terça-feira, 17 de janeiro de 2017

As Luzes que Temos

Na vida seguimos as luzes que temos
Se as buscamos ou nos reserve a sorte
A pessoa não vê mais do que pode
Se o pode significa o que tenta alcançar
Há metas que existem para nos testar
E outras são coisas que lançam pelo caminho
Há fogo que queima com grande crepitar
E há chama que consome palha e se extingue
O esforço nos lança sempre contra as ondas
E talvez o orgulho nos encha em alto mar
Cuidamos vencer o gigante e não vemos
Que nos afasta para bem longe do continente
Amontoamos pedras e fazemos um nome
Como se o nome fosse algo a ficar
Ou as pedras fossem mais do que são
Pelo orgulho com que as empilhamos
E apenas vivemos pelas luzes que temos
Não as que apontam nosso turvo caminho
Mas as que surgem brilhando intensamente
Dos nossos olhos como faróis na escuridão.

domingo, 15 de janeiro de 2017

A Notação Linguística Universal

"As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo" 
                                                                                         Wittgenstein


Um pequeno auditório.

"Existem muitos sistemas informacionais. A língua é um deles. A língua falada é composta de sons que unidos de certo modo arbitrário constituem um veículo por onde informação passa de uma pessoa a outra. A língua escrita representa aqueles sons com sinais visuais com a mesma finalidade".
O palestrante lança um olhar amplo sobre sua audiência, não parece que eles estejam interessados. O discurso, na verdade, é uma simplificação bastante superficial de questões amplamente estudadas.
"As línguas escritas comportam diversas particularidades que são intrínsecas ao modo como seus sistemas , suas gramáticas, seus modos de impressão foram constituídos. Alguns sistemas de escrita são silábicos, outros são ideográficos, outros tantos são fonéticos. Há maior ou menor aproveitamento de espaço, maior ou menor capacidade condensativa. Em geral as escritas utilizam bastante espaço porque não possuem todos os meios da linguagem, como os gestos, entonação, expressões faciais, etc. Mas de certo modo todas elas conseguem expressar bem o que poderia ser expresso apenas por meio dos sons da fala. Mas os sons da fala são, eles mesmos, um código. A realidade que expressão está na mente do falante. O leitor, portanto, recebe uma realidade que é mediada de uma outra mente por meio da escrita, que poderia, de outro modo, ter sido fornecida pela fala".
Pausa.
"Imaginemos, entretanto, um modelo de notação linguística que fosse o veículo direto do pensamento, da informação, sem a mediação da linguagem particular. Imaginemos ainda que esse sistema fosse bastante econômico com espaço, conduzindo a quantidade de informação expressa numa frase longa no espaço de um caractere. Imagine também que as nuances da frase possam ser calculadas e cada uma delas expressa por meio de pequenas variações no modelo caractere-frase. É certo que a linguagem ideográfica faz algo parecido. Mas imagine que alguém possa dominar esse modelo sem decorar milhares de símbolos diferentes. Imagine que as variações escritas sejam pequenas, como nosso símbolos numéricos, e que a sobreposição de traços distintos, cujo cálculo obedeça uma lógica implícita, implique em todos os significados possíveis. A música e a matemática já fazem isso. Uma pessoa não precisa conhecer a língua de quem escreveu uma equação ou uma peça musical, basta-lhe conhecer as regras dessas linguagens. Uma notação linguística seria semelhante. Ela talvez não fosse eficiente para poesia ou as nuances estilísticas de certo escritor. Seria uma ferramenta de informação e uma espécie de tradutor direto, pois quem escreve o faz pensando no seu idioma e quem lê o faz também de acordo com sua linguagem particular".
Uma matéria:
O sistema do Notação Linguística Universal do doutor **** já a ferramenta principal de universalização do conhecimento, ultrapassando em importância a popularização da internet.
Outra:
O matemático **** apresentou hoje um revolucionário método de cálculo utilizando os modelos formais da notação linguística universal. Segundo ele, o a utilização do modelo permite cálculos hoje impossíveis pelo sistema numérico. "É como fazer cálculos em dimensões infinitas simultaneamente"- explicou o matemático. A expectativa é de que o sistema seja aplicado em outros campos do conhecimento, especialmente a informática e a genética.
O doutor **** afirmou hoje que não criou o modelo NLU, mas que na verdade o descreveu. Essa descrição levou à descoberta de propriedades que têm íntima relação com a estrutura de tudo o que existe. Já é certo que a essência do universo é de natureza informacional. Espera-se a solução de alguns problemas da física moderna. O problema da descrição, dizem os especialistas, não estava no método, mas nas ferramentas matemáticas.
Futuro:
A NLU revolucionou as ciências. Hoje entendemos melhor alguns fenômenos universais, e a tecnologia resultante lançou a humanidade numa era dourada. Manipulamos as energias universais com segurança, e nossos engenhos cruzam diariamente o Sistema solar. A vida, manipulada em seu nível mais básico, foi estendida de modo quase inimaginável poucas décadas antes. A NLU não nos permitiu apenas conversar uns com os outros, ela nos deu meios de dialogar com a realidade abstrata do universo. Ela nos deu o Logos universal.
__________________________________________________
Isso é um conto, uma ideia louca. E, guardadas as devidas proporções, é o que fez a revolução da escrita para a humanidade. Será que uma ferramente "analógica" dessas poderia ter um efeito como aquele? Quem sabe.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Os Mamutes


