segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Uma saída para a Humanidade

Quem cultiva o exercício do pensamento, já deve ter se perguntado, até teorizado, se haveria uma saída para a humanidade.

Isso pode ter cores diferentes dependendo de como o problema é abordado e os pressupostos de quem aborda. Por exemplo, um pensamento cristão mais fundamental vai dizer que não há saída por seus próprios meios e que a esperança se fundamenta num ato externo e transcendente.
Outra perspectiva é aquela que entende que o mundo é gerido por relações de poder e não aspirações humanas universais. Basta pensar que hoje a humanidade teria os meios para tornar a vida humana muito melhor e reduzir drasticamente as injustiças do mundo. Mas isso simplesmente não acontece. E pensar em todas as desgraças ocorrendo agora nos levariam a nada mais que o desespero, bem resumido na frase de Kurt em O Coração das Trevas, de Joseph Conrad: O horror! O horror!
As duas nos levam a becos sem saída. E elas se complementam.
Mas como exercício, haveria outra possibilidade?
No fundo, nossos dramas se resumem aos mesmos de nossos ancestrais de milênios atrás: como administrar recursos limitados numa realidade de escassez. Sim, a economia é o ponto central desse problema. É da administração dos recursos que surge o poder, a política, a tecnologia, as ciências... Enfim, isso move o mundo. É por isso que propostas políticas têm como fundamento a administração de recursos.
Hoje esse é um tema absurdamente complexo. A humanidade é o que é porque desenvolveu formas de lidar com a economia que permitiram a complexidade moderna. Um governo é uma instância burocrática que administra recursos e regula a forma limitada como agentes fora do seu estamento burocrático podem explorar parte desses recursos.
Processos de riqueza e pobreza são basicamente o montante de recursos que se tem para administrar. Se pouco, trata-se apenas de sobrevivência, se muito, de investir e ganhar mais.
Como a humanidade caminha do natural para o conceitual, o recurso também evoluiu para algo não material. O dinheiro em todas as suas formas é a expressão desse recurso. Ele pode ser trocado por coisas, mas ele também é uma espécie de fluxo em looping que aumenta seu próprio montante na medida em que gera a ilusão de que mais números implicam em mais riquezas reais. Esse sistema "sólido" é muito frágil.
Para manter o sistema, é importante explorar as aspirações humanas por uma vida melhor, nesse caso, associando a vida melhor com consumo. Porém, apenas consumo de bens de uso extingue logo a fonte do desejo. Se você tem tudo o que acha que precisa, dificilmente vai ser convencido a se esforçar por mais. Então o consumo tem que ser direcionado para algo que você não precisa, que não satisfaz nenhuma necessidade real, mas que permita mais desejo na medida em que você satisfaz a posse imediata. Em outras palavras, esse bem perde valor afetivo logo depois de você se acostumar com ele.
Voltemos ao ponto inicial. O que é uma "saída para a humanidade"? Seria uma realidade em que a administração dos recursos implicasse na maior justiça para todos os seres humanos. O capitalismo propiciou uma vida melhor para boa parte da humanidade, mas criou certas distorções. Recursos limitados não podem ser administrados com referência ilimitada. Para isso funcionar, temos que encontrar fontes ilimitadas de recursos. O sistema apontado acima criou artificialmente essa fonte de recursos. Mas ela é frágil. Uma catástrofe no mundo real pode explodir a riqueza virtual em segundos.
Pense, por exemplo, em alguma ameaça que apague nossos bancos de dados eletrônicos, a queda da internet. Toda essa riqueza sumiria e teríamos que lidar apenas com o mundo material. Seria um regresso a 50 ou 60 anos atrás, mas com o agravante de que inúmeras operações que eram manuais na época seriam seriamente prejudicadas. A humanidade se levantaria, mas não sem a morte por inanição de milhões e uma longa fase de anarquia. O equilíbrio é muito frágil e provavelmente novas ordens se imporiam.
Então o centro do problema está em lidar com recursos de um modo racional, justo e menos dependente de estruturas virtuais. Se temos apenas o mundo material, a própria administração de recursos precisa ser mais razoável e as ferramentas de troca equivalentes ao montante de bens existente.
Veja, o "poder" se assenhoreia cada vez mais dos recursos reais enquanto cria a ilusão de riqueza para a maior parte da humanidade. E está bom enquanto temos comida na mesa, mas e se essa comida faltar, de que valerão os números?
Sistemas políticos totalitários exploram essa ansiedade natural. A população é mantida sob controle orientando o centro da vontade no sentido do consumo e da ideia de riqueza virtual ou inibi-se a vontade. Com a vontade controlada pela repressão, a expressão da vontade é a liberdade, a administração do recurso fica também livre para quem domina. Não sem oferecer algum tipo de satisfação virtual, que se expressa no culto do Estado, do Ditador, na aspiração ideológica, que funciona como a religião. Culto do Estado é sempre uma religião em que o trancendente é imanentizado nos símbolos e práticas estatais.
Dito isso, a gente percebe que toda saída é ainda um salto na ilusão. Ou a ilusão com alguma liberdade, ainda que virtualizada, ou a ilusão como elemento da própria falta de liberdade.
Sobra então o desespero? Provavelmente. Porque uma realidade diferente depende de um ser humano diferente, o que implica num salto da própria consciência humana para algo que não dependa da sublimação de aspirações que resistem na nossa psique para algo que identifique de forma clara nossas reais necessidades modernas. É difícil entender isso, mas somos seres da pre-historia vivendo numa sociedade tecnológica e tentando viver em grupos maiores mesmo tendo limitações de bando.
Uma consciência universal permitiria a administração universal dos recursos e uma expansão por necessidade existencial e não por desejo de domínio. Por isso as ideologias políticas são tão destrutivas para a humanidade, pois no fundo elas "agasalham" a natureza real do problema oferencendo soluções que dependem de algum tipo de "natureza superior" em outros seres tão falíveis quanto nós. Não será um líder quase divinizado ou uma comissão de aristocratas que salvarão a humanidade de si mesma. Não que avanços não sejam possíveis, mas que sempre haverá esse limite humano.
A pergunta real é se podemos ou não fazer algo no sentido desse salto de consciência? Infelizmente tudo mostra que o ser humano está "evoluindo", mas não para uma "consciência melhor". Não estou falando de "consciência" no sentido de estar consciente de algo, de aprender sobre certo e errado. "Consciência" aqui tem relação com o fenômeno que a ciência diz que ocorreu cerca de 50 mil anos atrás. Naquele tempo, o ser humano passou a acreditar em ficções. Isso foi o salto da consciência. E não estou falando de perda de identidade individual.
Aí sim os recursos seriam administrados com um objetivo que não fosse apenas a realização do poder pelo poder. O socialismo em todas as suas formas tentou criar esse novo homem artificialmente. De um certo modo paradoxal crendo que ele já existia, mas que as estruturas sociais o corrompiam. O ocidente liberal acreditou na mesma ilusão, mas considerou que era caso de dar-lhe liberdade e seu potencial surgiria. Este último pareceu colher mais êxito, porque o controle da liberdade exige vigilância permanente, é muito custoso, e a doutrinação só funciona enquanto alguém está olhando, ela cai rapidamente quando caem as estruturas de poder. Nesse sentido a religião política perde para a religião real, pois um poder trancendente não depende das estruturas materiais do Estado.
Eu chego ao fim dessa longa divagação sem uma solução real. Eu não tenho ideia de como fazer essa semente da consciência germinar. Pode ser que ela já exista, mas não em todos os seres humanos. Imagino que conhecimento, liberdade e senso crítico podem ajudar, mas não tenho certeza. O que posso dizer é que houve um salto nos últimos 800 anos, mas não tenho ideia do que ele nos trará no futuro ou se o mundo vai esperar que tenhamos consciência antes de nos apagar da sua superfície como resultado de tudo o que temos feito com ele.
E se essa mesma capacidade que nos "salvou" for nosso limite evolutivo?
😢
Talvez a verdadeira “consciência superior” não seja um novo estágio evolutivo, mas a lucidez trágica: saber que não seremos salvos por sistemas, líderes ou ideias, e ainda assim agir com responsabilidade.

