, hesitante
E a mão descarnada desce, o copo vazio, novamente o sirvo
E ele com o copo cheio toma também a garrafa e despeja
Seus olhos vazios me convidam a que beba, e eu bebo
O liquido desce, mas não leva meus pecados
É o fim, é dança final de um baile pavoroso
Mas meu parceiro não tem pressa, e a garrafa sempre cheia
Meu copo é novamente inundado com aquela infernal bebida
As tábuas gemem cada vez que ele se move
Ele tira do bolso um cigarro e um esqueiro, acende
Depois de sorver a fumaça, sem soltar, ele me estende aquele curioso artefato
E eu sorvo, a fumaça negra desce para meus pulmões
E não estou ali, o dia claro se estende
Enquanto a garota assustada implora
Eu não sinto, não há perdão que dar, não há misericórdia que buscar, e a pressa pressiona meu dedo
É noite e o homem implora com horror, mas eu não sinto, fala dos filhos, mas eu não me interesso
O tiro atinge a testa, e a parede recebe uma decoração vermelha
Muitos dias e noites passam diante de mim, e corpos que caem
O sangue inunda minha visão enquanto libero o conteúdo infernal numa fumaça negra em que rostos disformes parecem se agitar
No chão meu sangue já forma uma pequena lagoa, e mais corpos dançam o baile da perdição
Eu busco seus olhos, quem sabe haverá compaixão, mas as orbitas vazias não me oferecem consolo
Apenas fogo, mas um tipo diferente, escuro, indescritível
ele enche meu copo, e eu bebo, a noite está a ponto de se desfazer
Eu não sinto, nem medo, nem horror, nem desalento
A bebida é o fogo, é o vento, é o ar parado
É o ranger luxurioso da porta, é o pecado, a morte
O julgamento e a último momento de um condenado
A noite se desfaz, meu parceiro não está mais ali
O sol se insinua na velha cidade morta
É tarde, eu fecho meus olhos
A mesma arma está descansando apoiada na minha têmpora
E meu dedo vai pressionando de leve o gatilho...

domingo, 22 de abril de 2018

A vida de um cara que era a piada da escola

Então chega um dia em que você descobre que ser um idiota até que é divertido...fala sério, como é que você ia aparecer se o valentão da turma não te humilhasse publicamente?

Você estava lá (naquela época ainda tentava passar despercebido) andando colado junto à parede tentando mimetizar uma sombra... Ali perto vinha a Desfrutável da escola e ao redor aquela nuvem de moscas varejeiras- sabe?- as candidatas a rainha da futilidade. O que você não daria para por as mãos em pelo menos uma só daquelas pequenas do exército das varejeiras! De fato na época você não era muito exigente, mas quem seria a louca para querer algo com você e ser eleita a Miss Dumber do ano? 

Nisso o Valentão pôs os olhos em você- droga!- você pensou, mas era tarde. Ele deu aquele sorrisinho sarcástico e soprou a mecha a la Superman dos olhos. E você só pensando nos gibis que trazia na bolsa, uma edição novíssima da família Halley, número 1 dos "novos heróis do espaço". Puxa, com essa sem querer entreguei que estamos em 1985...

Você quase sentiu o vácuo que se formou quando a Desfrutável deu aquele suspiro extasiado de lady romana nas arquibancadas do Coliseu adivinhando um novo sacrifício à sua real divindade. 

Enquanto ele caminha na sua direção, todos começaram a sair de perto, você bem que tentou se esconder atrás de uma sardentinha que passava por ali, mas ela te deu um cotovelada que te deixou sem ar.

Você olhou ao redor, desesperado, mas só encontrou medo e expectativa. Medo de apanhar também e expectativa de ver uma boa surra- naquele tempo ainda era interessante quando você apanhava. Tempos depois você precisava implorar por uma surrinha, um chutão, um pisão no pé e quando muito dois ou três assistiam.

Apesar de tudo, seu coração estava a mil e você suava em bicas, você não conseguiu desviar os olhos da Desfrutável, aqueles olhinhos azuis que pareciam duas perolazinhas flutuando num mar de perfume. Olhinhos ansiosos.

Ele te pegou pelo colarinho e te fez ficar na ponta dos pés, sua bolsa caiu e espalhou seu material pelo chão. Ela não tinha fecho. Caíram cadernos, a revista da família Halley, dois Tex, e uma revistinha dos tempos "pré-pornografia a um toque" desenhada pelo Carlos Zéfiro. Revistinha que evaporou num segundo indo alimentar as fantasias de outro onanista solitário...

Nossa rainha da futilidade pegou seu garanhão pelo braço e sorrindo pediu: "Não bate nesse idiota não fulano". O valentão continuou a te apertar o colarinho, você estava quase sem ar, mas não conseguia desviar os olhos das pérolas azuis. Nosso valentão atalhou: "Mas fulana, esse zé aí não desgruda os olhos de você e olha o tipo de coisa que ele carrega na bolsa"- ( procurou com os olhos o Carlos Zéfiro, evaporara)-" sumiu, mas era revista de sacanagem, vai saber o que esse safado fica fazendo sozinho, sei lá, vai que ele fica pensando em você".

A princesa resgatada olhou para você indignada, "Seu Porco!", gritou e mandou-lhe uma cusparada na fuça. Você ficou tonto sentindo a saliva dela, deliciosa, no seu rosto, foi o mais próximo que você chegou do céu...

Todo mundo estava rindo e você começou a sentir vergonha, solidão...Mas o valentão não parecia estar rindo, ele continuava te segurando pela gola, suas pernas tremiam de ficar naquela posição e você começou a sentir que seu estômago estava querendo sair pela boca. Então você sentiu uma coisa quentinha descendo pelas pernas, ah delícia, pensou. Mas alguém gritou "olha, o cara tá se mijando inteiro!".