As nevascas vieram com força esse ano. A prefeitura suspendeu o voo de wingflies durante os períodos mais intensos. Eu precisava sair de casa. Decidi utilizar os trilhos públicos. Havia uma estação perto de casa. Com sorte não haveria mamutes pelo caminho. A manadas costumavam perambular por Colombo e por grandes trechos do Atuba essa época do ano, mas devido às intensas nevascas, elas se deslocaram mais para dentro de Curitiba. Ouvi pelos prompts que um grupo grande se instalara na praça Tiradentes, bem perto da saída norte dos vapores quentes. Pena. Pensava em chamar um pessoal para um banho no lago termal da praça, mas os mamutes ficam inquietos com humanos nas proximidades. Não há registro de ataques, mas os censores alertaram para uma mudança nos padrões de agressividade da espécie, antes apenas vistos nos períodos de acasalamento. O subtrain estava vazio, as pessoas preferem trabalhar remotamente quando o tempo não ajuda. Na verdade preferem trabalhar remotamente em qualquer tempo. Poucas profissões exigem tanta interação física direta como a minha. Eu faço inspeções nas highways informacionais. Verdade que em vinte anos nenhum problema foi constatado, mesmo porque os sistemas de proteção automáticos cuidavam de todos os detalhes. Mas devido a um acidente quando os serviços de segurança informacional ainda eram menos eficientes, incidente de que ninguém se lembrava mais, a lei exigia inspeção humana direta por pelo menos três vezes na semana.
Havia uma moça sentada umas duas poltronas longe de mim. Sua respiração estava pesada. Algum tipo de alergia. Como é que alguém se sujeita a ter alergia hoje em dia? E ainda mais por motivos ideológicos obscuros, como devia ser o caso dessa moça. O nariz estava bem vermelho, mas ela era bonita, apesar de ser muito clara e usar aquele corte curto e a tinta prata metalizada nos cabelos. Não sabia se ela tinha reparado em mim, suas lentes estavam penumbradas. Tentei uma hiperconeção com ela, mas seu hard pessoal estava bloqueado. Tudo o que eu via era o aviso de "usuário em conexão privada". Ok! Um dia como esses a pessoa encontra um outro ser humano e prefere não socializar. É uma tipica curitibana de três décadas atrás. Mania de ficar julgando as pessoas essa minha. Nem conheçia a garota. Vai ver ela estava numa narrativa de ludodrive- pensei.
Desci na Estação Central, a garota continuava na sua desinclusão social. Atravessei os dois quarteirões que me separavam da Praça Tiradentes em poucos minutos. A neve parara de cair. Eu mal sentia o vento por trás da proteção térmica. Havia mesmo alguns mamutes na praça. Eles estavam agrupados, como se estivessem tentando se aquecer. Obviamente não era isso, pois esses animais conseguiam resistir às temperaturas do satélite Europa com quase nenhum controle ambiental. Produzir vegetais em grande quantidade em Europa já é mais difícil, por isso os mamutes não vingaram por lá. Mas não foi o frio, certamente não foi.
Fiz as inspeções, no retorno ainda observei os mamutes pela praça. O lago estava borbulhando convidativo. Dei uma boa olhada nos mamutes, não parecia que eles se importavam comigo. Fui até o deck térmico, despi completamente a proteção e me atirei nas águas quentes. Que delícia! Fiquei boiando de barriga para cima, inteiramente nu. Talvez alguém estivesse me observando, uma das câmeras. Mas quem se importava com um cara nadando pelado num lago termal cercado de mamutes num dia como esses? Com tanta coisa passando nos hiperdrives e as possibilidades infinitas dos jogos de realidade virtual plena isso era quase impossível, e para os sistemas inteligentes não havia diferença entre um humano com roupas de um sem. Fiquei boiando com a barriga para cima,os braços e pernas abertos, vitruviano. O céu cinza, familiar.
Uma onda passou sobre mim. Alguém pulou na água. Tudo bem, a densidade me impediu de afundar e engolir água. Um pouco entrou pelas narinas.
"Desculpe" - uma voz feminina.
Fiquei na vertical. Era a garota do trem. Sorria. Reparei nos olhos castanhos e na conexão imediata dos drives pessoais. Sônia. Não era ideologia. A avó decidira pela passagem. E ela estava com as lentes penumbradas revendo imagens familiares. Não era como um curitibano de trinta anos antes. Nos perdemos naquela tarde cercados de mamutes lanosos. A praça iluminada artificialmente lançava as sombras dos mamutes sobre nós.
Um ano depois fundimos nossos receptores sob a sombra daquela mesma manada de mamutes, no mesmo lago e sob o mesmo signo dos tempos.
Depois disso fizemos duas viagens a Marte e conhecemos as estações de férias de Europa. Planejávamos uma longa viagem pelo cinturão externo quando os gêmeos vieram. Semanas depois observávamos os fetos na estação de incubação. Registramos a intenção de nomes e saímos para a viagem, agora um pouco mais curta por causa do ritual de nascimento dos gêmeos.
Os anos se foram. Ainda inspeciono as highways, mas não com tanta frequência e sempre quase sempre remotamente. Selena e Márcio decidiram emigrar. Ela atua na produção biológica de vida animal do instituto de terraformação de Alfa Centauri. Ele acompanha uma expedição científica perto da grande barreira de asteroides do limite delta da Galáxia.
Todo ano eu e Sônia comemoramos nossa união no lago da Tiradentes. Mas gostamos às vezes de patinar nas águas geladas do Parque Barigui. Agora os mamutes quase nunca saem dos limites de Colombo. A manada reduziu-se muito, ninguém entende direito por quê. É como se uma chateação da vida tivesse entrado neles. Sônia me diz que os mamutes têm também seu modo de passagem, como fizera sua avó anos antes, mas que era um meio natural. Eu começo a entender Sônia. Depois do secundo século de vida, a gente vai perdendo o gosto pelas coisas, pelas novidades. Mamutes vivem muito, tanto quanto a gente. E eles se cansam. Na verdade andamos cansados.
Estamos pensando em fazer a passagem. Já olhamos alguns mundos oníricos pelo catálogo, e até fizemos algumas imersões. Mas fica difícil escolher quando você ainda tem as limitações físicas, o verdadeiro encontro só pode se dar no fluxo dos dados.
Decidimos fazer isso nos meus 250 anos. Esperamos reunir a família para o ritual no mesmo laguinho quente.
Quem sabe os mamutes não aparecem?


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Antigamente...