A aposta inevitável

 O mundo que nos cerca é cheio de incertezas. A gente consegue antecipar algumas coisas simples que possuem mecanismos conhecidos. Muitas vezes trata-se de juntar A+B. Mas há uma série muito maior de outras coisas que escapam a qualquer previsão, embora possamos considerá-las como potenciais. Por exemplo, eu saio de casa para o trabalho, minha expectativa é que chego lá em meia hora, porque é isso que ocorre na maioria das vezes.  Mas um dia o ônibus estraga, acontece um acidente na estrada, uma blitz policial ocupa duas faixas da rua tornando o trânsito mais lento…E levo 45 minutos para chegar ao trabalho. É de se prever que alguns desses eventos possam acontecer, mas eu não tenho como saber como nem quando.

A imprevisibilidade relativa é um dado da existência humana. Eu não posso controlar tudo o que ocorre comigo, não tenho como antecipar todas as pequenas e grandes variáveis. Mas posso calcular algumas. Por exemplo, sei que meu carro pode ter uma pane mecânica, me antecipo a isso fazendo manutenção. Mas mesmo assim algum dos componentes pode falhar. A manutenção, certamente, diminui essa chance, mas não anula totalmente. Lidar com a imprevisibilidade é um dos grandes desafios da vida. Viver é uma aposta contra o acaso.

Mas temos essa “gana” de controle. Porque não gostamos de apostar quando as chances são muito pequenas. Mas precisamos apostar, pois vida é movimento. Somos um homo ambulans (homem que anda), parar é morrer. E andar assume um sentido metafórico para nossas “apostas” na vida. Mas temos horror ao desconhecido, ao que não podemos controlar. Então criamos ferramentas psicológicas para lidar com isso, porque precisamos de garantias para nossas apostas. O pensamento positivo é uma delas. Em si ele é bom, porque a pessoa cria um ambiente interno que alinha seu esforço com seu objetivo. Entretanto, a maioria das pessoas imagina que ele tem um efeito fora delas. Também somos um Homo Animans (homem que dá alma, que anima). Esse pensamento animista, resquício de eras passadas, acredita que certas ações aparentemente desconectadas dos nossos propósitos possam alterar o andamento das coisas no mundo. Não é minha atitude na direção de certo objetivo que me leva ao sucesso, consideradas as variáveis, mas minha disposição interior com relação a ele. E há uma armadilha aqui, pensar positivo é bom, mas se deixo de me preparar, o mundo vai conspirar contra mim.

Paulo Coelho exemplifica bem esse ponto em uma famosa frase do seu livro O Alquimista: “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo”.

Claro que, desconsiderando os caprichos do acaso, a verdade é diferente disso: se você deseja algo e não se prepara para ele, as conspirações do universo para que você não vença vão te atingir. Se você vai fazer uma prova é preciso estudar. Se vai fazer uma viagem, tem que se preparar. Até Jesus, em Lucas 14:28-33, fala da previdência exemplificada num homem que vai construir uma torre e um rei que vai travar uma guerra, se você não se preparar, diz ele, não vai conseguir.

Veja, a ideia de preparo, de previdência, pode ser considerada “pessimismo” se a pessoa expressa isso. Todo mundo sabe que tem que se preparar, só uma pessoa muito tola não pensa assim. Mas se você expressa as dificuldades, até como forma de se antecipar, isso, dentro daquele pensamento mágico, é visto como atuar contra seu próprio sucesso. Isso não é ser pessimista, porque um pessimista de verdade não consegue ver sua capacidade de vencer. Ele não vai nem tentar.

Eu diria até que as pessoas que se amparam em muletas tendem mais ao pessimismo, porque elas não conseguem apenas calcular os desafios, suas chances e sua garra para encarar desafios, elas precisam de uma garantia mágica de sucesso. Funciona quando tudo vai bem, não pela macumbinha em si, mas por outros fatores que ela está desconsiderando. Mas ela  atribui isso ao pensamento positivo. E se a pessoa tem um perfil mais analítico, menos dado a fantasminhas nas rochas, ela recebe esse rótulo feio: pessimista. E mais, acaba sendo culpada de não prosperar, de não alcançar e todas estas coisas que as pessoas inventam para se sentir superiores. O pensamento mágico não é esperança, é terceirização da responsabilidade. Se deu certo, foi o universo. Se deu errado, foi falta de fé (ou o “pessimista” do lado).

Sim, pensar positivo faz muita diferença, mas não tanto a ponto de ignorar todos os desafios envolvidos. A atitude mais sábia é a moderação. Pessoas que arriscam eventualmente têm sucesso. E ouvimos das histórias dessa eventuais, como se isos fosse a regra. Bom, existe uma frase por aí de alguém que não sei quem foi e que é um bom antídoto para esse pensamento: "Na subida do Everest existem centenas de corpos de pessoas altamente motivadas".

sábado, 26 de julho de 2025

Um dia, o último.

 Era minha filha. Olhei com os únicos olhos que tinha. Me perdoe, filha, por não conseguir dizer tudo o que podia. A mão pousada consoladora sobre meu ombro tamborilava num ritmo irregular. Esse é o ritmo da vida. Não há nada que você possa fazer. Não tenho medo ou estou especialmente infeliz com meu destino. Essa é a tristeza da vida inteira. Ontem eu acreditei que havia um futuro, não este. Hoje não consigo ver um passado em que me refugiar. Não me preocupa morrer. Eu lamento apenas que a morte não seja tão viva. Se ela fosse uma perspectiva mais clara, muitas vidas seriam diferentes. Não chore. Eu não sou estóico, nem frustrado por ver o fim da estrada. Isso, na verdade, me deixa feliz. Quantos não são surpreendidos pelo fim depois de uma curva, quando ainda sonhavam com um longo caminho? Verdade. Muitos não podem sonhar. Ela tinha olhos melhores que os meus. Seu caminho é longo. Sim, os que se aproximam do fim despertam a profecia adormecida. Lembrei de um chefe que tive. Ele brilhava com a glória do mundo, arrogante, olhava para mim como se eu fosse o que eu realmente era. Lembrei de outros chefes, todos iguais, superiores, infinitos. Deveria ser assim, filha, a vida como oportunidade para o bem. Mas o potencial para o mal é poderoso. Lembrei de dois amigos. O primeiro criticou minha falta de ambição. Dizia que eu tinha feito as escolhas erradas. Acho que tinha razão. Mas morreu cedo. Muito cedo. O segundo era um doce. Não me criticava, pelo contrário. Mas sempre esteve melhor que eu. Morreram com diferença de poucos meses. Os chefes foram além, e substituídos por outros chefes, eram ainda os mesmos chefes. Andei tanto para descobrir o que já sabia. O que os sábios diziam. A vida é breve, travessia. E se há alguém sincero nessa vida, esse alguém é a morte. Ela não diz nada, mas deixa claro que vem. Viver é se preparar para a morte. Para isso serve a sabedoria. Morre-se uma vez, a vida é para todos os dias, logo a morte é o evento mais singular de toda a vida. Lembra, filha, ela vem, vive para mil anos, prepare-se para amanhã. E com seu belo sorriso eu sorri. Fechei os olhos e vi tudo o que o nada era.

sábado, 3 de maio de 2025

O Gênio

Quando eu tinha sete anos, tive o primeiro vislumbre do que é estar errado. Eu achava que era o aluno mais inteligente da sala. Coisas da infância, erro de proporção. O certo seria achar que era só o aluno mais inteligente da escola, que ainda era um erro, mas justificável pela minha ignorância de que a estupidez dos meus colegas não era acidente, mas uma regra cósmica invariável e repetível do berçário ao fim do ensino médio. O que ainda seria um erro, de proporção, mas ainda justificável como o primeiro. 

