sábado, 10 de setembro de 2016

Sobre o nome do Blog

Alterei o nome do blog para "Sobre Sentidos e Direções", com todas as significâncias que isso pode trazer, porque não havia mais sentido em defini-lo como "divagações". Faz tempo que esse blog deixou de ser apenas um local onde posto poemas e outras textos literários. Há muitos artigos de opinião tratando de temas diversos como comportamento, política, religião, ciência, etc. Eu gosto das coisas assim, não faria muito sentido criar um blog para cada um dos temas que gosto. Eu já tenho pouco tempo para este, imagina ter que manter outros, considerando que já tenho dois, e o outro é uma espécie de fóssil.

Não mudei o domínio porque isso poderia afetar as buscas.

OBS: Depois descobri que havia outros blogs sentido, sentido e direções, então resolvi colocar um "sobre" na frente. Isso meio que dá um ar clássico, pois os tratados de antigamente sempre tinham um "sobre" na frente. Fica assim mesmo por enquanto.

Policiais e Militares


Militar vem etimologicamente de "miles", o termo em latim para "soldado" (que por sua vez é "aquele que recebe soldo"). Em português "militar" é alguém que faz parte das forças armadas ou pertence a alguma instituição regida por leis, normas e regras marciais, isto é, relacionadas à guerra, à ética do guerreiro.
O militar tem uma ética própria, calcada em valores da pátria. Seu fim é sempre coletivo. O soldado defende a nacionalidade, ele garante que uma nação mantenha sua unidade, com seu sistema de governo e população. O militar incorpora o ideal guerreiro em que matar o inimigo constitui honra, assim como morrer em defesa de sua nação. O militar não mata como fim. O fim é a derrota do inimigo. O inimigo do soldado, ou seja, o soldado de outra nação, ou de facção interna da própria nação, não é alguém "mau", ele não cometeu crime algum exceto estar do lado errado no campo de batalha.
Policial é um termo que deriva, através de "politéia", de "polis", de onde derivam "polites" e "politikós" (πολίτης, πολῑτικός) , que era o cidadão com direito de voto nas antigas cidades-estado gregas. O policial é um profissional que garante a ordem interna de uma sociedade.Ele atua coletivamente, mas sua função exige o trato individual, pois os "casos" em que se envolve são sempre relacionados a um grupo restrito de pessoas.
Os romanos traduziram "polis" como "civitas", nesse caso Roma, a grande cidade "que reina sobre os reis da Terra" (segundo o Apocalipse) ou aquela que é oposta à Civitate Dei (cidade de Deus) de Santo Agostinho. De "civitas" derivou "civil". Os herdeiros diretos dessas cidades são os Estados Nacionais. O policial, portanto, tem sua função ligadas às relações civis. Ele atua contra o erro, o seu adversário é sempre alguém cujos atos são "maus". O policial é um promotor de cidadania, ele é o garantidor da ordem interna do estado.
Quando observamos as ordens internas desses dois tipos de instituição percebemos suas finalidades distintas. E a finalidade de uma instituição é o que organiza sua estruturação e determina os modos de formação de seus membros. Para o militar, o mal é o que anima qualquer um que esteja do outro lado, o inimigo. O policial tem como inimigos os ATOS que se opõe à justa operação das relações internas do estado e de seus cidadãos. O militar fala em "luta" num sentido literal. "Luta" para o policial tem vários sentidos e nem todos implicam num confronto físico com forças opositoras, exceto quando as funções do militar e do policial se fundem em casos de guerra civil, de confrontos com o crime organizado, etc.
O militar atua como polícia local, mas apenas em caráter temporário e quando a estrutura do estado está ameaçada. O militar garante a unidade do estado, o policial garante a capacidade de operação desse estado.
Confundir de modo permanente essas duas importantes funções pode gerar um desiquilíbrio grave no conceito de cidadania. Pois o cidadão infrator deixa de ser alguém com ação imprópria limitada no tempo para se tornar um inimigo a ser eliminado. E a população "não-infratora" acaba sendo vista com desconfiança, no mesmo sentido que soldados vêem populações autóctones em zonas invadidas. O militar vê a pessoa, pois ela "faz parte de". O policial vê o ato. Para o militar, a pessoa só tem os direitos que são determinados pelas convenções da guerra. Para o policial a pessoa só tem as limitações impostas pelas leis.
No Brasil temos as duas funções confundidas. Daí temos uma série de políticas e técnicas em relação ao público que assumem uma perspectiva de guerra urbana. As medidas para melhorar a polícia sempre têm como fim manter certa aparência para os cidadãos, considerando que as estruturas rígidas do militarismo não podem ser mudadas.
Num ambiente assim, a "polícia" deixa de ser um serviço para se tornar uma instituição e o cidadão passa a ser visto como alguém de segunda ordem. Essas são razões básicas para se repensar a estrutura policial brasileira. Apesar do que parece, mesmo as instituições de nome civil obedecem à regra implícita do modelo militarizado.
O grande desafio da segurança pública brasileira é criar um modelo de polícia que seja guiado por noções de cidadania e liberte-se da luta armada contra o inimigo do estado.

sábado, 3 de setembro de 2016

Lembrança


Ontem eu fui atacado.
Fui atacado por uma daquelas lembranças que nos levam lá para os dias da inocência. A coisa aconteceu em 1988, no dia 18 de novembro, era começo de noite.
Eu tinha treze anos. O coração apertado. No dia seguinte seria meu aniversário e estaríamos de mudança.