Antigamente, quando eu não tinha tantas coisas para me preocupar, eu gostava de me perder pelos campos. Eu abria os braços e sentia o vento me levar, assim como o sol a acariciar meu rosto. O capim, havia muito capim naquela época, dançava ao meu redor, e o barulho era alguma coisa ancestral, difícil demais de reproduzir, mas numa linguagem que falava mesmo com o coração da gente.
Então eu me jogava sobre as touceiras de capim, e uma ave saía voando. Nessa época, você andava pelo campo e não via nada, então de repente uma codorna voava com uma barulho engraçado. De vez em quando você topava com uma cobra, mas as cobras, apesar de venenosas, eram mais honestas que as de hoje. Uma daquelas cobras antigas era perigosa como o diabo, e sorrateira, mas você sabia o que esperar dela, o bicho não tinha segredos. As de hoje não são assim, aliás, elas parecem qualquer coisa de bom, menos uma cobra. Às vezes você acha que elas são belas gaivotas, ou coelhinhos felpudos. E elas até agem como gaivotas ou coelhinhos. Mas então, se você baixar a guarda...
E tinha também os preás. Um preá é tipo um rato sem rabo. Melhor, é uma capivara anã. Mas que estou dizendo? O preá, se quer mesmo saber, é como um porquinho da índia. Só que um porquinho desses bem discretos, sem todas aquelas cores chamativas. Não pense que os preás eram feios, nada disso. Eles eram até que simpáticos, só que não eram muito ligados nesse negócio de socializar, como os porquinhos de hoje. Eles ficavam na deles, e, como as codornas, davam no pé ao menor sinal da gente.
Mas não foi suficiente. A gente quase que acabou com eles. Antes eles só se preocupavam com as cobras, mas o bicho gente é bem pior que qualquer cobra de verdade. Ainda vejo alguns deles de vez em quando num parque aqui da cidade. Os de hoje são bem menos ariscos. Algo que eu nunca entendi. deve ser porque há menos cobras, e a gente é mais dissimulado que elas.
Depois do campo eu gostava de cair no rio. Não me importava se houvesse os tais "peixes japoneses". Eu ainda não entendia esse negócio todo de ameaças microscópicas. Era só desviar do "tróço", ou "trôço", e tudo ia bem. Se bem que eles eram raros naquele tempo. As pessoas tinham lá suas privadas que devolviam ao solo o que do solo era. Hoje a gente não tem mais privadas. A gente tem esses belos banheiros higienizados. Nada daquele prazer ancestral de ir até a casinha no fundo do quintal, sentir as moscas zumbindo debaixo do traseiro e escutar o mergulho das fezes. Tempo bom! Hoje não tem privada, e nem vida privada. A privada de antigamente ocultava as nossas cagadas. Hoje não há vida privada que resista às nossas cagadas!
Quem sentiu o ventre cheio de madrugada, e conhecia as histórias de lobisomem, sabe bem como é ter a privada fora de casa. Era uma aventura, quando a necessidade era maior que o medo, atravessar o quintal na quaresma ou em noites de lua cheia! Se não nos pegasse o lobisomem, era bem que capaz que o fizesse uma visagem.
É claro que a gente não tinha essas frescuras todas, e a privada era quase um luxo. Se a coisa apertasse, a gente se aliviava onde desse, e se limpava, se, com o que tivesse. Às vezes era urtiga...


Nossa! Comecei esse texto tão poético e quase o termino afundado em merda. Mas é que quando a gente vive atolado nelas, até as merdas de antigamente parecem mais puras.
Mas isso foi quando eu não me preocupava com tantas coisas. Foi naquele tempo em que uma coisa boa era sentida até se esgotar, e não com esse prazer rápido das coisas que não passam de imagens descartáveis que tanto nos ocupam hoje.
Foi naquele tempo. Foi num tempo. Foi num lugar no tempo que só pode ser visitado com a saudade embalada no pensamento. Uma visita que termina rápida, e sem muito sentido, como esse texto.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Empatia

Empatia. Se para o indivíduo que a sente, ela pode ser dolorosa, é bastante evidente que nas relações "maiores" ela não é só importante como, tenho a ousadia de dizer, sua ausência é um dos MAIORES PROBLEMAS DO MUNDO, se não for o MAIOR.
Não é mais dúvida que somos todos membros de uma só espécie,a humana, mesmo assim estamos divididos em estratos sem fim. Desde sempre dividimos o mundo entre "nós" e os "outros". O "nós" representa aqueles para quem a empatia é permitida, e os "outros" são os interditos. As razões para isso estão, falando num sentido profundo, intimamente ligadas ao modo como nossa especie se desenvolveu, em suma, era uma questão de sobrevivência num ambiente com recursos limitados.
Obviamente ainda vivemos numa ambiente com recursos limitados, mas o nosso modo de organização social se desenvolveu a tal ponto numa rede tão intrincada de relações econômicas, culturais, etc, que não faz mais sentido, organicamente falando, a divisão em pequenos grupos. A humanidade é hoje uma grande organismo que se espalha sobre a face do mundo. Não é mais possível, nesse tipo de civilização, manter o distanciamento. É por isso que a empatia é tão necessária, pois o "outro" foi extinto. Só há "nós". Não podemos fugir, é irracional conquistar territórios e expurgar suas populações.
O modelo dicotômico pertence ao nosso passado, e talvez faça algum sentido, mas ele não é viável no mundo de hoje, e talvez já não fosse por uns bons séculos antes de nós. Porque nossas civilizações estão unidas por nossa tecnologia, nosso "modo de vida moderno". E a não ser que nosso mundo sofra um cataclismo universal, isso continuará irreversível.
Só que instintivamente ainda somos aqueles desbravadores tribais que saíram da África, conquistaram Ásia, Europa, Oceania e Américas, deixando uma trilha de ilhas povoadas pelo caminho, e sempre esquecendo que éramos irmãos dos que iam ficando para trás.
Nosso sentimento pessoal, instintivo, nos leva a buscar um grupo de pertencimento, já que não conseguimos, sem que uma força coletiva e civilizante nos leve a isso, nos enxergar como parte de uma realidade humana "macro".
Mas somos humanos, e precisamos "moralizar" nossas bandeiras. Vistas com os olhos limpos, todas essas batalhas não fazem o menor sentido, mas estamos sempre organizando nosso mundo ideal através de numerosas racionalizações que geram ideias, livros, movimentos, revoluções, guerras, apartheids e, paradoxalmente, irracionalidade.
Em nosso mundo, o "outro" já não é mais um objeto que impede a nossa sobrevivência, ou uma fonte de novos recursos. Ele é uma abstração, uma forma de "alterização" artificial. O outro é construído a partir de modelos teóricos, fabricado a partir de uma idealização do que somos "nós". O "outro" é uma imagem inversa e fragmentária de uma realidade que só pode ser boa do lado de cá.
E isso é exatamente o contrário da empatia, ou uma forma bizarra de empatia. Em vez de se colocar no lugar do outro, projeta-se no outro os demônios da nossa própria imagem (imaginária) "imperfeitizada".
Não se trata mais de pensar diferente, mas de pensar que se é diferente. Diante disso, todo mal é justificado e toda violência desculpada.
"Ame o próximo como a si mesmo"
Mas quem é meu próximo?