Isso se deu no momento em que meus colegas sofriam para fazer adições com feijão e eu desenvolvia a equação da relação celenosial da assimetria das voltas do rabinho de porco congelado para uso na feijoada. Qualquer retardado de QI 170 sabe que essa é a mesma relação do gatilho reductibiliano da força H, que permite a fusão nuclear a frio usando um motor de geladeira Consul Elegant e duas bobinas de Fiat 147, ano 1979, cor creme. O segredo é aplicar a relação do rabinho de porco -congelado- às molas de indução das bobinas para gerar um princípio de reação porco-indutivo tipo onda. 

Infelizmente a professora não gostou que eu levasse um rabinho de porco para a escola. Todo gênio é incompreendido. Na diretoria me disseram que tinha que respeitar as aulas da tia Eliza, que eu repliquei que não era minha tia, que na verdade se chamava Helena, que talvez uma prima de décima geração... Logo descobri meu erro do começo, pois era claro que minha inteligência superava não só a dos outros alunos, como também de professores, diretores, inspetores de alunos, cantineiras e secretárias. 

Depois disso, voltei muitas vezes à diretoria e às diretorias. Felizmente percebi que não valia a pena discutir, isso foi logo após invadir o sistema de uma funerária e mudar o endereço de entrega para o endereço da escola, na sala de anatomia. Por alguma razão, não foi permitida a entrada do caixão. Suspeito que seja porque retirei do pedido as velas e a imagem da Bíblia falando de ressurreição e vida. Por óbvio que sou ateu, mas achei melhor não postular a possibilidade de que meu objeto de estudo saísse andando pela sala. Fui descoberto quando perguntaram quem estava se passando por Frei Guilherme de OCÃO, o responsável pelo pedido. Tive que corrigir, é Guilherme de Ockham!!!!

Apesar de sempre me formar com as melhores notas, fui expulso 27 vezes de escolas diversas, e 3 vezes de universidades. 

Quando meu pai viu que o sistema não ia me aceitar, mandou que eu fosse trabalhar. Ele me arrumou um estágio numa empresa especializada em exportação de um amigo seu. Minha função era anotar números de localização de contêineres numa ficha padrão. Logo deduzi a ordem em que os códigos eram criados e preenchi as fichas antecipadamente, para que pudesse usar o tempo livre para unificar a física, organizar a economia mundial e produzir um épico em dodecassilabos iambicos sobre os grandes heróis da ciência. 

A coisa deu errado porque eu não sabia que existia uma numeração especial para países asiáticos, o que levou à entrega de um contêiner com livros dos discursos de Donald Trump no Irã e fuzis de assalto num convento italiano. 

Depois disso, percebi que precisava apenas de tempo livre para minha revolução. A humanidade haveria de reconhecer meu gênio, tão logo meus sucessos fossem conhecidos. Inicialmente tentei dar aulas para crianças, mas elas e seus pais eram muito estúpidos. 

Finalmente, um dia, passando por uma praça, observei algumas pessoas que viviam nas ruas. Eles podiam dormir quanto tempo pudessem, recebiam esmolas que permitiam a ingestão mínima das calorias recomendadas e não tinham que dar conta do seu pensamento a ninguém. 

Converti meus pertences em dinheiro e me transferi para a capital, a fim de organizar meu plano e ficar longe da minha família. 


Tão logo me estabeleci numa praça, comecei a aplicar meu gênio na arte de manipular as emoções humanas para conseguir melhores esmolas. Quanto menos tempo eu gastasse nisso, mais tempo teria para meus projetos grandiosos. O que eu não contava é que os outros mendigos não gostavam de concorrência e eram, como todos os outros seres humanos, estúpidos. 

Eles decidiram dar cabo de mim. E teriam conseguido, não fossem dois policiais. Mas é óbvio que isso não me agradou, pois vi na agressão a possibilidade de ser hospitalizado e ter bastante tempo livre para os meus planos. 

O fato é que esses dois policiais estúpidos me identificaram através de uma foto que minha família publicara num site para pessoas desaparecidas. 

Uma vez em casa, meus pais tentaram me internar num hospital psiquiátrico. Mas é claro que os testes mostraram apenas que eu era uma pessoa de gênio superior. Um diagnóstico feito com alguma imprecisão, notei, devido à imperícia do psiquiatra em aplicar as doutrinas psicológicas correntes, o que tive prazer em atualizá-lo. 

Organizaram uma junta para avaliar o meu caso. Dei uma aula, como sempre, passei por cima deles como um trator. Por fim, desanimados, disseram aos meus pais que eu tinha um problema, era um megalomaníaco. 

Por uns momentos não soube o que responder. "Megalomaníaco"? Eu? Um gênio, sem dúvida. A partícula grega "mega" bem me servia, e pouco me importava que seres inferiores me considerassem maníaco. Mas aquele artigo indefinido me era indigno, como assim "um" megalomaníaco???

Lancei-lhes na cara que eu bem aceitava o título, mas que não iria tolerar tal afronta!

Todos olharam para mim com seus olhares bovinos. 

Arrematei, "eu não sou um megalomaníaco, sou o maior megalomaníaco do mundo, e se Deus não existe, como não existe, quiçá do universo, do multiverso, de todas as realidades possíveis! 

Me internaram. Cá estou. Como deveria. Meu intelecto superior me levou ao melhor dos fins possíveis, apenas dizendo uma verdade que já era, por si, autoevidente. 

Agora tenho todo o tempo do mundo, posso apreciar minha genialidade com calma e prazer. Aprendi a lidar com a estupidez de médicos e enfermeiras, basta ignorar-lhes a existência e eles somem. Uma questão que sempre relembro a Einstein, que realmente está aquém do gênio que lhe publicaram. Ele é pouco mais que um Napoleão - sujeito desagradável- talvez equivalente a Newton, mas ambos me aborrecem muito, pois tenho que sempre traduzir minhas conclusões para que eles possam entender, lançando mão de metáforas e simbolismos infantis. 

Enfim, me serão instrumentos. Primeiro submeto o Hospital, logo mais a cidade. Não acredito que o planeta resista mais que um mês. Depois veremos os outros. 

Deve ser quase hora do almoço. Hoje é dia de frango? Quantas borboletas equivalem ao Zepelim? Hoje deve ter mingau de chocolate de sobremesa. Mingau...

domingo, 6 de abril de 2025

Quadrilogia da Ironia.

 Soneto do Estúpido Infinito


Sou burro, e não me falta a convicção,

Pois minha mente é chão de terra rasa;

Na escola da ignorância, fiz a casa,

E o tonto é rei da minha multidão.