Eu era muito inocente. Demais da conta! Muito diferente dos adolescentes de hoje, e até suspeito que dos daquele tempo também.
Eu estava apaixonado. A primeira névoa do amor cobrira meus olhos já desarrazoados.
A menina se chamava Marli, tinha dezesseis anos e era a irmã mais velha de um de meus amigos. Mas as meninas de dezesseis anos daquela época, como as de hoje, imagino, estavam mais interessadas nos rapazes de dezenove ou mais.
Não havia como ela notar aquele moleque que jogava bola na rua com seu irmão.
A Marli trabalhava num supermercado, e toda noite eu esperava ela passar. Ela passava pela rua e meu dia estava ganho. Não sei se algum dia ela notou que eu estava ali, na beirada do terreno, geralmente sentado com o queixo apoiado nas mãos.
E aquela seria nossa última noite juntos!
Meu coração batia forte. Ela passou, eu chamei sei nome. Ela parou.
"Eu só queria me despedir de você, amanhã eu vou me mudar".
Ainda lembro do modo como ela me olhou. Foi uma mistura de pena com, talvez, um pouco mais de afeto do que o razoável...
Ela disse algo, mas eu já tinha me perdido nos seus olhos negros.
Então ela colocou as mãos sobre meus ombros e depositou vagarosamente os lábios sobre os meus.
O mundo parou. Silêncio.
Ela se afastou. E eu me virei. Não podia dizer mais nada. E corri, corri com todas as minhas forças! Eu não olhei para trás, eu apenas me projetei para a frente movido por uma energia que eu nunca sentira antes!
A mudança veio. E os anos se foram.
Quando eu tinha dezenove anos encontrei a Marli no ônibus. Agora éramos dois jovens e a diferença de idade não parecia mais tão grande. Conversamos um pouco. Chegou seu ponto e ela desceu. Não houve mais nada, nem a vontade de que houvesse.
Ela talvez ainda fosse a Marli daquele começo de noite. A Marli carinhosa daquele beijo.
Eu é que não era mais o mesmo.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Sobre a Dominação Ideológica da nova Militância Social

Foto da Militante Elisa Quadros, a "Sininho".

A "nova militância social" entra nas regiões mais pobres e faz proselitismo intelectual. O pobre e sua comunidade não passam de abstrações sociológicas para essa militância. Eles entram com ideias prontas, e criam movimentos que não são originariamente produto da reflexão das pessoas que vivem naquelas comunidades.
E mesmo assim o militante social vê nas pessoas o que os estudiosos em comportamento animal vêem na natureza. As pessoas e suas relações são reduzidas a um aforismo, um apotegma.

Esse militante vem carregado com conceitos intelectuais muito belos, e ele mesmo, cheio das ideias que tem de si , encarna o libertador, a entidade que destrói toda opressão real ou imaginária ou potencialmente imaginária.
E ainda assim o pobre exerce sobre ele uma espécie de fascínio existencial. O pobre é o que mais se parece com o bom selvagem de Rousseau, depois do índio. Por isso o militante admira o pobre, pois ele representar a antítese do seu próprio modo de vida artificial. Na favela, as relações sociais dependem muito mais das pessoas do que de uma imposição do estado ou das regras de convivência explicitadas nos livros e nas filas da Disney.
Ele precisa do pobre, ele precisa sentir a vida como ela é. Ele tem desejos de dançar na lama com os meninos seminus, mas seu superego conflitado se insurge, e ele mesmo, ainda suspirando pela lama romântica tenta a todo custo suprimir a lama das favelas.
De fato esse militante exerce um tipo de violência sobre essas comunidades, pois ele representa um fluxo de dominação ideológica e intelectual que não tem origem naquelas comunidades. Ele pode observá-los, tecer explicações sobre eles, mas não tem como ele entender essencialmente o que eles são.
O melhor para essas comunidades seria produzir seu próprio pensamento, criar um movimento que não seja fruto das crises de consciência de uma elite entediada. O pobre vai para a academia e volta mimetizando as dores do rico e trazendo as mesmas soluções. É preciso libertar-se disso também.
Eu sei. Sempre fui pobre.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

As vozes dolorosas enchem as fronteiras...

As vozes dolorosas enchem as fronteiras
De gente que sofre, que sente, gente que morre
Como formigas...
As luzes de todas as cidades são reflexos
Dessa indiferença
E as paredes escondem nossa vergonha
Das vítimas que se amontoam pelas
Praças de outras cidades
Nas noites frias contemplamos as faces
Quentes de nossos filhos que adormecem
E esquecemos as faces suplicantes
Dos filhos de filhos esquecidos
Dos filhos da nossa gente!
Damos de ombros, e os ombros da mente
À responsabilidade que não pensamos
Que temos
Como se a vida tivesse tornado
Nossa natureza amplamente social
Em individualidade furtiva
Somos nós os geradores
De todo esse mal que não é necessário
Como se algum o fosse...
Talvez um dia tenhamos a coragem de banir
A dor que criamos
Para além de qualquer fronteira
De qualquer possibilidade de lembrança
Talvez uma dia tenhamos
No igual um igual e irmão
E nenhuma diferença haja
Nem posição, cor ou escolha
No dia em que a única pátria
Seja a humanidade.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Político Sazonal


Hoje aqui me apresento caro amigo eleitor
Sou o político sazonal a seu inteiro dispor!
Eu corro as ruas e morros a cada novo pleito
Pois só tenho uma meta que é ser de novo eleito!