domingo, 18 de dezembro de 2016

Liberdade

A liberdade que você deseja pode ser a prisão do seu próximo. Quando você não a limita, ela é limitada nos outros. Liberdade é poder quando a usamos para não fazer certas coisas mais que fazer outras. Andar desenfreado em nome da liberdade, passando por cima de tudo e de todos, já não é liberdade. É escravidão. Um carro sem direção não é livre, é passivo do acaso, sendo vítima de toda circunstância que está fora dele. E mesmo que fosse aparentemente livre, evitando as forças exteriores, ainda seria um prisioneiro das consequências. A liberdade é um conceito escorregadio. Ela flui por entre nossos dedos quando abusamos dela, e fortalece-se quando a preservamos nos outros. Não há forma melhor nem mais duradoura de liberdade do que tomar a decisão de respeitar a justa liberdade alheia.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Como uma folha no início do Outono



E seu eu pudesse, como as folhas no início do outono, flutuar abrigado nas correntes invisíveis do ar? Ali entre terra e céu a eternidade de uma folha se aninha nas dobras incertas da infinitesimal parte de um "estar".
A noite e o dia espremidos no leve farfalhar da folha, pluma verde, transportada pelo ar. Carências não haveria, pois somente o ar ao redor, folha sensível, ditaria cada querer e cada desejar.
A folha pairando no ar é a vida entre vagir e estertorar, é começo e despedida, tudo junto, como se o mínimo fosse a expressão do infinito e este como um nó numa corda que se lança entre o nada e o não-ser nas sombras do fim, se há.
Seria brisa forte ou ventania, mas o tempo, se havia, correria pelas encostas gramadas, como carneiro selvagem dando saltos sobre saltos e voltando-se para cima enquanto encaminha-se para baixo.
E no fim, que é sempre o começo, a folha, como um véu que se desprende das noivas que vivem entre as estrelas, pousaria em doce calma sobre o solo e a desintegração começaria sua arte inimitável de fazer com que o que foi seja parte desse incerto ciclo que se chama vida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Era novembro de 1989
















Era novembro de 1989 e as coisas estavam quentes por causa da campanha presidencial, a primeira com eleições diretas para presidente desde o fim do período militar. O clima era de esperança, parecia que o Brasil finalmente ia engrenar!
Lula e Collor disputavam as eleições. O pessoal, principalmente os mais pobres, estava deslumbrado pelo Collor.
O VANDERLEI falava comigo. Ele tinha visto um debate entre os candidatos, e ficara muito impressionado pelas respostas do Collor.
A cultura era, como é, pesadamente mediada pela televisão. Principalmente a Globo. Era óbvio que Collor era a opção da emissora. Ele encarnava perfeitamente o galã de telenovela, jovem, bem sucedido, esportista e inteligente. Ou assim fazia crer. Era era mais ou menos o Roque Santeiro (personagem de José Wilker na novela do mesmo nome) da vida real. E quem viveu aquela época sabe que o ator virou uma espécie de herói nacional, numa convergência da ficção com a realidade. Assim Collor foi recebido. E não era só o clima brasileiro, mas o mundo todo parecia efervescer. Naquele mesmo mês de novembro caiu o muro de Berlim.

Collor representava o novo mundo, a esperança. Era o Messias, como antes fora Tancredo Neves, mas atualizado para uma nova época, e com muito mais "charme". Aliás, como é forte esse negócio de messianismo na política! Anos depois até o Lula ia encarnar esse arquétipo, e com sucesso.

Mas eu estava tendo uma conversa com o Vanderlei. Ele fazia um panegírico (discurso elogioso) ao Collor, e eu ouvia deslumbrado. Ironicamente essa conversa se desenrolava num local bem pobre. Não havia água ou luz elétrica. A paisagem era bonita, um campo verde com alguns barracos e um rio ao fundo. Mas a pobreza era palpável. As pessoas que viviam nesses barracos haviam sido desalojadas de outro lugar.
Eu preciso falar do Vanderlei. Era meu amigo, dois anos mais velho. Ele tinha lá seus 16 anos. O pai tinha arrumado uma mulher mais jovem a deixara ao Vande a responsabilidade de cuidar da mãe e de dois irmão mais jovens. Ele trabalhava com construção, e não deixava faltar comida na mesa.
O Vande era um sucesso entre a gente. Na época os filmes de artes marciais faziam muito sucesso, e ele conseguia fazer uma abertura de pernas completa sobre duas cadeiras, igual ao Van Damme.
Mas era um garoto pobre, e com pouca educação formal que via no Collor o salvador do Brasil.
O tempo passou. Collor foi e voltou. A população, embora mais "educada", mudou muito pouco e messias ainda aparecem em toda nova eleição.
E eu não sei como anda o Vanderlei, hoje com seus 44 ou 45 anos. Será que ainda persegue seus messias? Ainda faz a abertura do Van Damme sobre duas cadeiras e acompanha extasiado os debates políticos?
Ou se tornou, como boa parte de nós, um telespectador desiludido que observa os tempos irem e virem, num eterno rodopiar de novidades que não passam de velharias repaginadas?
Vai saber.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Sobre ser Crítico

Ter senso crítico não significa colocar-se sempre contra tudo e todos. O senso crítico é algo que deve ser desenvolvido pelo estudo e observação do mundo ao redor. Uma pessoa com senso crítico desenvolvido não se coloca como portadora da verdade, mas como alguém que analisa aquilo que recebe, ou mesmo aquilo que produz.
Ter senso crítico não significa emitir sempre opiniões críticas. Ele é uma ferramenta de compreensão do homem para si. Mas às vezes a pessoa decide se manifestar.
Quem critica aquilo que não conhece, ou que conhece muito superficialmente, ainda é escravo da sua própria ignorância. Existem coisas que podem ser criticadas no primeiro contato, pois não demandam conhecimento mais aprofundado. Mas é sempre bom respirar antes de emitir a opinião.
Uma crítica imperfeita é aquela que não traz junto uma solução. É fácil demais apontar o dedo, mas fazer melhor não é tão simples assim.
A melhor crítica será sempre a ponderada, aquela que primeiro imergiu no conhecimento que pretende analisar. Aquela que soube ver pelos olhos do seu contrário e sentir pelo seu coração. Logo, uma crítica adequada sempre carrega um tanto de empatia.
A melhor crítica concentra seu esforço na coisa criticada, e, se não for esse o caso, evita criticar quem carrega tal ideia.
Só em casos extremos ela é virulenta, e apenas aí sua força é endereçada à pessoa, pois não se trata de combater ideias, mas indivíduos que usam ideias apenas como subterfúgios.
A crítica não é a coroa do crítico, é apenas a capacidade que ele tem de comparar ativamente o que está diante de si com o que existe dentro de si. um crítico razoável nunca será uma pessoa vazia, e muito menos apressada.
A melhor crítica é aquela que ganha uma consciência, e passa tão despercebida que nem se cogita que houve mesmo uma crítica.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

POR FAVOR NÃO JOGUE PAPEL NO CHÃO

"POR FAVOR NÃO JOGUE PAPEL NO CHÃO"
"Não jogue papel no chão" como aviso num banheiro, escrito assim mesmo, já parece algo redundante, afinal, papel usado não deve ser jogado mesmo no cesto reservado para esse fim? Parece óbvio, não?
Trafegue pela rua e não pela calçada.
Use roupas ao sair de casa.
Não evacue no chão da cozinha.