Não tenho fé, nem credo, nem razão,

Tampouco a luz que aos crentes abrasa;

Só carrego esta dúvida sem asa,

E invejo até quem crê em assombração.


Não opino, pois temo estar errado,

E sofro ao ver que o mundo tem certeza —

Enquanto eu, com o olhar desengonçado,


Afundo em minha vil natureza.

Sou tão pequeno, tão desatinado,

Que Deus me vê e ri da minha empresa.


Soneto do Desengonçado em Dor Maior


Nas lides do amor, sou só tropeço e gagueira,

Mal vejo um riso e já me enrosco todo;

Meu charme é sujeira no meio do lodo,

E o flerte vira sempre uma grande ratoeira.


Com gente, eu travo — viro um monólogo,

A língua pesa mais que o próprio ouro;

Sou feio, bobo, sem nenhum decoro,

Pareço um "o" torto em fim de prólogo.


Já fui chamado de “pessoa esquisita”,

E ando como quem perdeu o eixo;

O espelho, ao me ver, ressuscita


Pra rir de mim num cômico despejo.

Não sou galã, nem alma bendita —

Sou só um Zé sem traquejo e sem desejo.


Soneto do Azarado Irrecuperável


Sou pé-frio de nascença e vocação,

Onde ponho a mão, a sorte escapa;

A vida me atira sempre a lapa,

E eu tropeço até sentado no chão


No bingo, erro o número de mão,

No amor, sou xis fora do mapa;

Na chuva, sempre esqueço a capa,

E o sol só vem quando estou no porão.


Se aposto, é certo: a banca vai vencer.

Se tento, algo explode em meu caminho.

Sou mestre em nunca nada acontecer,


E ando com o azar como vizinho.

Meu santo é um fantasma sem querer,

Que ri de mim, bebendo um copo de vinho.


Poeminha ao Leitor Iluminado


Mas você, leitor, é tudo o que sou falto:

Tem graça, tem beleza e opinião.

Enquanto eu sou só queda e sobressalto,

Você desfila firme, em perfeição.


Não gagueja, não tropeça, não engata,

E a vida inteira acerta a direção.

De perto, brilha mais do que a prata,

Enquanto eu... sigo aqui na contramão.

sábado, 29 de março de 2025

O outro Isaías

 As coisas andavam muito difíceis - mais que de costume. Eu estava entrando na primeira adolescência. Um menino me falou da "Horta dos japoneses", era só ir lá e dizer que queria trabalhar. 

Não era o que imediatamente imaginamos ser uma horta. Era uma área aberta, bem grande, com plantações de diversos tipos de hortaliças. Eles também plantavam morango, que exigia muito veneno. 

Era bonito ver a tobata puxando a carretinha com o mecanismo de espirrar o veneno. Aliás, um veneno diferente, parecia caldo de cana. Felizmente não experimentei para ver se o gosto também era. 

O japonês me mandou carpir entre os pés de alface com uma enxadinha miúda. "Não vai me machucar as alfaces" - alertou. 

Fui carpindo pelas fileiras de alface. Alfaçonas gordas, apetitosas. Quando deu meio dia, os outros trabalhadores- meninos de várias idades, alguns bem grandes, quase homens- sumiram pela beirada do campo. De longe vi alguns encostados no tronco de uma árvore, abrindo sacolas, marmitas, sacando sanduíches. Mas eu não tinha comida. Uma japonesa passou e perguntou se eu não ia almoçar. "Já estou indo, não tenho fome". Mas meu estômago roncava. Ela riu aquele riso deles e também sumiu.

Sozinho no campo me pus a arrancar as folhas de baixo das alfaces. Tinham um gosto estranho, talvez amargo, não sei, talvez fosse só o gosto da alface in natura. Que homem foi que primeiro comeu aquilo e depois, metendo algum tempero, convenceu os outros que era bom? 

Acho que um faminto, como eu. 

Naquele tempo eu era muito ignorante, até mais do que sou hoje. Quando você é assim, as pessoas acham que você é burro, um retardado. Eu não sabia nada, eu não conhecia as palavras, especialmente aquele vocabulário especializado dos japoneses. Eles tinham que falar três vezes para eu entender o que queriam que eu fizesse. "Você é muito burro"- diziam os outros garotos, mas não os japoneses, eles eram educados. 

Entre os empregados, havia um outro Isaías, mas esse era grande, forte, quase um homem. E não era burro. 

Um dia a patroa me mandou pegar algo. Eu não entendi o que ela queria, mas como os outros empregados estavam perto, corri para o objeto mais próximo, uma enxada. 

Ela gritou "isso não" e disse o nome do objeto. Corri então para outro objeto, um tipo de garfo forcado e de novo ela me alertou. Os meninos riam. Por fim ela, já rindo também, me disse novamente o nome do tal objeto. Olhei ao redor, devia ser algo bem óbvio. Então vi uma peça grande da tobata, acho que era uma espécie de ferramenta para arar o solo. 

Me abaixei para pegar aquilo. Todos gargalhavam agora, menos o Deutero-Isaías, que pela lógica era o Proto-Isaías, mas que aqui nessa história (que é verdadeira) era o segundo. Mas eu nem movi a peça. A patroa, então, veio calmamente na minha direção, abaixou-se e pegou um esguicho que estava bem do meu lado. Ela ainda olhou para mim com aqueles olhinhos fechados e sorriu. 

Eu a segui, envergonhado. Todos riam, mas o Deutero-Isaías me olhava com ódio. Então ela acoplou aquilo numa mangueira e mandou um menino jogar água em alguma planta. Em seguida, ela virou para mim, ainda sorria, então virou para o Deutero-Isaías e disse "Olha aí, Isaías". Era o jeito dela caçoar dele por causa do nome. 

Foi a dica. Ele voou na minha direção e eu corri, só que ele era mais rápido e pregou a bota com toda a força no meu traseiro, me fazendo voar um meio metro. Eu caí num canteiro e pensei que ia apanhar até morrer, que iam deixar meu corpo ali como adubo para pagar as alfaces que eu tinha comido. 

Mas não veio mais nada, a patroa interviu e não deixou ele me bater mais. 

Eu passei a tarde mancando um pouco, o chute pegou na parte de trás da minha coxa direita. Ficou um baita roxo no lugar, mas nada além do hematoma. 

Isso me fez entender que eu era muito burro e isso podia me custar caro. Dali em diante passei a focar mais no trabalho e menos nos patrões. Na verdade, tentava trabalhar longe deles - e do Isaías, o Grande- para que não me pedissem nada. Isso me isolou bastante.  

No fim do mês o patrão veio nos pagar. A camionete azul desceu a estrada e os empregados se agruparam na porta do carro. Ele perguntava o nome, se a pessoa trabalhou bem, e passava as notas e moedas. Todos eram os melhores trabalhadores, pelo menos no discurso. 

Eu fui um dos últimos. Perguntou meu nome, eu disse. "Opa, tem dois". Se o senhor soubesse, patrão, pensei. Me perguntou se trabalhei bem e eu respondi que não sabia. "Como não sabe?" - olhei para o chão. Mesmo assim ele me pagou o valor normal, disse que o nome ajudou, porque o Deutero-Isaías trabalhava bem. Acho que pagaria de qualquer jeito. Era tão pouco. Dei o dinheiro em casa. 

Eram férias escolares. Não voltei mais. Acho que ninguém notou. Bom, exceto o Isaías.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Por que choras, Raquel?