Nosso Valentão te olhou com uma cara de nojo daquelas, você tentou sorrir, mas nesse momento o mundo explodiu, ou melhor, seu estômago explodiu e mandou na cara do sujeito os dois cachorros quentes com duas vinas cada que você tinha comido fazia uns quinze minutos, e a coca, e a paçoquinha, e uma coisa verde, amarga e azeda ao mesmo tempo...

Pior é que ele abriu a boca na hora do susto...Ele te jogou no chão e saiu doido em direção ao banheiro. Outras três pessoas vomitaram vendo a cena, uma delas foi nossa desfrutavelzinha de olhos celestes.

Logo chegou o Inspetor de Alunos. Ele te levou ao banheiro e depois à sala da diretora. Você não sentia nada, aliás, estava até muito bem, mas achou melhor simular que estava mal, nisso você era muito bom. Te levaram ao médico, ele disse que você tinha uma intoxicação alimentar e te mandou ficar em casa por dois dias. 

Por uma semana você foi o rei da escola, nosso valentão fazia uma cara de nojo ao olhar para você e não chegava perto, mas logo ele "melhorou" e te acertou a cara te deixando com um olho roxo. 

O tempo passou, você continuou sendo o idiota da escola, o esquisito, o cara que não era bom em nada, mas que tinha notas incrivelmente boas e um raciocínio que espanta alguns professores mais atentos.

Continuava apanhando de vez em quando, colecionava hematomas e dentes quebrados. Conseguiu um ou dois amigos, tão "bons e especiais" quanto você.

O tempo passou e você foi p'ra faculdade, engenharia eletrônica.

Nosso valentão não passou do médio, mas casou com a inDesfrutável, tiveram três filhos. Ele arrumou um emprego de ajudante de motorista na empresa em que você trabalhava. As vezes não vinha trabalhar, quando vinha rescendia a álcool. 

Um dia você soube que ele fora morto numa briga de bar, e ficou pensando em como a Desfrutável estava. Conseguiu o endereço deles, um lugar barra pesada da cidade, e foi até lá. 

Em frente à casa, você notou as janelas quebradas, uma menina de uns sete anos brincava junto com dois outros meninos. Devia ser filha da Fulana, os mesmos olhos da cor dos sonhos...

Uma mulher veio até porta, trazia um lenço na cabeça, parecia ter dez anos a mais do que realmente tinha, mas você logo reconheceu aqueles olhos sonhadores. Você emudeceu por um segundo pensando em tudo o que não foi, o que poderia ter sido.

Você olhou ao redor, eram muito pobres e teriam tempos difíceis pela frente.

Ela perguntou se podia ajudar, você disse que era amigo do esposo, que ouvira o que aconteceu, ela baixou os olhos e soluçou baixinho. Você tirou um pacote do bolso, eram as suas economias de dois anos, algo que você guardava sem saber ao certo por quê. Deu o pacote para ela e virou-se saindo em seguida. Você ouviu ela dizendo algo, mas não se virou. 

É, você era um idiota, e estava agradecido por isso, por não ter vindo ao mundo cheio de facilidades....

terça-feira, 10 de abril de 2018

Desde Criança eu...

Desde criança eu carregava uma necessidade imensa de ser reconhecido. No começo eu queria ser gente, depois queria ser ouvido. Mas naquele tempo criança tinha que ficar calada porque “os adultos estão conversando”. Eu não me sentia gente nos primeiros tempos, porque gente recebe afeto, carinho, e isso aí me era estranho. Eu não tinha pai comigo, nos documentos ainda não tenho. Era triste ser filho do seu ignorado. E era o errado numa família branquinha. Tinha os dois irmãos mais novos descendentes de alemães, ambos também órfãos de pai vivo. Fui pai deles, a mãe sempre trabalhando. Aprendi coisas de casa bem cedo, sozinho.

Trabalhava desde cedo, no pesado, que menino sem trabalho vira maloqueiro. O estudo foi ficando, não era obrigado. Tinha liberdade. Tomava banho se quisesse, comia se encontrasse, não que a mesa sempre faltasse, só às vezes. Me criei na rua, nas cavas, caçando passarinho, queimando sapé com pinhão. Só quem viveu sabe.
Mas carregava amargura infinita, que vê e não entende. O peso da maldição familiar. Acreditava que a mim era destinada aquela vida desgraçada. Por quem? Deus, a família, o mundo que me ignorava?
Aos onze adquiri o hábito de andar com os olhos no chão. Ainda hoje trago as costas meio arqueadas, coisa que não consegui mais corrigir. Depois vieram os hormônios, a confusão. E não havia ninguém ali para me orientar. Ninguém para me estender um livro, apontar lá na frente um destino melhor. O horizonte era pequeno.
Naquele tempo eu me escondia na imaginação. Lá tive aventuras, namoradas, afeto e comi muito frango assado imaginário.
Um dia fizeram festa tipo americana com os alunos da quinta série. Eu só tinha um par de chinelos, e o agasalho tipo Vietnã. Que menina dançaria uma lenta comigo? Dei sorte, achei uns tênis ainda em condições no lixo. Só não tinham cadarços. Não tente usar náilon para amarrar os tênis, não dá certo. Meu complexo de inferioridade aumentou uns graus naquele dia. 

O que veio depois foi reflexo dessa vida. Só lá pelos 27 anos terminei o fundamental, estudando em módulos, sempre sozinho. Depois veio o ensino médio, mesmo jeito. Meio empurrado fiz concurso. Passei. Ufa. Daí vestibular. Universidade Pública. Ufa.