E os avisos que deveriam ser desnecessários se avolumam.
Por que as pessoas têm que ser lembradas de que não devem fazer aquilo que é lógico não fazer?
Mas a surpresa não está na redundância do aviso. Está na locução adverbial que antecede. Não é um aviso, nem uma ameaça. É um pedido.
Como se alguém do outro lado implorasse "por favor não faça isso ". Imagino que o "por favor" ali é só polidez mesmo (ou ironia), um "por favor" do tipo "caramba meu, você vai fazer isso mesmo?".
Por que um banheiro precisa desse aviso? E daquele outro: "mire no centro do vaso ô cara!". "Por gentileza, não use suas fezes como tinta para deixar mensagens escritas à mão nas paredes".
É uma merda...
E o aviso? Ora, o banheiro é coletivo. E você sabe, o que é de todos acaba não sendo responsabilidade de ninguém. Não! Pelo contrário!!!!
E os avisos desnecessários continuarão absolutamente necessários. Se não para ameaçar, pelo menos para tocar o coraçãozinho do criminosinho anônimo que insiste nos seus pequenos atos revolucionários...

sábado, 12 de novembro de 2016

Quando comprei meus chinelos.



Quase todo mundo tem uma história marcante vivida na infância. Pode ser o dia em que aprendeu a andar de bicicleta, ou ganhou medalha no judô, tirou dez na prova de matemática, ou quem sabe ganhou aquele brinquedo que todos os amigos queriam. Eu também tenho a minha história , e ela aconteceu no dia em que comprei meu primeiro par de chinelos, as populares sandálias de borracha Havaianas.
Eu tinha, então, oito anos e as coisas andavam muito difíceis. Meus irmãos Cristiansara e Alex eram muito pequenos. Faltava tudo.
Naquela manhã o chinelo arrebentou de novo, e não havia mais prego que desse jeito. Minha mãe não tinha dinheiro para coisas mais urgentes, quem dirá meus chinelos.

Eu tinha que arrumar "algum". Na verdade eu já vendia sorvetes nas horas de folga, mas o que eu ganhava era sempre tão pouco...
Era um domingo. Saí de casa descalço e sem camisa, mas decidido. Fui até a sorveteria, apanhei a primeira caixa, e a segunda, e a terceira...
Andei pelas ruas apitando e trocando os pedaços de gelo levemente aromatizados pelas desejadas moedinhas.
No fim da tarde entreguei a caixa vazia. Assim que entreguei eles fecharam a sorveteria. Eu lembro de uma menina mais velha me atendendo e dizendo que eu fora o único sorveteiro daquele dia.
Eu não lembro o valor, nem o que eu senti. Mas não me esqueço da minha mãe me levando ao mercado. Esse mercado ficava onde hoje é o Supermercado Basso, perto da pedreira Paulo Leminski. Não sei se já era esse o nome.
Lembro claramente da minha mãe procurando meu número na prateleira, do pacote de plástico com fecho de barbante e dos chinelos. Chinelos dos mais simples, brancos em cima e azuis claros no solado e nas correias. Mas meus chinelos! Chinelos que me custaram um dia todo de trabalho, umas boas topadas nas pedras, cortes nas solas dos pés e uma experiência que me enche a memória de uma alegria ainda inexprimível trinta e quatro anos depois.
E ainda sobrou dinheiro para comprar alguma comida. 

Animais Sociais

A vida moderna, com sua ênfase no individualismo e no sucesso pessoal, nos privou de algo natural em nossa espécie, a identidade comunitária.
Hoje mal conhecemos nossos vizinhos, e mesmo mantendo uma vida social "adequada", ainda criamos rituais que permitam algum distanciamento. Essa é a razão do sucesso, tanto agora quanto no futuro, das religiões, ideologias, torcidas organizadas, clubes disso e daquilo... enfim, tudo o que promova o sentimento de pertencimento.
Somos animais sociais que só encontram sua plena realização no convívio com outros. A própria individualidade é um efeito da pluralidade comunitária. Pois o "eu" sem o "tu" se perde no oceano dos termos sem referencial.
A recuperação da sociedade, e de uma individualidade sadia, passa, necessariamente, pelo resgate da nossa natureza gregária, do nosso desejo insatisfeito de pertencimento, de comunidade.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Eu sigo

Eu sigo a luz dourada do último raio de sol
Acariciando em sua despedida as faces dos vales
E permitindo às sombras que mergulhem
Nas águas calmas dos lagos e sinuosidades dos rios
Quando as árvores alegres e matreiras dizem
Seus últimos versos ao anoitecer, rodeadas
Pelo canto dissonante das aves e pela
Balada ancestral sussurrada pelo vento
Eu sigo,
E a luz pálida da lua, refletida nos ladrilhos
Da minha casa de paixões e ternuras
Inunda minhas velhas aspirações de um certo desejo
Antigo, e amealhado de zombeteiros pensamentos
Que levam a última chama da minha ilusão
Racional aos vales áridos onde minhas alma
Acampa rodeada de velhos e novos espíritos
Todos eles esquecidos pela nova gente
Que jorra de todas as tocas e das cavernas
Artificiais, onde o mundo toca uma reverberante
Canção que me afugenta, e me faz desejar
A solidão das imensas pradarias dos meu mais
Ilegítimos sonhos...
Eu sigo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Filhos e Árvores