 Por que choras, Raquel?
-Choro pelos meus filhos.
Mas, Raquel, por que choras por teus filhos se eles mesmos não lamentam?
- O Alto, o Exaltado, troveja desde Raamah com promessas e meus filhos
Jazem na vida em morte todos os dias
Viu-se um sinal no Ocidente, eis seus filhos amontoados em carrinhos sendo levados
À pira ariana, e ao céu elevados em grossas nuvens de cinzas.
Raquel toma seus filhos entre os dedos, o pó que cobre as ruas
Desde Raamah, elevados – um anjo cantou.
Uma daquelas mãos escreveu com a cinza, antes de à cinza tornar:
Se Deus existe, ele terá que implorar pelo meu perdão!
Agora são gado, que faremos do gado? Encheremos vagões, gado não é gente, mas gado queima, gado queimado é bom adubo.
Os filhos de Raquel não choram, não há lágrimas que chorar
Mas sua mãe lamenta, Raquel ouve o barulho do atrito das rodas nos trilhos
E sente o calor dos corpos dos seus filhos, o suor que flui dos espaços nos campos cobertos de neve.
Raquel morreu e foi queimada milhões de vezes, Raquel corre com as gazelas nas montanhas de Israel, Raquel ajoelha-se diante da beleza de Sião
Raquel está feliz no deserto, música e alegria
Mas ao seu redor jazem seus filhos, abatidos como gado, pisados como poeira
Raquel, quem chorará pelos teus filhos, agora que o mundo todo colou neles a máscara dos seus opressores?
Raquel está dura, Raquel canta o canto de guerra, Ishah Milchamah! Allah Akbar!
Os filhos de Raquel estão destruídos nas casas queimadas, suas filhas violadas,
Raquel, seus filhos e suas filhas estão sendo esmagados, seus filhos e filhas morrem de fome,
Seus filhos, esquecidos, sob milhões de toneladas de concreto, seus filhos matam seus filhos
Nas torres de Gaza, e no kibutz Be'eri…
Do ocidente vem um canto de morte, do ocidente supostamente chocado, um canto pelas criancinhas mortas, um canto que pouco se importa pela morte das criancinhas, um canto que as usa como objeto, como os arianos, para fecundar seus campos.
Mas os filhos de Raquel morrem aos montes, e Raquel
Chora com o rosto no solo, pois não há quem possa consolar
Da dor de uma ferida que não pode ser curada
Raquel chora, e não quer ser consolada
Como a mãe que entrega seus filhos, como o pai
Que não os pode salvar, como a gazela triturada pelas mandíbulas de todos os lobos
Os maus e os que se fingem bons.
Raquel chora com a boca no pó
E não há quem a possa consolar.
Ouçam o choro que sobe desde Raamah!
Nossa mãe chora, como Eva pelos seus filhos, o que morre e o que mata e os que sobem com dedos inflamados e palavras de loucura
Aos montes da opinião pública.
Essa mãe tem muitos filhos, muitos filhos ela tem
Muitos morrem, muitos matam, uns vivem mal, outros bem.
Raquel é mãe dos seus filhos, Raquel é mãe de todos nós
E Raquel somos nós.
Chora, Raquel, talvez em algum lugar alguém ouça a tua voz.

No Natal, há muito tempo.

 

Todo ano eu fico deprimido na época do Natal
Por mais que eu busque a alegria e envolva meus amigos em conversas frívolas
Meu coração nega minhas palavras e minha face festiva
Os olhos de hoje veem as coisas que viram os olhos de ontem
Chove, eu corro com outras crianças na lama quente do verão
De mãos dadas com alguma menina de sete ou oito anos
Nossas mãos pequeninas unidas na infância das nossas feridas
Os militares vão sair do poder?
Dizem que sim, agora a democracia vai trazer prosperidade
Onde está a menina, a lama e o Natal?
Estou sentado na sala, um brinquedo quebrado nas mãos
Um boneco, falta a cabeça e um dos braços, não tem coração
O brilho azulado da televisão anuncia o novo tempo
“Éramos crianças, eu só gosto de você como amigo”
Disse, e agora penso, ainda éramos crianças no intervalo
Da aula daquele dia no Ginásio – Ninguém diz mais assim
A gente caminha pelas ruas, tudo enfeitado para o Natal
Um calor dos infernos em dezembro, a decoração do Polo Norte
Mas é que o Papai Noel mora lá
Pensei que era aniversário de Jesus, quantos anos ele faz?
Quase dois mil, que morreu
Na entrada do mercado nos encontramos, chovia sem lama, era frio
Ela sorriu para mim, eu sorri e meu sorriso morreu
De mãos dadas com um rapaz – Oi, se foi
Corri para pegar o ônibus, logo será Natal
Democracia que traz no vento tantas expectativas
Vou trabalhar, estudar, comprar uma moto e visitar o Atacama.
Ah, deserto, como está deserto meu coração!
Oi, sentou ao meu lado, não havia rapaz na ponta das mãos
Tudo mudou, crescemos, o tempo muda o tempo e as sombras do coração
Eu me perdi nos seus beijos, eu mergulhei nos seus olhos, eu adivinhei o seu corpo
Essa noite o Papai Noel não veio, mas teremos churrasco, não está frio
Houve um acidente, uma moça vinha de bicicleta quando um caminhão…
Uma bicicleta azul?
Foi numa tarde chuvosa de dezembro, Natal
Todos tinham fé na democracia, menos eu
É Natal, de outros tantos natais e funerais, os anos se acumulam.
Eu sempre fico triste no Natal, me dá um não sei o quê de melancolia
E deposito as flores vivas diante da lápide fria.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

O Palhaço e a Piada

 

Eu caminhava por uma rua movimentada no centro de uma grande cidade, quando notei um grupo de pessoas organizadas em círculo. A curiosidade venceu, e me aproximei para ver o que estava acontecendo. No centro daquele círculo estava um palhaço, com roupas coloridas e um olhar que oscilava entre o excêntrico e o insano. Como tinha alguns minutos livres, decidi ficar para ver que tipo de palhaçadas ele faria.

O palhaço começou com duas piruetas ágeis que arrancaram risadas da multidão. Depois, apertou a flor falsa presa ao peito e borrifou água no rosto de um velho, que riu tanto que parecia rejuvenescido. Logo em seguida, ele puxou uma caixa de madeira para o centro do círculo.

Uma criança perguntou à mãe:

— Ele vai fazer mágica?

— Acho que malabarismo — respondeu a mãe, enquanto o palhaço subia na caixa.

De pé ali, ele limpou a garganta e, com uma voz inesperadamente limpa e forte de  tenor, começou a contar a seguinte “piada”:

— Dizem que quando o budismo chegou à China, ele encontrou o taoísmo, uma filosofia que celebrava a simplicidade, a natureza e o fluxo da vida, o Tao. Essa interação moldou o budismo Zen, que se afastou da visão tradicional de que a realidade era uma ilusão pura. Sob a influência do taoísmo, o Zen passou a enfatizar que a realidade que percebemos não é exatamente "irreal", mas moldada por conceitos. Nossa mente não vê o mundo diretamente; ela o interpreta por meio de lentes conceituais, como um prisma que distorce e organiza o que percebemos.

Essa ideia encontra raízes em um marco decisivo da história humana: a revolução cognitiva na pré-história. Foi nesse período que os primeiros humanos desenvolveram a capacidade de contar histórias e acreditar nelas. Essa habilidade nos permitiu criar mitos, religiões e ficções compartilhadas que deram sentido à nossa existência e possibilitaram a cooperação em larga escala. Ao contrário de outros animais, que vivem no mundo físico imediato, nós começamos a habitar mundos paralelos, mundos de ideias.