O reconhecimento não veio. Mas também não faz falta. O viralatismo se foi. Às vezes me pego pensando nos “e se”. E se tivesse nascido em um lar estável? E se tivesse três refeições diárias? E se tivesse estudado? Mas ninguém vive de “se”, senão a vida vira peso de passado, sem presente ou futuro.
Tem árvores que nascem em campo aberto, com água à vontade e raízes bem adubadas. Outras nascem de sementes caídas por acidente ou descuido no meio das pedras, numa terra seca, sem cuidados. E olha, não é que são essas as que dão frutos mais saborosos?
Encontrei vida na minha família. Planta que regar na minha filha. Prazer imenso em escrever como nessas linhas. Não há nada pequeno nisso.
Por isso eu entendo os meninos que se desviam. As meninas que caem pelo caminho. A gente pobre que luta e sofre. Eu entendo. Porque eu sei que a vida deles talvez seja até mais difícil, por causa do ambiente, das ofertas, coisa raras no meu tempo. Era só pobreza mesmo e abandono. Só não gosto da ideia de uns playboys que idealizam minha pobreza, e de outros que fazem cosplay dela.
Não chore. Um abraço!
Escrito antes da alvorada, com o dia ainda menino. 

domingo, 1 de abril de 2018

O Medo e o Desejo


O medo e o desejo, as verdades que não podemos contar
O sol nasce todo dia em algum lugar 
E em um número indefinido de vezes
As nuvens escondem o seu olhar
Medo de mostrar
Medo de ser o que é diante de olhos
Que também não são o que realmente são
Desejo de trilhar o que o medo resolveu ocultar
Que desejar é ser o que é
E há medo, mas medo de mostrar
O que no desejo oculto está
Porque só se é o que realmente se é
No escuro quarto dos pensamentos
Que é também e apenas também
Onde habitam medo e desejo
Exceto quando na imperdoável rotina dos dias
Mostramos sem querer a seres que também se ocultam
O que realmente somos.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Me Deixe Sair – Parte Final



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Essa é a terceira e última parte da história. Espero que você tenha gostado da nossa viagem e que você curta esse final. Caso esteja chegando agora essa é a PARTE 1 e essa é a PARTE 2
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A escuridão sem vozes foi crescendo, se adensando, criando raízes, espalhando-se numa distância imaterial, subindo em fibras que se alongavam e se enrolavam numa dança sensual de serpentes acasalando e lançando galhos para dentro do nada, de onde folhas emergiam, sorvendo uma luz inexistente, e lançando-se como flores de onde explodiam estranhos frutos no silêncio.

O mundo ao redor tinha mãos frias com dedos longos que acariciavam o corpo imóvel de L. Aos poucos ele foi tomando consciência de si, e a escuridão já não parecia mais tão silenciosa. Ele apoiou as mãos num chão indiscernível e levantou a cabeça e o que pode do tronco. Ele entendia que a sua face estava voltado para o “chão”, e que acima de suas costas estava o teto, o céu, ou seja lá o que houvesse para cima. Entendia que havia um lado esquerdo e um direito. E mesmo assim ele sentia como se nada ao seu redor fosse de fato “cima” ou “baixo”. Era uma estranha desorientação que enchia seus sentidos, mas escapava da sua razão. Lembrou-se dos astronautas em microgravidade, dele mesmo no fundo de uma piscina. Tinha doze anos.

A calma era imensa, e havia o silêncio. Ele gostava de fazer isso com os olhos fechados, sentir a água, a sensação de ausência de peso, e a massagem ao redor do seu corpo. Isso ele sabia que era ilusão, não tinha como sentir a água parada massageando seu corpo. Mas gostava de pensar que era assim, como se umas mãos invisíveis estivessem ao seu redor. Lastimava o bronquite e a pouca capacidade pulmonar. Se pudesse escolher um superpoder, seria o de permanecer indefinidamente sob a água. A tia algumas vezes já o flagrara imóvel no fundo da piscina. E o seu mundo aquático era perturbado por um tio, um primo, um vizinho. Houve tempo em que proibiram sua entrada ali sozinho, mas ele sempre dava um jeito de burlar as regras da tia.

Um dia ele mergulhou mais do que devia no seu mundo interno. No início achou que seus pulmões iam explodir, mas a sensação era tão boa, tanta calma. Sentiu-se flutuando para dentro de algo indefinível. Encontraram-no sem sentidos. E durante muito tempo sua mãe achou que ele tinha alguma lesão no cérebro por causa da privação de oxigênio. Ele achava que não, mas não tinha certeza.

L ainda não via nada, mas sabia que havia um corredor. Um corredor muito longo, talvez infinito. Ele conseguiu ficar em pé, ou pelo menos achava que estivesse em pé. Não tinha certeza.

Pareceu ver uma luz muito distante, e sons que não eram sons, mas vibrações pelo espaço. Cambaleou na direção do que supunha ser luz.  Ele agora pensava de modo mais claro, lembrava de ter saído do escritório e corrido para longe. Sentia vergonha e confusão. Como P podia ter dito aquilo? Como ele ousou ter pensado aquilo? Arrependeu-se de não ter espancado o outro, um empurrão era pouco. Mas P merecia isso? É certo que o ofendera, mas mostrara algum afeto que era diferente do que ele estava acostumado com a mãe, a tia e todos aqueles outros parentes estranhos. Sentira aquilo antes, foi na piscina.

Mas não era como se a água tivesse afeto por ele. Ela permitia que ele sentisse um afeto que estava além da sua compreensão. Então lembrou do olhar azul. E dos olhos puxados. K invadiu a sua vida. Era culpa dela, a confusão, a dor que agora sentia pelo corpo. Isso o confundia, não eram ilusões? Agora não sabia. Então ele ouviu o gemido.

Vinha de algum lugar à sua direita. Era um som abafado, doloroso. Havia uma porta. Ele alcançou a maçaneta. Estava destrancada. Abriu e entrou. Era uma sala pequena, cinza do chão ao teto. No meio da sala havia uma cadeira, e alguém amarrado. O coração de L acelerou, suas têmporas saltavam. Aproximou-se. Não acreditou no que viu. Não podia ser. Mas era. K estava amarrada na cadeira.

Ela levantou a cabeça, os cabelos cobriam sua face, mas ela soprou a franja para o lado e os seus azuis inundaram o olhar de L.