Existe algo imprevisível na criação dos filhos que se assemelha, guardadas as devidas proporções, ao cultivo de uma árvore frutífera.
Você pode escolher o lugar em que vai plantar a muda, mas não pode controlar os limites de suas raízes. Você poda seus galhos, e até, por meio de algumas técnicas, controla a direção e tamanho deles. Mas não pode controlar, em essência, todas as possibilidades de configuração desses galhos. Não é possível saber como e quando se desenvolverá cada um de seus pequenos ramos.
Você pode fornecer à sua planta água e os nutrientes necessários para que ela se torne viçosa e frutífera, mas é incerto que ela dará frutos até que chegue a época certa e você veja despontarem as primeiras flores. É incerto que os frutos, mesmo com o melhor de seus cuidados, terão exatamente a cor e sabor que você gostaria, pois você não pode controlar o modo como sua planta foi polinizada e nem mesmo a origem dos grãos de polem trazidos pela abelhinha industriosa ou pelo vento impessoal. , Exceto se tiver um grande número de plantas num local totalmente controlado, mas nesse caso a sua planta será para sempre dependente daquele ambiente, e menos viva que todas as outras que vivem entre a terra e o céu.
Você pode ser o melhor lavrador do mundo, mas depende de outros fatores além de sua vontade. Nossos filhos também sofrem influências que não podemos nem devemos controlar. O bom lavrador faz o melhor de si, mas é no mundo ao redor que sua planta vai buscar aquilo que a torna apta a sobreviver. Os filhos levam muito de nós, mas é no mundo que sua própria essência se cristaliza a partir do que têm e do que receberão.
Um filho é como uma árvore que dará os seus frutos se bem cuidada. Mas o lavrador deve entender e aceitar que ele não produz nada, ele apenas abre os portões por onde entram e saem as emanações da vida.
O resto são consequências.

sábado, 10 de setembro de 2016

Sobre o nome do Blog

Alterei o nome do blog para "Sobre Sentidos e Direções", com todas as significâncias que isso pode trazer, porque não havia mais sentido em defini-lo como "divagações". Faz tempo que esse blog deixou de ser apenas um local onde posto poemas e outras textos literários. Há muitos artigos de opinião tratando de temas diversos como comportamento, política, religião, ciência, etc. Eu gosto das coisas assim, não faria muito sentido criar um blog para cada um dos temas que gosto. Eu já tenho pouco tempo para este, imagina ter que manter outros, considerando que já tenho dois, e o outro é uma espécie de fóssil.

Não mudei o domínio porque isso poderia afetar as buscas.

OBS: Depois descobri que havia outros blogs sentido, sentido e direções, então resolvi colocar um "sobre" na frente. Isso meio que dá um ar clássico, pois os tratados de antigamente sempre tinham um "sobre" na frente. Fica assim mesmo por enquanto.

Policiais e Militares


Militar vem etimologicamente de "miles", o termo em latim para "soldado" (que por sua vez é "aquele que recebe soldo"). Em português "militar" é alguém que faz parte das forças armadas ou pertence a alguma instituição regida por leis, normas e regras marciais, isto é, relacionadas à guerra, à ética do guerreiro.
O militar tem uma ética própria, calcada em valores da pátria. Seu fim é sempre coletivo. O soldado defende a nacionalidade, ele garante que uma nação mantenha sua unidade, com seu sistema de governo e população. O militar incorpora o ideal guerreiro em que matar o inimigo constitui honra, assim como morrer em defesa de sua nação. O militar não mata como fim. O fim é a derrota do inimigo. O inimigo do soldado, ou seja, o soldado de outra nação, ou de facção interna da própria nação, não é alguém "mau", ele não cometeu crime algum exceto estar do lado errado no campo de batalha.
Policial é um termo que deriva, através de "politéia", de "polis", de onde derivam "polites" e "politikós" (πολίτης, πολῑτικός) , que era o cidadão com direito de voto nas antigas cidades-estado gregas. O policial é um profissional que garante a ordem interna de uma sociedade.Ele atua coletivamente, mas sua função exige o trato individual, pois os "casos" em que se envolve são sempre relacionados a um grupo restrito de pessoas.
Os romanos traduziram "polis" como "civitas", nesse caso Roma, a grande cidade "que reina sobre os reis da Terra" (segundo o Apocalipse) ou aquela que é oposta à Civitate Dei (cidade de Deus) de Santo Agostinho. De "civitas" derivou "civil". Os herdeiros diretos dessas cidades são os Estados Nacionais. O policial, portanto, tem sua função ligadas às relações civis. Ele atua contra o erro, o seu adversário é sempre alguém cujos atos são "maus". O policial é um promotor de cidadania, ele é o garantidor da ordem interna do estado.
Quando observamos as ordens internas desses dois tipos de instituição percebemos suas finalidades distintas. E a finalidade de uma instituição é o que organiza sua estruturação e determina os modos de formação de seus membros. Para o militar, o mal é o que anima qualquer um que esteja do outro lado, o inimigo. O policial tem como inimigos os ATOS que se opõe à justa operação das relações internas do estado e de seus cidadãos. O militar fala em "luta" num sentido literal. "Luta" para o policial tem vários sentidos e nem todos implicam num confronto físico com forças opositoras, exceto quando as funções do militar e do policial se fundem em casos de guerra civil, de confrontos com o crime organizado, etc.
O militar atua como polícia local, mas apenas em caráter temporário e quando a estrutura do estado está ameaçada. O militar garante a unidade do estado, o policial garante a capacidade de operação desse estado.
Confundir de modo permanente essas duas importantes funções pode gerar um desiquilíbrio grave no conceito de cidadania. Pois o cidadão infrator deixa de ser alguém com ação imprópria limitada no tempo para se tornar um inimigo a ser eliminado. E a população "não-infratora" acaba sendo vista com desconfiança, no mesmo sentido que soldados vêem populações autóctones em zonas invadidas. O militar vê a pessoa, pois ela "faz parte de". O policial vê o ato. Para o militar, a pessoa só tem os direitos que são determinados pelas convenções da guerra. Para o policial a pessoa só tem as limitações impostas pelas leis.
No Brasil temos as duas funções confundidas. Daí temos uma série de políticas e técnicas em relação ao público que assumem uma perspectiva de guerra urbana. As medidas para melhorar a polícia sempre têm como fim manter certa aparência para os cidadãos, considerando que as estruturas rígidas do militarismo não podem ser mudadas.
Num ambiente assim, a "polícia" deixa de ser um serviço para se tornar uma instituição e o cidadão passa a ser visto como alguém de segunda ordem. Essas são razões básicas para se repensar a estrutura policial brasileira. Apesar do que parece, mesmo as instituições de nome civil obedecem à regra implícita do modelo militarizado.
O grande desafio da segurança pública brasileira é criar um modelo de polícia que seja guiado por noções de cidadania e liberte-se da luta armada contra o inimigo do estado.

sábado, 3 de setembro de 2016

Lembrança


Ontem eu fui atacado.
Fui atacado por uma daquelas lembranças que nos levam lá para os dias da inocência. A coisa aconteceu em 1988, no dia 18 de novembro, era começo de noite.
Eu tinha treze anos. O coração apertado. No dia seguinte seria meu aniversário e estaríamos de mudança.