Richard Dawkins descreveu essas ideias como memes, que se propagam de mente em mente, moldando culturas inteiras. E, curiosamente, isso ecoa a visão do "mundo das ideias" de Platão, reinterpretada pelos gnósticos: eles acreditavam que nossa percepção do mundo era uma sombra distorcida de uma realidade superior. 

Essa capacidade humana de construir mundos conceituais é sustentada por processos cerebrais fascinantes. Estudos de neurociência mostram que nossa mente consciente é apenas a "ponta do iceberg". Alguns experimentos revelaram que, quando fazemos uma escolha, nosso cérebro já tomou essa decisão milissegundos antes, de maneira inconsciente. Nossa consciência é como uma narradora que atribui lógica a decisões que já foram tomadas no plano neural.

Um mecanismo parecido também explica por que mágica funciona. Ilusionistas exploram o fato de que nosso cérebro completa a realidade, preenchendo lacunas e criando uma versão consistente do mundo. Livros como Truques da Mente detalham como o cérebro, ao buscar padrões e fazer inferências rápidas, pode ser facilmente enganado. Em um nível mais amplo, o que chamamos de "realidade" nada mais é do que uma projeção mental, ajustada para nos ajudar a sobreviver e interagir com o ambiente.

E isso não ocorre apenas em truques de mágica. Em uma conversa casual entre amigos, por exemplo, nossa mente projeta regras implícitas: como interpretar tons de voz, gestos ou a posição social. Esses elementos invisíveis constroem um "mundo" compartilhado que nos guia durante o diálogo. É como se vivêssemos em múltiplos palcos mentais, onde as normas estão embutidas em nossas mentes, criando realidades que acreditamos ser concretas.

O mesmo acontece em nossa vida social mais ampla. Dinheiro é um excelente exemplo. Ele começou como um simples símbolo de troca, mas, ao longo do tempo, transformou-se em algo com "valor próprio". Hoje, a riqueza pode existir sem qualquer conexão com bens tangíveis ou produtividade, como no caso das criptomoedas. Isso demonstra como nossas construções conceituais podem extrapolar suas funções originais e ganhar vida própria.

Essa capacidade de criar mundos é poderosa, mas também perigosa. Quando pessoas acreditam em ideologias, religiões ou sistemas econômicos, elas podem agir de forma extrema. Isso ilustra o que Marx chamou de "superestrutura", mas ele não foi longe o suficiente. A verdadeira revolução não é apenas política ou econômica, é cognitiva. Devemos reconhecer que a base de tudo o que chamamos de "realidade" são os conceitos que construímos e compartilhamos.

No fundo, já vivemos em uma espécie de "Matrix". Não aquela das máquinas e cabos, mas uma Matrix conceitual, composta por narrativas, ideias e crenças que projetamos no mundo. Schopenhauer, ao estudar o budismo, percebeu algo semelhante: "O mundo é minha vontade e representação." Mas o salto de consciência vem ao perceber que, embora estejamos presos nessa Matrix, somos também seus criadores.

Saber disso pode ser libertador. Se entendermos que somos prisioneiros de ideias, podemos começar a reorientar os mundos que construímos. 

O primeiro passo? Olhar para os "óculos cognitivos" que usamos para interpretar o mundo. Enxergar além deles. Afinal, somos criadores de mundos. Resta decidir que tipo de mundo queremos construir.

 

Nesse momento o palhaço parou de falar, mas as pessoas esperavam que houvesse algo mais.  Por um momento, ficaram em silêncio, atordoadas, tentando entender o que haviam acabado de ouvir. Um homem gritou do fundo:

— Isso é pura asneira!

A multidão, como que despertada de um transe, começou a pegar pedras e objetos para atirar no palhaço. Mas ele já tinha sumido.

Nunca mais foi visto. Uns dizem que foi dar aulas numa universidade. Outros juram que se candidatou a um cargo político. Há quem diga que ele se internou em um hospício, enquanto alguns acreditam que ele morreu. Mas, para a maioria, o palhaço nunca existiu.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Prisioneiros

Prisioneiros

Tens diante dos teus olhos
A enciclopédia dos olhares infinitos
São olhos cativantes, ansiosos, deprimidos
Que te chamam a mergulhar
No espaço profundo entre máscaras e aparências
Da verdadeira essência de gente que pulsa
A dissonante harmonia da vida
Pois já esqueceste o que são humanos
Cercado como estás da superficialidade
Pessoas são máquinas, personagens
Simulacros de tantas tendências, ideias, modas
Entoando sua humana ausência
Mas se atentares para além da forma
Verás que mundos se abrem, mesmo que
Seus moradores estejam presos do lado de fora
E verás, através da janela da alma
Que mesmo tu és prisioneiro
Vivendo dois seres em dois instantes
És o que observa sem mesmo entender
E és a imagem de ti mesmo, sem tuas amarras
Que observa ansioso dos olhos de toda essa gente.

Isaías, numa manhã  em que o sol luta para superar uma atmosfera densa de sujeira.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Pensar demais nos deixa tristes

Pensar demais nos deixa tristes
Não é como quando corríamos pela savana
Atrás de comida ou evitando sermos predados
No passado simples, cada segundo tinha valor
E viver era o prêmio do dia, sem excedentes
Sem a busca frenética por um prêmio
Que não vem, não enche, não vale o que se diz
E à noite, na brisa fresca, nos deitávamos no campo
A olhar a imensidão do céu cheio de estrelas
Achando que nelas havia seres como nós
Fazendo fogueiras para aquecer a noite fria
Com os corpos sobre a relva, entrelaçados
No doce fruto do outro, no corpo
Esvaindo por um momento qualquer medo
Ou fugaz pensamento sobre a vida
Quando viver não exigia ser estoico
E ninguém pensava em terminar
O que já era curto e incerto
Pensar demais nos deixa tristes
Andamos à cata do abstrato tornado substância
Na nossa mente, nos nossos sonhos
Somos muitos sobre pouco, e nada para o amanhã
Sem estrelas a nos entreter, ou o encontro
À luz da fogueira, como os irmãos das estrelas
Na busca de todo sentido, perdemos
O único sentido que reina.

domingo, 9 de junho de 2024

A Pedrinha Branca

Eu era um garoto tímido
Empilhando pedrinhas no pátio da escola
Durante os anos que separavam
Sua alvorada do meu ocaso 
Quando você sentou ao meu lado
E colocou uma pedrinha branca na minha pilha de pedrinhas escuras
Eu disse "vai cair" e você "não vai"
E não caiu, você segurou minha mão
E me disse seu nome, mas eu não lembro do nome, nem do seu rosto
Eu só "vejo" sua voz
Impressa naquela mesma pedrinha branca sobre a pilha das minhas pedrinhas escuras
No último dia, antes das férias, sua mão apertou a minha mais forte que de costume
Os dias foram de espera, de pedras negras
Que eu empilhava no pátio da escola durante o recreio
Eu olhei o pátio ansioso e coloquei outra pedrinha escura no topo
Mas não houve pedrinha branca, nunca mais
E eu tentei com outra pedra, mas a pilha tremeu e caiu
E as pedras escuras ficaram espalhadas aos meus pés...para sempre.