Eu beijo criança, beijo velhinho e se calhar cachorrinho
Pois só penso no cargo onde por quatro anos me aninho
Eu sei o discurso da ética e da tal da honestidade
Mas penso que o bem é coisa das casas de caridade

E se você pensar bem, por que não votar em mim?
Eu pelo menos me escondo em mandatos sem fim
Ficando dos seus olhos oculto e nas intrigas banais
Fazendo meus belos atos de hipocrisias teatrais!

E se me acusa de ser sem vergonha, ora amigo!
Somos todos bem culpados, se não, pensa comigo:
Se quem vota é como quem entrega cheque assinado
Que culpa tenho eu se só o tenho, e bem, descontado?

Vou deixando aqui meu santinho com minha foto sorridente
Sem te contar dos fantasmas - um e outro meu parente
Dizem que em política não é adulta a população brasileira 
Não sei, só sei que a omissão é minha alegria financeira!

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Sobre Organizações Terroristas e Fragmentação Nacional


Se as pessoas do mundo fossem indagadas sobre a face mais clara do mal, eu não tenho dúvida que lá nos primeiros lugares estaria o ESTADO ISLÂMICO. Ele e seus congeneres TALIBAN e BOKO HARAM são o que de mais "aplicado" existe em fanatismo e loucura homicida.
Houve época em que a gente ouvia falar em terrorismo como coisa distante, até que em 2001 ele se tornou global. Mas a AL Qaeda representava um terrorismo algo esclarecido, menos sanguinário. A ponto de muita gente questionar se as notícias não eram mera invenção da CIA. O EI não é assim, ele mesmo faz questão de cinematografar suas atrocidades. De qualquer modo, o crescimento dessas organizações mostra, pelo menos para mim, a importância dos Estados modernos organizados, mesmo que não sejam democracias no sentido ocidental.
O TALIBAN, esse sim cria da CIA (e do RAMBO...) cresceu e se firmou num estado dividido entre lutas tribais e a dominação soviética. Bin Laden, treinado pela CIA, mais tarde se voltou contra seus benfeitores e criou a AL QAEDA .
Os americanos, -sempre os americanos!- na sua luta contra a Al Qaeda e na sua ânsia por petróleo, destruiram as frágeis bases da estabilidade no oriente médio. Da fragmentação de nações, e da AL Qaeda, surgiu o Estado Islâmico.
O Boko Haram surgiu na Nigéria, e nem preciso falar da instabilidade de boa parte das repúblicas africanas, herança do período imperialista europeu. Instabilidade por questões de herança tribal e divisão de terras e povos, de religiosidade autóctone, de fragmentação importada pelas religiões impostas por conquistadores, entre tantas outras coisas.E não é de espantar que o BH tenha se aliado ao EI, ambos têm a mesma sede por sangue e o desejo de implementar a sua versão radical da Sharia no MUNDO TODO.
Para nós fica a lição de valorizar nossa nação e nossa democracia ainda imperfeita. Na periferia da nação existem candidatos ao poder. São os poderes paralelos do crime, do fanatismo religioso e das ideologias marginais.

sábado, 30 de julho de 2016

Cinco Contos Minimalistas

Suspense
Francisco estacou frente à escada ensanguentada. Som de goteira. O coração batendo forte nas têmporas. Na penumbra, a faca avermelhada espreita o limiar de suas costas. Som abafado, uma palavra presa nos lábios. Silêncio.


Romance
Fecha o armário. Livros enchem suas mãos. A escada estreita, primeiro degrau. Para. Olhos nos olhos. O sorriso doce encanta ajudado pela sedução das primeiras palavras. E os corações não bateram mais sozinhos.

Terror
As sombras escondem-se das chamas na caverna. Som de uma respiração grotesca acima nos vãos das rochas mal iluminadas. O vento leva o fogo e a luz. As sombras agitam-se. Garras cortam bruscamente a carne lançando nas paredes sangue e vísceras.

Comédia
No refeitório. A mulher de vestido curto e saltos altos caminha pelo corredor-passarela. Levanta a cabeça, a gravata encontra o café. A mulher ri. A mão mergulha no mingau do vizinho, quente. Levanta, joelhos na mesa, coisas ao chão. Desequilíbrio. Cai para trás com a cadeira e a mão ainda agarrada na calça do chefe ruborizado por causa do calção cheio de corações. Gargalhadas.

Ficção Científica
Cem anos. A imagem azul enche a tela e a felicidade de uma geração que não conheceu sua Terra inunda os corredores e salas da imensa nave-colônia. O tempo flui e o mundo enche-se de verde e novas espécies correm por seus campos jovens. Nas cidades cientistas miram as estrelas e colhem os dados que darão suporte às novas levas de colonizadores. No bojo da nave olhos contemplam o último céu que verão. Oitenta anos. No fundo negro do espaço uma joia verde-azulada se destaca. Lar.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Funcionalismo Público e Conformismo