-Vai ficar aí me olhando seu imbecil? Me desamarre, ela  deve voltar a qualquer momento – Disse no seu costumeiro tom entre a irritação e o sarcasmo.
-Por que eu faria isso? Nem sei quem está voltando. Devo estar delirando.
K baixou a cabeça e suspirou, disse um palavrão silencioso e voltou a olhar para ele, mas agora sorria de um modo diferente, quase amigo.
-Eu preciso que você me solte. Não há tempo agora para explicações, mas eu juro que assim que sairmos daqui eu te explico tudo.
-Eu não vou fazer isso. Minha vida virou uma bagunça, e você é culpada disso.
- Não virou. Você não entende. Você criou isso. As coisas não são como você pensa, na verdade é você quem está preso. Me solte, por favor.
K começou a soluçar, e L agora não sabia o que fazer. Queria sair dali, nunca mais ver aquele rosto, mas também sentia que precisava entender aquilo. Louco ou não, era necessário embarcar de vez na loucura e ir até o fim. Ele dizia isso para si mesmo, mas não tinha essa certeza. Na verdade sentia apenas vontade de permanecer naquele escuro para sempre.
-Não L! Não se entregue! É isso que ela quer.

K implorava, chorava, soluçava, mas ele não ouvia. Era como aquele dia na água, aquele dia.

Quando L sentiu o golpe, ele já estava no chão. E ela continuou batendo nele. K, a K oriental, estava furiosa. Ela batia, chutava, arranhava, mordia.

A dor era imensa, mas era algo distante. Mesmo os gritos de K não passavam de sussurros distantes no fundo da sua mente. L via-se refletido no chão cinza, uma imagem opaca que aos poucos foi ficando mais nítida. Não era o rosto que ele costumava ver no espelho, o rosto que ele achava que via no espelho todas as manhas. Aqueles olhos azuis, aquela outra personalidade. E foi como se um mergulhasse para dentro do outro. L ficou flutuando por um tempo que não soube determinar. Nada consciente, as ideias fluíam de um modo natural, sem imagens, sem palavras. Era apenas informação que estivera guardada. Quando abriu os olhos, viu a K chinesa ainda batendo nele. Mas ele não estava de cara para o chão, estava amarrado onde antes estivera K. Ele era K. E não era. Era L amalgamado com K. Ainda incompleto, mas diferente. O vazio diminuíra.

-Desgraçado! Desgraçado!
K batia nele/nela. E chorava. Seu nariz escorria, seus lábios estavam apertados de uma forma estranha, meio raivosa, meio triste. Os olhos puxados muito vermelhos, e o nariz escorrendo. Sentiu pena.
-Por que você fez isso comigo? Por quê?
-Eu precisava, você sabe.
- Não! Você não precisava, você foi egoísta. Você sempre é egoísta!

Então a K chinesa começou a arrastar L/K pelo corredor com cadeira e tudo. Eles se debatiam tentando se soltar, ao mesmo tempo em que imploravam que K tivesse misericórdia. Mas ela não queria ouvir. O mundo acabara, dizia. Era o momento final. Ela tentou resolver do melhor modo, mas nunca era ouvida, logo ela que era a parte racional de tudo isso.

-Escuta K, a gente está junto agora, podemos sair disso. Você não percebe que está sendo irracional?

K soltou a cadeira. K/l sentiu o baque no chão duro. Um cheiro de flores envolvia o local. K sentou na barriga de L/K. Seu rosto estava desfigurado pelo choro.

-Irracional? Eu? Sim, você faz uma merda dessas e eu sou irracional? Por que você tinha que sair correndo do escritório por causa do que P disse? E se não bastasse isso, ainda se jogou na frente de um carro e talvez a gente nem esteja mais vivos! Você não notou esse lugar escuro e esse cheiro? Acabou! Vocês ferraram com tudo!
-Para onde você está me levando?- Perguntou K/L sem muita esperança de que saber isso mudaria alguma coisa.
-Eu não sei. Nunca estive aqui, mas espero que tenha algum buraco ou algum lugar alto para eu dar um fim em vocês.

K/L estremeceu. O medo era angustiante, ele penetrava seus poros como a escuridão silenciosa fizera antes. Sentiu vontade de chorar e chorou. Estava presa ali, seu corpo inteiro doía e aquela pessoa que amava queria...aquela pessoa que amava? K/L  surpreendeu-se com esse pensamento. K/L amava K com todas as suas forças! Era como aquele dia na piscina, um amor tão grande, tão profundo, que absorveu seu mundo inteiro num silêncio confortável. E aconteceu.

K estava de joelhos num solo árido e pedregoso. Ela soluçava alto. Tudo ao redor era cinza, mas um cinza morto. Até onde a vista alcançava, era tudo cinza. O céu era cinza. Um imenso deserto. K/L não estava mais na cadeira. Estava em pé e contemplava a dor de K e entendia que o imenso deserto cinza era a prisão onde ela estivera durante muito tempo. Até o dia em que K, a de olhos azuis, rompera o véu da ilusão.

K sentiu o toque suave sobre suas costas. A dor imensa era como uma pedra no seu estomago. Mas a mão quente era mais forte. K fechou os olhos. O mundo esvaiu-se por um ralo qualquer, e o céu evaporou.

O silêncio durou muito tempo. Então os olhos se abriram. Diante de si um campo florido que se perdia no horizonte distante. A dúvida não existia. A dor era um cicatriz profunda, mas podia ser tratada e seria. Uma multidão de borboletas azuis movia-se ao seu redor e produziam um som agradável como uma orquestra muito bem afinada. O sol brilhava, aquecia, mas não perturbava. E o cheiro que antes parecia morte agora indicava a vida, a plena vida. A mente integral, e a personalidade resgatada.
As borboletas começaram a girar ao seu redor, o sol não era mais visto, nem as flores e o verde. O azul das borboletas foi se adensando, escurecendo. Então tudo retornou ao silêncio.

