Quem cultiva o exercício do pensamento, já deve ter se perguntado, até teorizado, se haveria uma saída para a humanidade.
Isso pode ter cores diferentes dependendo de como o problema é abordado e os pressupostos de quem aborda. Por exemplo, um pensamento cristão mais fundamental vai dizer que não há saída por seus próprios meios e que a esperança se fundamenta num ato externo e transcendente.
Outra perspectiva é aquela que entende que o mundo é gerido por relações de poder e não aspirações humanas universais. Basta pensar que hoje a humanidade teria os meios para tornar a vida humana muito melhor e reduzir drasticamente as injustiças do mundo. Mas isso simplesmente não acontece. E pensar em todas as desgraças ocorrendo agora nos levariam a nada mais que o desespero, bem resumido na frase de Kurt em O Coração das Trevas, de Joseph Conrad: O horror! O horror!
As duas nos levam a becos sem saída. E elas se complementam.
Mas como exercício, haveria outra possibilidade?
No fundo, nossos dramas se resumem aos mesmos de nossos ancestrais de milênios atrás: como administrar recursos limitados numa realidade de escassez. Sim, a economia é o ponto central desse problema. É da administração dos recursos que surge o poder, a política, a tecnologia, as ciências... Enfim, isso move o mundo. É por isso que propostas políticas têm como fundamento a administração de recursos.
Hoje esse é um tema absurdamente complexo. A humanidade é o que é porque desenvolveu formas de lidar com a economia que permitiram a complexidade moderna. Um governo é uma instância burocrática que administra recursos e regula a forma limitada como agentes fora do seu estamento burocrático podem explorar parte desses recursos.
Processos de riqueza e pobreza são basicamente o montante de recursos que se tem para administrar. Se pouco, trata-se apenas de sobrevivência, se muito, de investir e ganhar mais.
Como a humanidade caminha do natural para o conceitual, o recurso também evoluiu para algo não material. O dinheiro em todas as suas formas é a expressão desse recurso. Ele pode ser trocado por coisas, mas ele também é uma espécie de fluxo em looping que aumenta seu próprio montante na medida em que gera a ilusão de que mais números implicam em mais riquezas reais. Esse sistema "sólido" é muito frágil.
Para manter o sistema, é importante explorar as aspirações humanas por uma vida melhor, nesse caso, associando a vida melhor com consumo. Porém, apenas consumo de bens de uso extingue logo a fonte do desejo. Se você tem tudo o que acha que precisa, dificilmente vai ser convencido a se esforçar por mais. Então o consumo tem que ser direcionado para algo que você não precisa, que não satisfaz nenhuma necessidade real, mas que permita mais desejo na medida em que você satisfaz a posse imediata. Em outras palavras, esse bem perde valor afetivo logo depois de você se acostumar com ele.
Voltemos ao ponto inicial. O que é uma "saída para a humanidade"? Seria uma realidade em que a administração dos recursos implicasse na maior justiça para todos os seres humanos. O capitalismo propiciou uma vida melhor para boa parte da humanidade, mas criou certas distorções. Recursos limitados não podem ser administrados com referência ilimitada. Para isso funcionar, temos que encontrar fontes ilimitadas de recursos. O sistema apontado acima criou artificialmente essa fonte de recursos. Mas ela é frágil. Uma catástrofe no mundo real pode explodir a riqueza virtual em segundos.
Pense, por exemplo, em alguma ameaça que apague nossos bancos de dados eletrônicos, a queda da internet. Toda essa riqueza sumiria e teríamos que lidar apenas com o mundo material. Seria um regresso a 50 ou 60 anos atrás, mas com o agravante de que inúmeras operações que eram manuais na época seriam seriamente prejudicadas. A humanidade se levantaria, mas não sem a morte por inanição de milhões e uma longa fase de anarquia. O equilíbrio é muito frágil e provavelmente novas ordens se imporiam.
Então o centro do problema está em lidar com recursos de um modo racional, justo e menos dependente de estruturas virtuais. Se temos apenas o mundo material, a própria administração de recursos precisa ser mais razoável e as ferramentas de troca equivalentes ao montante de bens existente.