Tem uma coisa assustadora no funcionalismo público de hoje, é o seu conformismo.
É uma desesperança, uma busca incessante pela "normalidade". É como se a tal estabilidade exigisse algum tipo de imobilidade. E isso acontece em todas as escalas, em todos os graus hierárquicos. Mudanças e novidades não são desejáveis.
Entenda, não estou dizendo que todo funcionário público é um conformista. É mais como um "clima". É comum você ouvir que "as coisas são assim mesmo", que "nunca vai mudar". E é fácil a gente se render a essa ideia.
Há inúmeras razões para isso, uma delas é que no serviço público quase nunca há espaço para o mérito pessoal. As coisas correm mais no jeitinho político e pessoas inovadoras ou com perfil mais arrojado são, nem sempre sutilmente, desencorajadas.
Uma outra é o excesso de carreiras "estanques", as pessoas simplesmente não têm para onde ir e isso inibe bastante a ascensão de "uma geração melhor".
O terceiro ponto que destaco tem a ver com o anterior. Pessoas com potencial levam muito tempo para ascender na carreira, e o tempo vai demolindo sua vontade.
O que define o sucesso de um servidor é sua adesão ao programa político do momento. Então não é difícil imaginar o tipo de seleção que vai sendo feita...
Obviamente isso começa com o poder político, pois tal estado de coisas é encorajado por cada novo gestor. Lembremos que os grupos políticos têm PROJETOS DE PODER e só por consequência um projeto de governo. Desse modo os cargos dentro do governo são distribuídos de acordo com alianças políticas, o que nem sempre garante a qualificação adequada para a ocupação de determinado cargo.
Nesse estado de coisas os servidores de carreira são preteridos, o que leva a uma disputa cruel por cargos e funções menores.
Isso afeta diretamente o serviço prestado. Primeiro porque os atos de gestão vão na direção do espetaculismo teatral, e menos no caminho árduo da efetividade. Segundo porque os ocupantes dos cargos com poder de decisão nem sempre são os melhores e em terceiro porque os servidores se vêem numa teia apertada onde o "mínimo é sempre o melhor".
E todos nós perdemos com isso.

sábado, 9 de julho de 2016

Essa noite eu fui um soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro

Essa noite eu fui um soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro...
Subíamos uma viela estreita, eu e meu parceiro, com as laterais da viatura quase tocando as paredes. O rádio zumbia captando sei lá que onda de estática. Era ronda, ronda rotineira. Que é isso parça? Três anos fazendo isso, de boa. É só mais um plantão.
O parceiro parecia perdido com as mãos ao volante, talvez pensando nas doze horas que teria no BICO após terminar o plantão. Instintivamente eu acariciava a coronha da .40 que jazia apoiada sobre a minha perna direita.
Um garoto, uns 11 anos, está na frente do veículo. Paramos. Ele nos olha com o ódio do mundo, com o inverno nos olhos que anunciam a morte do mundo! E faz um gesto como se tivesse uma arma nas mãos. Vai morrer PM!
Mal o menino se enfiara por um beco, um projétil estilhaçou o para-brisas dianteiro lançando um milhão de pequenas estrelas de gelo na nossa cara.
O rádio gritava! O morro brilhava com o tracejado das balas correndo como Berserkers enfurecidos que buscam a glória de Odin.
Saímos com dificuldade da viatura, eu tenho sangue na farda, sangue na cara, sangue na arma...
De cima das lajes olhos infernais nos contemplavam. Mas eu nasci na periferia, eu sou filho de morro, meus irmãos, meus amigos...
O mundo era fumaça, brilho incerto e barulho de tiros. Os gritos de guerra enchiam a rua de formas negras, de perspectivas escuras.
E a bala lançada por sorte atinge a fronte do meu camarada, 38 anos, 15 de PM, três filhos e um segundo casamento, com um bom tanto de sonhos, de sonhos? De SONHOS!!!
O tempo a n d a  d e v a g a r, cada imagem é um frame eterno nos meus olhos sujos da vida. A bala ardente gira no espaço. Baila quando atinge o cranio tão mole.Eu vejo a onda de choque que avança pela carne, pela cabeça, assomando pela nuca. A carne se parte, a cabeça se abre, e os miolos cobrem a noite escura desse dia tão denso.
A carne estilhaçada, vermelha, pulsante, enche a farda, e se espalha sobre o carro, a calçada, a minha cara.
E aqueles 38 anos de vidas, de sonhos, se vão como a fumaça da manhã num dia quente de verão.
Eu atiro. Mas para onde? Em quem? Eu vou morrer, mas quem teme a morte vivendo todo dia no limiar do seu templo? e a morte é minha medida, a incerta linha que me separa do agora para o agora que se avizinha.
Eu atiro, e um corpo cai. Eu atiro e as sirenes gritam. Eu atiro, e o sangue fervilha e eu canto a canção negra de ódio dos eternos guerreiros que matam e morrem sem saber por quê.
E as ruas se inundam de sangue. A violência abraça o morro, mas o morro não se abala, pois não conhece outra realidade.
Quando os tiros cessam, e o barulho se afasta, eu olho ao redor. E só vejo o menino com a barriga para cima e os olhos vidrados no céu.
O menino ainda empunhando sua arma invisível com o fuzil visível do lado.
Um IPM, cadeia. Os jornais falam da criança morta por policiais. Até organismos internacionais falam do meu crime. Eu não queria matar uma criança. Mas nessa guerra que nos lançaram somos todos crianças, morrendo e morrendo na viela escura.
E eu acordei.