A Estrela

Uma noite, na minha adolescência, eu subi à lage da minha casa
E deitei buscando as estrelas 
Havia uma, mais forte, ou mais forte era meu olhar, meu desejo
De encontrar certa luz que iluminasse 
Aquela incerteza escura do espaço 
Profundo que perturbava a atmosfera da minha alma
Que noite era aquela que me inundava? 
E fazia de mim um náufrago em busca da luz que de milhões de milhões de quilômetros eu vislumbrava? 
"Talvez já esteja morta", eu pensava
"Vai que nem mais existe". 
Um dia alguém me disse que nada realmente morre se é lembrado...
Mas que lembrança eu tinha? 
Só a esperança de uma lembrança
E o desejo perdido de um sonho
De algo que soava baixinho
No meu coração
Como uma pedrinha branca 
Ou as flores da primavera 
Depois do inverno
Mas era noite, e eu devo ter cochilado
Pois perdi a estrela, todas as estrelas 
Naquele céu noturno nublado...

A Canção

Por que eu deveria cantar
Se todas as notas se foram
Como as folhas no fim do outono? 
É noite, estou cansado, meus dedos
Esqueceram como dedilhar e minha voz
Minha voz anda perdida na minha garganta 
Fazendo dupla com as batidas do meu coração
Eu te disse, mas éramos jovens, e todo ritmo era uma canção
Uma só palavra, tão ingênua, tão bela, 
Tão doce que ainda a sinto nos meus lábios
Eu ainda a sinto nos meus lábios
O fel daquela mesma manhã terrível 
Mas os terrores não pertencem à noite? 
Não quando a noite, como o inverno, cobre de sombras toda uma estação
Você nem disse que podíamos sonhar 
E sonhamos, mas o sonho se perdeu num monte de memórias sujas 
Quando nossa melodia esqueceu seu ritmo
E se tornou o uivo de um vento ferido
Nos galhos despidos
Da nossa última canção...

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Os olhos que me veem além do espelho

Os olhos que me veem além do espelho
Já não são os olhos que via em mim mesmo
Quando eu pensava que tinha vinte anos
E isso foi ontem, imagino, ou anteontem
Já não lembro, o tempo é como o espelho
Diante de outro espelho, infinito
Mas plano e frio como a imagem
Dele mesmo filtrada pela ilusão
Dos meus olhos.
Eu sou aquele jovem vislumbrando um futuro
Que não poderia ter imaginado,
Mas que conceito de futuro eu tinha?
O de quem pensa apenas em alguns minutos
No máximo amanhã, se algo interessa
O jovem vive no presente, o adulto no futuro
E o velho nas trilhas carcomidas do passado
Mas do espelho filtro uma indagação:
Quem sou, o que olha para o espelho,
Quem olha do espelho ou o fantasma entre os dois?

sexta-feira, 1 de março de 2024

O Homem da Montanha


Havia um homem,
Magro, pálido e envelhecido
Vivia naquela montanha
Sozinho, fartava-se da vista
De ver outras pessoas
Como formigas em fila
Caminhando para o nada
Como ele uma vez estivera
Desistiu, agora observava
Mas logo perdeu-se daquilo
Na vastidão do horizonte
E na imensidão das estrelas
Viu, como as pessoas, seu
Ser apequenar-se e quase
Se não fosse pelo olhar
Fundir-se ao todo e ao nada
A montanha era um fragmento
De poeira perdida ao vento
E ele, onde estaria?
Quando estava no limiar
Do não mais voltar
Deteve-se e mirou uma vez
Mais a pequenez das pessoas
Em marcha para grandes realizações
Como segurar o vento ou
Contar as gotas d'água
E nesse momento perde-se
Ainda mais na sua confusão
De partilhar as duas substâncias
O homem não pode ser deus
A humanidade é ainda criança
Há um homem naquela montanha
As crianças o veem sentado num rochedo
Em meio às brumas de uma manhã fria
Os adultos dizem que é
Rocha de rochas, ilusão
E o dia caminha isento de sentido
Mas ele apenas observa

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Tuta

 

        Portinari. Meninos Brincando. 


Era 1986, eu tinha 11 anos e o meu mundo era muito pequeno e simples. Naquele tempo eu morava num município da região metropolitana de Curitiba. Simples, mas não tão simples quanto aquele outro lugar em que "muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo". Mas era tão mágico quanto Macondo. 

Anos 1980, não havia internet ou smartphone. Os carros eram carburados e os telefones públicos funcionavam com uma ficha de metal. Em casa, poucos tinham o aparelho, pois uma linha custava tanto quanto um carro usado e se você alugasse uma, o valor seria o do aluguel de uma pequena casa, medido, conforme o costume de um tempo em que a inflação batia nos 147%, em salários mínimos para evitar o transtorno dos juros compostos. O governo que calcule! 

Apesar das dificuldades, éramos muito pobres, foram alguns dos melhores tempos da minha vida! Eu estava entrando na adolescência, mas ainda trazia muito do moleque. A região parecia interior, tinha muito mato, muito bicho para caçar, frutas silvestres, pinhão e chácaras com pés de pera e parreirais desprotegidos. Ainda havia as cavas e rios, onde a gente nadava, pescava uns carazinhos, lambaris e traíras. Fome eu não passava. Nem as sanguessugas que grudavam na pele quando a gente cansava dos anzóis e resolvia "passar a rede", na verdade um pedaço de tela de náilon, uma saca de cebolas ou qualquer tecido que cumprisse a função. 

No campo da diversão, a gente lia os gibizinhos uns dos outros. Um dos pilantrinhas que andava vagabundeando com a gente era o Pablo. Ele morava com seu avô, que era dono de uma banca de jornais. Essa era nossa principal fonte de quadrinhos, que o Pablo usava como pagamento dos mais estranhos trabalhos. 

"Eu te empresto o Almanaque Disney, mas quero que você me traga uma pera".  Todo mundo corria para pegar uma pera. Você tem ideia do que significava um Almanaque Disney inteirinho naquele tempo em que só havia tv aberta, com sinal muito ruim e nossos aparelhos eram preto e branco? 

"Toma aqui sua pera". Ele examinava a fruta com uma das sobrancelhas levantadas e tascava: "Não era essa que eu queria, era aquela". E apontava a fruta no lugar mais alto e difícil de pegar. Com o tempo aquilo virou uma espécie de desafio divertido e a gente já esperava pela nova revistinha, não tanto por ela, mas pelo desafio. Menos o Nenê, meu melhor amigo e companheiro de rapinagens e pescaria. Ele era fascinado por um personagem de desenho animado que fazia muito sucesso naqueles tempos, o He-man. Mas quem não era? E o desenho nem era tão novo, mas novidade, naqueles tempos ( e lugar), durava uns bons cinco anos! 

Com o tempo, o Nenê ganhou o He-man como um apelido sobressalente. Na maior parte do tempo, era o Nenê, mas se a gente queria algo dele ou apenas zoar, dizia: " Ô, rímeim, você que é forte, pega essa fruta ali pra mim". "Rímeim, leva essa cartinha praquela menina que eu gosto". Quando o Nenê ouvia isso, ele levantava os braços magricelas e forçava os músculos. Ele achava que era parecido com o personagem e a gente concordava, quando era conveniente. Mas quem abusava mesmo dele era o Pablo, pois em janeiro daquele ano, 1986, a editora Abril lançou uma revista em quadrinhos do He-man com um estilo igual ao do desenho animado. A gente sabia da revista porque a editora Abril já a vinha prometendo nas páginas publicitárias dos seus gibis. O Nenê estava louco por aquela revista. E quando ela chegou, o Pablo logo inventou "os doze trabalhos do rímeim". Um dia conto melhor essas traquinagens, mas adianto que aquela revista custou caro ao Nenê. No fim, vencido pela persistência do amigo, o Pablo deu a revista para o Nenê. A gente fazia isso pelos empréstimos, mas ele deve ter se sentido mal por abusar tanto do amigo. Um dia conto melhor sobre "os doze trabalhos do rímeim", mas meu interesse aqui é dar uma cor aos tempos e introduzir essas pessoas fantásticas da minha infância. 