Veja, o "poder" se assenhoreia cada vez mais dos recursos reais enquanto cria a ilusão de riqueza para a maior parte da humanidade. E está bom enquanto temos comida na mesa, mas e se essa comida faltar, de que valerão os números?
Sistemas políticos totalitários exploram essa ansiedade natural. A população é mantida sob controle orientando o centro da vontade no sentido do consumo e da ideia de riqueza virtual ou inibi-se a vontade. Com a vontade controlada pela repressão, a expressão da vontade é a liberdade, a administração do recurso fica também livre para quem domina. Não sem oferecer algum tipo de satisfação virtual, que se expressa no culto do Estado, do Ditador, na aspiração ideológica, que funciona como a religião. Culto do Estado é sempre uma religião em que o trancendente é imanentizado nos símbolos e práticas estatais.
Dito isso, a gente percebe que toda saída é ainda um salto na ilusão. Ou a ilusão com alguma liberdade, ainda que virtualizada, ou a ilusão como elemento da própria falta de liberdade.
Sobra então o desespero? Provavelmente. Porque uma realidade diferente depende de um ser humano diferente, o que implica num salto da própria consciência humana para algo que não dependa da sublimação de aspirações que resistem na nossa psique para algo que identifique de forma clara nossas reais necessidades modernas. É difícil entender isso, mas somos seres da pre-historia vivendo numa sociedade tecnológica e tentando viver em grupos maiores mesmo tendo limitações de bando.
Uma consciência universal permitiria a administração universal dos recursos e uma expansão por necessidade existencial e não por desejo de domínio. Por isso as ideologias políticas são tão destrutivas para a humanidade, pois no fundo elas "agasalham" a natureza real do problema oferencendo soluções que dependem de algum tipo de "natureza superior" em outros seres tão falíveis quanto nós. Não será um líder quase divinizado ou uma comissão de aristocratas que salvarão a humanidade de si mesma. Não que avanços não sejam possíveis, mas que sempre haverá esse limite humano.
A pergunta real é se podemos ou não fazer algo no sentido desse salto de consciência? Infelizmente tudo mostra que o ser humano está "evoluindo", mas não para uma "consciência melhor". Não estou falando de "consciência" no sentido de estar consciente de algo, de aprender sobre certo e errado. "Consciência" aqui tem relação com o fenômeno que a ciência diz que ocorreu cerca de 50 mil anos atrás. Naquele tempo, o ser humano passou a acreditar em ficções. Isso foi o salto da consciência. E não estou falando de perda de identidade individual.
Aí sim os recursos seriam administrados com um objetivo que não fosse apenas a realização do poder pelo poder. O socialismo em todas as suas formas tentou criar esse novo homem artificialmente. De um certo modo paradoxal crendo que ele já existia, mas que as estruturas sociais o corrompiam. O ocidente liberal acreditou na mesma ilusão, mas considerou que era caso de dar-lhe liberdade e seu potencial surgiria. Este último pareceu colher mais êxito, porque o controle da liberdade exige vigilância permanente, é muito custoso, e a doutrinação só funciona enquanto alguém está olhando, ela cai rapidamente quando caem as estruturas de poder. Nesse sentido a religião política perde para a religião real, pois um poder trancendente não depende das estruturas materiais do Estado.
Eu chego ao fim dessa longa divagação sem uma solução real. Eu não tenho ideia de como fazer essa semente da consciência germinar. Pode ser que ela já exista, mas não em todos os seres humanos. Imagino que conhecimento, liberdade e senso crítico podem ajudar, mas não tenho certeza. O que posso dizer é que houve um salto nos últimos 800 anos, mas não tenho ideia do que ele nos trará no futuro ou se o mundo vai esperar que tenhamos consciência antes de nos apagar da sua superfície como resultado de tudo o que temos feito com ele.
E se essa mesma capacidade que nos "salvou" for nosso limite evolutivo?
Talvez a verdadeira “consciência superior” não seja um novo estágio evolutivo, mas a lucidez trágica: saber que não seremos salvos por sistemas, líderes ou ideias, e ainda assim agir com responsabilidade.
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