sábado, 25 de junho de 2016

Dois vermes num Coco

Dois vermes num coco nasceram da mesma polpa sem conhecer a varejeira que os pusera. Os dias eram sempre escuros, e houve muito tempo antes que eles soubessem um do outro. Viviam de roer dia após dia a polpa branca, e pouco se arriscavam na água doce e viscosa.
Mas um dia, satisfeitos, decidiram nadar além dos poucos milímetros em que viviam. No centro do fruto se encontraram. Cada um sentiu no outro a coisa nova, -"uma polpa flutuante?"- e se mexe!
O verme esquerdo acreditava. Para ele a realidade se inseria na coconvidade, e a vida se espremia nas camadas tenras da polpa, circundada pelo fluido vital, o élan cocal. Ele esperava que num dia qualquer a superfície cocal se rompesse e o interior se tornasse como o exterior. Então ele flutuaria na substância cocal, livre por toda a eternidade.
O verme direito era materialista. Existia por uma interação fluídica entre a polpa e o líquido. Além da polpa havia a casca e além dela um mundo que não era casca nem polpa, muito menos líquido.
E cada um, à sua maneira, tentou comer o outro. Porém se movia, isso movia! E se se movia, era vivo. Ao perceberem isso, conversaram e conversando perceberam a diversidade e o medo. Do medo veio o ódio e do ódio a guerra!
Os vermes cresceram, a polpa acabou e o fluido secou. E só havia os vermes. Um só sentia o outro. O resto era casca de coco.
Enfim, sem nada, se aceitaram. Até que as paredes se abriram! Tudo era cor e cheiro. O céu azul, a grama verde e as nuvens brancas. O mundo do coco era só um coco no mundo! Muito mais que polpa e água, e ainda água e polpa.
O mundo não era coco, tampouco os vermes eram vermes!
E eles alçaram voo...
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Os vermes são dois padrões de pensamento, duas estruturas na psiquê, dois "eus"...duas fontes de conflito.

domingo, 22 de maio de 2016

A morte e a Vida.



Tudo o que a gente faz, sonha, milita, arrisca...está amparado numa base muito frágil, nossa própria vida. E a vida é o mistério de quem se move descalço num túnel completamente escuro!
Quanto mais a gente vive, mais a gente se acostuma com a realidade da morte. Você vai vendo mais e mais pessoas "passando além"...e sabe que em algum momento você mesmo "passará".
A realidade da morte é universal. E cumpre sua função em abrir caminho para que a vida continue, embora ela seja exceção. O mal é sempre uma questão particular, no drama maior que se desenrola ele é irrelevante.
Por isso os sábios sempre aconselharam a ter a morte em perspectiva, sem "travar" por causa dela, e viver a plenitude da vida a cada momento. Pois a visão da vida, ainda que transitória, nos leva sempre à maravilhosa consciência da grande oportunidade que é estar vivo.
Os sábios também nos aconselham a amar a vida em sua essência, e não nas formas artificiais que criamos. Eles nos dizem que nossos tesouros estão nas nossas experiências, no conhecimento que vamos adquirindo, nos valores que vamos praticando e nas relações com outras pessoas.
Eles nos incitam a não nos apegar demais aos nossos bens, a entender que nada trouxemos e nada levaremos daqui. Que o mundo gira não em torno da propriedade, uma abstração, mas numa imensa rede, a palavra do mundo é conexão.
A morte é sem remédio, mas é possível entender que ela é apenas uma parte da coisa quando temos nosso foco na vida.
A vida pode ser a coisa mais frágil do mundo, do nosso ponto de vista, mas é, disse Carl Sagan, a forma como o universo conhece a si mesmo.
E cada um de nós é universo, por isso a sabedoria ensina "Conhece-te a ti mesmo".
γνωθι σεαυτόν!

sábado, 21 de maio de 2016

Sobre Sistemas Fechados de Pensamento



Sobre sistemas de pensamento "fechados" e de como muito da militância, dita, intelectual não passa de massa amestrada.

Quando você pensa os acontecimentos (os e não nos) há duas coisas aqui. Os fatos em si e as hipóteses que você cria para explicar esses fatos. Todo sistema que aborda questões sociais é assim.
Existem muitos "sistemas intelectuais" ao nosso redor, influindo na nossa vida, mesmo que nós não tenhamos consciência deles. Esses sistemas são explicações particulares dos fatos do mundo.
O que você faz diante de um conjunto de explicações? Você rejeita, acata ou "limita criticamente", que é uma aplicação razoável das primeiras duas opções.
O problema é que certos sistemas funcionam como parede ideológica. Ou seja, embora sejam abordagens coerentes com aspectos da realidade e tenham potencial para "dar conta" de explicar alguns de seus mecanismos, eles se colocam como explicações completas e inalteráveis dessa realidade.
Explicando em miúdos, não permitem que você se volte criticamente para eles. Essa "liberdade" fica sempre restrita aos "outros", aos opositores do sistema. E sendo "opositores" eles não podem estar certos nunca.
Esses sistemas fechados são armadilhas intelectuais e formadores de "forças ideológicas" que não são fundamentadas em "valores humanos".
E por quê? Porque NENHUM sistema de pensamento que pretende analisar a realidade social humana é COMPLETO e DEFINITIVO. A realidade social humana não é definitiva, quem dirá um sistema de explicações sobre ela.
Essa é minha maior crítica aos "ISMOS" da nova militância social. Não é uma negação dos FATOS que eles se propõe explicar, mas de sua incapacidade de criticar seus próprios pensamentos.
Então pense em si mesmo, você consegue analisar criticamente as ideias que recebeu ou acatou INTEGRALMENTE esse sistema sem possibilidade de mudança?
O sistema em si permite essa avaliação crítica ou considera que isso é coisa da "oposição" (do sistema)?
Pois é, quase 100% das pessoas que vejo defendendo alguns desses "ismos" age assim, pois receberam um tipo de fé e não um sistema complexo de explicações transitórias. Esses grupos se aproximam muito mais de facções religiosas fundamentalistas que de intelectualidade coerente.
Quando você questiona as explicações, eles entendem que você está questionando os fatos sociais que deram origem a essas explicações, pois foram "amestrados" a ponto de não conseguir ver o mundo sem a lente de seus doutrinadores. A explicação passa a ser a realidade.
Eles não debatem, racionalizam.

sábado, 14 de maio de 2016

Sentido para a Vida


                     Perguntaram ao Frei Beto* qual o sentido da vida. Ele respondeu que o sentido da vida era dar um sentido à vida. Pensando nessa afirmação dele eu correlacionei as ideias que seguem para MIM MESMO.
                            