Para falar a verdade, eu não lembro o nome real do Nenê. Aliás, nem sei se soube algum dia. Todos o chamavam pelo apelido, inclusive sua família. Pois foram eles que o apelidaram, porque ele era o mais jovem dos seus irmãos. O Nenê, apesar do modo como se via, era indígena. Na época não pensava nisso, mas hoje isso é claro. No pai via-se algum indício de mestiçagem. Era um verdadeiro "caboclo". Um homem gentil, de fala suave. Lembro dele sentado numa cadeira em frente à sua casa, sempre fumando um cigarro "palheiro" e tomando chimarrão. Ele tinha alguma doença, eu não lembro qual era. A mãe era uma perfeita indígena de cabelos negros bem lisos, olhos puxados e pele bastante bronzeada. Eram indígenas , mas indígenas que perderam sua cultura ou assim me parecia. Eles tinham, se não me engano, três filhos. O Nenê, uma menina mais velha que ele e o nosso verdadeiro herói daqueles dias, o Tuta. 

O Tuta tinha 16 anos e parecia muito com a mãe. Para nós era um homem formado. Ele sim tinha era forte, vivia fazendo flexões e outros exercícios no quintal da sua casa. Treinava uma coisa que ele aprendia numas revistas que prometiam ensinar artes marciais e que podia ser caratê, chute boxe ou kung fu. E a gente treinava com ele seus chutes, socos e rasteiras. Mas o Tuta era cuidadoso e gentil como o pai. Só uma vez eu cheguei perto de me machucar, ele me deu uma rasteira e eu bati tão forte no chão que perdi o ar por alguns segundos. Ele tava tapinhas nas minhas costas, preocupado, e soprava minha nuca. Mas logo que me recuperei, começamos a rir. 

Um dia eu vi na TV alguém dizendo que antes dos exercícios a gente tinha que se alongar. Mas exatamente o que era "alongar"? Na nossa próxima seção de artes marciais genéricas, eu disse ao Tuta, com ar de entendido, que "um bom lutador tem que se alongar antes". Ele, que era tão inocente quanto a gente, perguntou como seria isso.

Eu nunca vou esquecer aquelas cenas cômicas. O Tuta deitava de costas e segurava num toco de árvore, então eu pegava uma perna, o Nenê a outra, e a gente puxava. Criamos umas tantas variações desses "alongamentos". Bom, o Tuta não se tornou o próximo Van Damme, então acho que havia algo de errado com a minha teoria...

Mas não era só isso. A gente sentava naquele gramadinho e ficava ouvindo as histórias de amor do Tuta, sempre ao som de alguma música romântica internacional. E vou te dizer, como eram boas as músicas e as histórias! 

Um dia, numa festa junina, vi o Tuta beijando uma menina de cabelos curtos. Vou te dizer, acho que pelas histórias que ouvi, aquela era a garota mais linda que eu já tinha visto na vida! Mas tanto eu como o Nenê, o Pablo e nossos outros amigos, estávamos mais interessados em aventuras, histórias em quadrinhos e frutas roubadas. 

O Tuta trabalhava, então nunca participava das nossas aventuras. Nossos encontros se davam nos fins de tarde e finais de semana. O que mais me encantava no Tuta é que ele nos respeitava e aos meus olhos ele era um adulto, embora fosse só um adolescente um pouco mais velho. 

Mas o Tuta era um sonhador, um romântico. Acho que aprendi um pouco disso com ele. 

Aquele foi um tempo mágico que não durou nem dois anos, mas para mim foi uma vida inteira. Passado um tempo, nos mudamos dali e eu nunca mais vi nenhum dos meus amigos, exceto o Tuta. Depois de adulto, eu até fui ao local, mas estava tudo tão diferente, cheio de casas, de ruas e de gente desconhecida.

Anos mais tarde eu encontrei o Tuta na rua. Ele estava varrendo o chão, mas eu o reconheci de imediato. Cheguei mais perto e o cumprimentei, ansioso por rememorar alguns daqueles episódios da infância, perguntar sobre o Nenê e ele mesmo. Agora a idade mais ou menos nos equilibrara. 

Ele levantou a cabeça, respondeu meu cumprimento e me chamou de senhor. Mas o corpo permanecia curvado. O seu rosto era o mesmo, mas com muitas rugas e nos olhos um desconsolo, um cansaço, uma desilusão que me atingiram na alma como a ferroada de abelha no pescoço. Onde estavam aqueles olhos brilhantes e sonhadores? Aquela confiança? O que fizeram com você, Tuta? Como domesticaram sua alma sonhadora?  Não era o mesmo rapaz que eu conhecera. Eu não tive coragem de perguntar nada, apenas desejei um bom dia de trabalho, que ele agradeceu, e fui andando para que ele não visse a lágrima que descia pelo meu rosto. 

Eu chorava pelo Tuta, pelo Nenê e por mim mesmo. Foi desolador ver nele a mesma imagem que eu via todo dia no espelho.




sábado, 2 de dezembro de 2023

Eu não lembro seu nome

 Eu não lembro seu nome

E eu pensei que era parte daquele mundo
A rua da minha casa era ladeada por moitas de hortências
O que me dava sempre a impressão de estar morto
Porque era assim o cemitério onde deixamos meu tio
Naquele dia eu também morri, era meu tio e éramos amigos
Mas na rua da minha casa, numa lápide de que já não lembro o número
Havia uma garota de quem não lembro o nome
Ela morava numa estranha casa com uma aparência de farol
De vez em quando a gente pegava o ônibus juntos
Ela sempre me cumprimentava com um sorriso
Várias vezes ensaiei sentar ao seu lado
Mas não sabia o que dizer, o que ela pensaria disso
Hoje sei, ela sorria, e eu nem mesmo lembro seu nome
Será que ela gostava do meu uniforme do exército e do meu corte de cabelo? 
Minha rua parecia a entrada de um cemitério
E lá havia uma lápide que não lembro o número nem que palavras de saudade ali deixaram
Aqueles que sabiam seu nome.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Bela, que me ensinas a certeza das coisas

Bela, que me ensinas a certeza das coisas
Torna ao jardim que primeiro me introduzistes
Para renovarmos as memórias distantes
Dos tempos em que as crianças corriam pela
Estrada, cobertas de lama e aos risos
De toda preocupação ausentes
Bela canção do abismo, que abismos sem fim
Invocastes, chama com tal voz minha alma perdida
E ensina-me ainda as lições sob aquelas sombras
Tão frescas, retira de mim esse imoderado
Ato de perplexidade, ando com homens, com vaidade
Com ausência em presença, mas sou deles eu mesmo
Um vaso que espera pelo perfume delicado
Que só tu me podes derramar, ausência te chamo
Conforme os sábios, sabedoria é teu nome, a Bela
Mas como eles, apesar de já ter aos teus pés
Descansado, não construí contigo tal intimidade
Ensina-me, para que no meu silêncio eu ouça tua voz
E nos hiatos da tua canção, eu aprenda a modular
O que sou com aquilo que és e o que faço
Com aquilo que prescreves, se tal o digo, é momento
Refirmo, tu és das musas a mais bela e das vozes
Que ecoam, a mais sonora, posto que no silêncio
e do silêncio, emerges.