                                                                         ***

A primeira coisa que viu foi o sorriso cheio de dentes da mãe, e sentiu a segurança do seu abraço perfumado.
-Você acordou! Eu chorei tanto! Graças a Deus e à Nossa Senhora!
-Quantos dias?
-Quase uma semana, mas o doutor Thiago disse que você tem muita sorte, não quebrou nada! Quando eu vi o carro achei sinceramente que você tinha morrido, quase morri junto! Mas o Doutor, aquele médico bonitão, disse que está tudo bem. Você teve uma concussão ou algo assim , mas agora está bem.
-Mãe...
-O quê?
-Eu te amo!
Os olhos da mãe marejaram, os lábios tremeram e ela desabou. Há muito anos não ouvia aquilo. Muitos anos, desde aquele maldito dia!

Saiu do hospital poucos dias depois. Sentia algumas dores pelo corpo, e levaria um tempo para se curar totalmente das escoriações. Mas estava muito feliz.
No dia do seu retorno ao trabalho, levantou bem cedo e passou quase uma hora se arrumando diante do espelho novo que o pai comprara. Só via o seu próprio rosto, o seu verdadeiro rosto. Comprara roupas novas e pediu que a mãe doasse toda aquela roupa esquisita que acumulara durante anos. Reformou seu quarto.

Sentia-se a pessoa mais linda do mundo, e talvez fosse mesmo. Abriu a porta e sentiu a brisa fresca. Usava roupas leves e coloridas, não de um colorido pesado, mas o de um campo florido.

Desceu os degraus que levavam até o portão. O carro do pai já estava diante do portão. Parou por um momento para apreciar o rosto refletido nos vidros do carro. Seu rosto brilhava com uma felicidade que há anos não experimentava, seus cabelos negros e encaracolados estavam muito bem alinhados. Os grandes olhos castanhos refletiam a vida que estivera escondida. A pele cor de ébano do rosto não trazia mais as marcas do atropelamento. Leila sentia-se uma bela mulher naquela manhã. Pensou em Pedro. Sorriu timidamente. O pai apressou-a de dentro do carro, iam chegar atrasados. Jogou um beijo para a mulher negra que observava da janela da sua casa, a mãe retornou o agrado. 

Abriu a porta,  entrou no carro e nada mais foi como antes.


domingo, 25 de março de 2018

Comparações Impróprias

Em 1996 passei por uma situação que foi definidora do meu modo de pensar nos anos que se seguiram.
O gerente da empresa em que eu trabalhava estava me chamando a atenção por algo, vejo hoje, que não era errado. Talvez por simpatizar comigo ou para tentar assumir uma posição "professoral", ele começou a discursar sobre a importância do trabalho.
"O trabalho, disse ele, é mais importante que a família, pois sem trabalho não há família".
Eu era jovem, e com pouca experiência. Não disse nada, como de costume, baixei a cabeça e "preparei a toalha". Mas depois aquilo me incomodou, havia algo errado com aquele argumento.
É claro que eu me protegi negando internamente aquilo, mas eu sabia que essa era uma RESPOSTA AFETIVA, e não uma "solução".
O fato é que família e trabalho costumam vir juntos em muitas listas, assim como religião, estudo e lazer.
Mas família e trabalho pertencem ao mesmo "conjunto"? Sim. Família e trabalho pertencem a um grande conjunto que podemos chamar de "vida social". Mas eles estão separados em subconjuntos, pois embora sejam do "mesmo campo", não são do mesmo "valor". Logo não são mutuamente comparáveis.
O item "Família" pode ser comparado com os itens "amigos", "colegas", etc. Em alguns casos os termos assumem igualdade, pois temos amigos que são como irmãos para nós e grupos que passam a ser nossa "família". Mas comparar trabalho, um conjunto de atividades, com "família" um conjunto de afinidades, é impróprio.
Essa comparação imprópria de valores de conjuntos diferentes está na base de muitas distorções da vida moderna, com muita angústia, decepção, frustração, egoísmo, etc, como produtos.
E também está na base da incapacidade de diálogo entre os diversos atores sociais, tanto nos núcleos internos da nossa convivência, quanto nos palcos dos confrontos de ideias. Não nos entendemos porque comparamos valores diferentes, ou comparamos valores a partir de escalas desiguais. Entenda, a partir de pressupostos que são eles mesmos de espécies diferentes.
Eu não mudei o mundo com isso, nem tive uma carreira brilhante desde então, mas pelo menos consegui para mim mesmo alguma paz de espírito e aprendi a trilhar a estrada da reflexão.
E aquele gerente? Foi mandado embora dias depois. Descobriram que ele estava desviando dinheiro e superfaturando insumos. Esses eram os seus valores.

Cachorro e Gato

O amigo vai visitar o outro.

-Soube que você adotou um cão e um gato.
-É verdade.
-E eles não brigam?
- Só um pouco. Quer vê-los?
-Sim. Adoro animais.
-Cachorro! -grita.
Um gato entra correndo na sala. O visitante ri.
- Não é à toa que se dão bem. Seu gato pensa que é um cachorro.
- Mas esse é o Cachorro.
- Hein? E o outro bicho?
- É o Gato- grita- Gato!!!
Entra um cachorro.

Me Deixe Sair! PARTE 2


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Olá! Essa é a segunda parte da história. Demorei uns dias, mas aqui está. Se você tiver chegado agora, é interessante ler a parte 1 AQUI . 
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L espancava o teclado freneticamente tentando pôr em dia o trabalho atrasado. Os pensamentos iam e voltavam daquela manhã no banheiro. Não era assim tão difícil aceitar que uma pessoa que empurrava para dentro do seu corpo um punhado de comprimidos todas as manhãs acabasse por sentir algum efeito colateral. Só podia ser isso. Estava mexendo com o cérebro, e o cérebro estava reagindo. Existia L , só L e K não passava de um sonho.