                             "Dar um sentido" pode sugerir significado ou direção.

-SIGNIFICADO implica em interpretar de modo positivo, avaliar simbolicamente os padrões mentais e de correlação social que nos envolvem e criar, a partir disso, uma "ambiência psicológica" de segurança e conforto.


-DIREÇÃO é apontar uma meta. Estabelecer o alvo para onde nossos esforços devem nos levar. A famosa frase do Gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas define bem esse quase dilema da vida, "se você não sabe aonde quer ir, qualquer caminho serve".

                             "Dar um sentido à vida" tem um caráter quase paradoxal, pois envolve, em nossa realidade íntima, duas relações aparentemente opostas. O significado que é algo "estático", no sentido em que nos ajuda a ter UM LUGAR NO MUNDO. A direção, por outro lado, é "cinética", pois tudo ao nosso redor, e nós mesmos, está em constante mudança pelo movimento característico da existência, da vida. Você imprime um movimento à sua vida ou é levado por qualquer força que se apresente.
É preciso dar sentido à vida.

* Programa Mamilos 67, "Profissão de fé": http://goo.gl/VjxKGf

terça-feira, 10 de maio de 2016

Quando Estávamos Juntos

E os dias...
tão calmos e sedentos como a lua
Quando desce para o mar...
E as noites...
Claudicantes e certas como o sol
Quando enfrenta os montes...
Ah! Meu amigos que os dias me trazem
E as noites levam como a sombra na Neblina
Já se foram encolhidos
Quando estávamos juntos e o frio nos impelia
Para mais perto uns dos outros...
Como se o frio companheiros
Fosse a força que faltava à nossa amizade
Mas era necessidade, apenas o frio...
Os dias eram gastos à beira d'água
Entre banhos e pescarias
Quando o frio não era tão intenso
E a vida...
A vida ainda corria por nossos membros
E as noites... deixávamos a mesma vida
Nas mesas das velhas tabernas de pedra
Onde aquecíamos o coração com
Cerveja quente e os doces sorrisos
Das nossas meninas...
E os dias, e as noites...
Tão sozinhas a deslizar
Nunca mais como fora antes
Como nunca mais será
Quando nos achávamos juntos a cada instante.

sábado, 7 de maio de 2016

Aspirações do Deserto

Hoje estou com as aspirações dos padres do deserto, dos ascetas essênios, dos sadhus e bodisatvas... Sem a grandeza deles, nem sua santidade. Em mim correm as frias luzes de todos esses grandes esquecidos. A luz que iluminou a Imitação de Cristo e o Jardim dos Sete Vales. O Deserto me chama, e a minha impiedade me prende na vida que rejeitou o pobre Francisco. E aqui, na terra das pedras, eu aspiro pelo deserto em meio ao deserto dos que não me veem.

domingo, 1 de maio de 2016

Sobre o filme " Caminho da Liberdade".

A sede, a fome e o frio nos perseguiam
Quando o alto da montanha alcançamos
E quase não acreditamos ao ver
Do outro lado verdes campos e rios
A neve engolia nossos pés
Como engoliu nossos companheiros
A morte a cada passo e as pedras
Dilacerando nossa carne e nossas vidas
O cume encoberto nunca víamos
Guiando-nos a teimosia da vontade
Que não se deixa morrer pelo caminho
E que insiste só hoje, só um pouquinho
Quando o cume da montanha alcançamos
Não havia dor ou fome ou agonia
Que tivesse o poder de nos tirar
A visão ampla que nos dava a vida!

terça-feira, 19 de abril de 2016

Emboscadas

As vozes na selva ecoam ao meu redor, conduzindo-me mais perto de onde as garras assomam e as asas negras cobrem a visão. As árvores são espinhosas, e um enxame de mosquitos briga por um pouco do meu sangue. O verde se esconde no alto, e deixa um raio ou outro vazar pelas copas. Ao redor das árvores dançam os sussurros dos que me perseguem, daqueles que se escondem nas sombras à espera de um vacilo, um local onde a maldade plante sua armadilha e a perfídia encontre a oportunidade da emboscada. Eu quisera usar minhas mãos, socar a face hipócrita dos meus inimigos, mas eles são fracos e covardes. Estou sozinho, sem chance de defesa, pois o que de mim se fala é dito nos corredores, e nas sombras se esconde o discurso daqueles que são piores que eu. A dor que me persegue é a dor da injustiça, e a frustração de quem não pode defender-se e não quer defender-se usando as armas vergonhosas dos que têm a alma maligna. 

domingo, 3 de abril de 2016

Os Peões





As ruas estão cheias de pessoas e as pessoas estão cheias de sonhos

Mas os sonhos estão vazios de ternura, pois a voz do coração
Já não é mais a voz corrente das Ruas!