Eu era muito inocente. Demais da conta! Muito diferente dos adolescentes de hoje, e até suspeito que dos daquele tempo também.
Eu estava apaixonado. A primeira névoa do amor cobrira meus olhos já desarrazoados.
A menina se chamava Marli, tinha dezesseis anos e era a irmã mais velha de um de meus amigos. Mas as meninas de dezesseis anos daquela época, como as de hoje, imagino, estavam mais interessadas nos rapazes de dezenove ou mais.
Não havia como ela notar aquele moleque que jogava bola na rua com seu irmão.
A Marli trabalhava num supermercado, e toda noite eu esperava ela passar. Ela passava pela rua e meu dia estava ganho. Não sei se algum dia ela notou que eu estava ali, na beirada do terreno, geralmente sentado com o queixo apoiado nas mãos.
E aquela seria nossa última noite juntos!
Meu coração batia forte. Ela passou, eu chamei sei nome. Ela parou.
"Eu só queria me despedir de você, amanhã eu vou me mudar".
Ainda lembro do modo como ela me olhou. Foi uma mistura de pena com, talvez, um pouco mais de afeto do que o razoável...
Ela disse algo, mas eu já tinha me perdido nos seus olhos negros.
Então ela colocou as mãos sobre meus ombros e depositou vagarosamente os lábios sobre os meus.
O mundo parou. Silêncio.
Ela se afastou. E eu me virei. Não podia dizer mais nada. E corri, corri com todas as minhas forças! Eu não olhei para trás, eu apenas me projetei para a frente movido por uma energia que eu nunca sentira antes!
A mudança veio. E os anos se foram.
Quando eu tinha dezenove anos encontrei a Marli no ônibus. Agora éramos dois jovens e a diferença de idade não parecia mais tão grande. Conversamos um pouco. Chegou seu ponto e ela desceu. Não houve mais nada, nem a vontade de que houvesse.
Ela talvez ainda fosse a Marli daquele começo de noite. A Marli carinhosa daquele beijo.
Eu é que não era mais o mesmo.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Sobre a Dominação Ideológica da nova Militância Social

Foto da Militante Elisa Quadros, a "Sininho".

A "nova militância social" entra nas regiões mais pobres e faz proselitismo intelectual. O pobre e sua comunidade não passam de abstrações sociológicas para essa militância. Eles entram com ideias prontas, e criam movimentos que não são originariamente produto da reflexão das pessoas que vivem naquelas comunidades.
E mesmo assim o militante social vê nas pessoas o que os estudiosos em comportamento animal vêem na natureza. As pessoas e suas relações são reduzidas a um aforismo, um apotegma.

Esse militante vem carregado com conceitos intelectuais muito belos, e ele mesmo, cheio das ideias que tem de si , encarna o libertador, a entidade que destrói toda opressão real ou imaginária ou potencialmente imaginária.
E ainda assim o pobre exerce sobre ele uma espécie de fascínio existencial. O pobre é o que mais se parece com o bom selvagem de Rousseau, depois do índio. Por isso o militante admira o pobre, pois ele representar a antítese do seu próprio modo de vida artificial. Na favela, as relações sociais dependem muito mais das pessoas do que de uma imposição do estado ou das regras de convivência explicitadas nos livros e nas filas da Disney.
Ele precisa do pobre, ele precisa sentir a vida como ela é. Ele tem desejos de dançar na lama com os meninos seminus, mas seu superego conflitado se insurge, e ele mesmo, ainda suspirando pela lama romântica tenta a todo custo suprimir a lama das favelas.
De fato esse militante exerce um tipo de violência sobre essas comunidades, pois ele representa um fluxo de dominação ideológica e intelectual que não tem origem naquelas comunidades. Ele pode observá-los, tecer explicações sobre eles, mas não tem como ele entender essencialmente o que eles são.
O melhor para essas comunidades seria produzir seu próprio pensamento, criar um movimento que não seja fruto das crises de consciência de uma elite entediada. O pobre vai para a academia e volta mimetizando as dores do rico e trazendo as mesmas soluções. É preciso libertar-se disso também.
Eu sei. Sempre fui pobre.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

As vozes dolorosas enchem as fronteiras...

As vozes dolorosas enchem as fronteiras
De gente que sofre, que sente, gente que morre
Como formigas...
As luzes de todas as cidades são reflexos
Dessa indiferença
E as paredes escondem nossa vergonha
Das vítimas que se amontoam pelas
Praças de outras cidades
Nas noites frias contemplamos as faces
Quentes de nossos filhos que adormecem
E esquecemos as faces suplicantes
Dos filhos de filhos esquecidos
Dos filhos da nossa gente!
Damos de ombros, e os ombros da mente
À responsabilidade que não pensamos
Que temos
Como se a vida tivesse tornado
Nossa natureza amplamente social
Em individualidade furtiva
Somos nós os geradores
De todo esse mal que não é necessário
Como se algum o fosse...
Talvez um dia tenhamos a coragem de banir
A dor que criamos
Para além de qualquer fronteira
De qualquer possibilidade de lembrança
Talvez uma dia tenhamos
No igual um igual e irmão
E nenhuma diferença haja
Nem posição, cor ou escolha
No dia em que a única pátria
Seja a humanidade.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Político Sazonal


Hoje aqui me apresento caro amigo eleitor
Sou o político sazonal a seu inteiro dispor!
Eu corro as ruas e morros a cada novo pleito
Pois só tenho uma meta que é ser de novo eleito!

Eu beijo criança, beijo velhinho e se calhar cachorrinho
Pois só penso no cargo onde por quatro anos me aninho
Eu sei o discurso da ética e da tal da honestidade
Mas penso que o bem é coisa das casas de caridade

E se você pensar bem, por que não votar em mim?
Eu pelo menos me escondo em mandatos sem fim
Ficando dos seus olhos oculto e nas intrigas banais
Fazendo meus belos atos de hipocrisias teatrais!