L levantou o olhar da tela. Cruzou, de novo, com o olhar de P. Era a terceira vez que isso acontecia.
-Que foi? – Perguntou.
-Que foi o quê?- Retorquiu P.
-Por que você tá me olhando desse jeito estranho?
-Não estou te olhando de um jeito estranho, só estou te achando diferente e não sei dizer por quê.
L não respondeu. Levantou e foi pegar um café. Um café era o que precisava. No caminho passou pela porta de vidro do chefe, J. Mas o quê? Voltou um passo. Uma jovem oriental o observava na porta. Mas era um reflexo? Parecia um reflexo. Ou estava dentro da sala? Esticou a mão trêmula e abriu a porta. J, sentado, não levantou os olhos do computador.
-Diga!
-Estou procurando a japonesa.
J olhou para ele por cima dos óculos.
-Que japonesa?
-A que estava aqui com você.
-Não tem japonesa nenhuma aqui – E voltou a olhar para a tela.
L permaneceu alguns segundos ali sem saber o que fazer, deu uma boa olhada no interior da sala. Nada. Então fechou a porta devagar. Quando a porta encostou no batente, foi soltando levemente o trinco para não fazer barulho. Um reflexo?
-Que feio!
L ouviu claramente. Era a voz de K. Mas em vez da garota de olhos azuis, uma jovem oriental ria para ele a partir da porta. E se eu apenas ignorar?- pensou.
-E como é que se ignora alguém que está dentro de você?- Perguntou com um ar divertido.

L deu dois passos atrás, o coração batia acelerado e ele sentia que podia desmaiar. Estava louco? A depressão tinha se tornado esquizofrenia? Já lera que as doenças mentais não eram exatamente campos fechados e que dentro de certos limites alguns sintomas podiam ser compartilhados por distúrbios diferentes. Bipolares, borderliners e esquizofrênicos andavam muito próximos uns dos outros e todos podiam ter delírios e alucinações. Certo, isso ele sabia. Então era melhor não se entregar à paranoia. Estava tendo alucinações, era sua mente buscando um refúgio fora da realidade. Não existiam duas Ks.

-Não existem mesmo, eu sou a única.

E se ele fosse visto falando sozinho? Aí sim iam achar que estava louco. Correu para o banheiro. Lá dentro, a K japonesa o esperava no espelho.

-Estou tendo uma alucinação – repetiu para si mesmo- você é fruto da minha cabeça, é uma reação do meu cérebro aos remédios.
-Não meu bem. Eu existo, estou bem aqui e vou sair. Eu esperava poupar a nós dois de um conflito desgastante, mas você não me deixa outra opção.
-Olha alucinação número 2, eu sei que você é fruto da minha doença...
-Você não é doente. Os doentes estão lá fora. Você simplesmente não aceita a realidade e cria essas limitações todas para a nossa vida. Isso nos deixa infelizes, mas o que você não entende L é que não precisamos disso.
-Hoje de manhã tinha tinha olhos azuis, agora é uma japonês...
-Chinesa. –Atalhou K.
-Tanto faz. Você não é real. Então escute cérebro, eu sei que você está puto da cara comigo, que os remédios estão te afetando, mas o que eu quero é equilibrar nossa química cerebral, assim que isso acontecer, eu volto a ter uma vida normal.
-Normal? Normal é você se recolher, e me deixar organizar essa bagunça que você fez. Eu tentei chamar a sua atenção várias vezes, mas você não me ouviu.
-“Várias vezes”? Eu só soube de você hoje de manhã.  
-Hoje de manhã? Não.Por favor! Vai dizer que não notou as mudanças físicas?

Ele notara. Sentia uma dor estranha logo abaixo do umbigo que irradiava para a lateral do corpo e para as costas. Era como se algo, dois ganchos, o puxassem para baixo. E sentia uma ardência no peito, seus mamilos estavam inchados e ele tinha uma vontade quase irresistível de espancar estranhos na rua.

L levantou as mãos quase inconscientemente para os seios. Encheram-nas. K deu um sorrisinho sacana. A respiração de L estava rápida, ele engolia o ar em golfadas, mas era como se não conseguisse respirar. Sentia-se um peixe que acabara de ser tirado da água. Firmou os olhos e viu além de K o seu próprio reflexo. Estava diferente, muito diferente do que jamais fora. Os olhos estavam mais afastados, e muito maiores. Os lábios não eram finos, nem havia sardas no rosto. K o observava divertida. Seu olhar o desnudava, sentia os pelos eriçados, uma mistura estranha de pavor e desejo. Os bicos dos seus mamilos se elevavam intumescidos por entre seus dedos, e era como se suas pernas estivessem derretendo, enquanto um rio represado forçava a saída por entre elas. L gemia e o suor inundava seus olhos irritando-os de leve. Agora a respiração estava mais suave, alongada e com pausas mais distribuídas. L fixou-se no riso sensual de K.

-Está sentindo L? Isso é a vida libertando-se. Vida L!

L abriu a porta do banheiro, meio cambaleante, com uma mão sobre o seio. Encostou-se na parede do depósito tentando recuperar o fôlego. Alguém se aproximava, tentou aprumar-se. Era P.

-Olha – começou P- quero me desculpar com você.
-Tudo bem. Não tem problema, as coisas andam estranhas ultimamente, e nem eu me entendo.
-Sabe- continuou P com um olhar que L não conseguia decifrar- a gente trabalha juntos faz um tempão, e tem umas coisas que eu nunca te disse.
L começou a suar de novo. O que aquele cara queria com ele? Sentia medo, e junto com o medo algo ainda mais indecifrável que o olhar de P.
-Olha, L, eu sei que você está tendo dias ruins, mas quero que você saiba que estou ao seu lado. Não me julgue, por favor, mas tenho pensado muito em você ultimamente.
-Pensado em mim? Como assim P?
-Ora, você sabe, eu percebo seu olhar.
-Eu não sei nada! E é você que estava olhando estranho para mim hoje.
-Escuta, vamos ser sinceros, você e eu,  eu acho você muito atraente e...