Nos altos escalões alguém já nos convocou
Para as lutas e labutas  de uma lista infinda de metas e setas
De tanta injustiça que já não sabemos mais se
Justiça é coisa certa ou a curva do ar nas cúpulas
de todas as nossas Catedrais corruptas...

Somos um corpo compacto que enche as ruas com gritos e algazarra
Da fila gigantesca de gente segue uma linha de sangue e detritos
Quando a avalanche de gente encontra o fluxo contrário de gente
Que é gente como a gente mas foi feita outra gente 
Pela faixa que mancha a testa e o colorido marcante da camisa

E já não encontramos no outro o mesmo que a gente
Mas fomos feitos ramos divergentes e alto-excludentes
Do que fora antes a raça humana...

E os que ganham com o rosnar das feras
Atentam apenas para o desocupar dos tronos
Sai rei, entra rei e continuamos
Tão desamparados quanto antes

Que tivessem roubado nossa capacidade de pensar.


domingo, 13 de março de 2016

A Guerra Santa

A mão afaga, carcomida, a terra encharcada da vida que corria em nossas veias
A carne imóvel sobre a carne destruída e a sombra  embala com ardor os ossos brancos de todas as suas vítimas
A morte encheu o coração de quem na ignorância acolheu a insanidade da violência como a única saída
Das contradições que sufocam ao seu redor
Busca na palavra da religião, sem a razão, mas a razão
Se foi com a dor da contradição
Sobem aos ares os gases das carnes em decomposição
Que deus aceitaria essa oferta e cheiraria esse macabro incenso?
Que deus tem prazer nessa mórbida atividade?
Um deus que nutre-se da obscuridade que campeia pelas linhas obscuras que existem no fundo da natureza [quase] humana
Um insano desejo ancestral que é medo e ignorância
Uma fera que se esconde nas sombras da nossa natureza selvagem...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Confusão

"Não há limites para o que intentamos fazer, exceto a nossa capacidade de entender uns aos outros"!
Um dia eu li um texto lá na Bíblia que me fez pensar. Foi naquele episódio sobre a Torre de Babel (Gênesis 11). Os homens começaram a fazer o ziggurat, que é o nome desse tipo de construção na antiga Mesopotâmia, e Deus vendo aquilo disse para si mesmo "agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer" (versículo 6). O modo achado por YHWH (que alguns chama de "Jeová) foi confundir as línguas.

Nem quero entrar muito nas questões "mito-teológicas", mas há um jogo de palavras ali, o nome "Babel" soa semelhante a "confusão" em hebraico, mas em acadiano significava "portão de deus", tendo, inclusive, um análogo na mitologia suméria.
O curioso é que a divindade entendeu que aquele tipo de união de esforços implicava numa espécie de "evolução irrestrita do tecido social", ou algo assim.
E é verdade que quando os homens se unem, em qualquer época, com intenções benéficas ou não, uma série de dificuldades são vencidas. Na verdade, mesmo quando somos desunidos, como no caso das guerras, ainda conseguimos criar uma série de coisas interessantes. As disputas tem lá seu quinhão na evolução tecnológica. Mesmo assim existe alguns ideal de união, nem que seja no grupo.
Mas existe uma pedra no meio do caminho, a mesma do relato bíblico, que é a nossa capacidade de entendermos uns aos outros. Se no texto o veículo foi a diversidade linguística, hoje são as "ideias", os ideais forjados a ferro e fogo tais que, em alguns casos, nos impedem até de avaliar a realidade que nos cerca.
Sim, o texto estava certo, quando nos unimos não há limites para o que podemos fazer. Entretanto o fantasma da "incompreensão mútua", da falta de empatia, da incapacidade de ir além das formulações teóricas que aceitamos como verdades "absolutizadas", sempre nos lançará no atoleiro da confusão!
Não há limites para o que intentamos fazer, exceto a nossa capacidade de entender uns aos outros!

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Democracia e Educação

DEMOCRACIA é a tentativa de dar voz a todos os cidadãos. Os critérios para se saber quem é cidadão é que mudaram com o tempo, desde que os gregos começaram essa experiência.

Nem todos estão preparados para o tipo de responsabilidade que o jogo democrático exige. A melhor maneira para adestrar o ser humano para isso é através da EDUCAÇÃO, com tudo o que esse termo implica (formal, cultural, midiática e exemplar).

Não é algo desejável para quem está no comando do jogo que a maioria tenha realmente compreensão das dinâmicas da DEMOCRACIA e ainda assim é necessário manter o jogo, pois isso diminui a maior parte do "ímpeto revolucionário". 

Assim a EDUCAÇÃO é orientada no sentido da MANUTENÇÃO APARENTE da democracia, enquanto mantém a maior parte das pessoas naquele estado de capacidade limitada de entender e aplicar o processo democrático.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Estrada

Eu deixei os campos para trás, as árvores corriam nas laterais da estrada, enquanto as montanhas me acompanhavam vagarosamente. Só a estrada e o vento como amigos, e a vida, por pequena, pela frente. Sem tristeza ou alegria, apenas a mente calma como as águas de uma piscina coberta e vazia.
Os pneus engolem os quilômetros e o dia inclina-se receptivo diante de um entardecer avermelhado. Sobre mim o céu vai escurecendo e umas poucas estrelas solitárias adornam o firmamento. Na beirada do mundo, a Lua observa como uma atriz que aguarda seu momento de entrar no palco.
A tarde bafeja sobre mim seu hálito úmido, oferecendo seus lábios ocultos num apaixonado beijo. A natureza oferece-se isenta de maldade, ou de estranhamento. É tão natural que viva, e esperado que deixe o encarceramento. Todas as noites são dias brilhantes na esperança de que as almas se libertem de todas as formas construídas, dos prédios compactos e das vidas comprimidas.
Abraçar o mundo é fecundar a existência, diz a voz pacífica do vento. É morrer antes do fim do dia, para renascer, sempre, aos raios da primeira manhã. E toda manhã é a primeira, como toda tarde abre-se em véu para a seiva vivificante do crepúsculo!
E todo o resto se torna nada diante da experiência única da Estrada. Pois nela estão todos os fins, e nela os recomeços...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O conceito vem dos antigos...