E se me acusa de ser sem vergonha, ora amigo!
Somos todos bem culpados, se não, pensa comigo:
Se quem vota é como quem entrega cheque assinado
Que culpa tenho eu se só o tenho, e bem, descontado?

Vou deixando aqui meu santinho com minha foto sorridente
Sem te contar dos fantasmas - um e outro meu parente
Dizem que em política não é adulta a população brasileira 
Não sei, só sei que a omissão é minha alegria financeira!

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Sobre Organizações Terroristas e Fragmentação Nacional


Se as pessoas do mundo fossem indagadas sobre a face mais clara do mal, eu não tenho dúvida que lá nos primeiros lugares estaria o ESTADO ISLÂMICO. Ele e seus congeneres TALIBAN e BOKO HARAM são o que de mais "aplicado" existe em fanatismo e loucura homicida.
Houve época em que a gente ouvia falar em terrorismo como coisa distante, até que em 2001 ele se tornou global. Mas a AL Qaeda representava um terrorismo algo esclarecido, menos sanguinário. A ponto de muita gente questionar se as notícias não eram mera invenção da CIA. O EI não é assim, ele mesmo faz questão de cinematografar suas atrocidades. De qualquer modo, o crescimento dessas organizações mostra, pelo menos para mim, a importância dos Estados modernos organizados, mesmo que não sejam democracias no sentido ocidental.
O TALIBAN, esse sim cria da CIA (e do RAMBO...) cresceu e se firmou num estado dividido entre lutas tribais e a dominação soviética. Bin Laden, treinado pela CIA, mais tarde se voltou contra seus benfeitores e criou a AL QAEDA .
Os americanos, -sempre os americanos!- na sua luta contra a Al Qaeda e na sua ânsia por petróleo, destruiram as frágeis bases da estabilidade no oriente médio. Da fragmentação de nações, e da AL Qaeda, surgiu o Estado Islâmico.
O Boko Haram surgiu na Nigéria, e nem preciso falar da instabilidade de boa parte das repúblicas africanas, herança do período imperialista europeu. Instabilidade por questões de herança tribal e divisão de terras e povos, de religiosidade autóctone, de fragmentação importada pelas religiões impostas por conquistadores, entre tantas outras coisas.E não é de espantar que o BH tenha se aliado ao EI, ambos têm a mesma sede por sangue e o desejo de implementar a sua versão radical da Sharia no MUNDO TODO.
Para nós fica a lição de valorizar nossa nação e nossa democracia ainda imperfeita. Na periferia da nação existem candidatos ao poder. São os poderes paralelos do crime, do fanatismo religioso e das ideologias marginais.

sábado, 30 de julho de 2016

Cinco Contos Minimalistas

Suspense
Francisco estacou frente à escada ensanguentada. Som de goteira. O coração batendo forte nas têmporas. Na penumbra, a faca avermelhada espreita o limiar de suas costas. Som abafado, uma palavra presa nos lábios. Silêncio.


Romance
Fecha o armário. Livros enchem suas mãos. A escada estreita, primeiro degrau. Para. Olhos nos olhos. O sorriso doce encanta ajudado pela sedução das primeiras palavras. E os corações não bateram mais sozinhos.

Terror
As sombras escondem-se das chamas na caverna. Som de uma respiração grotesca acima nos vãos das rochas mal iluminadas. O vento leva o fogo e a luz. As sombras agitam-se. Garras cortam bruscamente a carne lançando nas paredes sangue e vísceras.

Comédia
No refeitório. A mulher de vestido curto e saltos altos caminha pelo corredor-passarela. Levanta a cabeça, a gravata encontra o café. A mulher ri. A mão mergulha no mingau do vizinho, quente. Levanta, joelhos na mesa, coisas ao chão. Desequilíbrio. Cai para trás com a cadeira e a mão ainda agarrada na calça do chefe ruborizado por causa do calção cheio de corações. Gargalhadas.

Ficção Científica
Cem anos. A imagem azul enche a tela e a felicidade de uma geração que não conheceu sua Terra inunda os corredores e salas da imensa nave-colônia. O tempo flui e o mundo enche-se de verde e novas espécies correm por seus campos jovens. Nas cidades cientistas miram as estrelas e colhem os dados que darão suporte às novas levas de colonizadores. No bojo da nave olhos contemplam o último céu que verão. Oitenta anos. No fundo negro do espaço uma joia verde-azulada se destaca. Lar.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Funcionalismo Público e Conformismo

Tem uma coisa assustadora no funcionalismo público de hoje, é o seu conformismo.
É uma desesperança, uma busca incessante pela "normalidade". É como se a tal estabilidade exigisse algum tipo de imobilidade. E isso acontece em todas as escalas, em todos os graus hierárquicos. Mudanças e novidades não são desejáveis.
Entenda, não estou dizendo que todo funcionário público é um conformista. É mais como um "clima". É comum você ouvir que "as coisas são assim mesmo", que "nunca vai mudar". E é fácil a gente se render a essa ideia.
Há inúmeras razões para isso, uma delas é que no serviço público quase nunca há espaço para o mérito pessoal. As coisas correm mais no jeitinho político e pessoas inovadoras ou com perfil mais arrojado são, nem sempre sutilmente, desencorajadas.
Uma outra é o excesso de carreiras "estanques", as pessoas simplesmente não têm para onde ir e isso inibe bastante a ascensão de "uma geração melhor".
O terceiro ponto que destaco tem a ver com o anterior. Pessoas com potencial levam muito tempo para ascender na carreira, e o tempo vai demolindo sua vontade.
O que define o sucesso de um servidor é sua adesão ao programa político do momento. Então não é difícil imaginar o tipo de seleção que vai sendo feita...
Obviamente isso começa com o poder político, pois tal estado de coisas é encorajado por cada novo gestor. Lembremos que os grupos políticos têm PROJETOS DE PODER e só por consequência um projeto de governo. Desse modo os cargos dentro do governo são distribuídos de acordo com alianças políticas, o que nem sempre garante a qualificação adequada para a ocupação de determinado cargo.
Nesse estado de coisas os servidores de carreira são preteridos, o que leva a uma disputa cruel por cargos e funções menores.
Isso afeta diretamente o serviço prestado. Primeiro porque os atos de gestão vão na direção do espetaculismo teatral, e menos no caminho árduo da efetividade. Segundo porque os ocupantes dos cargos com poder de decisão nem sempre são os melhores e em terceiro porque os servidores se vêem numa teia apertada onde o "mínimo é sempre o melhor".
E todos nós perdemos com isso.