L empurrou P com toda força. O outro bateu na parece do outro lado do corredor, e ficou ali olhando-o com os olhos esbugalhados e um esgar nos lábios emoldurados por um cavanhaque bem aparado. P tentou dizer alguma coisa, mas L saiu correndo pelo corredor, pela porta do escritório, pela rua. Cinco quadras depois L ainda corria. Alguém grita. Pneus derrapam, um cão late. O mundo gira, sobe e desce. Um baque surdo. O céu azul vai se fechando, até que tudo dorme numa escuridão sem vozes.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Um poema.

A encruzilhada se apresenta
Sempre a dúvida ameaça, há tempo e não tempo
E um sentido que escapa
Um quarto da lua sou infeliz
E muitas dúvidas me arrastam
Noutros passos de selene
Não sou, e eu mesmo me arrasto
Quais luzes seguir quando te faltam
Luzes com que iluminar?
As perguntas descem ladeiras por onde
Poucas resposta conseguem subir
Não sei se me assento no pó
Raspando com Jó minhas feridas falsas
Ou aceito minhas inobejetividades
Com o preço da morte na vida
Que é vida que se vive
Sem tê-la de fato bem vivida.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Me Deixe Sair! PARTE 1


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Oi! Essa é a primeira parte. Assim que eu for escrevendo, eu posto aqui. Mas observe que as partes vão ficar fora da ordem cronológica. ______________________________________________________________________________

O dia entrava morno pelos vãos da cortina. Nos feixes de luz, as partículas de poeira dançavam diante do seu olhar ainda distante pelo sono. A vida ia se fazendo calor pelos seus membros adormecidos, e corria como uma matilha de lobos selvagens dos pés à cabeça, trazendo os primeiros pensamentos. 

Tocou os pés inchados no tapete felpudo, abriu os braços e soltou um som abafado e rouco. Vestiu as chinelas e caminhou com os ombros baixos, a calça deixando as nádegas  à mostra. Mais um dia no mundo, mais um maldito dia... L. mirou a face cheia no espelho, atentou especialmente para as bolsas sob os olhos mortiços. Era um homem, seus trinta e tantos anos, arrastando a barriga por inércia, um pouco por vontade, um tanto por teimosia. Mas a vida..que vida era aquela de arrastar-se entre as pessoas, comer, muito, e dormir mais ainda? Não se perguntava mais, mas sabia no fundo que na sua vida, nele mesmo, era como se tudo estivesse fora do lugar. 

Colocou a escova preguiçosamente dentro da boca. A escova ia para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo. Sempre na mesma ordem, sempre com a mesma indiferença de quem apenas espera a hora de deixar tudo. Tomou suas três pílulas. O antidepressivo estava no fim, tinha que marcar um consulta, pegar outra receita. Era só isso, apenas suportar quimicamente aquele arremedo de existência. 

Levantou a cabeça e ficou a observar o olhar azulado. Mas espere! Seus olhos eram castanhos. Mas certamente um olhar azul o observava a partir do espelho. Jogou água na cara na tentativa de acordar o que quer que estivesse dormindo. Pensou que os remédios estavam mexendo com sua cabeça. Mas não era para isso mesmo que serviam esses remédios? Mais um pouco de água e quando ele olhar para o espelho, tudo vai estar como antes. Não que fosse uma má coisa ter olhos azuis. Embora isso soasse como pôr pérolas num vaso sanitário. Mas o misterioso olho direito azul estava lá. Aquele olhar infinito, com uma beleza feminina. Uma beleza feminina? Duas palavras com quase nenhum sentido para ele. 

-Eu quero sair. 
Estava louco, pensou. Não eram os remédios, era a ausência de efeito dos remédios. Pensou ter um ouvido uma voz feminina dizer "eu quero sair". 
-Não é nada, só efeito dos remédios, só isso- disse em voz alta- já vai passar, já vai passar.
-Me deixa sair! -Ouviu novamente. Era uma voz  jovem e algo agradável. Nada do seu tom rouco, da sua voz sempre dita para dentro. Resolveu fazer o jogo da sua cabeça. 
-Quem quer sair de onde?
-Eu quero sair. Sair daqui. Eu quero ir tomar um sol, sentir o vento, tomar um sorvete, sair com amigas, namorar. 
-Ora, saia então. Que tenho eu com isso dona alucinação?

Pensou ter ouvido um som. O vizinho? Mas havia um som, um som bonito, violino. Era uma música, Primavera, Vivaldi. Certo, agora sabia que era alucinação. 

-Ei, vai me deixar sair ou não?- Insistiu a voz, agora num tom mais elevado. -Eu quero sair daqui porra! -Gritou.
-Sair de onde? Quem quer sair? Pode sair , que tenho eu com isso sua maluca? 
-Maluca, eu? Olha quem fala, o cara com mais de trinta anos que mora com a mãe, que nunca teve uma namorada e que coleciona embalagens de antidepressivos. Me deixa sair, ou eu juro que vou aí e arrebento essa tua cara! 
-Sai fora ô nervosinha! Vou te ignorar, assim você desaparece. 
E começou a assoviar a nona de Beethoven. 
A mãe gritou algo da cozinha, ele respondeu com um grunhido. 
-Lá, lá, lá...
-Vai me deixar sair ou não? 
-Não falo com pensamentos gordofóbicos. Lá, Lá, lá...
-Espere. Nada a ver isso aí. Não é preconceito, é só que você faz da nossa vida uma coisa mais triste do que ela devia ser, e eu quero um pouco de sol, um pouco de alegria. Eu não tenho culpa se você prefere afundar nessa autocomiseração...
-Ah! Já entendi! É a voz da minha médica. A Doutora P. Tinha que ser, eu sabia que conhecia isso. 
-Doutora P.?