O conceito vem de tempos muito antigos,
Mais do que alguém ousaria contar
Quando ainda corríamos pelas savanas
Ou antes que a linguagem moldasse o mundo!
Está impresso no fundo da nossa consciência
Como o mais insistente arquétipo
Do que surge para liderar encarnando
Todos os ideais de pureza e coragem
Nas histórias que contamos,
Nos mitos que inventamos,
Nos sonhos que tão docemente acalentamos...
E tudo ruiu, menos nossa aspiração
No dia em que nos sentamos frente ao sol
E choramos por um mundo por inteiro carente
De heróis...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Notas Sobre A Divina Comédia - Inferno.



Essa semana estou me dedicando à Divina Comédia-Inferno. Embora seja uma leitura fluída, a gente precisa dar uma olhada nas notas, ou no são Google, para entender uma ou outra referência.Apesar dessas pequenas dificuldades, a experiência da imersão no texto é maravilhosa! É poesia, mas tem uns "lances de modernidade" maravilhosos!

-Bem antes de Francis Underwood (House of Cards, da Netflix), Dante já "quebrava a quarta parede" para conversar com o Leitor, esse recurso nos leva mais para perto do texto, e nos coloca face a face com o autor.


-Outra coisa incrível são os, vou chamar assim, "recursos imagéticos", a forma como as coisas são descritas e os movimentos "performáticos" de torturadores e torturados. Numa "cena" Dante vê pessoas enterradas até a cintura e então a "câmera gira" e elas são mostradas como plantas, com as pernas para cima. Para mim esse foi um "lance" igualável (visualmente) às revoluções dentro da estação espacial de 2001 de Kubrick/Clarke.



-É certo que as visões de Dante influenciaram bastante o modo como "o reino de baixo" tem sido descrito popularmente até hoje, mesmo que o imaginário de tais imagens seja um produto medieval. É claro que Dante levou essa visão popular a outro patamar com a inclusão de elementos das mitologias grega e romana. Sem contar que o guia de Dante é Virgílio, autor da Eneida. A força desse poema é tanta que mesmo hoje muita gente alega ter "visões" de viagens infernais que em muito lembram Dante. Sem contar a influência direta no cinema e na literatura.Até os X-Men (1980) já estiveram por lá!

-Quando iniciei a leitura, me veio à mente um poema de Drummond, "tinha uma pedra no meio do caminho". Me soou por demais próximo com "No meio do caminho desta vida" da Comédia. Em literatura existe o conceito de "intertexto" (todo texto é um intertexto). Todo texto dialoga, seja direta ou indiretamente, com outros textos. Esse diálogo pode ser consciente, quanto um autor referencia outro claramente, ou mesmo inconsciente, quando é influenciado sem perceber. E "texto" não precisa ser algo escrito para ser referenciado. Achei, a princípio, que a ligação Dante/Drummond era uma reflexão minha, mas encontrei depois alguns estudos fazendo essa ligação, assim como ao poema "Maquina do Mundo" (meu preferido de Drummond). O poema de Drummond tem em vista a linguagem "erudita" em oposição aos usos populares, como o verbo "ter" no sentido de "haver", seguindo as linhas traçadas pelo modernismo. O poema de Dante também rompe uma barreira "clássica", ao utilizar a língua do povo, o italiano, e não o latim, como era costume.

No meio do caminho tinha uma pedra  

tinha uma pedra no meio do caminho  
tinha uma pedra  
no meio do caminho tinha uma pedra. 

Nunca me esquecerei desse acontecimento  

na vida de minhas retinas tão fatigadas.  
Nunca me esquecerei que no meio do caminho  
tinha uma pedra  
tinha uma pedra no meio do caminho  
no meio do caminho tinha uma pedra 


-Outra curiosidade está relacionada a Machado de Assis. Não são poucos os que dizem que ele foi um grande romancista, mas um poema mediano. Não acho que isso seja inteiramente justo, já que Assis "transbordou" para dentro do idioma uma série de influências hoje clássicas. E sem dúvida que sua prosa é poesia, para os ouvidos e olhos atentos...O interessante é que entre os poemas de Machado de Assis há diversas traduções. Você tem Shakespeare (To be or not to be), Poe (o Corvo) e o canto XXV do Inferno! E a versão de Machado, eu a li ao lado da outra, é deliciosa! E não consigo ver um bom tradutor de poesia (embora haja tantas críticas ao Corvo) como um poeta ruim. Esse canto XXV é bastante complexo, de novo, pela sucessão de imagens e transmutações, uma verdadeira metamorfose dantesca! Isso, Dante é adjetivo, embora eu achasse melhor que dantesco fosse algo como "deliciosamente incrível". A tradução de Dante por Assis está nas "Ocidentais" (eu tenho!).


Dantesco!