O olho azul ainda estava lá, fitando-o com irritação. Era um olho direito muito bonito, admitia. A imagem, notou, parecia meio desfocada. Não. O olho estava bem claro, mas o resto, ele mesmo, estava borrado. Firmou o olhar, mas o efeito prosseguia. Correu até o criado mudo e apanhou seus óculos. Voltou e firmou o olhar. O olho azul o encarava, mas todo o resto era um borrão. Voltou a jogar água na cara. Nada. Molhou os cabelos. Nada ainda. Mas espere! Parece que algo se forma ao lado do olho. Um outro olho azul. Agora os dois olhos eram azuis. Embaixo dos olhos foi aparecendo um nariz fino. E sob o nariz um lábio superior muito bem definido. A parte inferior do lábio começou a se formar. Ele teve que admitir que aquele era um bom par de lábios. Carnudos, bem delineados. Logo depois surgiu o queixo, daqueles bem suaves, com uma leve reentrância no meio. As bochechas já estavam formadas, o lábio carnudo sorria, e nelas, nas bochechas, havia duas marquinhas, dois furinhos emoldurando o sorriso. E o resto? Sobrancelha alinhada, bem fina, assomada por uma testa lisinha, e ornamentada por umas mechas de cabelos levemente ondulados, soltos dançando de um lado para o outro. O sorriso permanecia, mas agora havia um corpo de mulher nem magro nem gordo. Exceto pelo cabelo caindo sobre os ombros, não havia nada que lhe cobrisse o corpo. Os seios apontavam para frente, com seus bicos rosáceos quase saindo pelo espelho. O ventre descia regular até uma pequena floresta dourada. De onde estava, via os pelos clarinhos eriçados nas suas pernas e braços. Mas tudo era absorvido pelo sorriso, um sorriso cheio de dentes brancos. 

-Que foi? Perdeu a língua? Agora podemos conversar cara-a-cara. E como o tempo urge, quero logo que VOCÊ ME DEIXE SAIR!!!!

Isso, fique registrado, foi um grito que quase fez com que ele saltasse para debaixo da cama.  Colocou as duas mãos sobre a cabeça, um tanto para manifestar sua surpresa, outro tanto para ver se a imagem acompanhava. Não acompanhou. Era autônoma, como se o espelho fosse uma tela para um outro mundo. A imagem continuava lá, com as mãos na cintura nua e o sorriso confiante. L. sabia que precisava decidir se aceitava a alucinação ou a ignorava. 

-E aí, o que vai ser? Disse a imagem, inclinando levemente a cabeça num jeitinho que quase o conquistou. 
-Eu já disse, saia. Eu não tenho nada com isso. E aliás, nem sei como fazer para que uma alucinação...
-Epa! Que alucinação o que ô meu! Do meu ponto de vista você é que não é real. A coisa é simples, você me deixa sair, e vai curtir a sua amargura existencial num cantinho escuro da nossa mente. 

Aquilo o irritou. Ela decididamente esperava que ele saísse de cena. Então era óbvio que se tratava de uma apropriação de corpo e...ela disse "nossa mente"? 

-Olha moça pelada cujo nome não sei, eu tenho que sair para trabalhar, tive uma noite pesada e tenho aí umas nove horas de trabalho pela frente. Então se a senhora não se importa, eu gostaria que voltasse lá para o País das Maravilhas, ou a Terra de Oz e me deixasse em paz, EM PAZ! Está ouvindo, sua alucinação do ca...
-Nossa! Você beija sua mãe com essa boquinha? Certo, vamos começar de novo. Eu quero sair. Acho que você está fazendo uma péssima utilização da nossa vida, e eu não quero passar meus dias assim nessa penumbra, sem amigos e sem coisas interessantes para fazer. Vamos lá meu chapa, me deixe sair. 
-Por que você fala, alucinação, da  minha vida como se fosse nossa vida? Era só o que me faltava, além de depressão, agora tenho esquizofrenia...
-O que você tem é esquisitofilia! Você não é doente cara, só quer estar doente. Não tem nada com a sua mente, ou melhor, não tem doença. A única coisa nela sou eu, uma personalidade que não curte essa sua parada aí e que tem o direito de viver de outro jeito. 
-Então saia, pegue sua bunda branca- disse ele irritado- e vaza da minha cabeça, do meu espelho e da minha vida. Só não espere que eu faça algo, porque eu não tenho a menor ideia do que você está falando, nem pedindo. 
-Ora, não se faça de desentendido. Eu quero sair, e para sair eu preciso que você me deixe sair. Na verdade eu sei como fazer, mas se você concordar fica mais fácil e mais rápido. 
-É? E como eu faço isso, onde está a porta que eu devo abrir?
-Na verdade é muito simples. 
- Você fica repetindo isso, "na verdade", "na verdade"...alucinação, e não me diz como.
-Meu nome é K. 
-Então K., como eu me livro de você? 
-É só desistir da sua vida. 
-Como???
- Oras, é só d-e-s-i-s-t-i-r dessa bosta de vida que você tem. 
-Então você quer que eu me suicide?
-Suicídio? Claro que não, seu besta! Aí eu morreria também. O que eu quero é que você desista de estar aí fora, de decidir e comandar o que fazemos com nossa vida. Eu quero que você me dê o controle de tudo. 
-Para mim isso parece suicídio. 
-Mas não é. Você continua do jeitinho que gosta, e eu vou curtir a vida. 
-Olha K., eu não devia dar atenção para um negócio que deve ser uma mera alucinação da minha cabeça, mas vou seu direto e sincero: Vá à merda! 
Bateu no espelho com a mão enrolada na toalha de rosto. 
E saiu do banheiro batendo a porta. 
No chão os pedaços do espelho. O olho em um pedaço. Em outro, os lábios. E o sorriso em todos. 

                                                                   ***
Parte 2